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quarta-feira, janeiro 26

 

Primeiro: Vanity Fair.

Passámos por diversas fases na justificação das nossas crenças. Religiosas ou não. De facto, se são diversos os modos que nos levam às crenças, são diversas as vicissitudes porque as crenças passam. No entanto, quando a crença se diz fé, a palavra apanha um sabor cristão. Crenças e fés, dizia Vasco Santana, há muitas. Mas não é esta multiplicidade que aqui nos traz. Mas antes algo que poderíamos designar como modelos de explicação. E isto porque - como é sabido – acatado ou não, é outro problema – a fé constitui um modelo de explicação.

Passei por diversas fases na justificação da fé. E a atenção às suas capacidades explicativas marcou uma delas. Numa dessas fases, justificava a fé no cristianismo, porque via na fé cristã algo com capacidade para explicar aquilo que somos e o que fazemos. Se ainda hoje essa marca se mantém, digo, desde já, que há algo mais para além desta capacidade explicativa que me leva a manter a fé. O que é dizer, que há algo mais do que a capacidade explicativa que me serve como suporte para a manutenção da fé. Mas não é esse mais que aqui me traz. É apenas a capacidade que a fé tem para servir como modelo de explicação, ou como modelo de compreensão, para quem quiser estiver disposto a perfilhar outros rigores filosóficos.

Se ainda hoje, julgo pertinente parte essencial da mensagem do marxismo, como de resto, julgo que a grande maioria julga, por exemplo, quando diz a importância das estruturas sociais na determinação da acção humana, ou se julgo pertinente Freud, no que por ele podemos determinar como essencial na construção da nossa personalidade, o embate permanente entre desejo e realidade, a verdade é que essas e outras teorias não responderam nunca a um simples facto que a realizadora do Vanity Fair me deu a conhecer na reportagem em que de dá conta do processo de realização do filme: a insatisfação perante a concretização do sonho ou do desejo mundano.

O que me parece em grande medida universal. Não só porque em tempos idos, fui mais ou menos assíduo leitor de biografias, e porque essas biografias foram como não podiam deixar de ser biografias de grandes homens. Homens que realizaram as suas ambições políticas, económicas, culturais. No entanto, para além dos louvores, e por entre as linhas dos louvores, nenhum dessas biografias me impediu de nelas ler um certo travo amargo...

Não somos sólidos, nem na vitória, nem na derrota, nos afazeres do mundo. E só há um verdadeiro betão armado: o da lição cristã: o amor, pois, então… Houve, sem dúvida, ao longo dos tempos, diversos modelos de betão. Fiquemos por um bem antigo: a honra, da idade homérica e da idade que morre pouco depois de Homero. Depois, por um mais recente: o que venceu o sexo vitoriano e que promete a satisfação pelo culto do desregramento.

Mas nada disto para mim é convincente. Com honra, ou sem ela, com o sexo escondido, ou com ele de fora, a solidez pessoal está longe de estar garantida. E isto porque a garantia, como frequentemente – bem – o enfatiza o Timóteo, advém do amor.

Contudo e entretanto, se a lição cristã do amor me pareceu simples e se pareceu dar conta da realidade, acabou também por dar conta de inúmeros problemas. Não é fácil a coisa do amor. E com isso concorda o cristianismo. De facto, se o cristianismo vive em torno do amor, Deus é amor, Jesus é amor, o Espírito Santo é amor, ensina simultaneamente uma mensagem que afirma a problematicidade do amor. Se o amor é central e dele tudo depende, também é verdade que não é fácil recebê-lo, não é fácil amar. Inúmeras são as metáforas, inúmeras são as parábolas, inúmeras são as pequenas histórias – por exemplo, protagonizadas pelos Apóstolos – que dão conta das dificuldades que vêm associadas ao amor. Assim, se a fé em Cristo é a fé no amor, não num amor pombinha, mas num amor problema, penso que se alguém aplicar este modelo à realidade ficará convencido de que ela assim se deixa explicar.

Fernando Macedo [
A BORDO]

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