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segunda-feira, janeiro 24

 

Mudança de paradigmas

NOTA: O texto seguinte é um excerto de documento publicado pela Comunidade Internacional Bahá’í, intitulado "Quem está a escrever o futuro?". Trata-se de uma reflexão sobre a evolução da humanidade ao longo do século XX à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Devido a extensão do documento, este será publicado gradualmente. Os subtítulos, as frases a bold, e entre parentesis recto, assim como algumas notas são a minha responsabilidade.

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A concepção do curso futuro da civilização estabelecida nos escritos de Bahá’u’lláh desafia muito daquilo que hoje se impõe ao nosso mundo como normativo e imutável. As descobertas realizadas durante o século da luz abriram a porta a uma nova espécie de mundo. Se a evolução social e intelectual está, de facto, a responder a uma inteligência moral inerente à existência, uma grande parte da teoria que determina as abordagens contemporâneas do poder de decisão está fatalmente fracassada. Se a consciência humana é essencialmente de natureza espiritual – como a vasta maioria das pessoas comuns sempre soube intuitivamente – as suas necessidades de desenvolvimento não podem ser compreendidas, nem servidas, através de uma interpretação da realidade que dogmaticamente insiste no contrário.

Nenhum aspecto da civilização contemporânea é mais directamente desafiado pela concepção de futuro de Bahá’u’lláh do que o culto prevalecente do individualismo, que se espalhou à maioria do mundo. Alimentado por forças culturais como a ideologia política, o elitismo académico e a economia de consumo, "a busca da felicidade" fez despertar um sentido agressivo e quase ilimitado de egocentrismo. As consequências morais foram corrosivas tanto para o indivíduo quanto para a sociedade – e devastadoras em termos de doença, dependência de drogas e outros males demasiado familiares deste fim de século. A tarefa de libertar a humanidade de um erro tão fundamental e tão difundido questionará alguns dos mais interiorizados pressupostos do séc. XX sobre o certo e o errado.

Quais são alguns desses pressupostos não averiguados? O mais óbvio é a convicção de que a unidade é um ideal distante, quase inatingível, a ser abordado só depois de uma variedade de conflitos políticos ter sido de algum modo resolvido, necessidades materiais de algum modo satisfeitas e injustiças de algum modo corrigidas. O que se verifica, declara Bahá’u’lláh, é o oposto. A principal doença que aflige a sociedade e gera os males que a tolhem, diz ele, é a desunião da raça humana, raça que se distingue pela sua capacidade de colaboração e cujo progresso até hoje dependeu da medida que a sua acção conjunta, em épocas e sociedades várias, conseguiu atingir. Agarrar-se à noção de que o conflito é um traço característico da natureza humana, em vez de um conjunto de hábitos e atitudes adquiridas, é impor a um novo século um erro que, mais do que qualquer outro factor, amputou tragicamente o passado da humanidade. "Vede o mundo", aconselhou Bahá’u’lláh a líderes mundiais eleitos, "como um corpo humano, o qual, embora inteiro e perfeito na altura da sua criação tem sido afligido, por causas várias, com graves males e doenças." [1]

Intimamente relacionado com a questão da unidade está um segundo desafio moral que o século passado colocou com uma urgência cada vez mais crescente. Aos olhos de Deus, insiste Bahá’u’lláh, a justiça é a "mais amada de todas as coisas."[2] Capacita o indivíduo a ver a realidade com os seus próprios olhos e não com os de outros, e dota o poder de decisão colectivo de uma autoridade que só por si pode assegurar unidade de pensamento e de acção. Por mais gratificante que seja o sistema de ordem internacional que emergiu de experiências piloto do séc. XX, a sua influência duradoura dependerá da aceitação do princípio moral nele implícito. Se o corpo da humanidade é, de facto, uno e indivisível, então a autoridade exercida pelas instituições governamentais representa, essencialmente, uma provedoria. Cada pessoa vem ao mundo como fiel depositário do todo, e é esta faceta da existência humana que constitui os reais fundamentos dos direitos sociais, económicos e culturais que a Carta das Nações Unidas, bem como documentos a ela ligados, articulam. A justiça e a unidade têm efeitos recíprocos. "O objectivo da justiça", escreveu Bahá’u’lláh, "é fazer aparecer entre os homens a unidade. O oceano da divina sabedoria surge dentro desta palavra exaltada, enquanto que os livros do mundo não podem conter a sua significação mais íntima."[3]

À medida que a sociedade se compromete – por muito hesitante e receosamente que o faça – com estes princípios e com princípios morais a eles ligados, o papel mais significativo que oferecerá ao indivíduo será o do serviço. Um dos paradoxos da vida humana é que o desenvolvimento do eu se concretiza, principalmente, através do compromisso com empreendimentos maiores, em que o eu – mesmo que apenas temporariamente – é esquecido. Numa época em que se abre às pessoas de todas as condições uma oportunidade de participar no moldar da própria ordem social, o ideal do serviço aos outros assume um sentido inteiramente novo. Enaltecer objectivos como a aquisição e a auto-afirmação enquanto propósito da vida é promover, essencialmente, o lado animal da natureza humana. Nem podem ainda as mensagens simplistas de salvação pessoal continuar a satisfazer as necessidades de gerações que constataram, com profunda certeza, que a verdadeira realização é tanto um assunto deste mundo como o é do próximo. "Cuidai zelosamente das necessidades da era em que viveis", é o conselho de Bahá'u'lláh "e concentrai as vossas deliberações nas suas exigências e requisitos."[4]

Estas perspectivas têm profundas implicações na condução dos assuntos humanos. É óbvio, por exemplo, que, quaisquer que tenham sido os seus contributos passados, quanto mais tempo o estado-nação persistir como a influência dominante na determinação do destino da humanidade, tanto mais atrasado será o alcance da paz mundial, e tanto maior será o sofrimento infligido à população da terra. Na vida económica da humanidade, apesar das grandes bênçãos trazidas pela globalização, torna--se claro que este processo também criou concentrações de poder autocrático sem paralelo, que devem ser colocadas sob o controlo democrático internacional, sob pena de produzirem pobreza e desespero para milhões de pessoas. Do mesmo modo, os avanços históricos na tecnologia de informação e comunicação, que representa um meio tão potente de promover o desenvolvimento social e o aprofundamento da noção das pessoas quanto à sua humanidade comum, podem, com igual força, fazer dispersar e desbaratar impulsos vitais para o serviço deste mesmo processo.

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Notas

[1] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá'u'lláh, CXX
[2] - Bahá'u'lláh, As Palavras Ocultas (nº 2, do Áraba)
[3] - Bahá'u'lláh, Epístolas de Bahá'u'lláh reveladas depois de Kitab-i-Aqdas[4] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá'u'lláh, CVI


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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