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quarta-feira, janeiro 12

 

A minha experiência de Taizé

Era minha intenção colocar aqui hoje a terceira parte do texto "Qual o modelo socio-económico ideal que, do meu ponto de vista, poderá decorrer de uma concepção cristã da vida?" que aqui se anda a arrastar de há uns tempos a esta parte (a segunda parte apareceu na semana passada e seria suposto a terceira aparecer esta semana). Mas, corria o risco de deixar passar Taizé de prazo.

Devo sublinhar, já no início deste post sobre a reunião Taizé que ocorreu há uns dias em Lisboa, que não tenho vocação para mártir. A minha resistência à dor é mínima, desisto facilmente, detesto o desconforto e fico facilmente agressivo em situações físicas penosas.

Por outro lado sempre desdenhei certas manifestações físicas de Fé, normalmente associadas ao cumprimento de promessas, que consistem, nomeadamente, em a pessoa andar muito tempo de joelhos (tão comum em Fátima, por exemplo).

Diversos blogues e jornais descreveram a extraordinária manifestação de Fé que foi o encontro de Taizé em Lisboa. O encontro de Lisboa foi para os milhares de participantes uma oportunidade para fazerem uma experiência diferente de Deus e da Igreja. Os 40 mil jovens que se reuniram nos pavilhões da Expo (nunca deixarei de chamar aquela zona "a Expo") levantam uma interrogação mais premente do que nunca. Já não é possível adiar indefinidamente a comunhão entre os cristãos.

O fundador de
Taizé, Irmão Rogier, antigo pastor calvinista, de 89 anos, não se desvia nunca da realidade que nos rodeia, mas não se esquece de procurar nela um sentido oculto, mais profundo. A proposta de Taizé foi de encontro aos temas da pobreza, da imigração, da fome, das prisões, falou-se de modelos de desenvolvimento e da construção da paz: "vida interior e solidariedade humana", como diz o “lema” da Comunidade.

Mas, este post não é para descrever Taizé mas a minha experiência. A minha experiência de Taizé resume-se a uma noite de oração num dos pavilhões da Expo há quase duas semanas atrás.

A oração dessa noite foi sublime. Raramente vivi em multidão tão intensos momentos de meditação e reflexão. Não gosto de multidões e, mesmo rezar é algo prefiro mais fazer só, comigo próprio, do que em comunidade. Mas nunca pensei que também a meditação e a reflexão pudessem ser tão profundas no meio de milhares de pessoas.

Acabado o momento de oração, começaram os meus problemas. Tendo ficado muito satisfeito com aquela vivência e desejando prolongá-la reparei que tal era possível pois as pessoas que assim o desejassem poderiam ir junto a uma cruz que se encontrava no chão e lá depor a testa na cruz como acção simbólica de, já não me recordo bem mas era algo como "depositar em Cristo as nossas preocupações e as preocupações dos nossos irmãos".

Eram muitas centenas, talvez mesmo milhares, as pessoas que desejaram esse particular modo de oração e suponho que a cruz não fosse muito grande. Por razões de segurança, as pessoas não podiam estar em pé pois existia o risco, dado o elevado número de pessoas comprimidas, de se dar um movimento que pusesse em causa a vida ou a integridade física de outras pessoas. Portanto as pessoas ajoelhavam-se (não havia espaço para estarem sentadas e por outro lado era uma atitude mais adequada àquele modo de oração). E, muito lentamente, as pessoas deslocavam-se de joelhos em direcção à cruz.

Ao fim de algum tempo de joelhos a deslocar-me lentamente na direcção da cruz, comecei a experimentar um desconforto acentuado associado a um certo grau de sofrimento. Continuei a rezar interiormente e a pensar que tinha que resistir até chegar à cruz. Bem fraca seria a minha Fé se, apenas por simples cansaço e desconforto, desistisse do caminho da cruz. Os minutos continuaram a passar, já se teria talvez passado mais de uma hora naquela lenta marcha de joelhos em direcção à cruz. As dores e o incómodo começavam a ser violentos e eu transpirava, cada vez mais abundantemente, apesar de não estar nenhum calor especial. Só pensava "não posso desistir, não posso desistir". Interrogava-me como era possível que aquilo demorasse aquele tempo todo e pensava que a velocidade e a capacidade de transmissão das preocupações para a cruz certamente permitiria que as pessoas chegassem lá e se limitassem a tocar a cruz com a testa durante um segundo. Pelo sim pelo não, meditava em todas as minhas preocupações, nas dos meus próximos e nas do mundo inteiro, de tal modo que quando chegasse a minha vez assim fizesse.

O sofrimento continuava mas lentamente aproximava-me da cruz. Só que enquanto a progressão na direcção da cruz era aritmética, a progressão do sofrimento era geométrica. O sofrimento era já, nesse momento, há cerca de duas horas arrastando-me penosa e lentamente de joelhos, insuportável. Decido a levantar-me e ver o que se passava pois já estava relativamente perto da cruz. Vejo algumas pessoas de joelhos debruçadas com a testa sobre a cruz durante alguns segundos ou minutos (que me pareceram horas) e pensei: "Porra, como é que esta merda não há-de durar este tempo todo. Estes filhos da puta chegam, espetam ali os cornos, e põem-se a descansar."

Compreendi aquilo que já deveria ter compreendido pelo menos há uma hora antes. Persignei-me, benzi-me e vim-me embora.

Gostaria de acabar aqui este relato. E deixar as conclusões para quem lê este post. Mas não desejo ser mal interpretado em matérias tão sensíveis. A ambiguidade é muito bela (sobretudo quando se vislumbra algo de nítido no meio do nevoeiro) mas tem limites. Deixo por isso apenas duas conclusões relativas tão somente à minha pessoa, e quem quiser ver mais no texto do que o que nele se encontra escrito, está à vontade.

A primeira conclusão é "cuidado com a arrogância intelectual e a soberba". Frequentemente ela é apenas o outro lado de uma moeda onde também se encontram a preguiça, o egoísmo e a incapacidade de sacrifício.

A segunda é que o sofrimento quer-se qb. Nem de menos nem de mais. Uma existência totalmente confortável deixa-nos sem forças. Físicas e espirituais. Mas o sofrimento excessivo abre as portas ao pecado. Pelo menos para aqueles seres que não se encontram preparados para ele.

Timóteo Shel (TIMSHEL)

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