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quarta-feira, janeiro 19

 

E se uma Igreja partida fosse coisa normal. E não "pecado"

Vamos a votos. Vamos, pois. E vamos também dizer que é possível votar da esquerda à direita.

Os meus companheiros da Terra já disseram de si várias vezes. Lembro o Timshel e o Carlos, no elogio de dois católicos ao PCP, ou o José sobre a cadeira do poder. Perdoem-me se não os "linko", obrigo ao exercício da busca nos arquivos da Terra, que pode ser fértil, pelas descobertas de meses de debates. Mais: o Zé Filipe trouxe aqui na segunda-feira um breve apontamento sobre o comunicado dos bispos, para as eleições que se avizinham. E eu próprio - em sucessivas viagens à Madeira (em 1991-1992, 1995-1996 e em 2004) reflecti sobre a cumplicidade com o poder. Em Março de 2002, quando das anteriores eleições, os bispos também reflectiram sobre a qualidade do voto dos cristãos. Recupero de então, com as devidas alterações, uma reportagem que realizei para o jornal onde trabalho, mas que julgo poder ajudar a reflectir sobre esse voto.

Os católicos andaram então de candeias às avessas. Os bispos deixaram claro que o seu voto pode ou deve ser entregue aos partidos do centro-direita. Mas há padres e leigos que não aceitaram as recomendações. E disseram que as opções políticas nada têm a ver com a fé. Da esquerda à direita, as cores políticas tinham – e têm – muitas igrejas em Portugal.
Apoiar o Bloco de Esquerda (BE) não incomodava então Francisco Fernandes Vilar, 62 anos, padre em Castelo Mendo e mandatário do movimento na Guarda. A sua «experiência» também não «incomodou» os seus colegas. E «os paroquianos admiram a abertura».
Isabel Allegro dizia que o seu apoio ao BE, «a título pessoal», «não [tinha] qualquer contradição com a fé cristã». A na altura mandatária do Bloco em Lisboa é membro do Graal. E dizia que lhe parecia «haver uma grande sintonia de muitas das propostas do BE com a mensagem evangélica, sobretudo na ideia da responsabilidade de todos por um "destino universal dos bens" e por uma justiça social efectiva».
Por outro lado, a Associação Cristã de Empresários e Gestores (Acege) deixava algumas «questões fundamentais para o próximo governo de Portugal», que devia respeitar cinco «princípios». Bruno Bobone, porta-voz da associação à época, defendia: «Não há direcção de voto». Mas deixava o aviso nas entrelinhas: o voto devia ser para «os partidos que cumpram estes valores» [enunciados naquele texto].
A Acege propunha «evitar efeitos perversos contra o fomento do Trabalho e contra o estímulo para a inovação e melhoramento das empresas». Bobone recusava que se estivesse a falar apenas do rendimento mínimo garantido (RMG), uma das medidas emblemáticas do PS: «Não se [tratava] de discutir o RMG isoladamente, [tratava-se] de uma tendência para patrocinar programas que [estimulavam] a preguiça e a indolência».
Empresários e gestores como Artur Santos Silva, Ludgero Marques, Magalhães Crespo, Jorge Jardim Gonçalves, Nogueira de Brito, José Roquete, Teixeira Duarte ou Ricardo Salgado, queriam defender «intransigentemente os direitos humanos fundamentais, a Vida Humana desde a concepção até à morte natural». Falávamos de aborto? «Claramente, matar está errado», rematava Bobone. E o recado sobre o sentido de voto estava dado.
«Sobre o próximo acto eleitoral» pronunciaram-se então os bispos portugueses. Numa «Nota pastoral do Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa», como aquela que na segunda-feira aqui se apresentou, os prelados dirigiam-se aos «fiéis católicos», para lembrar que a «criteriosa intervenção na vida pública» devia ser regida pelos «princípios inspiradores do Evangelho e da doutrina da Igreja». Não podíamos estar mais de acordo.
Os bispos recusavam «imiscuir» a sua opinião nas «justas opções partidárias», mas pretendiam «contribuir para um justo discernimento dos cristãos». O ensino religioso nas escolas públicas ou o aborto eram alguns alvos das palavras episcopais: «O respeito pelo carácter sagrado da vida humana, de toda a vida humana, desde a concepção até à morte natural», lia-se.
O aborto era – e é – uma nota dissonante entre crentes. «Ninguém pode ser a favor do aborto, mesmo aqueles que não são cristãos», dizia Isabel Allegro, que defendia o seu apoio ao BE por outras "causas": «O aborto não [era] o ponto primeiro do programa». Antes estava a defesa de «uma maior igualdade de oportunidades», de «uma maior justiça fiscal e de distribuição dos bens» – e o «BE é o partido que [trazia] isso mais claramente à superfície».
Mas o aborto estava lá – e parece voltar. Isabel Allegro não evitava confrontar o discurso oficial da Igreja: «Não é a questão do aborto em si que está em causa. Trata-se é da despenalização das mulheres que um dia, por razões que desconhecemos, fizeram aborto. O problema surge quando somos confrontados com a circunstância de milhares de mulheres em Portugal o fazerem clandestinamente e não poderem ser tratadas nos hospitais. Aí é que se põe o problema». «É que ninguém tem o direito de julgar essa atitude íntima dessas mulheres. É um erro humano, e até cristão», sublinhava.
Hoje, como em 2002, continuo a achar que o caminho não se faz a preto e branco – e que há muitos cinzentos. Prometo continuar esta reflexão.

Arquivo - leia mais alguns textos divulgados na Ecclesia, em 2002, a propósito das eleições.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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