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quarta-feira, janeiro 19

 

E Deus nisso tudo?

Nota: estava eu a terminar a 2ªparte da minha apologia da redenção, a propósito daquela “amazing grace”, começava já a tentar catar do texto os tiques de pretensiosismo intelectual que são meu apanágio, quando passo os olhos por um extraordinário texto de Leonardo Boff sobre o tsunami, texto que me foi enviado pela Conceição, velha amiga e leitora e a quem agradeço. Andava aliás, há tempos, para escrever algo do que pensava sobre este assunto que desafia a nossa humanidade e a nossa fé. Mas após lêr o texto abaixo, percebi logo que já não era mais preciso. Não pensem no entanto que se safam da estopada da redenção e da graça: sai já para a semana! Mas sejamos sérios porque o assunto é sério. Eis pois o texto de Boff:

‘Face à convulsão elementar da natureza no sudeste asiático com milhões de vítimas, especialmente de inocentes, não são poucos que, angustiados, se perguntam: E Deus nisso tudo? Ele não é bom e omnipotente como anunciam as religiões? Se é omnipotente pode tudo. Se pode tudo porque não evitou o maremoto? Se não o evitou, é sinal de que ou não é omnipotente ou não é bom. Como disse um poeta-cantador: se é para desfazer, porque fêz?
Desde que o ser humano discerniu a presença de Deus no universo e em sua vida esta contradição representa uma chaga aberta. Os teólogos cristãos inventaram a téodiceia, vale dizer, a argumentação que procura isentar Deus das desgraças do mundo e ainda esclarecer o sofrimento. E fracassaram rotundamente, porque esclarecer o sofrimento não acaba com ele, assim como ler receitas culinárias não faz matar a fome. Daí entendemos a contundência de Job, o eterno protestante, contra todos os seus "amigos" ( e aí incluo a mim como teólogo e todas as religiões) que lhe queriam explicar o sentido da dor: "Vós não sois senão charlatões e médicos de mentiras. Se ao menos vos calásseis, as pessoas tomar-vos-iam por sábios". E continuamos a não nos calar...
Face a esta situação dilaceradora podemos alimentar, penso eu , três atitudes: de revolta, de resignação e de esperança contra todo o absurdo.
A revolta se expressa por uma negação. Muitos dizem: Deus não existe. E se existir, é inaceitável, pois teríamos mais perguntas a fazer a Ele do que Ele a nós. Eu me recuso eternamente a aceitar uma criação de Deus na qual as crianças tenham de sofrer inocentemente. Este questionamento é compreensível e lógico. Mas ele não elimina o mal, pois este continua. Críticos, perguntamos: a razão é tudo? Deus pode ser aquilo que não podemos entender.
Se a revolta não responde, talvez a resignação? Esta realisticamente constata: a realidade é feita de bem e de mal. É ilusório buscar a superação do mal, pois bem e mal vêm sempre juntos como a luz e a sombra. Sabedoria é buscar o equilíbrio e aprender a viver sem uma esperança final. Freud e os sábios do Primeiro Testamento aconselham: "aceita o princípio de realidade, modere o princípio do desejo; acolha o que te acontecer, mostre grandeza na dor". Esta atitude é nobre, modifica a pessoa mas não muda a realidade brutal.
A terceira atitude é a da esperança apesar de tudo. Parte reconhecendo claramente: o mal é um mistério indecifrável. Ele está aí não para ser comprendido mas para ser combatido. Por isso não é uma teoria que lhe dá sentido, mas sim uma prática. É desta que nasce a esperança de que em tudo deve haver um sentido secreto para além do escândalo da razão. Ele se manifesta, por exemplo, no milagre de uma criança que se salva sobre um colchão que flutua nas águas revoltas ou na solidariedade do mundo todo para com as vítimas. A solidariedade não elimina a dor, cria a irmandade dos sofrentes que impede a solidão e o desespero. Os cristãos e os budistas dizem: “Deus não ficou indiferente ao sofrimento. Ele sofre connosco”. Andando no exílio da encarnação, Ele gritou:"Meu Deus, porque me abandonaste?" A paixão de Deus na paixão do mundo faz-nos crer que a esperança tem mais futuro do que a brutalidade dos factos. Deus prometeu que "não haverá mais pranto, nem luto nem morte porque tudo isso passou". No entanto, o mistério continua e como dói esse mistério!’
(Leonardo Boff)

José [GUIA DOS PERPLEXOS]



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