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segunda-feira, janeiro 10

 

Deus e o tsunami

Em tempos de catástrofe como os que vivemos, a pergunta pelo seu sentido é inevitável. Não tanto com o jeito provocador ou intelectualmente desonesto com que foi colocada por alguns ateus da blogosfera, mas sobretudo como interpelação. Como é possível a catástrofe se Deus é bondade? Que omnipotência é a deste Deus que assiste à morte de inocentes? São questões que sempre foram colocadas ao longo das gerações. Quando soube pela primeira vez da tragédia, lembrei-me da "Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya" de Jorge de Sena:

(…) Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhe foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".

A sensibilidade faz com que a própria fé vacile: como é possível tanta destruição? Também eu, quando olho este horror "hesito por momentos". Neste caso nem se coloca a questão de saber se "serão ou não em vão" – numa catástrofe natural todo o sofrimento é vão. Daí que a questão do sentido seja ainda mais difícil de responder. Encontramos sentido no sofrimento que é escolhido por compaixão; encontramos sentido no sofrimento que custa a luta por causas. Não encontramos sentido no sofrimento involuntário de inocentes. O mistério prevalece. Mas falemos dele.
A História tem um sentido? Os crentes acreditam que sim. Acreditam que "tanta dor, tanta angústia, um dia / não hão-de ser em vão". E acreditam que esse sentido não é ditado pelos capricho de nenhuma divindade, mas que é construído pelas pessoas. O Deus dos cristãos não é o relojoeiro universal ou o artista de marionetas. É um Deus que dá toda a liberdade às suas criaturas, inclusive a liberdade de fazer o mal. Se isto vale para as pessoas, para a natureza aplica-se o mesmo princípio: Deus não intervém directamente. Se fossemos panteístas acreditaríamos que a natureza é Deus e portanto era Ele (ou Ela) mesmo responsável pelo maremoto que aconteceu no Sudeste Asiático. Para os cristãos a Criação não se confunde com o Criador.
O quer dizer então a afirmação da omnipotência de Deus? Ou a célebre expressão de que Deus é "O Senhor da História"? Há tempos, andávamos nós a discutir a omnipotência de Deus e publiquei um excerto roubado ao João Bérnard da Costa:
«Os acontecimentos são-nos incompreensíveis porque queremos julgá-los imediatamente, antes de lhes conhecermos todos os prolongamentos e consequências. Mas para Deus não há o "imediatamente" (...). Há o tempo todo, todo o passado, todo o presente, todo o futuro. E é isso que é terrível. "O mais terrível do mundo".»
O
Timóteo respondeu-me a dizer que não acreditava em nenhum "Deus de longo prazo" e explicou mais tarde que não acredita na omnipotência de Deus. Ou pelo menos que não acredita nela como é normalmente entendida. A minha única divergência é a seguinte: para Deus não há prazo. "Há o tempo todo, todo o passado, todo o presente, todo o futuro". Eu acredito que nesse tempo todo há um horizonte de esperança que começa no nosso mundo. Esse horizonte de esperança não se impõe como uma tirania da felicidade. Não impede o sofrimento, nem mesmo aquele sofrimento para o qual não encontramos sentido. E isso é verdadeiramente terrível, como a catástrofe no Índico nos mostra. Porém, é simultaneamente o que funda a nossa autonomia – a resposta de Deus ao sofrimento humano não é manietar a liberdade ou violar as leis físicas.
Talvez a acção de Jesus nos possa ajudar a compreender um pouco melhor:
«[Em] Jesus Cristo (…) a luta contra o sistema social não é feita com todos os exércitos celestes, pondo tudo na ordem a partir de cima. Jesus age como um ser humano, por sinal filho de um carpinteiro de Nazaré, um dos pobres do tempo. Não fazia parte dos senhores religiosos nem dos senhores da economia. Só poderia ter agido como ser humano marginal. Como é que um marginal pode lutar contra a situação? Gritando, como Jesus fez, e juntando-se às vítimas. O que resulta daí? Aquele que grita com as vítimas e que se faz vítima com elas, é vitimado até ao extremo. A conclusão, na cruz é a conclusão dessa opção pelos marginais, por parte do próprio Jesus Cristo. Ora Jesus Cristo, o filho de Deus, é o próprio Deus, o que significa que esta opção pelos marginais é uma opção do próprio Deus. É Deus que, na linha do Antigo Testamento, se faz pobre com o pobre, até ao ponto de ser sofredor com os sofredores, até ao ponto de sofrer o máximo do sofrimento. Por isso se diz que Ele assumiu as consequências da injustiça humana. Note-se que a solidariedade para com as vítimas não significa que agora sejamos todos vítimas: até Deus é vítima, mas tudo continua na mesma. Esta opção por se fazer vítima com as vítimas é altamente denunciadora da situação, orienta-se no sentido de a superar. É aqui que se manifesta o máximo do amor de Deus e da opção pelos pobres no Novo Testamento: um Deus que se permite ser vitimado pelas suas próprias criaturas.» (João Duque)
O desfecho deste Deus que se deixou vitimar é sobejamente conhecido. Mas vale a pena lembrá-lo, nas palavras de Bento Domingues: «Jesus nada tinha a ver com a morte, com a separação entre os seres humanos. Deus ressuscitou-O. É a vingança de Deus. Ele não perde memória das vítimas de desumanidade.» A Sua resposta ao sofrimento e à injustiça foi mostrar-nos que eles não terão a última palavra, dinamizando-nos para vivermos mais de acordo com o projecto de Amor.
Onde fica então a omnipotência da intervenção divina? Fica nos gestos de todos os que são solidários e são capazes de compaixão. A acção de Deus ou do Bem na história é a nossa acção iluminada pelo Seu projecto de salvação: «Temos toda a responsabilidade uns pelos outros, e como tal não devemos ter um minuto de descanso! Simultaneamente devemos admitir que, fazendo o máximo, não somos nós que fazemos. Deus não intervém directamente na realidade. A Sua intervenção na realidade é a nossa intervenção, na consciência de que a transformação não é obra do ser humano. Quando nos reconhecemos inúteis no que fazemos, nunca nos consideraremos de senhores da nossa acção, senhores do mundo.» (João Duque)
Recentemente o Timóteo publicou uma frase de João César das Neves que resume bem esta ideia e me parece ser a forma correcta de encarar a intervenção divina: "Sem a fé do homem, o Deus omnipotente fica inoperante." Acredito que neste momento Deus sofre com todos os que choram na Indonésia, em Sumatra, no Sri Lanka, na Tailândia, na Índia, nas Maldivas, na Malásia, na Birmânia, no Bangladesh, na Somália, na Tanzânia e no Quénia. Sofre na Sua omnimpotência. A resposta do crente não é "insondáveis são os caminhos de Deus", como se Ele tivesse toda a responsabilidade pela História. A responsabilidade última pela nossa História é de cada um de nós. E para dizer isso mesmo, acabo com a continuação do poema com que comecei:

(…)
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram
.

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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