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quarta-feira, janeiro 5

 

Amazing Grace (1ª parte)

Já aqui disse em tempos que gosto muito de uma boa história de redenção. Por qualquer razão, a cultura anglo-saxónica e protestante é muito mais fértil neste tipo de narrativas do que a cultura latina e católica. Basta compararmos o cinema americano com o francês ou italiano para ver que assim é. Aliás, não será o happy end uma representação óbvia do conceito de redenção?
Mas não estou aqui para falar de filmes. As literaturas inglesas e americanas contêm um número impressionante de redenções espectaculares, comoventes, improváveis, individuais, colectivas. A própria História destes dois países celebra uma imensidade de famosos casos de redenção, contrapondo-se a apenas algumas irremíveis perdições. Nos verdes prados do Lancashire e mais ainda nos campos de milho do Oklahoma ecoa difusamente o forte brado “I was blind but now I can see!” Tal como ecoa um hino espantoso e tão paradigmático: precisamente o Amazing Grace dum tal John Newton (1725-1807).
Ora, este homem é um caso tão típico de redenção em vida! Começou por ser marinheiro e tornou-se num negreiro, num celerado que transportava escravos a granel de África para as plantações da América do Norte. Até um dia em que teve o seu momento de epifania, em que se lhe revelou a desumanidade monstruosa da sua vida e se lhe revelou o Senhor! Tornou-se num fervoroso cristão anglicano, num pregador inflamado e, já em Inglaterra, foi um dos maiores activistas contra a escravatura e o seu nojento tráfico. A sua enorme convicção, a sua espantosa eloquência e o horroroso testemunho que dava da sua vida passada permitiram-lhe o sucesso de, ainda em vida, assistir à abolição em Inglaterra da escravatura e do seu comércio. A este homem espantoso, a Fé subitamente inspirada permitiu-lhe renegar a ganância e crueldade que lhe tolhiam a sua humanidade e, mais ainda, deu-lhe forças para atacar um dos maiores males morais que minavam a consciência de toda a Cristandade.
O seu legado teve múltiplas consequências e perdura até hoje. É um exemplo forte e edificante da redenção que Cristo oferece ao mais desumano dos homens. E para terminar esta narrativa, não posso deixar de vos contar que este homem acabou sendo um homem de Igreja, um pregador ilustre. E, auxiliando-se da sua tremenda experiência de vida, compôs um hino extraordinário, que veio até hoje a ser usado imoderadamente por todas as Igrejas protestantes. É um hino, o tal Amazing Grace, que ilustra poderosamente a forma como o Protestantismo vê esse núcleo central da promessa de Cristo: a possibilidade de redenção!

Vou transcrevê-lo, se mo permitem:

Amazing grace! (how sweet the sound)
That sav'd a wretch like me!
I once was lost, but now am found,
Was blind, but now I see.

'Twas grace that taught my heart to fear,
And grace my fears reliev'd;
How precious did that grace appear,
The hour I first believ'd!

Thro' many dangers, toils and snares,
I have already come;
'Tis grace has brought me safe thus far,
And grace will lead me home.

The Lord has promis'd good to me,
His word my hope secures;
He will my shield and portion be,
As long as life endures.

Yes, when this flesh and heart shall fail,
And mortal life shall cease;
I shall possess, within the veil,
A life of joy and peace.

The earth shall soon dissolve like snow,
The sun forbear to shine;
But God, who call'd me here below,
Will be forever mine.

When we've been there ten thousand years,
Bright shining as the sun,
We've no less days to sing God's praise
Than when we'd first begun.

Permitam-me agora a uma tradução livre:

Oh! que espantosa graça (e doce som)
que salvou este náufrago que eu sou!
Estando eu perdido me encontrou,
estando eu cego se me revelou.

Foi uma graça que me tornou temente,
mas uma graça com que meus medos aliviei;
Tão preciosa se me revela esta graça,
desde que finalmente eu acreditei!

Através de perigos, tormentos e abismos,
finalmente consegui chegar;
Foi essa graça que me trouxe a salvo,
e será ela que a casa me irá guiar.

O Senhor prometeu-me o meu bem,
na Sua Palavra guardo a minha esperança;
Ele será o meu escudo e me dará o pão,
enquanto a vida não cansa.

Sim, quando a carne e o coração falharem
e a vida mortal passar para além do véu;
possuirei então a alegria e a paz
na vida eterna, no Céu.

A Terra bem cedo se desvanescerá,
o Sol perderá o seu brilho antigo;
Mas Deus, que aqui me chamou,
estará para sempre comigo

E quando Lá estivermos dez mil anos,
brilhando como o Sol no firmamento,
não teremos menos dias para Deus louvarmos
do que desde o primeiro momento.

Acontece que, ao traduzir isto, não pude evitar uma outra versão, mais conforme a minha sensibilidade católica, apesar da espessa camada de cultura americana que me cobre a mente. Ora leiam lá, se faz favor:

Oh! misteriosa graça, doce dom,
salva este náufrago que eu sou!
Estou perdido, não vejo, não ouço som;
Apenas espero a mão de quem nos amou.

É uma graça que eu temo mas Te peço,
Tão preciosa ela me aparece!
Quero tê-la mas não a mereço,
Será que apenas crendo ela acontece?

Passei perigos, tormentos e abismos,
E outros ainda me surgem para passar;
Sei que sem a graça não conseguirei,
Sei que sem ela não me irei salvar.

A minha fé sabe que o Pai me prometeu o bem,
e o Verbo é fonte da minha esperança.
Mas será que o outro, o que me pede o pão,
será que a ele o meu amor alcança?

Espero o fim da minha carne mortal,
e espero ver-Te, para além do véu,
estar junto de Ti e em Ti, ó sem igual;
será esse sim o verdadeiro Céu.

Pois a Terra cedo ou tarde fenecerá,
e desaparecerá este mundo ambíguo;
E Tu que aqui nos criaste e puseste,
Chamar-nos-ás a todos para contigo?

Mas, há-de cumprir-se a Aliança,
e para sempre Te louvaremos,
quando a Ti nos reunirmos finalmente;
pois hoje, já e aqui o fazemos.

Lanço agora um desafio aos leitores excelentes que resistiram até aqui: nada mais nada menos do que o sempre clássico onde estão as diferenças?
É que se o fizerem estarão já a avançar rumo à próxima parte deste artigo onde tentarei explicar o meu particular conceito cristão e católico de redenção, num mundo que parece tão afastado dela.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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