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segunda-feira, janeiro 3

 

Ainda a respeito do “Diário Ateísta”

O Ateísmo é uma “não-crença”, uma vez que se constitui como a negação da crença na existência de qualquer forma de divindade ou vida extra-terrena. Por outro lado - e na minha modesta opinião -, ao negar qualquer forma de existência sobrenatural, o Ateísmo constitui-se ele próprio como uma crença filosófica cuja “doutrina”, a bem dizer, se caracteriza pela certeza de que tudo se resume a este mundo palpável e material em que vivemos. Ou seja, ao mesmo tempo que nega a Divindade e qualquer forma de existência espiritual, o Ateísmo formula também a seu própria forma de ver o mundo e de ajudar a explicar o grande mistério da Vida.
Ao contrário do Agnosticismo, que prefere não se pronunciar sobre um assunto que considera transcender a condição humana, o Ateísmo tem certezas absolutas. Ou seja, o Ateísmo acaba assim por ter também as “suas” certezas, tal como o Cristianismo e as outras religiões têm as suas. Com a diferença de que, obviamente, todos os crentes têm as suas dúvidas e inquietações. O próprio Jesus teve dúvidas...

Os Ateus podem demonstrar que não existem provas da existência de Deus, mas não conseguem comprovar, com certezas infalíveis, que Deus não exista e que um dia não venham a ser reveladas provas da sua existência. Ou seja, os Ateus não têm forma de provar a não existência de um Deus Criador, do mesmo medo que os Crentes não têm maneira de demonstrar racional e cientificamente a existência desse mesmo Deus. Deste modo, o Ateísmo acaba por se basear numa espécie de “dogma” e numa paradoxal “fé irracional” na Razão... Ora se a Razão nos afastar da Verdade, ou se não nos permitir atingi-la, devido à imperfeição dos seus instrumentos e às limitações inerentes à nossa condição de meros mortais, para que servirá afinal no contexto do sagrado?

Vem isto a propósito do blog Diário Ateísta, anteriormente chamado “Diário de uns Ateus”. Blog esse que, infelizmente e não obstante incluir entre os seus autores algumas pessoas “moderadas” e bem educadas, desde cedo me chamou a atenção pelo tom arrogante, “militante” e não raras vezes ofensivo dos textos nele publicados. O Diário Ateísta é aquilo a que chamo um “blog anti”, na medida em que ridicularizar e dizer mal de alguma coisa – neste caso específico, da religião, dos seus ministros e dos seus fiéis -, parece constituir a sua única razão de ser.
Recentemente, ao folhear um jornal diário, deparei-me com uma notícia sobre a criação de uma “Associação Ateísta” em Portugal. Em declarações ao mesmo jornal, um dirigente da dita associação, um senhor chamado Carlos Esperança (desconheço se será o mesmo que escreve no “Diário Ateísta”), referia que ele e os seus associados são “a favor da liberdade religiosa”. Mais adiante, porém, o mesmo dirigente esclarecia que a “a religião é uma violência”... ora isto fez-me pensar; se a “religião é uma violência”, não será uma coisa má e socialmente nefasta? E se é uma coisa má, não deveria essa “Associação Ateísta” lutar contra a liberdade religiosa? Em que ficamos, afinal, meus senhores? São assumidamente contra a religião, negando-lhe qualquer papel positivo, ou estão dispostos a conviver sadiamente com os diferentes credos religiosos?
Devo referir ainda que o sr. Carlos Esperança afirmou ao mesmo orgão de comunicação social que a associação que integra surge com o propósito de defender os interesses dos ateus portugueses e de difundir as suas ideias. Ou seja, acham normal e desejável que a Associação Ateísta procure influenciar os poderes públicos e difunda livremente a sua mensagem, mas indignam-se ao extremo perante o mais leve indício de cooperação institucional entre o Estado e as diferentes confissões religiosas, e vociferam ferozmente contra a missionação que estas procuram pôr em prática.
Podemos ainda perguntar a esses senhores se são contra a religião simplesmente porque não acreditam na existência de qualquer Divindade, ou se são contra a religião por esta ser, no seu entender, uma “violência”. Provavelmente por ambas as razões, responder-nos-ão eles, embora me pareça que a segundo factor seja o que mais pesa na sua opção; mas se eles entendem que as religiões são violentas – calculo que por estas terem determinados códigos de valores morais e de princípios éticos que modelam e orientam a vida social dos crentes -, então que dizer do poder político e da própria vida em sociedade? Fazendo uso de um raciocínio “hobbesiano”, parece-me que o Homem abdicou da sua liberdade pessoal absoluta desde que abandonou o “estado de natureza”, em troca da segurança e do conforto que apenas a vida em sociedade lhe poderia dar. Se vivemos em sociedade, a nossa liberdade nunca é absoluta; e se vivemos numa comunidade de crentes, fazêmo-lo porque partilhamos dos valores e princípios que esta defende e promove. O que não significa, todavia, que as comunidades de crentes não sejam pluralistas e heterogéneas. Além disso, ninguém é obrigado a seguir uma determinada religião. Logo, ninguém precisa de ser “salvo” das garras do “obscurantismo” pelos iluminados detentores do conhecimento absoluto...

Parece-me que os dirigentes da “Associação Ateísta”, assim como os autores do Diário Ateísta, não reconhecem que a maioria das religiões têm um papel positivo a desempenhar. Claro que existem também factores negativos, como o fanatismo que encontra terreno fértil em determinados meios sociais e culturais; mas não existe também fanatismo na política e no desporto, por exemplo? Quererá isso dizer que se deveria fechar o Parlamento e acabar com os clubes de futebol?
A religião e as crenças filosóficas têm sempre um papel positivo – por mais pequeno que seja -, até porque fazem parte da própria condição humana. O Homem precisa de acreditar em algo, seja em Deus, seja no Pai Natal, seja na sua equipa de futebol, seja nos ídolos do cinema e da música, seja na não existência de Deus... Não consigo descortinar, sinceramente, que mal virá ao mundo pelo facto de as pessoas serem mais felizes por acreditarem em algo, ou por encontrarem consolo e conforto numa determinada crença (ou não crença).
Além disso, temos necessidade de procurar compreender o mistério da existência e de nos “agarrarmos” à explicação que melhor nos convenha. Isto é normal e, se consumido nas doses certas, permitir-nos-á construir um mundo mais feliz e solidário. Creio que foi o antigo Bispo do Porto, o insigne D. António Ferreira Gomes que, com toda a razão, disse que “a Religião é como o sal: não se deve usar nem de mais, nem de menos!

Quando existe moderação, humildade e compreensão pelo Próximo, torna-se possível construir “pontes” entre as diferentes formas de ver o mundo e de viver o sagrado. Ninguém tem o monopólio do conhecimento e da vivência (ou não) do sagrado, e podemos aprender muito uns com os outros.
O que não é saudável, contudo, será procurar impôr aos outros a nossa forma de pensar e de acreditar. Por esta razão, sempre fui muito crítico em relação ao “Diário Ateísta”. Os textos nele publicados não são de quem procura compreender ou construir pontes com os outros; de facto, os posts do “Diário Ateísta” visam apenas destruir e não edificar. Além de uma extrema ignorância sobre assuntos ligados à religião e de um anti-clericalismo primário, próprio de quem julga viver ainda no tempo de Afonso Costa, os autores revelam uma profunda falta de respeito pelos Crentes e por qualquer forma de religião. E quando confrontados com as justas reacções das pessoas ofendidas, estes iluminados arautos da Razão apressam-se a invocar o seu direito à liberdade de expressão. De facto, têm o direito de dizer o que bem entenderem; mas de igual modo deviam compreender que também nós temos o direito à indignação perante os disparates e os insultos que eles escrevem sobre as nossas crenças.

No Diário Ateísta, é frequente encontrar posts baseados na generalização de determinados comportamentos e na construção de esterótipos sobre as comunidades religiosas. Procura-se com isso ridicularizar os crentes e as religiões, fazendo uso da menção de casos isolados, da reprodução de preconceitos e clichés, da referência a estatísticas “convenientes” (por exemplo, quando dizem que está cientificamente provado que os ateus são menos propensos a cometer crimes...), etc.
Imagine o caro leitor que um grupo de católicos fundamentalistas criava um blog “anti-ateísmo” (com um título igualmente pomposo e arrogante, do género “Diário Católico”), em que se expusessem e esconjurassem secretas “cabalas” contra a Fé, e em que se inumerassem e difamassem os “inimigos” da Igreja. Nesse blog, seriam postos a ridículo os incréus, pregar-se-iam as graças e as benesses reservadas aos crentes, e anunciar-se-iam as penas e sofrimentos reservados aos ímpios hereges e infiéis. Imagine ainda o caro leitor que, nesse pio blog “anti-ateísta”, eram publicados posts a respeito de pretensos “estudos científicos” que provassem que os católicos vivem mais tempo, que são mais felizes, que cometem menos crimes e que estão melhor na vida. O dito blog teria também como missão sustentar que os ateus são todos uns pervertidos sexuais, que vivem no pecado e na promiscuidade, e que por isso vão bater com os costados no inferno e lá arder por toda a eternidade! Como reagiriam aqueles aguerridos ateus que escrevem no “Diário Ateísta”, se lhes servissem o mesmo prato que eles têm a gentileza de nos servir todos os dias? Quiçá, vendo-se assim “ao espelho”, talvez comprendessem a necessidade de adoptarem uma postura mais tolerante, construtiva e dialogante!

Recordando Teixeira de Pascoaes, em “Napoleão”, é “nos nossos inimigos que existimos realmente ou neste mundo”; ora alguém devia avisar estes empedernidos arautos do ateísmo de que os seus “homólogos”, ou “correspondentes” na “trincheira” católica – perdoem-me a metáfora bélica, mas para as pessoas em questão é de uma “guerra” que se trata -, são precisamente os sectores mais reaccionários, obscurantistas e ultra-conservadores da Igreja. E que, assim sendo, se colocam ao mesmo nível destes últimos, embora na “trincheira” oposta.
Da minha parte, julgo que faria tanto sentido criar um blog católico fundamentalista como fará a existência de um blog como o Diário Ateísta. O fundamentalismo é sempre mau, seja da parte de cristãos, muçulmanos, baha’is, judeus, budistas, hindus ou ateus. Por muito “avançado” que se julgue e apregoe ser, quem não compreendeu isto vive ainda num distante e tortuoso passado que ninguém de juízo sonha ressuscitar.

Filipe Alves [RESPUBLICA]
Comments:
o ateismo e inutil e fracassado,e provado cientificamente,que nao e possivel o ser humano desejar uma coisa que nao existe.
isto e: se existe uma sede entao existe uma agua para satisfazer essa sede...
se nao ouvesse agua como poderia alguem sentir sede???
um fundo clama outro fundo...
alem do mais porque DEUS tem que estar submetido ao teste da ciencia?
e porventura a ciencia a verdade suprema????????
fiquem sabendo vcs incredulos ateistas,que a Biblia Sagrada e uma fonte de imformacao,muitas vezes mais infalivel que a ciencia.
alem disso a fe nao tem de ser provada cientificamente..
estaos supostos a crer,nao a esplicar a fe...
OBS:SE O SER HUMANO DESEJA E BUSCA DEUS E PORQUE TEM UM DEUS EM ALGUM LUGAR PARA SATISFAZER ESSE VAZIO...
 
O GRUPODEARQUEOLOGIADOPORTO.BLOGSPOT.COM publicou na rede uma conferência de Deus notável, notável.
 
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