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quarta-feira, janeiro 5

 

2+2=5

Meu caro Ludwig,
fundando a sua crença num big-bang sem causa, apenas porque não tem (ainda?) mais indícios que justifiquem um qualquer prévio piparote criacionista, vejo que coloca a sua razão - único instrumento de trabalho que utiliza para o conhecimento do mundo - num esforço sobre-humano. Aliás, parece-me igualmente que reduz a razão à lógica, o que não é muito abonatório para aquela.
Descartes partilhou esse problema. Confiou apenas na razão para o guiar mas, reconhecendo que todos têm razão, mas nem todos a sabem utilizar da melhor maneira, dedicou-se a aprimorar um método para, como diz o Ludwig, «determinar a escolha». Tal como o Luwig (e eu, ab initio, mas não é de um crente que estamos a falar), Descates escolheu usar somente a razão. E, veja lá as conclusões a que chegou: a primeira, que era um ser pensante («sum res cogitans»), uma coisa que pensa, que existe porque pensa e enquanto pensa; a segunda, que Deus existe! (a segunda existência e segunda verdade); em terceiro lugar, concluiu que o Mundo existe.

Infelizmente, também tenho uma atracção quase fatal pela razão. Reconheço a falta que faz o seu uso nas sociedades contemporâneas, receio o desprezo pela actividade de pensar (que incomoda como andar à chuva, já dizia o Pessoa), fujo a sete pés do emotivismo e das formas sentimentalóides do pseudo-conhecimento.
No entanto, uma razão meramente iluminista - como me parece ser a que defende - tem lacunas graves. A fundamentação da moral é uma delas. Como diz MacIntyre, ao rejeitar a concepção teleológica da natureza humana, a modernidade mutilou as bases de um fundamento moral. Nietzsche percebeu isso: que, sem fundamento teleológico, a moral não era mais do que a expressão da vontade subjectiva. E basta olhar à volta para nos darmos conta de onde nos leva este caminho.

Daí que, quando eu digo extra-razão, não digo contra a razão. Para usar os seus exemplos, eu também não creio num Deus omnipotente. Ainda que se admita um plano superior (de tempo, espaço, de dimensões desconhecidas, para além do nosso entendimento), vejo um Deus omnipotente como uma impossibilidade lógica. Mas não fui eu que o caracterei assim. Respondo apenas ao seu exemplo e subscrevo-o.
Mas o Ludwig não aceita uma terceira categoria. Eu digo-lhe que extra-razão não é um terceiro género. Laplace dizia que Deus era uma hipótese desnecessária. Mas, caramba!, sempre é uma hipótese. Nem poderia ser de outro modo: o que fazer, então, com os inúmeros filósofos, cientistas, artistas, que crêem em Deus? Seria Max Planck um mau utilizador da razão? Enquanto revolucionava a Física com a sua teoria quântica, dizia que «para o crente, Deus está no começo; para o físico, Deus está no ponto de chegada de toda a sua reflexão». Como cometeria este erro tão crasso? E Louis Pasteur, que referia que «a ciência aproxima-nos mais de Deus»? Tolheu-se-lhe o entendimento? E a Isaac Newton? E a Kepler? E Albert Einstein: «no universo, inompreensível como é, manifesta-se uma inteligência superior e ilimitada. A opinião corrente de que sou ateu baseia-se num grande equívoco. Quem a quisesse depreender das minhas teorias científicas, não teria compreendido o meu pensamento». E Werner von Braun: «ciência e religião são, pois, irmãs, e não pólos antitéticos»; ou «quanto mais compreendemos a complexidade da estrutura atômica, a natureza da vida ou o caminho das galáxias, tanto mais encontramos razões novas para nos assombrarmos diante dos esplendores da criação divina». Teriam todos eles um sistema de válvulas da razão, que se fechasse quando pensavam na religião e em Deus?
O mesmo se diga dos filósofos, desde a Antiguidade aos nossos dias. Ou dos artistas e dos poetas. O que é assim tão evidente à razão que eles não alcançam e continuam a crer, para além da razão matemática e lógica? Estarão todos enganados, como crianças que esperam o Pai Natal? Serão os ateus os únicos que sabem?

A entrega aos outros, aquilo que a comummente se chama amor, é algo extra-razão. Não falo de cooperação, de simbioses, de investimentos. Falo de dádiva. Da ilógica do amor. Do rasgo no quotidiano que o amor provoca. Contra a razão? Não, mas apesar da razão. Qualquer amor. Dos pais aos filhos, dos filhos aos avós, dos amigos entre si, dos amantes. De Deus para com os homens e das suas criaturas para Deus? Como Laplace, também prescindo desta hipótese. Explica-se o amor? Sim, também se explica: o desejo de possuir, de se entregar, de perder o sentido da responsabilidade, o gosto egoísta de ser gostado, uma vontade de comunicar, de desabafar, a procura de um regaço, um impulso biológico.
Mas não haverá mais qualquer coisa?

Da verdade do amor

Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito

pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados

não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce sem rumor

José Tolentino Mendonça, Baldios (1999)

Com amizade,
Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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