<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

segunda-feira, janeiro 31

 

A Unidade do desejo

«- Certo dia - começou Abélio a contar as suas experiências - caminhava num país distante, perdido pelos caminhos, sem estrelas para me guiar, quando vi um rústico a quem pedi um naco de carne para conchego da barriga. Sentei-me à sua mesa, é grande a hospitalidade das estepes, bebi do seu vinho e aqueci-me no seu lume, e já ia alta a noite quando me intrigou o altar que este houvera erigido num canto da cozinha. O meu benfeitor reparou no meu olhar de curiosidade e respondeu-me que era um altar ao deus maior do seu panteão, que naquela zona chamavam de Velios. Era um deus terrível, representado entre sangue e tripas, a desfazer homens e mulheres, crianças e animais, sem a luz da piedade, que preferia sangue a vinho, que desfazia os ossos e as fétidas entranhas, que não conhecia a misericórdia ou perdão, que era conhecido por esquartejador. Terrível jugo tem o homem de suportar ao viver debaixo das garras de tal deus. Imagina, Fabiano, tal coisa, como me impressionou a descrição do velho camponês e o ambiente mórbido que se instalou naquele lar. Dormi no celeiro com os animais, mas não dormi descansado, tamanha era a agitação do meu coração e da minha alma que de tão apertadinha me tremiam as carnes. No outro dia, apesar da insistência do bom camponês, pus-me a andar daquele lugar, pé à frente do outro, nem é bom olhar para trás. Com rápida rapidez cheguei a outro pequeno povoado, onde um pastor me acolheu na sua humilde casa, me alimentou com a carne dum seu borrego, condimentado com as ervas do campo, cheínho de uvas passas e cominhos e regado com azeite. Foi um belo repasto, lembro-me como se fosse hoje, até me cresce água na boca. Já ia alta, a noite, quando reparei num belo altar que o pastor tinha na cozinha. Era uma estátua dum belo deus, todo decoradinho com flores e frutas das árvores, mel e água fresca, com um olhar muito doce, feminino, enfim, um daqueles deuses que nada negam ao homem, um pede-que-te-darei. Belo culto este, pensei cá para comigo. A minha curiosidade fez-me falar, queria saber mais sobre tal deus, tão propício aos homens. Fiquei estupfacto quando soube o nome dele, pedi ao bom pastor para que se repetisse, que me elucidasse outra vez, devia ter ouvido mal, às vezes sou duro de ouvido, um pouco mouco, e faço confusões. Mas não havia confusão possível, este deus chamava-se Velios e era o mesmíssimo deus que na noite passada me fizera pesadelos e sonhos maus, que dançava sobre criaturas desmembradas, braços para ali, cabeças para acolá, pernas a voar, e sangue por todo o lado. Quando saí da casa do pastor, dirigi-me a um templo para me esclarecer junto do sacerdote de tão estranho e contraditório culto, ou pelo menos assim me parecia, na minha vasta ignorância. Ora, o sábio homem explicou-me que este deus, o tal Velios, espera todos os homens do outro lado do rio da morte, pronto a satisfazer a vontade do recém-chegado. Para tal traz consigo uns cavalos, para levar o homem para o lugar que este deseja, para que se cumpra a sua vontade de acordo com o mais profundo desejo da sua alma. Acredites ou não, meu caro Fabiano, é aí que reside a perdição de alguns e bem-aventurança de outros. Este Velios olha para dentro da tua alma, prescruta o seu interior e prende os seus cavalos de modo a que te levem até ao lugar do teu desejo. Ora é aqui que se dá a tragédia. O homem divide-se em vários desejos, e os cavalos desenfreados correm, cada um, em sentidos e direcções opostos e diferentes, despedaçando o corpo e a alma da pobre criatura. No entanto, se a tua alma acalentar um só desejo, um só objectivo e direcção, os cavalos levar-te-ão ao lugar de tua eleição para teu regozijo eterno. Fazendo a vontade de todos, despedaça uns e exalta outros.
- Digo-te, caríssimo Fabiano, que fiquei tremendamente impressionado com tal culto, quis saber mais, por isso aceitei a hospitalidade do sacerdote e quedei-me sob as suas graças durante longo tempo, na esperança de ver a minha curiosidade satisfeita. Que fazer para acalentar no coração um só desejo, como evitar a dispersão da alma? Nunca o cheguei a saber, desinteressei-me, e um dia à noite parti.
Abélio ria com a memória da sua partida, parou a narração, bocejou.
- Partiste sem mais nem menos, sem um gesto para com o velho que te deu a sua hospitalidade e saber?
- Ora, ora, saber não me deu muito, aqui para nós fiquei na mesma, ou até pior, mais confuso na minha cabeça, respostas às minhas dúvidas nem vê-las, e o comer não era grande coisa. Eu já andava estragado com aquilo, eram só vegetais e orações, e o homem não vive só do espírito, faz-me falta a galinha e a cabra, o borrego e a vitela, enfim, carne, um regalo para o estômago. Este velhusco, tinha ainda o costume infame e nefando de acompanhar a refeição com águas das fontes, nada de vinho ou cerveja, era aquilo um martírio para o corpo e uma tristeza para a alma. E o pior estava para vir, queria que eu o ajudasse nos trabalhos de limpeza que o templo exigia, mas eu não sou homem de limpezas, não tenho jeito. Outras terras, outros poisos clamavam pela minha abençoada e benquista presença. Parti, portanto. Do velho sacerdote nem benzedura queria, nem olhei para trás, que isso de olhar para trás atrai o mau espírito e outros demónios que nem convém dizer o nome.»

Neste trecho, ressalta a ideia do monoteísmo como provedor de toda a necessidade. O desejo pela Unidade, pelo Um, onde se podem encontrar e satisfazer todos os desejos. Imaginemos uma palavra que possa conter no seu ventre os maiores desideratos humanos: Justiça, Perfeição, Beleza, Bondade, Sabedoria, Liberdade, Felicidade, Amor, etc... Essa bizarria vocabular existe em várias línguas e em português diz-se, normalmente e para o conjunto de tanto anelo e ânsia, Deus. Tomando esta palavra, este verdadeiro Logos, e usando-a para descrever o que mais se deseja, chegamos à incontornável conclusão que Deus é o único desejo do Homem, saiba ele disso, ou não. Por vezes, equivocado, aponta em várias direcções, ignorante dessa direcção e sentido que contém, numa unidade, todo as aspirações humanas.

«Em hebraico, panim [significa face], é usado na sua forma plural: o homem tem mais de uma face. A sua própria e a de Adão.» Disto, lembra-nos Ellie Wiesel no seu livro "Mensageiros" (Roswitha Kempf/Editores). Na verdade, arrisco-me a completar, o homem tem três faces: A sua própria, a de Adão e a do Messias. É sobre esta última face que se reflecte a ambição de qualquer ser humano, o culminar de qualquer viagem, a sua própria perfeição, aquilo que de melhor poderá esperar de si e da sua vida. No judaísmo será a face do Messias e o dia em que ele virá com um mundo de perfeição (que o Sabat é prenúncio); no cristianismo será a face de Cristo. É nessa ideia de caminho, luta e trajecto que assenta a esperança.
Quando Moisés encontra Deus numa sarça ardente, a identidade divina é dada na famosa frase: "Eu sou aquele que sou". Na verdade, a tradução deveria ser outra mais estendida e desenrolada no tempo. "Eu sou aquele que serei" é uma hipótese de tradução que não está muito longe do possível e com certeza do desejável. Esta referência temporal numa frase é como uma chave para a compreensão da Divindade. Deus deve ser descrito dentro dos conceitos absolutos, infinitos e eternos, e não deve ser entendido dentro das paredes da relatividade. Quando a resposta de Deus, na sarça ardente, tem vincado o elemento futuro, tem o tempo descrito de Adão (origem) ao Messias (consumação).
Certamente, Deus será sempre mais fácil de ver no futuro (na hipótese de perfeição do momento presente), no que desejamos para o amanhã, do que o que vemos agora à nossa volta.

Afonso Cruz [
ALERTA AMARELO]

(0) comments

Uma nova era se inicia

NOTA: O texto seguinte é um excerto de documento publicado pela Comunidade Internacional Bahá’í, intitulado "Quem está a escrever o futuro?". Trata-se de uma reflexão sobre a evolução da humanidade ao longo do século XX à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Devido a extensão do documento, este será publicado gradualmente. Os subtítulos, as frases a bold, e entre parentesis recto, assim como algumas notas são a minha responsabilidade.
--------------------------------------


UMA NOVA ERA QUE SE INICIA

Aquilo de que Bahá'u'lláh fala é de uma nova relação entre Deus e a humanidade, uma que se harmoniza com o alvorecer da maturidade da raça. A Realidade suprema, que criou e que sustém o universo, permanecerá, para sempre, inacessível à mente humana. A relação consciente da humanidade com ela, até ao ponto em que tal relação foi estabelecida, tem sido o resultado da influência dos Fundadores das grandes religiões: Moisés, Zoroastro, Buda, Jesus, Maomé e personagens mais recuadas, cujos nomes, na sua maioria, ficaram perdidos na memória dos tempos. Através da resposta a estes impulsos do Divino, os povos da terra desenvolveram, progressivamente, as capacidades espirituais, intelectuais e morais que contribuíram para civilizar o carácter humano. Este processo cumulativo, que durou milénios, atingiu agora um estádio característico de todos os pontos de viragem decisivos no processo evolutivo, quando possibilidades previamente impensáveis, de repente, emergiram: "Este é o Dia", afirma Bahá’u’lláh, "em que os mais excelentes favores de Deus manaram sobre os homens, o Dia em que a Sua graça suprema se infundiu em todas as coisas criadas." [1]



Vista através dos olhos de Bahá'u'lláh, a história das tribos, dos povos e das nações chegou, efectivamente, ao fim. Aquilo que estamos a testemunhar é o início da história da humanidade, a história de uma raça humana consciente da sua própria unicidade. A este ponto de viragem no rumo da civilização, os seus escritos trazem uma redefinição da natureza e dos processos de civilização, e um reordenamento das suas prioridades. O seu objectivo é chamar-nos de volta para a consciência e responsabilidades espirituais.

Nada nos escritos de Bahá’u’lláh encoraja a ilusão de que as mudanças visionadas se processarão facilmente. Muito pelo contrário. Tal como os eventos do séc. XX já demonstraram, padrões de hábitos e atitudes que se enraizaram durante milhares de anos não são abandonados nem espontaneamente, nem simplesmente como resposta à acção educativa ou legislativa. Quer na vida do indivíduo, quer na da sociedade, a mudança profunda ocorre mais frequentemente em resposta a um intenso sofrimento e a dificuldades insustentáveis, que não podem ser ultrapassadas de outro modo. Uma tal grande provação, avisou Bahá'u'lláh, é necessária para fundir os diversos povos da terra num único.

As concepções espirituais e materialistas da natureza da realidade são inconciliáveis e orientam-se em direcções opostas. Com o iniciar do século, o rumo aberto pela segunda destas duas perspectivas opostas já conduziu uma humanidade infeliz muito para lá de um ponto limite, onde uma ilusão de racionalidade, já para não falar do bem-estar humano, em tempos se podia manter. Com cada dia que passa, multiplicam-se os sinais de que, por todo o lado, grandes números de pessoas estão a despertar para esta constatação.

Apesar de uma opinião em contrário largamente prevalecente, a raça humana não é uma tábua rasa, na qual agentes privilegiados dos assuntos humanos podem livremente inscrever os seus próprios desejos. As fontes do espírito brotam onde querem e como querem. Não serão indefinidamente suprimidas pelos detritos da sociedade contemporânea. Já não é necessária uma visão profética para nos darmos conta de que os primeiros anos do novo século assistirão ao libertar de energias e aspirações infinitamente mais potentes do que as rotinas, falsidades e dependências acumuladas, que durante tanto tempo bloquearam a sua expressão.

Por mais tumultuoso que seja, o período para o qual a humanidade se está a mudar abrirá a cada indivíduo, a cada instituição e a cada comunidade da terra, oportunidades sem precedente de participar no escrever do futuro do planeta. "Em breve", é a promessa confiante de Bahá'u'lláh, "será a presente ordem posta de lado e uma nova se estenderá em seu lugar." [2]

---------------------------
NOTAS
[1] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá’u’lláh, IV
[2] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá’u’lláh, IV


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

(0) comments

Revolução Personalista II

Na semana passada, a propósito do centenário do nascimento de Emmanuel Mounier, falei um pouco do que foi o contributo do Personalismo para o pensamento e reflexão de cristãos (e não só) da época. Procurei explicar como foi importante uma reelaboração das linhas de pensamento a partir da noção de pessoa, num momento em que ainda não se antevia o que foi uma das maiores revoluções na forma da Igreja se entender e entender a sua missão – o aggiornamento do Concílio Vaticano II –; num momento marcado por um conjunto de filósofos a que mais tarde se chamou da suspeita, que partiram da descoberta do subconsciente humano e das suas pulsões e instintos (Freud), que reflectiram a partir das estruturas e engrenagens da luta de classes (Marx), que proclamaram o não-sentido como resposta às interrogações da existência (Nietzsche). Mounier e um conjunto de pensadores que se associaram à revista Esprit foram uma primeira janela para a reflexão e diálogo de muitos crentes com estas linhas de pensamento e com o que viria a ser a pós-modernidade. Em Portugal a Esprit teve o seu principal eco já nos anos 60, na revista O Tempo e o Modo, publicada pela Moraes Editora (de Alçada Baptista).
Hoje venho dar a conhecer um pouco mais do pensamento de Mounier, em concreto o expresso em “O Personalismo”. Advirto já que não sou perito em filosofia ou teologia e que não vivi o período em que estes debates se acenderam. Por isso, posso apenas salientar o que me parece mais significativo hoje. A minha surpresa não deixou de ser grande quando encontrei neste opúsculo escrito em 1949 e traduzido pela primeira vez para português em 1960, uma expressão dalgumas linhas que me parecem ser hoje fundamentais no pensamento cristão. Sem dúvida o Concílio e as gerações que o fizeram beberam muito da reflexão lançada pelo Personalismo.
Passemos então ao que interessa e dêmos voz a Mounier. Logo no início de “O Personalismo” ele adverte-nos que não vai tratar de expor um sistema filosófico – o personalismo não é um sistema. É antes uma reflexão que parte da liberdade pessoal, da criatividade e irrepetibilidade de cada pessoa. Porém, não olha a pessoa como indivíduo: uma pessoa só pode ser entendida em relação com outros. Daí começar por expor uma “ideia sumária acerca do universo pessoal” onde fala da construção do sentido de pessoa como um processo lento que se foi desenvolvendo na Antiguidade e que teve o seu anúncio decisivo com o cristianismo:

«
O cristianismo rompe de súbito por entre estas apalpadelas, para se tornar o arauto duma noção decisiva de pessoa. Nos nossos dias, mal nos podemos aperceber do escândalo formidável que tal noção constituía para o pensamento e para a sensibilidade dos gregos:
1.º – Ao passo que a multiplicidade era para estes um mal inadmissível a qualquer espírito, para o cristianismo é um absoluto. (...)
2.º – O indivíduo humano deixa de ser o cruzamento de várias participações em mais gerais realidades (matérias, ideias, etc.), para ser um todo indissociável, cuja unidade, porque no absoluto assente, precede a multiplicidade.
3.º – Acima das pessoas já não reina a tirania abstracta dum Destino, duma constelação de ideias ou dum Pensamento Impessoal, indiferente a destinos individuais, mas um Deus que é ele próprio pessoal, embora dum modo eminente, um Deus que “entregou a sua pessoa” para assumir e transfigurar a condição humana, e que propõe a cada pessoa uma relação única em intimidade, uma participação na sua divindade; (...).
4.º – O profundo movimento da existência humana não tende a assimilar-se à generalidade abstracta da Natureza ou das Ideias, mas a transformar o “coração do próprio coração” (
meta-noia
), para que nele se introduza e sobre o mundo irradie um Reino transfigurado. O segredo de nossos corações, onde se decide, por opção pessoal, essa transmutação do universo, é domínio inviolável, que ninguém pode julgar, e que não é conhecido por ninguém, nem pelos anjos, mas somente por Deus.
5.º – A esse movimento o homem é livremente chamado. A liberdade é constitutiva da existência criada. Deus teria podido criar num momento uma criatura tão perfeita quanto o pudesse ser. Preferiu que fosse o homem o chamado a amadurecer livremente a humanidade e os efeitos da vida divina. O direito de pecar, ou seja, de recusar o seu destino, é essencial ao pleno uso da liberdade. Longe de ser um escândalo, antes seria a sua ausência que alienaria o homem.
6.º – Esse absoluto pessoal não isola o homem, nem do mundo, nem dos outros homens. A Incarnação confirma a unidade da terra e do céu, da carne e do espírito, confirma o valor redentor da obra humana logo que assumida pela graça. Pela primeira vez a unidade do género humano foi plenamente afirmada (...). A própria concepção da Trindade, que alimentou dois séculos de debates, traz consigo a ideia surpreendente dum Ser Supremo no qual intimamente dialogam pessoas diferentes, dum Ser que é já, por si próprio, negação da solidão.
»

Mounier prossegue analisando outros pensadores e a sua concepção de pessoa. Até chegar aos filósofos personalistas que uma dúzia de anos antes tinham lançado a Esprit. Finaliza esta introdução afirmando que a pessoa não é um objecto de estudo que se separe e observe. A pessoa é antes o centro de reorientação da sua reflexão filosófica. Parte então para a primeira parte de “O Personalismo”, onde fala das “Estruturas do Universo Pessoal”. Num primeiro capítulo fala da “Existência incorporada” – de como a pessoa está mergulhada na natureza e simultaneamente a transcende; de como a existência humana vive em luta constante entre a personalização ou humanização da natureza e os obstáculos que se lhe colocam. No capítulo seguinte, que gostaria de destacar, fala da comunicação como essência da pessoa. E volto a dar a voz ao filósofo, num trecho que explica bem porque falamos de Revolução Personalista. Termino por hoje com esses parágrafos, a que me atreveria a chamar de credo para os que mantém a esperança na humanidade dos nossos dias:

«
Quase se poderia dizer que só existo na medida em que existo para os outros, ou numa frase-limite: ser é amar.
Estas verdades são o próprio personalismo, a ponto de podermos dizer que há pleonasmo quando se designa a civilização que ele visa por
personalista e comunitária
. Exprimem, frente a persistentes idealismos e individualismos, a ideia de que o sujeito não se nutre autonomamente, que só possuímos aquilo a que damos ou aquilo a que nos damos, que não nos salvamos sozinhos, nem social, nem espiritualmente.
O primeiro acto da pessoa deve ser, pois, a criação com outros duma sociedade de pessoas, cujas estruturas, costumes, sentimentos e até instituições estejam marcados pela sua natureza de pessoas: sociedade de que apenas começamos a entrever e esboçar os costumes.
Funda-se numa série de actos originais que não têm equivalente em mais parte nenhuma no universo:
1.º –
Sair de nós próprios
. A pessoa é uma existência capaz de se libertar de si própria, de se desapossar, de se descentrar para se tornar disponível aos outros. (...) Os antigos falavam da luta contra o amor-próprio; nós chamamos-lhe hoje egocentrismo, narcisismo, individualismo.
2.º –
Compreender
. Deixar de me colocar sempre no meu próprio ponto de vista, para me situar no ponto de vista dos outros. Não me procurar numa pessoa escolhida e igual a mim, não conhecer os outros apenas com um conhecimento geral (...), mas captar com a minha singularidade a sua singularidade, numa atitude de acolhimento e num esforço de recolhimento. (...)
3.º –
Tomar sobre nós, assumir
o destino, os desgostos, as alegrias, as tarefas dos outros, “sofrer na nossa própria carne”.
4.º –
Dar. A força viva do ímpeto pessoal não está, nem na reivindicação (individualismo pequeno-burguês), nem na luta de morte (existencialismo), mas na generosidade e no acto gratuito
, ou seja, numa palavra, na dádiva sem medida e sem esperança de recompensa. A economia da pessoa é uma economia de dádiva, não de compreensão ou de cálculo. A generosidade dissolve a opacidade e anula a solidão da pessoa, mesmo quando esta não recebe nada em troca: contra a fileira cerrada dos instintos, dos interesses, dos raciocínios, ela é, em todo o sentido da palavra, perturbante. Desarma as recusas, oferecendo aos outros um valor a seus próprios olhos elevado, exactamente no momento em que eles esperariam ser expulsos como coisa indesejável, e assim os prende à sua comunicação; daí o valor libertador do perdão, da confiança. (...)
5.º –
Ser fiel. A aventura da pessoa é uma aventura constante desde o nascimento à morte. As dedicações pessoais, amor, amizade, só podem ser perfeitas na continuidade. Essa continuidade não é uma exibição, uma repetição uniforme, como sucede na matéria ou nas generalizações lógicas, mas um contínuo renovamento. A fidelidade pessoal é uma fidelidade criadora.»


Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(0) comments

quarta-feira, janeiro 26

 

As probabilidades do Mal

Este será um post em duas partes. A primeira será dedicada sobretudo aos ateus (blogue no qual tenho ultimamente visto alguns textos e debates extremamente interessantes) e a segunda será dedicada aos cristãos.
A possibilidade de Deus não existir existe. O Homem não pode ter a certeza de nada. A maior parte das certezas do Homem são certezas de ordem probabilística e utilitária baseadas no fenómeno causa/efeito. Todo o nosso comportamento e o nosso conhecimento é o produto de análises probabilísticas.
A lógica de probabilidades é essencialmente uma lógica utilitária ou quando muito uma lógica de causa/efeito. Dizer que existe uma hipótese num milhão de algo acontecer não significa nada. Só significa se essa hipótese me for útil. Se quiser estabelecer um raciocínio com base numa hipótese de um por um milhão esse raciocínio é muito pouco provável. Se um comportamento ou evento for útil com base na probabilidade de um para um milhão não vou ter esse comportamento ou não vou ter em conta esse evento. Mas dizer que algo acontece uma vez num milhão não estabelece nenhuma "validade ontológica" para esse algo. Quando acontece, acontece pura e simplesmente. Independentemente do facto de ter sido negligenciável a probabilidade de esse algo acontecer.
Mas se a fé na razão é infundada passa por isso a ser uma fé irracional?
O valor da razão é o valor da utilidade da razão. A razão determina-se por critérios probabilísticos. Apenas a lógica formal ou abstracta escapa à lógica probabilística porque funciona a partir dos pressupostos axiomáticos do sistema em que se movimenta.
No que respeita à interpretação do real, todas as conclusões são de natureza probabilística. Probabilidade e utilidade estão intimamente ligadas.
Existem áreas em que, enquanto cristão, não me determino por critérios utilitários. E por isso pouco interesse tem nessas matérias a lógica probabilística a que normalmente se dá o nome de "razão".
Nas escolhas que faço e nas atitudes que adopto nesse tipo de matérias procuro não me determinar por critérios probabilísticos ou utilitários. Procuro apenas determinar-me pelo mandamento que Cristo nos deixou, o seu único mandamento, o do Amor.

Passemos agora à segunda parte (dedicado aos cristãos).
"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem" (Brecht).
Em que medida a violência e a agressividade anti-clerical e anti-religiosa não é culpa precisamente de nós, agora ou no passado?
Não existe fumo sem fogo. Porque razão existe esse tipo de violência e agressividade? Caiu do céu?
Na sua maior parte, a violência e agressividade anti-clerical e anti-religiosa tem origem em comportamentos que os cristãos têm ou tiveram para com essas pessoas agora violentas.
E no que a um cristão diz respeito pode-se mesmo avançar com o axioma de que toda violência anti-clerical e anti-religiosa tem uma única origem: o Mal perpetrado por pessoas que se invocam ou se invocaram agir em conformidade com os ensinamentos de Cristo.
Já ouço alguns a referirem o excesso de auto-culpabilização (típica dos cristãos, acrescentariam os ateus). Não se trata aqui de qualquer tipo de culpabilização (auto ou hetero) conceito com ao qual tenho uma particular aversão. Trata-se de sublinhar a necessidade de atenção, compreensão e disponibilidade.
Temos que aprender com os violentos (não me estou a referir à aprendizagem por imitação - para sermos como eles, obviamente - até porque a aprendizagem por imitação é instintiva e a aprendizagem por compreensão nos aproxima de Deus).
As pessoas com as quais mais temos que aprender no nosso comportamento quotidiano parecem-me ser precisamente os violentos e os agressivos, sobretudo quando essa violência e agressividade assumir um carácter anti-clerical e anti-religioso.
Se estivermos atentos, veremos como o Mal nasce por vezes em nome de Deus.

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

log in

Cristo viveu, morreu e ressuscitou. Ressuscitado, apareceu aos apóstolos que duvidaram da Sua presença. Provou-lhes que era o Cristo vivo antes de partir uma vez mais. Vinte e um séculos depois continuamos a acreditar que Ele morreu para nos salvar e que um dia estaremos a Seu lado. No decurso destes vinte e um séculos propagámos a Palavra e a Salvação. Fomos ardinas da Sua vontade, tementes da Sua justiça, crentes do Seu amor. Fomos mais fortes que os apóstolos que com Ele conviveram e ainda assim d´Ele duvidaram. A nós Cristo não apareceu. A nós, discípulos de Tomé, Cristo deixou-nos a hercúlea tarefa de perpetuar a Sua doutrina, de repudiarmos o pecado, de praticarmos o amor em tempo de solicitações diversas, de incentivos apetitosos ao desvio. De nós espera-se que continuemos a perdoar aos nossos inimigos, em tempo de feroz inimizade, em tempo de fome e de pobreza, em tempo de guerras e de contrastes. Continuamos a martirizar-nos pelas nossa crises de fé, pela nossa falta de espiritualidade, pela nossa fraqueza face ao mundo materialista que nos rouba tempo às preces, à meditação, ao estudo, à tertúlia, aos outros, à vida. Nós, os filhos que nunca viram o Pai, procuramos a Sua presença e justificamos as Suas omissões. Vamo-nos procriando de acordo com a Sua vontade, vamos transmitindo aos nossos filhos o Seu baptismo e os outros sacramentos, damo-lhes a conhecer o maternal regaço da Sua casa, vamo-lhes exigindo o respeito, o amor, a entrega ao Pai ausente em tempo de virtualidade. E talvez assim eles O percebam, a esse Pai virtual que não responde às mensagens e que parece nunca ter tempo para estar on-line. Talvez assim eles O possam compreender, à luz dos pais que têm e que também quase nunca têm tempo para os acompanhar. Será esta uma promissora esperança da Sua aceitação? A comunhão virtual com a ausência, a fé pela fé no Companheiro ocupado, porventura com os últimos preparativos da casa onde nos acolherá. Que este Pai prepare à Sua direita o espaço condigno para receber filhos tão valentes aos quais não presenteou com os Seus milagres, com a Sua mão, com a Sua resposta.
Nós somos os pescadores dos mares poluídos, das águas possuídas que arrastam casas e filhos, os escravos do trabalho pela sobrevivência, os descrentes nos sistemas políticos e os mártires dos sistemas económicos. Somos os apóstolos pós-modernos que não herdaram sandálias nem óleos unguentes. Os reinterpretadores da Sua vinda adiada que se recriminam por se sentirem abandonados, os que olham as estrelas e rezam fervorosamente para que o Pai não tenha feito o log out.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

(0) comments

Amazing Grace - 2ª parte

Redimir (do Latim redimere): Resgatar ou tirar da escravidão, aquele que está cativo, pagando por isto algum preço.

Ainda que a teologia cristã tenha tido o seu período fundador e mais especulativo por entre o universo cultural grego e neo-platónico a verdade é que o período seguinte, estabilizador e normalizador da doutrina, aconteceu já num universo romano. E foi em latim que se fixou o nosso cânone católico; foi no latim da Vulgata de S.Jerónimo, que se fixou a Palavra de Deus. E agora que o latim sucumbiu ao vernáculo, convém ainda assim regressar por vezes a ele (tal como ao grego e ao aramaico) para tentar perceber um pouquinho melhor aquilo em que acreditamos.
Vem isto a propósito da redenção, conceito que, como dizia eu há 3 semanas (!), me é tão caro. Disse-me um amigo meu, advogado e latinista, que a palavra redimere fazia parte do Direito Romano. A tomada de escravos entre os inimigos de Roma, a sua venda, a sua libertação, o seu resgate, eram então assuntos sérios tratados por juristas sérios. Fizeram-se leis e houve jurisprudência. Inventaram-se termos jurídicos. E a redemptionis significava exacta e precisamente isto: salvar alguém cativo pagando um preço, um resgate.
Penso pois que a teologia cristã primeva terá tomado este conceito do Direito Romano e o aplicou a Jesus: o preço da Redenção para a espécie humana em geral, cativa como estava do pecado, foi a Cruz. Tão simples como isso. Ou seja, redenção significa libertação mas tem um preço, pago por nós próprios ou por outrem em nosso nome. Vamos então por partes.
A libertação. Do mal, do pecado, do vício, da dependência, do orgulho, do ego, da angústia, do corpo, da ânsia, do imediato, do que nos tolhe a alma, do que nos impede de sermos verdadeiramente humanos, do que nos isola dos outros, do que nos afasta de Deus. Em suma, e isto verdadeiramente não é um conceito unicamente cristão, a libertação de nós próprios.
O preço. É simples, é precisamente aquilo de que nos devemos libertar. É apenas retribuir o gesto que Deus encarnado em Cristo nos fez: oferecer-nos a nós e a nossa vida, oferecer o nosso amor mas também o nosso sofrimento. A quem? A tudo aquilo que nos aparece. A tudo aquilo que possa fazer descentrar a nossa vida, o nosso interesse, de nós próprios, do nosso ego, daquele inefável orgulho que nos mina. O preço da redenção é sempre uma renúncia. Uma renúncia que nos acrescenta. E nos liberta.
O pecado. Tantas vezes pensamos que é a sua remissão que nos salva. Mas deixem-me voltar ao Direito: remissão é um contrato entre um devedor e um credor pelo qual se extingue a dívida daquele. É bem verdade que o pecado é uma dívida que vamos criando com Deus e que a misericórdia deste quer-no-la perdoar. E penso que perdoa. Mas não é apenas isso que interessa a Deus e portanto a nós. Em estado de pecado estamos nós sempre, repetidamente. Lutamos contra alguns, persistimos noutros mas quando a coisa aperta arrependemo-nos de todos. E tenho para mim, pela forma como sinto Deus, que somos perdoados. Mas não é isso o estado de redenção, a única forma de sermos justificados.
E, embora confusamente, começo a chegar ao meu ponto: a verdadeira graça, a amazing grace de que o bom do John Newton nos ensinou a cantar, é a redenção. Eu cá não sou teólogo mas engenheiro, mas parece-me que a redenção é o momento de reencontrar Deus, de O ver tal qual Ele é. É um momento preparado em vida mas que se calhar só chega depois da morte. Eu diria que é em vida que devemos ir pagando o seu preço, o resgate, mas à excepção dos iluminados e santos, é já passado o véu que a libertação é plena, que a redenção se consuma.
E reside aqui grande parte do meu catolicismo. É por aqui que não me entra o Lutero, o Calvino, o Zwingli. É que para mim a Fé, por si só, não é a suprema graça, não justifica nada, não é um fim em si mesmo. Aliás, a Fé, o júbilo de a ter, a sensação de pelo simples facto de a ter se ocupar já um lugar da frente na fila para o Céu, pode até afastar-nos da redenção. Para mim só se redime aquele que se sentir miseravelmente cativo das misérias que nos prendem e afastam de Deus. Só se redime quem tiver disposto a pagar o preço necessário: esvaziar-se de si, libertar-se do esplendores do corpo e sobretudo do espírito, livrar-se do ego tão facilmente insuflado, matar o orgulho sobretudo aquele que é mais insidioso, o orgulho do crente. É por isso que olho com preocupação aqueles meus irmãos crentes, católicos ou protestantes, cristãos ou não cristãos, que acreditam que a sua fé e a sua luta contra o pecado os justifica perante Deus.

E volto então ao hino de John Newton. Fico satisfeito por ele quando ele diz:

Oh! que espantosa graça (e doce som)
que salvou este náufrago que eu sou!
Estando eu perdido me encontrou,
estando eu cego se me revelou.

mas eu, em consciência, não posso dizer melhor que:

Oh! misteriosa graça, doce dom,
salva este náufrago que eu sou!
Estou perdido, não vejo, não ouço som;
Apenas espero a mão de quem nos amou.


Acho admirável poder dizer-se:

Foi uma graça que me tornou temente,
mas uma graça com que meus medos aliviei;
Tão preciosa se me revela esta graça,
desde que finalmente eu acreditei!

mas eu, pobre de mim, apenas que:

É uma graça que eu temo mas Te peço,
Tão preciosa ela me aparece!
Quero tê-la mas não a mereço,
Será que apenas crendo ela acontece?

E o bom do John diz mesmo que:

Através de perigos, tormentos e abismos,
finalmente consegui chegar;
Foi essa graça que me trouxe a salvo,
e será ela que a casa me irá guiar.

É excelente. Mas para mim é mais assim:

Passei perigos, tormentos e abismos,
E outros ainda me surgem para passar;
Sei que sem a graça não conseguirei,
Sei que sem ela não me irei salvar.

E por aí adiante...

E pronto, eis o que penso da Graça. Não estou certamente nela mas acredito ser possível um dia estar. Mas da mesma forma que desejo esse dia, também o temo. E tenho esperança, esperança em que Deus se apiede de mim. Por ser pecador e ser católico. Por ser católico e ser pecador.
Para terminar de uma vez esta amazing grace, queria apenas recordar uma cena do filme “A Paixão de Joana D´Arc”, de Carl Dreyer. É uma cena dramática quando o inquisidor pergunta à mística francesa se ela se considerava em estado de graça. E ele, que no fundo quer salvá-la, adverte-a: “Tem cuidado, Joana, porque é uma pergunta perigosa!” E a Joana responde-lhe: “Se estou em estado de graça peço a Deus que mo conserve; se não o estou, peço-lhe que Mo conceda”. Morreu na fogueira como morreria sempre, qualquer que fosse a sua resposta. Mas, deixando para Deus a resposta, morreu sem dúvida redimida.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

(0) comments

Viva o Poder Popular!

O texto que o Miguel publicou aqui na semana passada deixou-me a pensar. Será que faz sentido misturar partidos com a Fé? Será que é legítimo, em nome das convicções religiosas apelar ao voto neste ou naquele partido, ou repudiar o voto num outro? Não sei.
Cresci em ambiente cristão/católico e nunca associei as convicções religiosas dos que me rodeavam a qualquer convicção política. Também é certo que fui educado na cidadania e no respeito aos outros, sem a presença de nenhuma particular marca partidária ou ideológica e isso, sim, fui associando aos preceitos evangélicos e à moral cristã. Por isso, na construção das minhas opções partidárias, creio que fui conseguindo, ao longo da vida, ir conciliando alguns valores mais associados à Esquerda com alguns valores associados à direita. É evidente que nem tudo é conciliável, mas muitas vezes dou por mim a pensar que qualquer sistema político funcionaria se cada um soubesse olhar para os outros todos (e creio que o “segredo” seria mesmo este “todos”).
Soa a utopia? A ingenuidade? A conversa adocicada para entreter criancinhas? Claro que soa. Mas o facto é que não vejo outro ponto de partida para fazer uma escolha coerente...
Sim, seria mais fácil escolher em função de quem está mais apresentável, de quem fala melhor, de quem parece ter mais convicção, de quem não gagueja e diz todas as palavras certinhas.
Teimo em acreditar na Democracia e teimo em acreditar que é possível viver numa sociedade em que as pessoas podem orientar os seus destinos sem conflitos, de forma organizada e tendo em conta o bem comum e a qualidade de vida de cada um.
Acho que aprendi isto quando descobri que, na canção (hino!) do Zeca Afonso, depois de “o povo é quem mais ordena”, vinha “terra da fraternidade”.

A justiça social, a necessidade de todos termos iguais direitos e deveres ou de a riqueza estar distribuída de modo a que cada um tenha, não apenas o necessário, mas também o que o torna digno, a preservação dos valores culturais e sociais ou a liberdade de expressão e de realização pessoal são valores inquestionáveis na nossa sociedade. É necessário que percebamos, todos e cada um, que depende de nós fazer com que as coisas mudem, não só com o voto que delega responsabilidades na tal “classe política”, mas tomando a iniciativa e começando a criar a força que faz com que juntos possamos ser, de facto, o soberano no qual se funda o direito democrático (cf. Constituição da República Portuguesa, Art.º 2.º).

Rui Almeida [RUIALME]

(0) comments

Primeiro: Vanity Fair.

Passámos por diversas fases na justificação das nossas crenças. Religiosas ou não. De facto, se são diversos os modos que nos levam às crenças, são diversas as vicissitudes porque as crenças passam. No entanto, quando a crença se diz fé, a palavra apanha um sabor cristão. Crenças e fés, dizia Vasco Santana, há muitas. Mas não é esta multiplicidade que aqui nos traz. Mas antes algo que poderíamos designar como modelos de explicação. E isto porque - como é sabido – acatado ou não, é outro problema – a fé constitui um modelo de explicação.

Passei por diversas fases na justificação da fé. E a atenção às suas capacidades explicativas marcou uma delas. Numa dessas fases, justificava a fé no cristianismo, porque via na fé cristã algo com capacidade para explicar aquilo que somos e o que fazemos. Se ainda hoje essa marca se mantém, digo, desde já, que há algo mais para além desta capacidade explicativa que me leva a manter a fé. O que é dizer, que há algo mais do que a capacidade explicativa que me serve como suporte para a manutenção da fé. Mas não é esse mais que aqui me traz. É apenas a capacidade que a fé tem para servir como modelo de explicação, ou como modelo de compreensão, para quem quiser estiver disposto a perfilhar outros rigores filosóficos.

Se ainda hoje, julgo pertinente parte essencial da mensagem do marxismo, como de resto, julgo que a grande maioria julga, por exemplo, quando diz a importância das estruturas sociais na determinação da acção humana, ou se julgo pertinente Freud, no que por ele podemos determinar como essencial na construção da nossa personalidade, o embate permanente entre desejo e realidade, a verdade é que essas e outras teorias não responderam nunca a um simples facto que a realizadora do Vanity Fair me deu a conhecer na reportagem em que de dá conta do processo de realização do filme: a insatisfação perante a concretização do sonho ou do desejo mundano.

O que me parece em grande medida universal. Não só porque em tempos idos, fui mais ou menos assíduo leitor de biografias, e porque essas biografias foram como não podiam deixar de ser biografias de grandes homens. Homens que realizaram as suas ambições políticas, económicas, culturais. No entanto, para além dos louvores, e por entre as linhas dos louvores, nenhum dessas biografias me impediu de nelas ler um certo travo amargo...

Não somos sólidos, nem na vitória, nem na derrota, nos afazeres do mundo. E só há um verdadeiro betão armado: o da lição cristã: o amor, pois, então… Houve, sem dúvida, ao longo dos tempos, diversos modelos de betão. Fiquemos por um bem antigo: a honra, da idade homérica e da idade que morre pouco depois de Homero. Depois, por um mais recente: o que venceu o sexo vitoriano e que promete a satisfação pelo culto do desregramento.

Mas nada disto para mim é convincente. Com honra, ou sem ela, com o sexo escondido, ou com ele de fora, a solidez pessoal está longe de estar garantida. E isto porque a garantia, como frequentemente – bem – o enfatiza o Timóteo, advém do amor.

Contudo e entretanto, se a lição cristã do amor me pareceu simples e se pareceu dar conta da realidade, acabou também por dar conta de inúmeros problemas. Não é fácil a coisa do amor. E com isso concorda o cristianismo. De facto, se o cristianismo vive em torno do amor, Deus é amor, Jesus é amor, o Espírito Santo é amor, ensina simultaneamente uma mensagem que afirma a problematicidade do amor. Se o amor é central e dele tudo depende, também é verdade que não é fácil recebê-lo, não é fácil amar. Inúmeras são as metáforas, inúmeras são as parábolas, inúmeras são as pequenas histórias – por exemplo, protagonizadas pelos Apóstolos – que dão conta das dificuldades que vêm associadas ao amor. Assim, se a fé em Cristo é a fé no amor, não num amor pombinha, mas num amor problema, penso que se alguém aplicar este modelo à realidade ficará convencido de que ela assim se deixa explicar.

Fernando Macedo [
A BORDO]

(0) comments

[teaser]

Na semana passada, terminei assim: «Hoje, como em 2002, continuo a achar que o caminho não se faz a preto e branco – e que há muitos cinzentos. Prometo continuar esta reflexão.» Não será esta semana, por motivos pessoais. Mas nada se perde, tudo se transforma: a pré-campanha dará certamente novos argumentos e mais contextos para aqui discutir em futura edição se pode um católico votar à esquerda? pode um católico apoiar partidos que têm um discurso desajustado da prática? e pode o voto de um católico admitir uma prática política que ataca os pobres e não a pobreza? A provocação está lançada. Voltarei a ela. Em cima da campanha.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

(0) comments

segunda-feira, janeiro 24

 

Mudança de paradigmas

NOTA: O texto seguinte é um excerto de documento publicado pela Comunidade Internacional Bahá’í, intitulado "Quem está a escrever o futuro?". Trata-se de uma reflexão sobre a evolução da humanidade ao longo do século XX à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Devido a extensão do documento, este será publicado gradualmente. Os subtítulos, as frases a bold, e entre parentesis recto, assim como algumas notas são a minha responsabilidade.

------------
A concepção do curso futuro da civilização estabelecida nos escritos de Bahá’u’lláh desafia muito daquilo que hoje se impõe ao nosso mundo como normativo e imutável. As descobertas realizadas durante o século da luz abriram a porta a uma nova espécie de mundo. Se a evolução social e intelectual está, de facto, a responder a uma inteligência moral inerente à existência, uma grande parte da teoria que determina as abordagens contemporâneas do poder de decisão está fatalmente fracassada. Se a consciência humana é essencialmente de natureza espiritual – como a vasta maioria das pessoas comuns sempre soube intuitivamente – as suas necessidades de desenvolvimento não podem ser compreendidas, nem servidas, através de uma interpretação da realidade que dogmaticamente insiste no contrário.

Nenhum aspecto da civilização contemporânea é mais directamente desafiado pela concepção de futuro de Bahá’u’lláh do que o culto prevalecente do individualismo, que se espalhou à maioria do mundo. Alimentado por forças culturais como a ideologia política, o elitismo académico e a economia de consumo, "a busca da felicidade" fez despertar um sentido agressivo e quase ilimitado de egocentrismo. As consequências morais foram corrosivas tanto para o indivíduo quanto para a sociedade – e devastadoras em termos de doença, dependência de drogas e outros males demasiado familiares deste fim de século. A tarefa de libertar a humanidade de um erro tão fundamental e tão difundido questionará alguns dos mais interiorizados pressupostos do séc. XX sobre o certo e o errado.

Quais são alguns desses pressupostos não averiguados? O mais óbvio é a convicção de que a unidade é um ideal distante, quase inatingível, a ser abordado só depois de uma variedade de conflitos políticos ter sido de algum modo resolvido, necessidades materiais de algum modo satisfeitas e injustiças de algum modo corrigidas. O que se verifica, declara Bahá’u’lláh, é o oposto. A principal doença que aflige a sociedade e gera os males que a tolhem, diz ele, é a desunião da raça humana, raça que se distingue pela sua capacidade de colaboração e cujo progresso até hoje dependeu da medida que a sua acção conjunta, em épocas e sociedades várias, conseguiu atingir. Agarrar-se à noção de que o conflito é um traço característico da natureza humana, em vez de um conjunto de hábitos e atitudes adquiridas, é impor a um novo século um erro que, mais do que qualquer outro factor, amputou tragicamente o passado da humanidade. "Vede o mundo", aconselhou Bahá’u’lláh a líderes mundiais eleitos, "como um corpo humano, o qual, embora inteiro e perfeito na altura da sua criação tem sido afligido, por causas várias, com graves males e doenças." [1]

Intimamente relacionado com a questão da unidade está um segundo desafio moral que o século passado colocou com uma urgência cada vez mais crescente. Aos olhos de Deus, insiste Bahá’u’lláh, a justiça é a "mais amada de todas as coisas."[2] Capacita o indivíduo a ver a realidade com os seus próprios olhos e não com os de outros, e dota o poder de decisão colectivo de uma autoridade que só por si pode assegurar unidade de pensamento e de acção. Por mais gratificante que seja o sistema de ordem internacional que emergiu de experiências piloto do séc. XX, a sua influência duradoura dependerá da aceitação do princípio moral nele implícito. Se o corpo da humanidade é, de facto, uno e indivisível, então a autoridade exercida pelas instituições governamentais representa, essencialmente, uma provedoria. Cada pessoa vem ao mundo como fiel depositário do todo, e é esta faceta da existência humana que constitui os reais fundamentos dos direitos sociais, económicos e culturais que a Carta das Nações Unidas, bem como documentos a ela ligados, articulam. A justiça e a unidade têm efeitos recíprocos. "O objectivo da justiça", escreveu Bahá’u’lláh, "é fazer aparecer entre os homens a unidade. O oceano da divina sabedoria surge dentro desta palavra exaltada, enquanto que os livros do mundo não podem conter a sua significação mais íntima."[3]

À medida que a sociedade se compromete – por muito hesitante e receosamente que o faça – com estes princípios e com princípios morais a eles ligados, o papel mais significativo que oferecerá ao indivíduo será o do serviço. Um dos paradoxos da vida humana é que o desenvolvimento do eu se concretiza, principalmente, através do compromisso com empreendimentos maiores, em que o eu – mesmo que apenas temporariamente – é esquecido. Numa época em que se abre às pessoas de todas as condições uma oportunidade de participar no moldar da própria ordem social, o ideal do serviço aos outros assume um sentido inteiramente novo. Enaltecer objectivos como a aquisição e a auto-afirmação enquanto propósito da vida é promover, essencialmente, o lado animal da natureza humana. Nem podem ainda as mensagens simplistas de salvação pessoal continuar a satisfazer as necessidades de gerações que constataram, com profunda certeza, que a verdadeira realização é tanto um assunto deste mundo como o é do próximo. "Cuidai zelosamente das necessidades da era em que viveis", é o conselho de Bahá'u'lláh "e concentrai as vossas deliberações nas suas exigências e requisitos."[4]

Estas perspectivas têm profundas implicações na condução dos assuntos humanos. É óbvio, por exemplo, que, quaisquer que tenham sido os seus contributos passados, quanto mais tempo o estado-nação persistir como a influência dominante na determinação do destino da humanidade, tanto mais atrasado será o alcance da paz mundial, e tanto maior será o sofrimento infligido à população da terra. Na vida económica da humanidade, apesar das grandes bênçãos trazidas pela globalização, torna--se claro que este processo também criou concentrações de poder autocrático sem paralelo, que devem ser colocadas sob o controlo democrático internacional, sob pena de produzirem pobreza e desespero para milhões de pessoas. Do mesmo modo, os avanços históricos na tecnologia de informação e comunicação, que representa um meio tão potente de promover o desenvolvimento social e o aprofundamento da noção das pessoas quanto à sua humanidade comum, podem, com igual força, fazer dispersar e desbaratar impulsos vitais para o serviço deste mesmo processo.

--------------
Notas

[1] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá'u'lláh, CXX
[2] - Bahá'u'lláh, As Palavras Ocultas (nº 2, do Áraba)
[3] - Bahá'u'lláh, Epístolas de Bahá'u'lláh reveladas depois de Kitab-i-Aqdas[4] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá'u'lláh, CVI


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

(0) comments

Revolução Personalista I

Há cerca de duas semanas comemorou-se o centenário do nascimento do filósofo Emmanuel Mounier (1905-1950), considerado o pai do personalismo. A Agência Ecclesia dá-nos conta dum congresso realizado em Roma, iniciativa da Universidade Pontifícia Salesiana, para comemorar a data. As cinco centenas de participantes neste congresso decidiram apoiar a causa da beatificação de Mounier, a quem o Pe. Pascual Chávez, Reitor-Mor dos Salesianos se referiu como "um corajoso pensador, robusto construtor da história, autêntico empresário do pensamento comprometido, que deu uma contribuição decisiva para repropor a relação entre fé e história".
Não sendo eu perito em matéria filosófica, decidi pesquisar um pouco sobre a Revolução Personalista proposta por Mounier. O resultado – este texto – é mais uma colecção incompleta de recortes do que uma síntese. Ainda assim, sendo escassas (para não dizer nulas) as referências a Mounier que tenho lido (nos blogues e não só), parece-me pertinente recordar aquele que teve uma influência decisiva no que viria a ser o Concílio Vaticano II e entre nós na geração dos "vencidos do catolicismo", inspiradores deste blogue.

Para percebermos um pouco mais do que foi a filosofia personalista, convém enquadrá-la no seu contexto, sobretudo porque ela não se apresenta como um sistema filosófico fechado. Diz-nos João Bérnard da Costa, no prefácio do opúsculo "O Personalismo", de Mounier, por ele traduzido em 1960 e agora relançado pela editora Ariadne (lamentavelmente com erros ortográficos crassos): «O valor da filosofia de Emmanuel Mounier coloca-se para nós de forma não absolutizada nem peremptória, e julgamos situá-lo se dissermos que o seu maior motivo de interesse reside na temporalidade da sua filosofia, ou seja, no vivo diálogo por ele estabelecido com o mundo em que viveu (…).»
Esse contexto foi o tempo entre-guerras na primeira metade do século XX. É por volta de 1930, em França, que a revista Esprit e alguns grupos próximos publicam diversos estudos, interpelados pela "crise política e espiritual que então alastrava na Europa", na palavras do próprio Mounier. Sobre o conteúdo deste pensamento vale a pena traduzir um parágrafo deste artigo de Ramón Alcoberro:
«O "personalismo" não propunha uma filosofia da história, nem uma antropologia, nem uma teoria política, antes se apresenta como um movimento de acção social de tipo cristão que une fortes elementos comunitários com a reflexão conceptual de raíz teológica sobre o sentido transcendente da vida. Daí que os personalistas não gostem de se considerar militantes de um sistema ou de uma "ideologia", assumindo antes o personalismo como uma "orientação" da vida em sentido comunitário. Assim, o "personalismo" consiste, mais do que numa teoria fechada, numa "matriz filosófica" cristã, ou uma tendência de pensamento dentro da qual são possíveis matizes muito diversos mas que têm em comum assumir a perspectiva crente e a condição dialógica da pessoa, quer dizer, a aposta pelo diálogo comunitário, como condição que torna possível a filosofia. Para compreender a sua proposta é necessário assumir, quase como axioma, ou como regra de vida, que "pessoa" significa muito mais que "homem", e inclusivamente simboliza o contrário de "indivíduo"».

Estamos a cerca de trinta anos do Vaticano II quando a revista Esprit começou a ser publicada em 1932. Mounier quis pensar uma filosofia cristã conscientemente contemporânea. Isso não seria novidade hoje, porém, num momento em que o cristianismo e a modernidade estavam de costas voltadas, representou uma lufada de ar fresco no pensamento para tantos católicos que aí encontraram uma primeira possibilidade de diálogo com a modernidade. A sua obra pode ser entendida como uma resposta crente à filosofia da suspeita (Marx, Nietzschem, Freud). «Contudo, e paradoxalmente» – diz-nos de novo Alcoberro – «Mounier anuncia sem o saber a pós-modernidade, ao propôr 'Refaire la Renaisance' como objectivo de um pensamento católico que não pode estar frontalmente contra a modernidade mas que deve antes mostrar a insuficiência do modelo humanista (e individualista) herdado do renascimento e do iluminismo.»
Para este programa que chama de um novo humanismo, Mounier parte da pessoa. Na fórmula de Lacroix, do mesmo prefácio já citado: «Mounier n'est pas allé du personalisme à la personne, mais de la personne au personnalisme, et le personnalisme n'a jamais été pour lui un système philosophique, mais que le moyen de rappeler chacun à lui-même et à tous». Ele encontra na história humana esse movimento de personalização – de elevação espiritual do homem – não de forma automática ("Nada há que deixe prever o final, num curto espaço de tempo, desta luta"), mas como elemento fundamental da essência do que é ser pessoa ("Nada nos permite duvidar de que ela seja constitutiva da nossa condição"). Mounier assume-se assim como um optimista trágico: "entre o optimismo impaciente da ilusão liberal ou revolucionária e o pessimismo impaciente dos fascismos, o caminho próprio do homem está nesse optimismo trágico onde encontra a sua justa medida num clima de grandeza e de luta".
Esse optimismo alimenta-se do sentido e da transcendência, que surgem «como remédios contra a "angústia" e o "desespero" existencial.» – de novo nas palavras de Alcoberro – «A "revolução" do século XX não seria, pois, o socialismo que considera os indivíduos com números e membros de uma massa, mas antes o redescobrimento de uma comunidade onde o homem possa ser "pessoa" e não simples número.» Como diziam no primeiro número da Esprit, «a revolução será moral ou não será». No livro "Revolução Personalista e Comunitária", Mounier explica a hierarquia de valores onde funda essa revolução moral: «O que é então para nós o espiritual? Esta é a nossa hierarquia de valores: primazia do vital sobre o material, primazia dos valores da cultura sobre os valores vitais e primazia, sobretudo, desses valores acessíveis a todos na alegria, no sofrimento, no amor de cada dia, e que (…) denominaremos – dando às palavras uma força que as liberte da vulgaridade – valores de amor, de bondade, de caridade. Esta escala dependerá para alguns de nós da existência de um Deus transcendente e de uns valores cristãos, sem que para outros ela seja fechada no topo.»

Na impossibilidade de apresentar um resumo desta filosofia, até porque já percebemos que ela não é um sistema fechado, vale a pena percebermos a influência e pertinência do pensamento personalista para outros pensadores. Num texto autobiográfico, o padre jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz, eminente filósofo brasileiro, dá-nos conta do seu contacto com o personalismo e com a Esprit: «(…) devo confessar que li Sartre com os olhos tomistas de Maréchal e daí resultou o meu primeiro artigo de filosofia (…). Posso dizer que dessa crítica ao existencialismo de tipo sartreano nunca voltei atrás, não obstante o profundo choque intelectual que a obra de Sartre causou em todos nós naqueles anos do após-guerra em que tudo se questionava, tudo se julgava possível, mas sobre os quais pairava o obscuro pressentimento de um novo ciclo de crises mais profundas e mais decisivas. Sobre as dimensões e as direcções dessas crises que se anunciavam falava-nos a obra de E. Mounier, outra descoberta capital desses anos, e a leitura, mês após mês, da revista Esprit, que nos oferecia um fio condutor na complexidade do universo social e político. O personalismo foi, para mim, o primeiro instrumento de leitura do mundo moderno nos seus aspectos políticos e sociais, que nossa formação escolástica desconhecera soberanamente (…) e que a obra do [Jacques] Maritain dos anos 30 começara a revelar-nos. Considero importante, para mim, essa espécie de baptismo personalista nos primeiros passos da minha reflexão social e política, reflexão que, a partir dessas descobertas intelectuais e dessas experiências do imediato após-guerra, não me deixará mais e conhecerá, mais tarde, momentos de exaltação e de amarga decepção. Com efeito, foi através do personalismo que se deu o meu primeiro contacto com o marxismo, nas polémicas em que Mounier esteve envolvido, de um lado com os ideólogos do Partido Comunista francês e com alguns "cristãos progressistas", de outro com o Pe. Fessard, um dos nossos heróis da "nouvelle théologie". Só bem mais tarde irei ao estudo directo de Marx, mas devo reconhecer que a marca personalista estará doravante indelevelmente presente na minha leitura – e na minha crítica – do marxismo.»

Também pelas nossas terras portuguesas a influência de Mounier foi significativa. Basta dizer que a referência à revista "Esprit" estava proibida pela censura durante o regime salazarista.
Podemos dizer que a revista "O Tempo e o Modo" bebeu no personalismo e na "Esprit" a sua principal influência. O mesmo valendo para a Moraes Editora, lançada por Alçada Baptista, que se propunha, pelas suas ideias, a romper com os vários conformismos da sociedade de então. Dessa influência nos é dado conta num artigo, de novo da autoria de Bérnard da Costa, intitulado "Mounier e O Tempo e o Modo", publicado aquando do segundo aniversário da revista. O artigo chamava-se inicialmente "Esprit e O Tempo e o Modo". Para fugir às malhas da censura, alteram todas as referências à "Esprit" para "a revista de Emmanuel Mounier". O artigo passou. Aí são enumerados quatro pontos de contacto entre estas duas revistas:
1. Foram ambas pioneiras na criação de um espaço comum de diálogo entre crentes e não-crentes, com a ressalva de que uma se iniciou no contexto francês dos anos trinta e outra no contexto português dos anos sessenta. Se nos anos pré-conciliares isso não era já uma novidade, parece-me que o era no contexto português.
2. Nunca foram revistas confessionais, apesar de nelas participarem muitos católicos. Sobre a participação dos católicos, cite-se a brilhante formulação de Mounier: "nem semi-católicos, nem neo-católicos, filhos da Igreja, simplesmente".
3. A adesão aos valores personalistas, bem expressa em expressões como "primado da pessoa e da História humana" ou luta contra a "desordem estabelecida".
4. Fuga a um qualquer partidarismo concreto, embora devido ao enfoque de ambas possam ser claramente chamadas de revistas políticas.

Para terminar, realçar que "O Tempo e o Modo" adoptou como subtítulo "revista de pensamento e acção". O também aí a influência de Mounier deixou a sua marca: o filósofo e o homem da praxis são um só. Como dizia Péguy: o homem que não guarda as mãos puras simplesmente porque as não tem. Isso encontra-se também brilhantemente expresso no resumo de Pedro Tamen do programa de "O Tempo e o Modo": «A acção começa na consciência. A consciência, pela acção, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influír no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim o será o tempo e o modo

Para a semana prometo continuar a falar mais em concreto das ideias de Mounier.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(3) comments

quarta-feira, janeiro 19

 

Os monstros

Uma pergunta que sempre me surpreende. De onde há-de vir o dinheiro para o Estado lutar contra a pobreza?
Se é verdade que penso que o Estado deve emagrecer muito e que as suas funções se devem limitar a controlar, regular e garantir as normas justas, também é verdade que o Estado deve ser financiador, deve dispor de um orçamento generoso (se necessário através de uma aumento da carga fiscal) na luta contra pobreza e as desigualdades sociais. Há que cortar na despesa pública mas há que aumentar a despesa social do Estado efectivamente destinada à luta contra a pobreza e as desigualdades sociais.
Julgo que todos os partidos do espectro parlamentar português se podem rever no que acabei de escrever.
Tratar-se-á por isso de uma banalidade? É e não é.
Se é verdade que no CDS existirão sinceros democratas-cristãos que subscrevem aquilo que escrevi, parece-me que a tendência actual desse partido é a de um autoritarismo populista em que o neo-liberalismo é a força ideológica dominante.
O PCP, independentemente daquilo que diga, encontra-se tolhido pelo imobilismo autoritário. É um partido que defende posições sociais com as quais simpatizo mas que contém um lastro de totalitarismo cego e inumano associado a uma incapacidade confrangedora de apreender a realidade.
O Bloco de Esquerda é, tal como o PCP, um partido vigoroso na defesa da justiça social e merece-me por isso muita simpatia. Infelizmente encontra-se amarrado às chamadas "causas fracturantes" que nada têm a ver com esquerda mas sim com os valores de um ultra-liberalismo individualista ameaçador da essência da dignidade humana. É deprimente aliás o desequilíbrio que patenteia na defesa destes estranhos "valores".
O PSD e o PS são os partidos que apresentam mais pontos em comum com os meus pontos de vista. Ambos consideram a justiça social como um valor fundamental com um profundo respeito pelas liberdades e pelos mecanismos democráticos. Estes partidos, contudo, porque são os únicos partidos com possibilidade de exercer o poder (felizmente), atraem para o seu seio o piorio da sociedade portuguesa e carregam às costas verdadeiros monstros sociais.
Em primeiro lugar, convergem neles os populistas autoritários que constituem uma permanente ameaça para a independência dos meios de comunicação social, para os tribunais e para a justiça em geral. Se existe algo a que os populistas autoritários têm um particular ódio é à liberdade de expressão, à independência e isenção dos meios de comunicação social e à independência e isenção dos tribunais e das polícias.
Em segundo lugar, frequentemente em sobreposição com os populistas autoritários, encontramos nestes partidos as clientelas, a mediocridade, as corporações, os boys e todos os interesses subsídio-dependentes.
Finalmente, em terceiro lugar, gravitam na sua órbita os neo-liberais normalmente disfarçados de "eminências competentes". Os gestores, analistas, patrões, arengando competência sem dizerem uma só palavra sobre as despesas públicas destinadas à luta contra a pobreza e as desigualdades sociais. Pretensamente neutros, estes tecnocratas, envolvem-se num manto de competência acima da moral. Para eles a economia parece ser uma ciência descritiva como a zoologia em que apenas interessa saber "como é" sem ser preciso saber "porquê" e "para quê". A competência é necessária. Mas é preciso saber quais os valores morais ao serviço dos quais a competência se encontra. É que os nazis também foram extremamente competentes na barbárie.

Não deixa de ser irónico que o PS e o PSD agora andem a dizer que se copiam um ao outro. Espero que assim seja. Espero que em matéria de radicalismo na luta contra a pobreza e as desigualdades sociais se copiem muito e que se um diz mata o outro diga esfola.
Se se querem diferenciar existe uma área chave para fazer a diferença: recusem totalmente qualquer cedência aos populistas autoritários, às clientelas corporativas subsidio-dependentes e aos neo-liberais que pululam nestes partidos e que nada têm a ver com as doutrinas de que estes se reclamam. Aí está algo de muito importante que poderia fazer a diferença entre eles.
Dir-me-ão que só é possível a um líder destes partidos libertar-se destes monstros se alcançar uma maioria absoluta. No pressuposto (não provado) que sim, não tenho dúvidas em dizer que entre estes dois partidos, se não for possível estabelecer com clareza qual o que se encontra mais atolado nos monstros que acabei de referir e qual o que defende o maior aumento da despesa pública efectivamente destinada à luta contra a pobreza e as desigualdades sociais, escolherei aquele que me parece mais próximo da maioria absoluta. Qualquer pessoa de bom-senso fará o mesmo.

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

E Deus nisso tudo?

Nota: estava eu a terminar a 2ªparte da minha apologia da redenção, a propósito daquela “amazing grace”, começava já a tentar catar do texto os tiques de pretensiosismo intelectual que são meu apanágio, quando passo os olhos por um extraordinário texto de Leonardo Boff sobre o tsunami, texto que me foi enviado pela Conceição, velha amiga e leitora e a quem agradeço. Andava aliás, há tempos, para escrever algo do que pensava sobre este assunto que desafia a nossa humanidade e a nossa fé. Mas após lêr o texto abaixo, percebi logo que já não era mais preciso. Não pensem no entanto que se safam da estopada da redenção e da graça: sai já para a semana! Mas sejamos sérios porque o assunto é sério. Eis pois o texto de Boff:

‘Face à convulsão elementar da natureza no sudeste asiático com milhões de vítimas, especialmente de inocentes, não são poucos que, angustiados, se perguntam: E Deus nisso tudo? Ele não é bom e omnipotente como anunciam as religiões? Se é omnipotente pode tudo. Se pode tudo porque não evitou o maremoto? Se não o evitou, é sinal de que ou não é omnipotente ou não é bom. Como disse um poeta-cantador: se é para desfazer, porque fêz?
Desde que o ser humano discerniu a presença de Deus no universo e em sua vida esta contradição representa uma chaga aberta. Os teólogos cristãos inventaram a téodiceia, vale dizer, a argumentação que procura isentar Deus das desgraças do mundo e ainda esclarecer o sofrimento. E fracassaram rotundamente, porque esclarecer o sofrimento não acaba com ele, assim como ler receitas culinárias não faz matar a fome. Daí entendemos a contundência de Job, o eterno protestante, contra todos os seus "amigos" ( e aí incluo a mim como teólogo e todas as religiões) que lhe queriam explicar o sentido da dor: "Vós não sois senão charlatões e médicos de mentiras. Se ao menos vos calásseis, as pessoas tomar-vos-iam por sábios". E continuamos a não nos calar...
Face a esta situação dilaceradora podemos alimentar, penso eu , três atitudes: de revolta, de resignação e de esperança contra todo o absurdo.
A revolta se expressa por uma negação. Muitos dizem: Deus não existe. E se existir, é inaceitável, pois teríamos mais perguntas a fazer a Ele do que Ele a nós. Eu me recuso eternamente a aceitar uma criação de Deus na qual as crianças tenham de sofrer inocentemente. Este questionamento é compreensível e lógico. Mas ele não elimina o mal, pois este continua. Críticos, perguntamos: a razão é tudo? Deus pode ser aquilo que não podemos entender.
Se a revolta não responde, talvez a resignação? Esta realisticamente constata: a realidade é feita de bem e de mal. É ilusório buscar a superação do mal, pois bem e mal vêm sempre juntos como a luz e a sombra. Sabedoria é buscar o equilíbrio e aprender a viver sem uma esperança final. Freud e os sábios do Primeiro Testamento aconselham: "aceita o princípio de realidade, modere o princípio do desejo; acolha o que te acontecer, mostre grandeza na dor". Esta atitude é nobre, modifica a pessoa mas não muda a realidade brutal.
A terceira atitude é a da esperança apesar de tudo. Parte reconhecendo claramente: o mal é um mistério indecifrável. Ele está aí não para ser comprendido mas para ser combatido. Por isso não é uma teoria que lhe dá sentido, mas sim uma prática. É desta que nasce a esperança de que em tudo deve haver um sentido secreto para além do escândalo da razão. Ele se manifesta, por exemplo, no milagre de uma criança que se salva sobre um colchão que flutua nas águas revoltas ou na solidariedade do mundo todo para com as vítimas. A solidariedade não elimina a dor, cria a irmandade dos sofrentes que impede a solidão e o desespero. Os cristãos e os budistas dizem: “Deus não ficou indiferente ao sofrimento. Ele sofre connosco”. Andando no exílio da encarnação, Ele gritou:"Meu Deus, porque me abandonaste?" A paixão de Deus na paixão do mundo faz-nos crer que a esperança tem mais futuro do que a brutalidade dos factos. Deus prometeu que "não haverá mais pranto, nem luto nem morte porque tudo isso passou". No entanto, o mistério continua e como dói esse mistério!’
(Leonardo Boff)

José [GUIA DOS PERPLEXOS]



(0) comments

Gil Vicente e o tsunami

«Não se ganha nada em instrumentalizar ou em esquecer a religião. A explosiva situação actual exige novo discernimento», dizia Frei Bento Domingues um destes domingos, a propósito dos maremotos da Ásia. Algo parecido com o que, há uns 500 anos, Gil Vicente escreveu de Santarém a D. João III, a propósito de um terramoto que abalou aquela cidade.
Perante as interpretações do fenómeno feitas por uns frades, o dramaturgo queixa-se ao rei que estes diziam que a terra tinha tremido por causa dos pecados do povo e que em determinado dia viria outro se estes continuassem. Mestre gil conta que admoestou os pregadores que assim falaram dizendo que foram «acontecimentos que procedem da natureza» e «que o tremor da terra ninguém sabe como é, quanto mais quando será».
«Pareceu que estava neles mais soma de ignorância que de graça do Espírito Santo».
Gil Vicente foi um homem de fé verdadeira, que num tempo em que a ciência não era o que é hoje, soube perceber que nem tudo tem que ser explicado pelo medo ou pelo mistério.
Os comportamentos de muitos “guias de almas” que por aí há (infelizmente, muitas vezes misturados com a gente séria) permite que no nosso século ainda se confunda religião com superstição. E a superstição não é mais que o recurso ao medo como defesa da realidade.

Rui Almeida [RUIALME]

(0) comments

E se uma Igreja partida fosse coisa normal. E não "pecado"

Vamos a votos. Vamos, pois. E vamos também dizer que é possível votar da esquerda à direita.

Os meus companheiros da Terra já disseram de si várias vezes. Lembro o Timshel e o Carlos, no elogio de dois católicos ao PCP, ou o José sobre a cadeira do poder. Perdoem-me se não os "linko", obrigo ao exercício da busca nos arquivos da Terra, que pode ser fértil, pelas descobertas de meses de debates. Mais: o Zé Filipe trouxe aqui na segunda-feira um breve apontamento sobre o comunicado dos bispos, para as eleições que se avizinham. E eu próprio - em sucessivas viagens à Madeira (em 1991-1992, 1995-1996 e em 2004) reflecti sobre a cumplicidade com o poder. Em Março de 2002, quando das anteriores eleições, os bispos também reflectiram sobre a qualidade do voto dos cristãos. Recupero de então, com as devidas alterações, uma reportagem que realizei para o jornal onde trabalho, mas que julgo poder ajudar a reflectir sobre esse voto.

Os católicos andaram então de candeias às avessas. Os bispos deixaram claro que o seu voto pode ou deve ser entregue aos partidos do centro-direita. Mas há padres e leigos que não aceitaram as recomendações. E disseram que as opções políticas nada têm a ver com a fé. Da esquerda à direita, as cores políticas tinham – e têm – muitas igrejas em Portugal.
Apoiar o Bloco de Esquerda (BE) não incomodava então Francisco Fernandes Vilar, 62 anos, padre em Castelo Mendo e mandatário do movimento na Guarda. A sua «experiência» também não «incomodou» os seus colegas. E «os paroquianos admiram a abertura».
Isabel Allegro dizia que o seu apoio ao BE, «a título pessoal», «não [tinha] qualquer contradição com a fé cristã». A na altura mandatária do Bloco em Lisboa é membro do Graal. E dizia que lhe parecia «haver uma grande sintonia de muitas das propostas do BE com a mensagem evangélica, sobretudo na ideia da responsabilidade de todos por um "destino universal dos bens" e por uma justiça social efectiva».
Por outro lado, a Associação Cristã de Empresários e Gestores (Acege) deixava algumas «questões fundamentais para o próximo governo de Portugal», que devia respeitar cinco «princípios». Bruno Bobone, porta-voz da associação à época, defendia: «Não há direcção de voto». Mas deixava o aviso nas entrelinhas: o voto devia ser para «os partidos que cumpram estes valores» [enunciados naquele texto].
A Acege propunha «evitar efeitos perversos contra o fomento do Trabalho e contra o estímulo para a inovação e melhoramento das empresas». Bobone recusava que se estivesse a falar apenas do rendimento mínimo garantido (RMG), uma das medidas emblemáticas do PS: «Não se [tratava] de discutir o RMG isoladamente, [tratava-se] de uma tendência para patrocinar programas que [estimulavam] a preguiça e a indolência».
Empresários e gestores como Artur Santos Silva, Ludgero Marques, Magalhães Crespo, Jorge Jardim Gonçalves, Nogueira de Brito, José Roquete, Teixeira Duarte ou Ricardo Salgado, queriam defender «intransigentemente os direitos humanos fundamentais, a Vida Humana desde a concepção até à morte natural». Falávamos de aborto? «Claramente, matar está errado», rematava Bobone. E o recado sobre o sentido de voto estava dado.
«Sobre o próximo acto eleitoral» pronunciaram-se então os bispos portugueses. Numa «Nota pastoral do Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa», como aquela que na segunda-feira aqui se apresentou, os prelados dirigiam-se aos «fiéis católicos», para lembrar que a «criteriosa intervenção na vida pública» devia ser regida pelos «princípios inspiradores do Evangelho e da doutrina da Igreja». Não podíamos estar mais de acordo.
Os bispos recusavam «imiscuir» a sua opinião nas «justas opções partidárias», mas pretendiam «contribuir para um justo discernimento dos cristãos». O ensino religioso nas escolas públicas ou o aborto eram alguns alvos das palavras episcopais: «O respeito pelo carácter sagrado da vida humana, de toda a vida humana, desde a concepção até à morte natural», lia-se.
O aborto era – e é – uma nota dissonante entre crentes. «Ninguém pode ser a favor do aborto, mesmo aqueles que não são cristãos», dizia Isabel Allegro, que defendia o seu apoio ao BE por outras "causas": «O aborto não [era] o ponto primeiro do programa». Antes estava a defesa de «uma maior igualdade de oportunidades», de «uma maior justiça fiscal e de distribuição dos bens» – e o «BE é o partido que [trazia] isso mais claramente à superfície».
Mas o aborto estava lá – e parece voltar. Isabel Allegro não evitava confrontar o discurso oficial da Igreja: «Não é a questão do aborto em si que está em causa. Trata-se é da despenalização das mulheres que um dia, por razões que desconhecemos, fizeram aborto. O problema surge quando somos confrontados com a circunstância de milhares de mulheres em Portugal o fazerem clandestinamente e não poderem ser tratadas nos hospitais. Aí é que se põe o problema». «É que ninguém tem o direito de julgar essa atitude íntima dessas mulheres. É um erro humano, e até cristão», sublinhava.
Hoje, como em 2002, continuo a achar que o caminho não se faz a preto e branco – e que há muitos cinzentos. Prometo continuar esta reflexão.

Arquivo - leia mais alguns textos divulgados na Ecclesia, em 2002, a propósito das eleições.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

(0) comments

segunda-feira, janeiro 17

 

Século de Luz ou Século de Trevas?

NOTA: O texto seguinte é um excerto de documento publicado pela Comunidade Internacional Bahá'í, intitulado "Quem está a escrever o futuro?". Trata-se de uma reflexão sobre a evolução da humanidade ao longo do século XX à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Devido a extensão do documento, este será publicado gradualmente. Os subtítulos, as frases a bold, e entre parêntesis recto, assim como algumas notas são a minha responsabilidade.
------------

Apreciar as transformações trazidas ocorridas no século passado é não negar a escuridão envolvente, que faz realçar com nitidez os acontecimentos: o extermínio deliberado de milhões de seres humanos indefesos, a invenção e o uso de novas armas de destruição, capazes de anular populações inteiras, o despertar de ideologias que sufocaram a vida espiritual e intelectual de nações, o danificar do ambiente físico do planeta numa escala tão grande que pode levar séculos a sarar, e o prejuízo incalculavelmente maior infligido a gerações de crianças, ensinadas a acreditar que a violência, a indecência e o egoísmo são triunfos da liberdade pessoal. Estes são só os males mais óbvios de uma lista sem par na história, cujas lições a nossa era deixará para a educação das gerações flageladas que nos seguirão.
A escuridão, contudo, não é um fenómeno dotado de alguma forma de existência, muito menos de autonomia. Não extingue a luz, nem a diminui, mas assinala as áreas que a luz não atingiu ou iluminou inadequadamente. Deste modo, sem dúvida, será a civilização do séc. XX, avaliada pelos historiadores de uma época mais madura e desapaixonada. As ferocidades de natureza animal, que vingaram descontroladamente nestes anos críticos e que pareceram, por vezes, ameaçar a própria sobrevivência da sociedade, não impediram o regular despontar das potencialidades criativas que a consciência humana possui. Pelo contrário. Com o avançar do século, um número cada vez maior de pessoas despertou para o quão vazias eram as vassalagens, e infundados os medos, que os mantiveram cativos apenas alguns anos antes.
"Incomparável é este Dia", insiste Bahá’u’lláh, "pois ele é como olhos para os séculos e eras passadas, como uma luz para a escuridão dos tempos."[1] Nesta perspectiva, a questão fulcral não é a escuridão que atrasou ou obscureceu o progresso alcançado nos cem extraordinários anos que agora terminam. É antes uma questão de quanto mais sofrimento e desgraça que têm de ser experienciados pela nossa raça, antes que nós, de todo o coração, aceitemos a natureza espiritual que faz de nós indivíduos únicos, e arranjemos a coragem necessária para planear o nosso futuro à luz do que foi tão dolorosamente aprendido.

------------------------
NOTAS
[1] - Bahá'u'lláh, citado por Shoghi Efendi em O Advento da Justiça Divina


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

(0) comments

Os católicos e a política

O tema que hoje aqui me traz é simples. E como assim é não vou gastar demasiadas palavras para o dizer. É motivado por um comunicado dos bispos portugueses. Falemos pois dos católicos e da política.
“A política é suja”; “a política é para quem não tem escrúpulos”; “a política é insulto”; “na política todos berram”; “os políticos são todos o mesmo”. Queixumes destes são fáceis de ouvir entre o nosso povo de brandos costumes. Na comunidade crente a associação da profanidade da vida política à sua inerente “sujidade” é reflexo desta mesma maneira de ver a coisa pública. Quantas vezes já ouvimos dizer “na Igreja não há políticas”. Ou “isso é política por isso não se discute aqui”. Pois bem, os bispos portugueses vêem explicar que se deve aplicar exactamente o contrário destes pressupostos. Dizem, no seu último comunicado de 14 de Dezembro de 2004: «As comunidades cristãs podem ser lugar para a discussão crítica das propostas que nos vão ser feitas, ajudando-nos uns aos outros naquele esclarecimento que antecede a nossa escolha, na certeza de que não há soluções perfeitas, nem definitivas.»

A Comissão Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, que assina este comunicado, começa por relembrar a delicadeza do momento que o país vive. Ao contrário dos que esperariam silêncio, para que “ninguém pudesse interpretar as suas palavras como ingerência na política”, os bispos decidiram falar. E decidiram bem. Escusando-se a comentar os pormenores e causas da situação presente, este comunicado parte das dificuldades que atravessamos para apelar à participação responsável dos cristãos: «Na campanha eleitoral que se aproxima temos todos o dever de nos esclarecermos criteriosamente, passando para além do discurso eleitoralista e apreciando as soluções objectivas que nos são propostas para o Governo da Nação. Para tal, importa avaliar da sua justiça, da sua viabilidade, da sua consonância com os princípios da dignidade humana, do respeito pela vida, da dimensão social que todas as políticas devem ter.»
Para os cristãos, esta exigência não é apenas uma questão de cidadania. Como sublinham os bispos mais adiante: «não esqueçamos, em nenhum momento, que a participação política é sempre busca da verdade, expressão do amor fraterno, escolha da honestidade e da generosidade como padrões de comportamento. E nós cristãos sabemos que passa também por aí a construção do Reino de Deus.»

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(0) comments

quarta-feira, janeiro 12

 

A minha experiência de Taizé

Era minha intenção colocar aqui hoje a terceira parte do texto "Qual o modelo socio-económico ideal que, do meu ponto de vista, poderá decorrer de uma concepção cristã da vida?" que aqui se anda a arrastar de há uns tempos a esta parte (a segunda parte apareceu na semana passada e seria suposto a terceira aparecer esta semana). Mas, corria o risco de deixar passar Taizé de prazo.

Devo sublinhar, já no início deste post sobre a reunião Taizé que ocorreu há uns dias em Lisboa, que não tenho vocação para mártir. A minha resistência à dor é mínima, desisto facilmente, detesto o desconforto e fico facilmente agressivo em situações físicas penosas.

Por outro lado sempre desdenhei certas manifestações físicas de Fé, normalmente associadas ao cumprimento de promessas, que consistem, nomeadamente, em a pessoa andar muito tempo de joelhos (tão comum em Fátima, por exemplo).

Diversos blogues e jornais descreveram a extraordinária manifestação de Fé que foi o encontro de Taizé em Lisboa. O encontro de Lisboa foi para os milhares de participantes uma oportunidade para fazerem uma experiência diferente de Deus e da Igreja. Os 40 mil jovens que se reuniram nos pavilhões da Expo (nunca deixarei de chamar aquela zona "a Expo") levantam uma interrogação mais premente do que nunca. Já não é possível adiar indefinidamente a comunhão entre os cristãos.

O fundador de
Taizé, Irmão Rogier, antigo pastor calvinista, de 89 anos, não se desvia nunca da realidade que nos rodeia, mas não se esquece de procurar nela um sentido oculto, mais profundo. A proposta de Taizé foi de encontro aos temas da pobreza, da imigração, da fome, das prisões, falou-se de modelos de desenvolvimento e da construção da paz: "vida interior e solidariedade humana", como diz o “lema” da Comunidade.

Mas, este post não é para descrever Taizé mas a minha experiência. A minha experiência de Taizé resume-se a uma noite de oração num dos pavilhões da Expo há quase duas semanas atrás.

A oração dessa noite foi sublime. Raramente vivi em multidão tão intensos momentos de meditação e reflexão. Não gosto de multidões e, mesmo rezar é algo prefiro mais fazer só, comigo próprio, do que em comunidade. Mas nunca pensei que também a meditação e a reflexão pudessem ser tão profundas no meio de milhares de pessoas.

Acabado o momento de oração, começaram os meus problemas. Tendo ficado muito satisfeito com aquela vivência e desejando prolongá-la reparei que tal era possível pois as pessoas que assim o desejassem poderiam ir junto a uma cruz que se encontrava no chão e lá depor a testa na cruz como acção simbólica de, já não me recordo bem mas era algo como "depositar em Cristo as nossas preocupações e as preocupações dos nossos irmãos".

Eram muitas centenas, talvez mesmo milhares, as pessoas que desejaram esse particular modo de oração e suponho que a cruz não fosse muito grande. Por razões de segurança, as pessoas não podiam estar em pé pois existia o risco, dado o elevado número de pessoas comprimidas, de se dar um movimento que pusesse em causa a vida ou a integridade física de outras pessoas. Portanto as pessoas ajoelhavam-se (não havia espaço para estarem sentadas e por outro lado era uma atitude mais adequada àquele modo de oração). E, muito lentamente, as pessoas deslocavam-se de joelhos em direcção à cruz.

Ao fim de algum tempo de joelhos a deslocar-me lentamente na direcção da cruz, comecei a experimentar um desconforto acentuado associado a um certo grau de sofrimento. Continuei a rezar interiormente e a pensar que tinha que resistir até chegar à cruz. Bem fraca seria a minha Fé se, apenas por simples cansaço e desconforto, desistisse do caminho da cruz. Os minutos continuaram a passar, já se teria talvez passado mais de uma hora naquela lenta marcha de joelhos em direcção à cruz. As dores e o incómodo começavam a ser violentos e eu transpirava, cada vez mais abundantemente, apesar de não estar nenhum calor especial. Só pensava "não posso desistir, não posso desistir". Interrogava-me como era possível que aquilo demorasse aquele tempo todo e pensava que a velocidade e a capacidade de transmissão das preocupações para a cruz certamente permitiria que as pessoas chegassem lá e se limitassem a tocar a cruz com a testa durante um segundo. Pelo sim pelo não, meditava em todas as minhas preocupações, nas dos meus próximos e nas do mundo inteiro, de tal modo que quando chegasse a minha vez assim fizesse.

O sofrimento continuava mas lentamente aproximava-me da cruz. Só que enquanto a progressão na direcção da cruz era aritmética, a progressão do sofrimento era geométrica. O sofrimento era já, nesse momento, há cerca de duas horas arrastando-me penosa e lentamente de joelhos, insuportável. Decido a levantar-me e ver o que se passava pois já estava relativamente perto da cruz. Vejo algumas pessoas de joelhos debruçadas com a testa sobre a cruz durante alguns segundos ou minutos (que me pareceram horas) e pensei: "Porra, como é que esta merda não há-de durar este tempo todo. Estes filhos da puta chegam, espetam ali os cornos, e põem-se a descansar."

Compreendi aquilo que já deveria ter compreendido pelo menos há uma hora antes. Persignei-me, benzi-me e vim-me embora.

Gostaria de acabar aqui este relato. E deixar as conclusões para quem lê este post. Mas não desejo ser mal interpretado em matérias tão sensíveis. A ambiguidade é muito bela (sobretudo quando se vislumbra algo de nítido no meio do nevoeiro) mas tem limites. Deixo por isso apenas duas conclusões relativas tão somente à minha pessoa, e quem quiser ver mais no texto do que o que nele se encontra escrito, está à vontade.

A primeira conclusão é "cuidado com a arrogância intelectual e a soberba". Frequentemente ela é apenas o outro lado de uma moeda onde também se encontram a preguiça, o egoísmo e a incapacidade de sacrifício.

A segunda é que o sofrimento quer-se qb. Nem de menos nem de mais. Uma existência totalmente confortável deixa-nos sem forças. Físicas e espirituais. Mas o sofrimento excessivo abre as portas ao pecado. Pelo menos para aqueles seres que não se encontram preparados para ele.

Timóteo Shel (TIMSHEL)

(0) comments

De como ninguém deve ser obrigado a viver no Inferno

Enquanto houver casamentos, haverá divórcios. A esta certeza incontornável, o Papa João Paulo II respondeu, em Janeiro de 2002, com um apelo aos "advogados católicos": que se recusem a tratar de processos de divórcio invocando objecção de consciência, pois o divórcio é «sempre um mal» e «contrário à justiça».

«Os operadores do direito no domínio civil devem evitar estar pessoalmente implicados em tudo o que represente uma cooperação com o divórcio», afirmou o Papa, na abertura desse ano judicial perante os juízes e advogados do Tribunal Eclesiástico da Rota Romana.

António Monteiro, então bispo de Viseu e presidente da Comissão Episcopal da Família (hoje falecido), compreendia a posição de João Paulo II, em declarações a um jornal: «Em rigor, os católicos não devem tomar parte nesses processos. Não devemos colaborar naquilo que é mau». No entanto, o prelado admite a nulidade do casamento, mas diz que nesse caso os advogados não estão a colaborar no divórcio: «Aí há falta de liberdade».

A «falta de liberdade» numa relação de um casal é uma das quarenta circunstâncias em que a Igreja admite a separação, desde que validada por tribunais eclesiásticos. Mas o veto da Igreja mantém-se: qualquer divorciado que opte por um segundo casamento, não vê reconhecido pela Igreja esse acto. Uma «discriminação», sustenta o teólogo Herbert Haag, no livro «Liberdade aos cristãos» (ed. Círculo de Leitores, 1998).

O procedimento actual da Igreja perante este problema não é solução. Precisa-se de «outra compreensão», defendeu também à época Anselmo Borges, padre e teólogo: «Por princípio, na própria dinâmica de um casamento, as pessoas estão convencidas que o Amor é eterno e vão para o matrimónio nessa convicção. Mas depois a vida é o que é». E acrescentava: «Hoje há múltiplos factores que levam ao divórcio. Pode ser por culpa de um, ou de outro, ou de ninguém. E ninguém é obrigado a viver no Inferno!». Ou, nas palavras de Haag, «um malogro não equivale a culpa – é, antes de mais, um efeito das limitações humanas».

O bispo de Viseu não desarmava: «Colaborar num divórcio que tem uma intenção premeditada é colaborar numa causa que é ilegítima. Todo e qualquer casamento que seja válido tem que ser perpétuo». Por sua vez, João Paulo II pedia «a difusão de uma mentalidade de costumes sociais e de uma legislação civil a favor da indissolubilidade».

O bispo de Roma parece divorciado da "prática" dos crentes, como antecipava Herbert Haag: «O veto da Igreja em relação ao divórcio não tem mais êxito do que a proibição do uso de contraceptivos».

O divórcio nem sempre foi proibido

A Igreja encarou de modo diverso o divórcio, ao longo de dois mil anos de história. Apesar de ter sido sempre encarado com grandes restrições, a prática actual só seria consagrada no Direito Canónico no século XII, com o matrimónio a ser elevado a sacramento, implicando a sua indissolubilidade – mas apenas no Ocidente. Já antes do cisma de 1054, a Igreja do Oriente aceitava o divórcio e os segundos casamentos.

O reformador Lutero defendeu mais tarde a secularização do matrimónio, o que obrigava à separação entre direito civil e canónico. Mal interpretado, quando se referiu ao casamento como «coisa do mundo», aquele religioso viu as suas ideias serem aplicadas em países reformadores, como a Alemanha, mas já no Iluminismo: o direito ao divórcio civil é legislado pelo Estado em 1875.

A Igreja de Roma tem justificado a indissolubilidade do casamento com uma frase de Jesus: «Aquilo que Deus uniu, não o separe o homem». O teólogo Herbert Haag entende ser «correcto que a tradição da Igreja se baseie» naquela frase. Mas considera que «é errado que apenas esta frase seja tida em linha de conta», esquecendo outras passagens dos textos bíblicos. E, assim, prefere "ler" aquelas palavras «como um apelo de natureza ética», que «a Igreja cometeu o erro de transformar numa lei».

O caminho para o acolhimento dos divorciados passa por aqui. Fazer um apelo ético e não transformar em lei aquilo que só exclui.

Outras fontes consultadas: «Uma História de Deus», de Karen Armstrong (ed. Temas e Debates, 1998).

Miguel Marujo (
CIBERTÚLIA)

(0) comments

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?