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Segunda-feira, Dezembro 13

 

Um Deus pelo qual se conclui logicamente não é o verdadeiro Deus

Há dias surgiu uma notícia na internet, que um ateísta destacado acabou de convencer-se da existência de Deus. Alguns blogistas crentes, entre eles o meu amigo Timshel, se alegraram com a noticia e divulgaram-na, não sem um certo sentido de humor, como argumento de combate aos ateistas, mais concretamente a estes ateistas.
Da minha parte, não fiquei muito impressionado, e não pelo facto de que o Deus descoberto pelo tal Professor Flew assumidamente nada tem a ver com o Deus cristão, este qual – aliás – caracteriza em termos muito pouco simpáticos.
A minha falta de entusiasmo deriva antes da minha convicção de que as demostrações racionais da existência de Deus são, para além de até agora falaciosas, fúteis.
Porque enquanto entendo e partilho do espanto do Homem perante o mistério que é a vida e a criação, não vejo como uma explicação científica pode eliminar este espanto. (E ainda bem!) Este espanto existe em face ao transcendente. Explicações científicas podem retirar questões do transcendente e integrá-las, respondidas, no nosso domínio do conhecimento, mas é uma ilusão achar que por isso o transcendente é diminuido. É uma operação como retirar uma área finita do infinito. (Mais uma vez apresento este argumento batido: Se é preciso Deus para explicar a origem das coisas, quem explica a origem de Deus?)

Comentei essa notícia então, parafraseando Lao Tse
[1]: “Um Deus pelo qual se conclui logicamente, não é o verdadeiro Deus.“
E isso acredito mesmo. Mas se não acho possivel concluir pelo Deus racionalmente, apesar de acreditando nos benefícios e no imperativo do uso da razão, isso não significa que acho Deus como inexistente ou, o que um positivista podia chamar equivalente, a questão da sua existência irrelevante.
A existência de Deus comprova-se, por mim, pela experiência. Não – necessáriamente – por uma experiência mística, por uma aparição qualquer, mas pela experiência que podemos fazer do Amor: se fomos felizes, por tê-lo recebido, em todo o caso, exercendo-o.
Acredito que essa experiência faculta-me as referências mais fiáveis para fazer uso da razão: não para construir edifícios doutrinárias em cima do meu conceito do divino, mas exactamente pelo contrário, na fiscalização permanente dos edifícios doutrinários, meus e de outros, religiosos e de outros, se eles estão ainda de acordo com a base válida, que não é uma conclusão, mas uma experiência que nos é dada como uma Graça: o Amor.

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[1] Os primeiros versos do Tao Te King:
O caminho que pode ser seguido

Não é o Caminho Perfeito.
O nome que pode ser dito
não é o Nome eterno.

Lutz [QUASE EM PORTUGUÊS]


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Quem está a escrever o Futuro? (2)

NOTA: O texto seguinte é um excerto de documento publicado pela Comunidade Internacional Bahá'í, intitulado "Quem está a escrever o futuro?". Trata-se de uma reflexão sobre a evolução da humanidade ao longo do século XX à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Devido a extensão do documento, este será publicado gradualmente. Os subtítulos, as frases a bold, e entre parentesis recto, assim como algumas notas são da minha responsabilidade.
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DIFERENTES VERTENTES DA EVOLUÇÃO HUMANA

(...) A divulgação do sofrimento aterrorizador, visível nas vítimas da perversidade humana durante o decorrer da guerra, provocaram uma onda de choque a nível mundial – e o que pode apenas ser designado como um profundo sentimento de vergonha. Deste trauma, emergiu uma nova espécie de compromisso moral que foi formalmente institucionalizado no trabalho da Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos e das suas agências associadas, desenvolvimento inconcebível para os governantes do séc. XIX, a quem Bahá'u'lláh se tinha dirigido sobre este assunto. Assim fortalecido com este poder, um corpo crescente de organizações não governamentais empenhou-se em assegurar que a Declaração Universal dos Direitos do Homem seja estabelecida como base dos padrões normativos internacionais e seja consequentemente implementada.
Um processo paralelo teve lugar no que respeita à vida económica. Durante a primeira metade do século, em consequência da devastação provocada pela grande depressão, muitos governos adoptaram legislação que criou programas de assistência social e sistemas de controlo financeiro, fundos de reserva e regras comerciais que visavam proteger as suas sociedades de um repercutir de tal devastação. O período seguinte à Segunda Guerra Mundial trouxe o estabelecimento de instituições cujo campo de operação é global: o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio e uma rede de agências de desenvolvimento, dedicadas a racionalizar e promover a prosperidade material do planeta. No final do século – quaisquer que sejam as intenções e apesar do carácter rudimentar da presente geração de meios – as massas da humanidade têm visto que o uso da riqueza do planeta pode ser fundamentalmente reorganizado em resposta a concepções de carência inteiramente novas.
O efeito destes progressos foi enormemente ampliado pela acelerada extensão da educação às massas. Para além da vontade dos governos nacionais e locais de atribuir a esta área fundos grandemente aumentados, e da capacidade da sociedade de mobilizar e treinar exércitos de professores profissionalmente qualificados, dois progressos do séc. XX tiveram uma particular influência a nível internacional. O primeiro foi a série de planos de desenvolvimento centrados nas necessidades de educação e financiados massivamente por entidades como o Banco Mundial, agências governamentais, grandes fundações e vários ramos do sistema das Nações Unidas. O segundo foi a explosão da tecnologia da informação, a qual fez de todos os habitantes da terra potenciais beneficiários de todo o conhecimento da raça.
Este processo de reorganização estrutural a uma escala planetária foi animado e reforçado por uma profunda mudança de consciência. Populações inteiras viram-se abruptamente obrigadas a enfrentar os custos de hábitos mentais arreigados que geravam conflitos – e a fazê-lo mesmo debaixo da mira da censura mundial daquilo que outrora tinham sido consideradas atitudes e práticas aceitáveis. O efeito viria a estimular uma mudança revolucionária na forma como as pessoas se vêm umas às outras.

Ao longo da história, por exemplo, a experiência parecia demonstrar – e os ensinamentos religiosos confirmar – que as mulheres são de uma natureza essencialmente inferior aos homens. Da noite para o dia, no esquema histórico das coisas, esta concepção prevalecente bateu subitamente em retirada por todo o lado. Por muito longo e doloroso que seja o processo de fazer concretizar a declaração de Bahá'u'lláh em como mulheres e homens são, em todos os aspectos, iguais, o apoio intelectual e moral a qualquer ponto de vista oposto desintegra-se continuamente.
Uma outra característica da visão que a humanidade tinha de si própria ao longo dos anteriores milénios era a celebração de distinções étnicas que, em séculos recentes, endureceram em várias fantasias racistas. Com uma rapidez que, na perspectiva histórica, é de cortar a respiração, o séc. XX viu a unidade da raça estabelecer-se como um princípio orientador da ordem internacional. Hoje, os conflitos étnicos que continuam a ser a causa de devastação em muitas partes do mundo são vistos, não como traços característicos das relações entre povos diversos, mas como aberrações, que têm de ser trazidas a um controlo internacional eficaz.
Durante o longo período de infância da humanidade, também se partia do princípio – uma vez mais, com a concordância total da religião organizada – que a pobreza era uma característica duradoura e inevitável da ordem social. Agora, contudo, este pressuposto que moldou as prioridades de todos os sistemas económicos que o mundo conheceu, tem sido universalmente rejeitado. Pelo menos no plano teórico, os governos têm vindo a ser, por todo o lado, olhados essencialmente como provedores responsáveis por assegurar o bem-estar de todos os membros da sociedade.

Particularmente significativo – devido às suas íntimas relações com as raízes da motivação humana – foi o abrandar do preconceito religioso. Prefigurado no "Parlamento de Religiões", que atraiu imenso interesse no final do séc. XIX, o processo de diálogo e colaboração inter-religioso reforçou os efeitos da secularidade, ao minar as em tempos impenetráveis paredes da autoridade clerical. À face da transformação das concepções religiosas, que os últimos cem anos testemunharam, mesmo o actual eclodir de reacções fundamentalistas pode vir, em retrospectiva, a ser olhado como pouco mais do que acções desesperadas de defesa contra uma inevitável dissolução do controlo sectário. Nas palavras de Bahá'u'lláh, "Não pode haver dúvida alguma de que os povos do mundo, de qualquer raça ou religião, derivam a sua inspiração de uma só Fonte divina e são os súbditos de um único Deus."[1]

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NOTAS
[1] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá’u’lláh, CXI


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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A Nova Evangelização

Na semana passada defendi que são hoje necessárias a desconstrução e re-elaboração da fé cristã: "Em primeiro lugar, desconstruir significa voltar a encontrar as origens doutrinais e lê-las à luz do conhecimento humano actual. Em segundo lugar, desconstruir implica reformular – voltar a formular, encontrar novas formas de expressão da fé mais de acordo com a nossa cultura."
Esta semana deparei-me com mais alguns sinais dessa necessidade. Perdoem-me a preguiça, mas hoje o texto é sobretudo feito de citações.

Há algumas semanas, o "Público" noticiou o Congresso Internacional da Nova Evangelização, realizado em Paris, que continuará no próximo ano em Lisboa.
Muito de bom foi feito sob o pano de fundo dessa iniciativa.
Para falar da Nova Evangelização convém termos memória destas coisas e não olhar só para as iniciativas recentes. Foi o que fez Jacques Haab, num texto publicado na "Viragem", revista do
Metanoia, em Dezembro do ano passado(1):
«[A Nova Evangelização] foi um projecto vasto que foi instalado progressivamente a partir dos anos 80, sob o impulso de João Paulo II. Tornava-se evidente a tendência acelerada para a secularização das pessoas (…) em regiões do mundo de tradição cristã, nas quais, evidentemente, se inclui a Europa. Paralelamente, tomam lugar novas formas de religiosidade, até às mais loucas das seitas.
A finalidade do sistema Nova Evangelização foi contrariar essa tendência e partir à reconquista das almas ingratas e perdidas. Tudo parece indicar que as escolhas estratégicas foram feitas com intenção de eficiência rápida.
Quer-se reencontrar depressa o contacto com as populações, tentando melhor resposta às suas expectativas, de modo a que não vão procurar mais longe. Como se se aceitasse o risco de pôr em causa o espírito do Concílio – mesmo que se afirme bem alto que continuamos na sua linha – e de deixar de lado certos valores evangélicos.»
Seguidamente Haab analisa esses aspectos que se podem sintetizar no seguinte: a Nova Evangelização quer preservar a imagem de uma instituição atraente, calorosa ("o que em si, vai na linha dos valores evangélicos, desde que não se tire partido de sentimentalismos desarmantes"), visível ("o que é um direito, mas usa-se uma táctica da Igreja que consiste em fazer crer que esse direito lhe é malignamente recusado em nome da laicidade") e garante de segurança ("privilegia-se a continuidade – o que é, muitas vezes, uma forma suave de retrocesso – mais do que a procura: o unanimismo da «comunhão» vale mais do que o debate público; a autoridade paternalista vale mais do que a confiança"). Adiante fala de muitas medidas que contrariam as declarações de abertura à modernidade, como os golpes na teologia da libertação; as chamadas de atenção aos teólogos e à sua liberdade de investigação; a incitação à demissão de alguns bispos; o descrédito quanto ao legado da "época das Luzes"; a afirmação arrogante de exclusividade da mensagem de Jesus (apesar da organização de vistosos encontros inter-religiosos); a recusa de um debate sério e profundo do estatuto eclesial dos padres, leigos e especialmente das mulheres; a multiplicidade de canonizações; o reforço do poder e intervencionismo da Cúria Romana e o alargamento do domínio da «infabilidade» papal.
Nesse texto, Haab analisa ainda as "operações de charme em altas instâncias", as questões relativas à Constituição Europeia e do ensino da religião nas escolas. O último parágrafo, intitulado "Onde fica o Evangelho?" merece ser transcrito na íntegra:
«É este conjunto estratégico de recuperação-por-etapas-"realistas" que repugna a muitos cristãos convictos, investidos no trabalho de Igreja ou do mundo: cheira-lhes a demasiado político, falacioso, calculador, manipulador, paternalista, clerical. Muito longe dos comportamentos de Cristo na sociedade do Seu tempo; capaz de desencadear rejeições violentas. Pensam que não é nestas condições que o Evangelho será verdadeiramente lido, recebido, vivido em toda a sua profundidade e verdade, sob a acção da Graça. Esperam ainda uma Igreja formada por um conjunto de baptizados, fortes na fé mas sem vaidade, sem ostentação. Capaz de construir a cidade do nosso tempo com todas as outras mulheres e homens, em igualdade, em laicidade.»

Por isso, sorrio condescendente quando vejo notícias de que a comunidade Emanuel vai cantar "evangelizando" pelas ruas de Lisboa... Espero que o Congresso de Lisboa seja mais do que isso. Que procure re-elaborar a mensagem cristã na cultura de hoje, como defendi a semana passada. Ou, nas
palavras do Padre Tolentino Mendonça: «O projecto da nova Evangelização não deveria privilegiar uma nova inculturação do cristianismo, enfrentando o problema cada vez mais decisivo da sua tradução cultural? A vasta realidade da acção e animação pastoral, que se distribui por âmbitos e níveis tão diversos, e quase esgota a totalidade dos esforços, não deveria preocupar-se com a espessura cultural das suas propostas e objectivos? Por vezes, a imagem que passa é a de um circuito fechado e parcelar, sem a capacidade de fazer emergir as questões de fundo, distanciado dos debates culturais que estamos a viver, impotente para interagir positivamente com eles e estimular os crentes a se constituírem protagonistas dessa elaboração, segundo o mandato evangélico.»
Ainda que os congressos da Nova Evangelização ajudem a encontrar novas formas de expressão da fé mais de acordo com a nossa cultura, continua a ser necessário encarar sem medo a necessidade de reler e questionar a doutrina da Igreja à luz da realidade e do conhecimento humano actuais. Nenhuma destas ideias vive sem a outra. A evangelização a partir da cultura leva a própria Igreja a evangelizar-se. A evangelização traz sempre conversão e mudança também para a própria Igreja, como dizia o Papa Paulo VI, há 29 anos: «Evangelizadora como é, a Igreja começa por se evangelizar a si mesma. Comunidade de crentes, comunidade de esperança vivida e comunicada, comunidade de amor fraterno, ela tem necessidade de ouvir sem cessar aquilo que ela deve acreditar, as razões da sua esperança e o mandamento novo do amor. Povo de Deus imerso no mundo, e não raro tentado pelos ídolos, ela precisa de ouvir, incessantemente, proclamar as grandes obras de Deus, que a converteram para o Senhor; precisa sempre ser convocada e reunida de novo por ele. Numa palavra, é o mesmo que dizer que ela tem sempre necessidade de ser evangelizada, se quiser conservar frescor, alento e força para anunciar o Evangelho».(2)
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(1) traduzido do originial "L'Église de la Nouvelle Évangélisation et l'Europe", Jacques Haab, Les réseaux des Parvis, nº18, Junho 2003
(2) Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, sobre a evangelização
no mundo contemporâneo, Papa Paulo VI (8 de Dezembro de 1975), N.º 15

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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Quarta-feira, Dezembro 8

 

Qual o modelo socio-económico ideal que, do meu ponto de vista, poderá decorrer de uma concepção cristã da vida? (1)

Por diversas vezes, nomeadamente aqui, defendi a necessidade de regras mundiais uniformes, regras sociais em sentido lato, que englobem, nomeadamente, regras sociais em sentido estrito, regras fiscais e regras ambientais, que impedissem a globalização económica de ser o capitalismo selvagem do século XIX de volta no século XXI.
Julgo ter explicado porque é lógico para um cristão assumir tal luta (o Papa chama-lhe a luta por uma "globalização solidária") como uma consequência da sua religião.


O tema que hoje e em próximos posts aqui abordarei, visa responder à seguinte pergunta: será que uma economia globalizada, socialmente regulada em termos mundiais, é o modelo económico ideal para um cristão?
Respondo desde já: não me parece. Uma sociedade desse tipo facilitaria a luta política contra a pobreza e as desigualdades mas vejo-a apenas como uma sociedade de transição. Perguntará o leitor: transição para onde?
Transição para a sociedade ideal para um cristão: a sociedade do amor, uma sociedade em que, voluntariamente, todos apliquem o princípio comunista "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades". E este princípio não seria apenas um princípio socio-económico mas um princípio universal orientador da conduta individual em todas as suas dimensões. Porque esse é o princípio do amor. E é um princípio orientador que deve constituir trave mestra do comportamento cristão já, aqui e agora.
A luta por uma economia globalizada, socialmente regulada em termos mundiais, é, por isso, uma luta por um objectivo de curto prazo. A luta contra a pobreza e as desigualdades no quadro actual de uma economia liberalizada em termos mundiais mas compartimentada por diferentes regulamentações sociais aplicáveis a nível nacional é particularmente difícil.


Os detentores do capital no mundo desenvolvido vão invocando a inexistência de regras sociais nos restantes países como razão para eliminar ou impedir a existência de regras sociais no mundo desenvolvido em nome da manutenção da competitividade. E os detentores de capital nos países em desenvolvimento vão defendendo a continuação da inexistência de regras sociais nos seus países para assim assegurarem a competitividade face ao mundo desenvolvido.
E neste jogo de empurra dos capitalistas internacionais, os pobres e os trabalhadores do mundo inteiro é que vão pagando a factura.
Bastaria a existência de regras sociais redistributivas estabelecidas mundialmente para que os mais pobres de todo o mundo vivessem em condições de dignidade.
Um imposto mundial sobre as grandes fortunas impediria os ricos de ser tão ricos e os pobres de ser tão pobres. Sem que os pobres dos países pobres (e por vezes dos países ricos), tivessem, para sobreviver, que trabalhar em condições violadores dos mais elementares princípios de dignidade humana.


Mas, e como seria na tal sociedade ideal de economia globalizada socialmente regulada em termos mundiais?
Admitindo que a redistribuição de recursos afecta o crescimento económico (porque existiriam recursos que seriam destinados à manutenção da dignidade humana de todos os homens e que, portanto, não seriam afectos à produtividade), em que condições é moralmente admissível privilegiar o crescimento económico em detrimento da justiça social?
E quais os objectivos nacionais da luta política de um cristão nesta fase (de uma economia liberalizada em termos mundiais mas compartimentada por diferentes regulamentações sociais aplicáveis a nível nacional)?
Irei tentar, se Deus quiser, responder a esta questão em dois próximos posts.


Timshel [TIMSHEL]

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Uma questão de sistema nervoso

Descriminar, ver onde no meio da tua maldade, tu tens ainda assim sinais de bondade. Ver no meio da tua bondade, onde tu tens ainda assim sinais claros da maldade. Não é fácil. Não é fácil distinguir o trigo do joio. Mas ainda assim, mesmo quando julgamos que isso é quase impossível de ser feito, ainda assim permanece este quase.

Por isso, quando nos interrogatórios das diversas Cortinas de Ferro e Aço, o militante, político e ou religioso, se deparava com os que o acusavam de desvio ideológico, de prática desviante, as coisas começavam por ficar muito complicadas. E isto mesmo que não tivesse aparentemente qualquer desvio…
Penso que é dito assim. Se não for também não faz grande diferença para o que aqui nos traz. No 1984, de Georges Orwell, um dos vizinhos do protagonista afadigava-se para mostrar todo o seu empenhamento no regime totalitário. Orava regularmente ao Grande Irmão, doutrinava mulher e filho e fazia o filho militar com ardor nas milícias juvenis. Acirrava-o a lutar pelo regime, a denunciar os inimigos. Até que um dia, o filho o denunciou.
Denúncia feita, a Polícia Política perante os evidentes sinais do empenhamento da personagem, não deixa ainda assim de supor que algo de malsão se enraizara na alma dele e que o enraizamento não tardaria a dar ramos, folhas e frutos. Que todo ele, tarde ou cedo, seria um poço de embriaguês e revolta.
Por isso, é condenado à torturante reciclagem ideológica. O mesmo se passa com o protagonista. Quando depara com a Polícia Política sabe que está em maus lençóis. Era evidente e provado que militava contra. Mas não estava ele e os algozes imbuídos de um desejo comum: transformar a terra num local paradisiacamente habitável? – Valeria a pena lembrá-lo aos que se aprestavam a usar os instrumentos de tortura?

O modo bipolar como olhamos, é bom, é mau, é totalitário. Quando olha a alma e o corpo do outro, cobre a alma do outro e o seu comportamento. Não deixa nada de fora. Toda a alma e todo o comportamento são bons ou maus.

Estas conclusões já aqui foram referidas e repetidas por mais de um dos participantes na terra. Por isso, acrescento três coisas.
A primeira, tem a ver com a ânsia desenfreada e desesperada que marca a vida do que se quer idêntico ao modelo que o guia. As estaladas com que esbofeteia a cara, sempre que não somos como queríamos ser e isto sempre e apesar do esforço e quando ainda assim o mal não se cansa de rir de nós.
A segunda, é para dizer que na raiz desta bipolaridade totalizante e totalizadora está o medo. É o medo que faz o Regime, o Partido, a Igreja, o Futebol, ver quem está na sua frente como um adversário, um adversário inimigo, um inimigo irredutível e que por isso é reduzido a uma cor. É o medo que faz com que procuremos com desespero ver no outro alguém que está irredutível do nosso lado ou que está irredutivelmente no lado dos outros.
A terceira, que não somos assim, que nunca somos assim, que nunca somos um estado totalmente bruto, totalmente brutos, a não ser nos cenários explicativos, e que se assim não somos é porque ainda assim duvidamos.

Por isso, o Partido totalitário se reúne em Congresso. Por isso, o algoz precisa das palmadas nas costas dos seus copinchas. O Partido precisa do ruído das palmas, o algoz das palmas nas costas. Uns e outro e nós para afastar a presença da fina linha de suor frio que percorre a espinha das costas e que ameaça arruinar a solidez de tantos nervos… Então, quando declaramos o outro totalmente bom e quando o declaramos diverso e totalmente mau, a dúvida tem oportunidade de assumir um digno e dignificante estatuto epistemológico: faz estar perto da verdade… O que obriga a perguntar: se mesmo quando toda a razão e toda a evidência jogam a favor dos sólidos juízos, quando não há nada que temer: ele é mesmo isso, de onde provêm afinal tão irracional e tão confuso sentimento?


Fernando Macedo [A BORDO]

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Imaculada Conceição

O dogma da Imaculada Conceição foi proclamado a 8 de Dezembro de 1854, pelo Papa Pio IX, através da Bula Ineffabilis Deus. Nele se declara a santidade da Virgem Santa Maria desde o primeiro momento da sua existência – ou seja, desde a sua concepção. Significa isto que a mãe de Jesus, pela Graça de Deus, foi preservada desde sempre da mácula do pecado original, no qual nascem todos os descendentes de Adão.
Importa aqui referir dois pontos importantes: o primeiro sobre interrupção da transmissão do pecado original. Diz S. Francisco de Sales no seu Tratado do amor de Deus: «A torrente da iniqüidade original veio lançar as suas ondas impuras sobre a conceição da Virgem Sagrada, com a mesma impetuosidade que sobre a dos demais filhos de Adão; mas chegando ali, as vagas do pecado não passaram além, mas se detiveram, como outrora o Jordão no tempo de Josué, aqui respeitando a arca da aliança a torrente parou; lá em atenção ao Tabernáculo da verdadeira aliança, que é a Virgem Maria, o pecado original se deteve».
Ora, o pecado original não é inscrito em cada um aquando da criação da alma por parte de Deus, nem se transmite geneticamente dos pais para os filhos. A transmissão do pecado original ocorre com a corrupção própria da carne que todos somos. É a natureza humana.
Diz Santo Agostinho que «Apesar de nascerem de pais batizados, os filhos vêm à luz com o pecado original, como do trigo inutilizado germina uma espiga, em que o grão é misturado com a palha».

Outra consequência deste dogma é a da intervenção de Deus na assunção deste mistério. A Virgem Maria foi pensada por Deus como a mediadora do mistério da Incarnação. Desta forma, Maria não podia ser pensada senão como a primeira totalmente redimida, de modo a acolher em si a Palavra de Deus e a encarnação do Verbo.
Foi pelo privilégio único de Deus – a Graça – que, em Maria, não se operou a corrupção inerente à pessoa humana, mantendo a pureza original da criação divina, tal como a que se realizou com Adão. Maria é, assim, uma segunda Eva, como a designou Sto. Ireneu.
Mesmo Lutero admite a Concepção sem mácula de Maria: «Era justo e conveniente, diz ele, fosse a pessoa de Maria preservada do pecado original, visto o filho de Deus tomar dela a carne que devia vencer todo pecado».

O dogma da Imaculada Conceição proclama, assim, que a Virgem, desde o início do seu ser, não foi apenas envolta no mistério da redenção prometida a todos nós, mas a primeira redimida pelo Filho que ia gerar. Este dogma toca, portanto, no próprio mistério da Redenção.
Neste dia, em que se festeja a Imaculada Conceição, a Igreja e todos os fiéis exultam de alegria, porque nela está o exemplo das maravilhas de Deus na história, do que Ele pode fazer na nossa vida, na vida de cada um de nós.


Carlos Cunha [PARTÍCULAS ELEMENTARES]

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Segunda-feira, Dezembro 6

 

Quem está a Escrever o Futuro? (1)

NOTA: O texto seguinte é um excerto de documento publicado pela Comunidade Internacional Bahá'í, intitulado "Quem está a escrever o futuro?". Trata-se de uma reflexão - à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh - sobre a evolução da humanidade ao longo do século XX. Devido a extensão do documento, este será publicado gradualmente. Os subtítulos, as frases a bold, e entre parentesis recto, assim como algumas notas são a minha responsabilidade.
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PARA ONDE CAMINHA A HUMANIDADE?

A trave-mestra da mensagem de Bahá'u'lláh consiste em expor a realidade como sendo, fundamentalmente, de natureza espiritual, e as leis que governam o operar dessa realidade. Não só vê o indivíduo como um ser espiritual, "uma alma racional", mas também insiste que todo o empreendimento, a que nós chamamos civilização, é, em si mesmo, um processo espiritual, no qual a mente e o coração do homem criaram progressivamente meios mais complexos e eficientes de exprimir as suas capacidades morais e intelectuais.

Rejeitando os dogmas vigentes do materialismo, Bahá'u'lláh apresenta uma interpretação oposta do processo histórico. A humanidade, ponta de lança de evolução da consciência, passa por estádios análogos aos períodos da infância e da adolescência nas vidas dos seus membros individuais. A viagem transportou-nos até ao limiar da vinda tão desejada da nossa maturidade como raça humana unificada. As guerras, a exploração e o preconceito, que marcaram estádios de imaturidade no processo, não deveriam ser causa de desespero, mas sim um estímulo para assumir as responsabilidades da maturidade colectiva.

Escrevendo a líderes políticos e religiosos do seu tempo[1], Bahá'u'lláh afirmou que novas capacidades de incalculável poder – para além daquilo que a geração de então podia conceber – estavam a despertar nas pessoas, capacidades essas que, em breve, transformariam a vida material do planeta. Era essencial, disse Ele, fazer destas vantagens materiais emergentes veículos de desenvolvimento moral e social. Se conflitos nacionalistas e sectários impedissem isto de acontecer, então o progresso material produziria não só benefícios, mas também males inimagináveis. Alguns dos avisos de Bahá'u'lláh despertam ecos severos na nossa era: "Coisas estranhas e espantosas existem na terra," preveniu ele. "Estas coisas têm capacidade para mudar toda a atmosfera da terra e a sua contaminação provará ser letal."[2]

A questão espiritual central que todos os povos enfrentam, diz Bahá'u'lláh, qualquer que seja a sua nação, religião ou origem étnica, é a do estabelecimento das fundações de uma sociedade global que reflicta a unidade da natureza humana. A unificação dos habitantes da terra não é nem uma remota visão utópica, nem, em última análise, uma questão de escolha. Constitui o próximo, inevitável estádio, para o qual toda a experiência do passado e do presente nos impele. Até esta questão ser reconhecida e tratada, nenhum dos males que afligem o nosso planeta encontrará soluções, porque todos os desafios da era em que nós entrámos são globais e universais, e não particulares ou regionais.

Muitas das passagens dos escritos de Bahá'u'lláh, que tratam da maturidade da humanidade, estão impregnadas pelo seu uso da luz como uma metáfora para apreender o poder transformador da unidade: "Tão poderosa é a luz da unidade", insistem, "que pode iluminar toda a terra."[3] A afirmação coloca a história corrente numa perspectiva agudamente diferente daquela que prevalece no final do séc. XX. Urge-nos a encontrar – dentro do sofrimento e apatia dos nossos tempos – a operação de forças que estão a libertar a consciência humana para um novo estádio na sua evolução. Convida-nos a reexaminar o que tem estado a acontecer durante os últimos cem anos, bem como o efeito que estes desenvolvimentos tiveram na massa heterogénea de povos, raças, nações e comunidades que os experimentaram.

Se, tal como Bahá'u'lláh afirma "o bem-estar da humanidade, sua paz e segurança são irrealizáveis, a não ser que, primeiro, se estabeleça firmemente a sua unidade" [4], é compreensível porque é que os Bahá’ís vêem o séc. XX – com todos os seus desastres – como "o século da luz."[5] Estes cem anos testemunharam uma transformação, tanto no modo como os habitantes da terra começaram a planear o seu futuro colectivo, como no modo em que nós começamos a olharmo-nos mutuamente. O cunho de ambos tem sido um processo de unificação. Convulsões, que escaparam ao controlo das instituições existentes, obrigaram os líderes mundiais a implementar novos sistemas de organização mundial, que seriam impensáveis no início do século. Enquanto isto ocorria, uma rápida erosão ultrapassava hábitos e atitudes que tinham dividido povos e nações durante séculos incontáveis de conflito, e que parecia que iriam subsistir durante eras vindouras.

Em meados do século XX, estes dois desenvolvimentos produziram uma brecha, cujo significado histórico apenas as gerações futuras apreciarão devidamente. Em consequência do choque da Segunda Guerra Mundial, líderes de visão ampla acharam, finalmente, possível, através da organização das Nações Unidas, começar a consolidar os fundamentos de uma ordem mundial. Há muito sonhado por pensadores progressistas, o novo sistema de convenções internacionais, e de agências a elas ligadas, era agora dotado de poderes cruciais, que tinham sido tragicamente negados à abortiva Liga das Nações. Com o avançar do século, os músculos primitivos do sistema de manutenção internacional da paz foram de tal forma progressivamente exercitados que demonstraram, de modo persuasivo, o que podia ser atingido. Com isto, veio a rápida expansão das instituições de governação democrática por todo o mundo. Se os efeitos práticos ainda nos desiludem, isto de modo algum diminui a mudança histórica e irreversível de direcção, que teve lugar na organização dos assuntos humanos.

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Notas
[1] - Para exemplos, ver
Rainha Vitória, Napoleão III, Kaiser Guilherme I, Papa Pio IX e Francisco José.
[2] - Bahá'u'lláh, Epístolas de Bahá'u'lláh reveladas depois de Kitab-i-Aqdas
[3] - Bahá'u'lláh, Epístola ao Filho do Lobo
[4] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá'u'lláh, CXXXI
[5] - 'Abdu'l-Bahá, Promulgação da Paz Universal
[6] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá'u'lláh, CXI


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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Descontruções da fé

Com o título “Pastoral da Incredulidade”, Frei Bento Domingues publicou, há cerca de duas semanas, quatro crónicas em que discute questões pertinentes para vida da Igreja numa sociedade secularizada. Na primeira crónica dá voz a Thorkild Grosboll, pastor luterano dinamarquês, e às suas controversas ideias. Na segunda crónica cita um documento deste ano, do Conselho Pontifício da Cultura, intitulado "Onde está o teu Deus?" sobre as problemáticas da fé cristã perante a indiferença religiosa. Na terceira crónica comenta as afirmações do pastor dinamarquês com que começou a série e discute-as: “T. Grosboll será, de facto, um não crente?”. E para terminar, a quarta crónica, um texto imperdível e seguramente dos melhores de Frei Bento, discute a questão maior para os cristãos – a Ressurreição – que Grosboll nega provocatoriamente.
Estas quatro crónicas de Bento Domingues provocaram a reacção de vários leitores, como nos é dito pelo próprio. Alguns acharam inadequado dar voz às heresias daquele pastor luterano, que aliás já tinha sido destituído pelo seu bispo. O autor das crónicas não achou que fosse tão despropositado e eu também não acho.
Um amigo meu, da geração dos meus pais, disse que estes quatro artigos lhe deram completamente a volta ao pensamento teológico. A sua fé e a sua teologia são sólidas, continuamente reflectidas e aprofundadas e, mais importante, a sua vida é coerente. Vir questionar alguns dos seus pilares passou para lá da compreensão deste meu companheiro. “É outra linguagem” – dizia-me. “Mas talvez seja necessária para as novas gerações” – acrescentava ainda.
As questões levantadas por Grosboll são aparentemente chocantes para quem se afirma crente. Correcção – este pastor afirma-se não crente: não crê na ressurreição, na vida eterna, num Deus criador ou salvador. Para pastor, podíamos dizer que fica aquém dos pressupostos... Ele esclarece porém que ao pôr as coisas nestes termos, deseja "ressaltar a verdadeira parte de divino que existe nessas expressões e enfraquecer a antiga imagem de Deus. Não existe o Flash Gordon voando para vir em nosso auxílio em caso de necessidade". Diz Frei Bento que “para este dinamarquês, só nos Jardins de Infância é possível falar de Deus e da oração como antigamente”.
A falta de espírito crítico e científico são coisas que me espantam. Lembro sempre uma colega, beatíssima, que me costumava dizer que tinha rezado muito para o teste lhe correr bem. Eu, armado em pastor-luterano-herege, dizia-lhe sempre que isso não adiantava nada. O intuito era o mesmo de Grosboll: destruir – melhor, desconstruir – a imagem do deus-por-encomenda da minha colega. Duvido que tenha sido minimamente sucedido.
Hoje, a desconstrução e re-elaboração da fé cristã parecem-me fundamentais. Em primeiro lugar, desconstruir significa voltar a encontrar as origens doutrinais e lê-las à luz do conhecimento humano actual. Em segundo lugar, desconstruir implica reformular – voltar a formular, encontrar novas formas de expressão da fé mais de acordo com a nossa cultura. A primeira questão levar-nos-ia à discussão do que há a mudar na doutrina da Igreja e da necessidade de um novo concílio. Não é disso que venho falar hoje. A segunda questão é: como dizer/viver a fé aqui e hoje? Como dizer Deus na linguagem de hoje? São questões demasiado vastas para serem tratadas num texto destes. Por agora, limito-me a defender a necessidade de as discutirmos (o que já não é pouco).
Na história da Igreja, muitos foram os momentos em que a desconstrução veio de fora. Muitas vezes a intervenção dos chamados “inimigos da fé” ou dos que estavam de fora das instituições eclesiais foi marcante para o avanço da teologia. Os exemplos sobram. Logo nos primeiros tempos, a introdução do cristianismo no seio da cultura grega obrigou a uma nova formulação da mensagem cristã dentro dos horizontes da razão e da filosofia helénicas. No século XX o marxismo teve um papel essencial no movimento da teologia da libertação e na doutrina social da Igreja. Na teologia protestante o movimento da “morte de Deus” gerou uma renovação que significou a morte de uma concepção de Deus – o deus-ex-maquina.
Hoje, a Igreja quer continuar atenta às linhas de pensamento e aos valores contemporâneos, do que é exemplo o documento do Conselho Pontifício da Cultura citado na segunda crónica de Frei Bento Domingues:
“Na aurora do novo milénio, nas culturas do Ocidente secularizado, nota-se uma desafeição tanto em relação ao ateísmo militante, como em relação à fé tradicional. Recusam-se ou abandonam-se as crenças tradicionais, quer no campo da prática religiosa, quer na adesão aos conteúdos doutrinais e morais. Aquilo que chamamos "homem indiferente" não abafou o "homem religioso", que procura uma nova religiosidade em perpétuo movimento. A análise deste fenómeno manifesta uma situação caleidoscópica, onde tudo – e o seu contrário – pode acontecer. Existem os que crêem sem pertencer e os que pertencem sem, no entanto, crer em todo o conteúdo da fé e que, sobretudo, não procuram assumir a sua dimensão ética. (...) O panorama geral revela-se complexo. Nos países de raízes cristãs é preciso identificar bem as causas antigas e novas da não crença e dos novos processos da crença.”
O panorama é complexo e a tentação de muito católicos é enveredar por “uma pastoral pura e dura da fé católica. Sem concessões. E quem tiver ouvidos para ouvir que oiça.” É uma atitude pouco evangélica, no sentido de estar pouco disposta a acolher o Outro, as suas perplexidades e dúvidas. À conta desta “fé pura e dura”, a nossa Igreja tem formado muitos agnósticos e indiferentes. O entendimento dos mitos fundadores do cristianismo esbarra muitas vezes na dificuldade de os conciliar com uma visão científica do mundo. E aí só uma resposta qualificada e aberta ao diálogo pode ajudar.
Voltando a citar o pastor luterano, outro sinal de que necessitamos de aprofundar a formulação da fé no contexto da cultura ocidental é a persistência de concepções de fé infantis. “Muitas vezes fala-se [de Deus] como do Robin dos Bosques”. Grosboll é radical na necessidade de construir uma fé adulta. Ele insiste na necessidade de reformular a própria noção de oração: a oração é apenas um momento de reflexão para pensar nas prioridades da existência.
A perversão do simbólico é outro sinal de que é necessário um reencontro com os símbolos da fé. O êxito do “Código Davinci” mostra quão simbolicamente iletrados andamos. A tese é simples e sobejamente conhecida – “é tudo mentira, andam há 20 séculos a enganar-nos” – e foi um sucesso. O Bernardo Sanchez da Motta
já falou amplamente disso. Como disse João Bérnard da Costa, o problema não é tratar-se de uma história que pretende ser mitológico-simbólica. O problema é ser uma má história. Não deixa de ser paradoxal que num tempo de tanta informação, quando já foram mais que publicados os evangelhos apócrifos e os manuscritos do Mar Morto continuem a escrever-se as coisas mais absurdas... Precisamos de reencontrar as boas histórias da nossa fé e da nossa cultura: “Não há, não pode haver, nesta terra, uma comunidade, por mais rudimentares que sejam os seus meios materiais (...), sem essas narrativas da recordação imaginada a que chamamos ‘mito’ e ‘poesia’. Há, de facto, verdade na equação e no axioma; mas é uma verdade menor.” (George Steiner)

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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Quarta-feira, Dezembro 1

 

As luvas de Ernesto (três breves episódios de Advento)

1. Em «Diários de Che Guevara» - o filme simpático e por vezes hagiográfico, que merece o encontro, sobre o jovem Ernesto, antes de se transformar no homem-ícone-guerrilheiro - há uma cena que merece ser contada. De visita a uma leprosaria, em que os doentes já ultrapassaram a fase de contágio, Ernesto recusa calçar as luvas que a madre superiora impõe como regra de contacto entre doentes e médicos, entre doentes e visitantes. «É apenas simbólico?», pergunta ao médico que o guia na visita. «Sim», o uso das luvas é apenas simbólico.

2. Saio da sala de cinema. Cá fora, na noite fria, uma carrinha acolhe sem-abrigo da noite de Lisboa, com comida e roupa. De lado, a inscrição de uma organização religiosa. As mulheres que se voluntariam neste trabalho calçam todas luvas. Não percebo porquê - e procuro alguma razão. Não a encontro. Será «simbólico»? Mas elas andam ali, todas as noites, e eu (mesmo com luvas) não.

3. Dois dias depois, encontro-me com amigos para discutir a pobreza (assim). E como podemos nós mexermo-nos para que as coisas mudem. Ao fim da noite, já percebi que mantenho as luvas calçadas. Mas quero tirá-las.O Advento está aí. Nestas alturas, confrontamo-nos com outras formas de viver o Natal, mas nunca assumimos que o Natal se deve prolongar pelo ano. Pela vida. Dizendo que ao nosso lado é obsceno existir pobreza, viverem sem-abrigos, passar-se fome. Por mim, acho que devemos ser capazes de, em Igreja, descalçar as luvas. Se ainda não conheço o caminho, quero pelo menos atirar estas ideias aos quatro ventos. Alguém pode ajudar-me (nos) a despir as mãos.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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A bad bush is better than an open field

Porque razão os americanos votaram em Bush? Sinceramente não acredito que fosse pelo belicismo que o caracteriza. Tive ocasião de dar uma vista de olhos por sondagens e estudos que se fizeram a posteriori e verifiquei que os analistas tinham chegado à conclusão que a candidatura de Bush foi a mais votada sobretudo porque parecia ser a única assente em valores morais.
Pessoalmente, acredito que muitos dos valores morais correctos (para não falar dos intelectuais) não estão com Bush. Mas isso não impede que tenha que concordar com o facto de que Kerry (como a generalidade da esquerda europeia) manifestamente se afastou de um discurso assente em valores morais.
Como se os valores morais tivessem peçonha. No caso da esquerda europeia é ainda pior: veja-se o caso de Buttiglione em que não são só os valores morais parecem ter peçonha como as próprias pessoas que assumem ter valores morais são segregadas pela esquerda europeia como se tivessem lepra.
Salvo a honrosa excepção de Blair (que contudo se meteu numa guerra de moralidade duvidosa) e de Sócrates (que espero venha a ser outra honrosa excepção, principalmente depois de ter assumido a corajosa posição relativa ao orçamento de que as despesas públicas não deviam baixar porque existem necessidades sociais que têm imperiosamente de ser satisfeitas), a esquerda europeia tem uma manifesta aversão a valores morais.
O que é tanto mais estúpido pois a esquerda é a única que pode ter orgulho na moral que assume.
A moral da esquerda é a moral da defesa dos mais desprotegidos, é a moral da luta contra as desigualdades sociais, é a moral da defesa dos mais desfavorecidos, é a moral da luta contra a pobreza.

O que distingue genéticamente a direita da esquerda é que enquanto a primeira só olha para os fortes, a segunda preocupa-se com os fracos. E esta é a moral cristã.
Não por acaso, segundo o programa de Bad Godesberg, o socialismo democrático do pós-guerra devia ser «ético» (...) «O socialismo democrático é marcado pela ética cristã, pelo humanismo e pela filosofia clássica», defendia Willy Brandt (citado in Sassoon, 1997:242) (...).
A esquerda quando assume a luta contra os valores morais está a dar um tiro no seu próprio pé. Porque era precisamente aí que ela devia lutar. Só a esquerda tem autoridade para basear o seu combate em valores morais.
E, na luta política, existe sempre uma moral por detrás. E os eleitores sabem disso. Por isso desconfiam de quem diz que não tem valores morais. Porque os valores morais de quem não tem valores morais são os valores do eu. Apenas do eu.
Por isso Bush ganhou.

Timshel [
TIMSHEL]

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Terra de missão ou Demissão na Terra? – 1ª parte

A Nova Evangelização, de que agora tanto se fala, já não é aquela que se fazia antes. Já não é aquela inicial, a que se espalhou pelo império romano e suas circundâncias, regada a sangue de mártires e inspirada pela santidade de anacoretas. Já não é também a que viajou nas primeiras naus portuguesas. A que espalhou a palavra de Cristo, enquanto ao seu lado se espalhava o poder da Europa. A que surgiu aos povos de além-mar como mais uma face da civilização que lhes entrava porta adentro. A que foi feita com a Bíblia numas mãos, com arcabuzes noutras. Já não é, igualmente, a que apareceu depois, em que missionários católicos e protestantes concorriam entre si na indicação do melhor caminho para a salvação dos gentios e que, para isso, começaram a ter de entender melhor aqueles que pretendiam salvar. Salvar das suas superstições mas também da cupidez e violência desvairadas dos homens de chumbo que cuidavam das fundações dos impérios. Esta foi uma evangelização que levou e leva ainda pão espiritual e pão material para os deserdados e espoliados da Terra. Esta é uma evangelização que honra as Igrejas Cristãs e lhes dá coerência com a Palavra que evocam.
Mas não é desta ou destas evagelizações que falam agora os nossos cardeais, os melhores entre eles. A evangelização que os junta na oração e na discussão é uma evangelização totalmente diversa das anteriores, incomparavelmente mais difícil. É a evangelização entre nós europeus, a evangelização destas sociedades urbanas europeias, tão imensamente distantes da ideia de Deus e da esperança de Cristo. Tal como nos tempos paleo-cristãos, os bispos dos nossos tempos preocupam-se hoje com a evangelização da cidades.

O sempre atento António Marujo do Público, acompanhou com algum desencanto o Congresso Internacional da Nova Evangelização, realizado em fins de Outubro em Paris e em que o nosso D. José Policarpo recebeu a passagem do testemunho do bom Cardeal Lustiger. E agora que arrancou a preparação do próximo congresso, aqui mesmo em Lisboa, penso ser boa altura fazer por aqui umas reflexões sobre o que acho dever ser e não ser essa Nova Evangelização da Cidade. Será tema a desenvolver nas próximas semanas, a fio ou interpoladamente, logo se verá.

Mas vou começar num ponto, que tem aqui neste espaço vindo a ser galhardamente posto em causa pelo Miguel e pelo Zé Filipe: numa altura em que a Igreja parece tocar os sinos a rebate para chamar os leigos a acorrer a este renovado desígnio, o que tem feito essa mesma Igreja em prol dessa mesma Evangelização, nesta Europa urbana e, como se diz muito agora, pós-cristã?
Devo dizer que na minha forma particular e tão individualista de viver o meu catolicismo, esse assunto não me tem procupado muito. Há muito que me habituei a relativizar as falhas da minha Igreja à luz da verdade da nossa Fé. E acabei por interiorizar uma noção de que a intercessão que a Igreja me oferece é mais sacramental do que pastoral. De facto, o orgulho do crente pode atingir níveis estratosféricos...
E é precisamente por isso que ouço sempre com bons ouvidos a Igreja chamar os leigos ao testemunho da sua fé e à tarefa da evangelização. O que não quer dizer que eu lá acorra, antes pelo contrário: o pudor, o respeito pela individualidade dos outros, enfim toda uma parafernália de eufemismos para edulcorar a minha cobardia em afirmar a minha Fé, tudo isso me serve pretexto para dizer baixinho daquilo em que acredito. E quando vejo irmãos na Fé, como os carismáticos da Comunidade Emannuel, de que falava o António Marujo, espalhando cânticos e lendo alto a Bíblia no tropel das ruas de Paris, sinto um arrepio estético, muito conveniente para confortar quem prefere ficar sentado no sofá matutando sobre o Livro de Job...
Vivo pois, como muitos, mergulhado num mar de contradições, que é um mar lindíssimo, um mar de cor azul, de águas tépidas e mansas, que me refresca e me sustenta. Mas do qual terei forçosamente de saír um dia. Que seja o quanto antes. Talvez aproveitando a deixa desta Nova Evangelização de que se fala agora.
E se tenho de começar por algum lado, vou, como já disse, começar pela nossa Santa Madre Igreja, a que nos oficia e intercede por nós. Mas que parece ter deixado de ter vontade e capacidade nos evangelizar, aqui nestas cidades desta Europa do bem-estar para quase todos, e que todos fingem não perceber que está tão ameaçado. E, remetendo desde já os leitores para quase todos os textos que o
Miguel e o Zé Filipe têm escrito aqui na Terra, será então para a semana que começarei a meter a foice nesta seara que não me é alheia.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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a rush and a push and the land that we stand on is ours

1. «Deus disse: "Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será o vosso alimento"» (Génesis 1, 29).

Aqui há dias, no seguimento de uma conversa político-etílico-filosófica, o meu amigo AR perguntou-me se eu era a favor da colectivização dos bens de produção. Respondi-lhe que, sem prejuízo de uma regulamentação de ordem prática em relação a alguns bens privados, a maioria dos bens de produção, que permitem a criação de riqueza (como se diz agora), deveria ser pertença de todos estar. Os bens de produção - materiais ou imateriais - deveriam ao serviço da comunidade, através das instituições colectivas - o Estado. Por uma simples razão: quando Deus criou a Terra, a terra nela presente, com todos os seus recursos, atribuiu a sua gestão a todo o género humano, para sua guarda e usufruto. O mesmo se diga caso se queira prescindir da hipótese de Deus. Originalmente, num tempo remoto e comum, não havia propriedade privada. Mesmo o conceito mental era estranho aos nossos antepassados. Se nos reportarmos a um qualquer tempo inicial, encontraremos a repartição da propriedade comum como uma ruptura violenta no modelo comunitário de uso e partilha da terra.
O Catecismo da Igreja Católica (certamente também considerado por muitos como mais uma obra ideológica ultrapassada, que não se compadece com os tempos modernos, uma manifestação do desajuste da Igreja à contemporaneidade) refere expressamente que o direito à propriedade privada não vem abolir a doação original da Terra ao conjunto da humanidade (2403). E a Constituição Gaudium et Spes adverte que «quem usa desses bens não deve considerar as coisas exteriores, que legitimamente possui, só como próprias, mas tembém comuns, no sentido que possam beneficiar não só a si mas também aos outros» (69 § 1).
Pergunto-me muitas vezes, qual conservador do registo histórico predial, onde nos levaria a pesquisa do trato sucessivo de um pedaço de terra que hoje serve para suporte à reserva ecológica nacional, para cultivo na agricultura mais pobre da Europa ou se destina ao loteamento e à construção de um empreendimento em condomínio fechado, consoante a arbitrária vontade dos desenhadores de planos municipais.
E por que estranha razão admitimos sem pensar (nem pestanejar) que um filho de um proprietário nasce proprietário e um filho de um pobre nasce pobre. Eu sei que, como dizem os liberais (ricos), a pobreza é um conceito relativo. Mas se somos todos iguais, se nos reconhecemos todos irmão, porque filhos do mesmo Pai, por que motivo subvertemos a herança que era de todos? Quem roubou os irmãos pobres? Quem rouba os pobres?

2. Foi já publicada em livro a tese de Doutoramento de José Tolentino Mendonça, intitulada A Construção de Jesus (editado pela Assírio & Alvim), já aqui referida, aquando da dissertação apresentada na Universidade Católica, nos princípios de Julho. O livro expõe uma nova abordagem à exegese bíblica centrada nas estruturas narrativas presentes ao longo dos textos sagrados, por forma a recuperar o espaço metafórico e narrativo da verdade - o chamado método de análise narrativa. Partindo de uma perícope de Lucas, José Tolentino Mendonça mostra como o evangelista constrói a figura de Jesus e nos mostra o seu processo revelatório, seguindo o clássico paradigma triádico: acção, reacção e desfecho– assenta, assim, numa «plataforma interdisciplinar onde a Exegese bíblica estabelece importantes relações com outras áreas como os Estudos Literários, a Teoria do Texto, a Linguística, a Teoria da Comunicação, a Retórica ou Pragmática Linguística».
A Construção de Jesus - um bem que se quer comum.

Carlos Cunha [PARTÍCULAS ELEMENTARES]

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Maçãs e cestos.

Tudo começou que me lembre por um texto do Carlos que defendia a humanidade de Hitler, contra aqueles que tentam falar apenas da sua monstruosidade. A intenção e a letra não pretendiam como é óbvio para ilibar o ditador. Antes pelo contrário. Era retirar qualquer hipótese de não imputabilidade. Retirar qualquer hipótese de o dizer meramente louco, meramente monstro. De fazer a sua vida e a sua acção serem lidas não apenas à luz dos monstruosos actos que cometeu, mas também à luz do homem que não podia deixar de existir nele…
Tendo acabado de reler há pouco o Moisés e o Monoteísmo de Freud, constatei uma coisa curiosa. Para Freud, existiu não um Moisés, um homem dotado de variadas facetas, mas dois homens Moisés, cada um aglutinando características diversas, e cada uma com características distintas.
No crime, Hyde e Jeckyll fazem melhor. Pois neles a duplicidade coincide no mesmo. E vem também isto a propósito do texto do Timóteo na última terra. O Timóteo dá conta de construções abrasivas. E são-no assim porque ao contrário de Freud, se unem o diverso é para o destruir. São assim porque ao contrário do que Carlos nos diz não mantêm a diversidade coexistindo nos mesmos grupos ou na mesma pessoa. Por isso, afirma o Tim que contra isto deve reagir o cristão, afirmando o primado da diferenciação. Deve-se, segundo ele, ver a maçã sadia dentro do cesto podre e por contraposição a podre no meio do cesto sadio. O que quanto a mim, não é apenas correcto, mas correctíssimo, e coloca uma questão que anteriormente já determinara como fulcral para a cognição cristã: a descriminação diferenciadora… O que poderia levar ao Espírito Santo ou à prudência de Aristóteles: «(…) que não tem qualquer relação com a precaução ou com o interesse pessoal. É a virtude da inteligência prática, de saber como aplicar princípios gerais em situações particulares» (Alasdair MacIntyre, A Short History of Ethics, University of Notre Dame, Indiana, 1998, 74).

Fernando Macedo [
A BORDO]

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Segunda-feira, Novembro 29

 

Um postal de Advento… Metrópole 2004

Jesus nasceu numa manjedoura nas margens da cidade... revelou-se, em primeiro lugar, aos que viviam para lá dos limites da cidade.
Também há margens nas nossas metrópoles: ruas sem luz, bairros esquecidos inundados de lama. E há pessoas que vivem do lado de fora das nossas cidades, mesmo que durmam debaixo das nossas arcadas, em estações solitárias ou à porta das nossas Igrejas.
No mais fundo de cada um de nós há uma cidade que se agita. Trazemos cá dentro praças de festa onde encontramos amigos, montras coloridas onde estão expostas as nossas qualidades, recantos de mistério e conforto, sótãos de acolhimento, caminhos estreitos e pontes de madeira frágil. Há o mar a inundar de azul a nossa alma.
Na nossa cidade interior escondem-se ruas sombrias onde ecoam conversas amargas, pequenas vielas onde nos ferimos para sempre e aonde não queremos voltar. Há pessoas que vivem nas margens da nossa vida, dormindo às portas do nosso templo.
É nas vielas onde nos ferimos que Jesus quer nascer. São as ruas sombrias que ele quer iluminar e são as pessoas que dormem esquecidas que o vêm anunciar.
Somos eternamente responsáveis pelo que se passa no coração dos outros. Podemos abrir estradas de luz ou transformar praças de festa em lugares esquecidos e feridos.
No segredo do que somos, Jesus nasce em cada dia para transformar os nossos gestos em chamas e os nossos braços em pontes que unem a nossa cidade à cidade de todos os que nos visitam.


Zé Maria Brito, sj

P.S. 1 – este texto foi escrito a partir de um momento de oração de um campo de férias que teve o nome de Metrópole. E que decorreu em Julho de 2004.
P.S. 2 - Bom Advento…

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Comentário à situação actual do Ensino Superior

Começou ontem o tempo litúrgico do Advento. Os próximos domingos serão dedicados pelos católicos à preparação do Natal, preparação para a festa do nascimento de Cristo. E para começar santamente o ano litúrgico, nada melhor que deixar os temas da fé das últimas sete crónicas e passar aos temas do mundo. E como o meu mundo é, ainda, o de estudante do Ensino Superior, aí vai um comentário à sua situação actual. Baseei-me num texto escrito há cerca de um ano, que actualizei, corrigi e aumentei. A quem não interessar, vemo-nos para a semana.

Há um ano eram agitados os tempos no Ensino Superior. Em Coimbra, a Universidade encontrava-se trancada a cadeado. Hoje a contestação esmoreceu. Duas escassas centenas de estudantes têm participado nas múltiplas Assembleias Magnas e manifestações. Como desculpa de mau pagador, um dirigente estudantil chegou mesmo a dizer, quando perguntado sobre a escassa mobilização, que o mais importante nas manifestações era o seu simbolismo. Sendo o nível de contestação tão baixo, valeria a pena reflectir sobre a distância que vai do discurso dos dirigentes estudantis às preocupações reais dos alunos. Mas vou deixar para outra vez o problema da democracia entre os estudantes.


Queixas
Falemos antes das queixas, da sua razão de ser e de não ser. As motivações invocadas para o descontentamento estudantil são essencialmente quatro: qualidade; acção social; peso dos estudantes nos órgãos de gestão; propinas/financiamento.
Temo que apenas a última questão tenha tido projecção nos últimos tempos, graças aos renovados gritos de "não pagamos". Se juntarmos o regresso do velho slogan a formas de contestação ilegais e pouco credíveis (como invasões de Senado e outras manobras tais), temos tudo o que é preciso para fechar os ouvidos da opinião pública e da maioria dos estudantes. Não foi por acaso que, na opinião pública e entre os próprios estudantes, se deixou de reconhecer credibilidade às manifestações, ouvindo-se até aquele discurso demagógico de que "os estudantes só querem borga".
Sobre as questões do financiamento, creio que os benefícios trazidos por qualquer curso superior justificam uma contribuição mais do que simbólica por parte de quem tem o privilégio de o frequentar. E é claro que isso traz a exigência de um sistema de bolsas eficiente, onde os que verdadeiramente necessitam sejam apoiados. Infelizmente, no nosso país, saber-se o verdadeiro rendimento de alguém é um quebra-cabeças (no caso dos rendimentos por conta própria, um juramento de honra é a solução adoptada). Temos muito a aprender com o norte da Europa, onde não são os contribuintes que apresentam declarações de IRS – é o fisco que lhes envia a sua informação, que eles apenas têm que validar ou corrigir.
Os problemas de exclusão são bem mais visíveis e dramáticos no abandono escolar e insucesso ao longo dos ensinos Básico e Secundário (em 2001 aproximadamente 1/4 da população residente no Continente português dos 18 aos 24 anos não havia concluído o 3º ciclo nem se encontrava a frequentar a escola). Os filhos dos mais pobres dificilmente chegam ao 12º ano.


Qualidade
A reivindicação de melhor qualidade é acertada. Porém, dizer que precisamos genericamente de mais qualidade não traz grande novidade à discussão. A qualidade exige avaliação e avaliação com consequências. Para alunos, e para docentes. Nesta óptica, um sistema equilibrado de penalização das reprovações sucessivas (e já nem falo na inexistência de precedências em algumas faculdades), bem como um sistema consequente de avaliação dos docentes pelos alunos são imperativos. Mas têm subjacente um princípio essencial que não me parece claro entre alunos e professores: a universidade tem que estar orientada ao sucesso. Os índices de assiduidade bem como os de reprovações mostram-nos que andamos distantes desta meta. Creio que essa distância tem causas mais complexas do que a indisposição dos alunos para estudar ou a dos docentes para ensinar. Aponto apenas quatro, de que falarei de seguida: a falta de ofertas credíveis de formação mais profissionalizantes; a entrada directa dos estudantes do Secundário no E.S.; os problemas no ensino secundário; o modelo pedagógico no E.S..
1. Quanto à questão das ofertas de formação, não tenho dúvidas em afirmar que temos poucos percursos de formação credíveis que não passem por um curso superior. Por outro lado, para muitos alunos, o curso superior é considerado demasiado teórico e académico. A solução não é transformar as universidades em politécnicos, passando estas a fazer “formação profissional”. Essa é uma competência dos politécnicos e escolas profissionais, que em vez de quererem ser mini-universidades (as solicitações para que possam passar a conferir o grau de doutor são perfeitamente aberrantes) deveriam estar mais apostados numa formação sólida com ligação ao mundo empresarial. Já nas universidades, creio que o processo de Bolonha poderá introduzir mudanças positivas. A divisão em dois ciclos de formação, o primeiro de banda larga, o segundo de especialização, parece-me vantajosa. Um ciclo exigente de três/quatro anos em que seja dada uma formação de base sólida parece-me suficiente para os objectivos de emprego da maioria dos estudantes. As competências específicas têm que ser dadas pelos empregadores, que não podem estar à espera que a universidade forme as pessoas para a sua empresazinha. Aliás, as boas empresas (que escasseiam no nosso país) fazem formação aos seus novos quadros há muito tempo. Quem quiser aprofundar a sua formação e especializar-se pode sempre voltar à universidade mais tarde, ou fazer esse ciclo logo após o primeiro. Ressalvo que me parece completamente inaceitável que o estado se desresponsabilize do financiamento do segundo ciclo. Investir em conhecimento de topo é o melhor que o país pode fazer se não quiser passar a ser apenas a instância de férias da Europa (às vezes parece que quer mesmo...).
2. Defendo que, antes de ingressar num curso de nível superior, os estudantes devem abrir horizontes. Sou um adepto fervoroso do sistema inglês, onde ninguém entra directamente para a universidade. Um ano de trabalho, de serviço cívico, de empenhamento em ONG's, de desporto, de contacto com o mundo do trabalho, que permita sair do mundo escolar, é o melhor que se pode fazer a alguém que vai escolher o seu percurso profissional. Evitavam-se os milhares de desistentes dos primeiros anos de faculdade e as respectivas frustrações.
3. Quanto à situação do Ensino Secundário, basta dizer que temos tido tantas reformas quantos ministros da educação. Por isso justifica-se a desconfiança dos docentes do Ensino Superior em relação ao Secundário, apesar de muitas vezes ela servir para esconder o puro e simples desconhecimento dos respectivos programas. A sofreguidão reformista tem sido dos factores mais desgastantes para professores e alunos do Básico e Secundário. Falar-se da autonomia das escolas básicas e secundárias é uma verdadeira miragem – elas funcionam dependentes da burocracia kafkiana da máquina do Ministério de Educação, que pensa que basta aprovar mais uma reforma para melhorar o sistema. Não é sequer dado tempo às escolas para adoptarem um modelo e já se lhes está a pedir para implementarem outra reforma. Conheço vários professores, que tenho como excelentes, que se queixam da total falta de respeito pelo seu trabalho com esta sucessão de alterações cujos efeitos não são sequer avaliados.
4. Sobre o modelo pedagógico utilizado no Ensino Superior, de novo acho que o Processo de Bolonha pode trazer alterações positivas. Por vias travessas – o corte de custos – propõe-se uma medida positiva: a redução dos tempos lectivos, de acordo com o modelo seguido noutros países (nomeadamente no E.U.A.), sendo reduzido o tempo de aulas, aumentando a componente laboratorial e de pesquisa e a exigência de trabalho para os alunos. As aulas teóricas (“lectures”) não deviam servir para o professor esmiuçar toda a matéria, mas para apresentar as linhas essenciais que permitissem o estudo dos alunos. Da mesma maneira, as aulas práticas não deviam servir para os alunos copiarem a resolução dos exercícios feita pelo professor, como aconteceu na maior parte das minhas disciplinas. Referir ainda iniciativas como sistemas de tutoria e de formação pedagógica dos professores como bons exemplos que têm surgido nalgumas universidades.

Onde fica a mudança social?
A questão que me preocupa mais na reflexão sobre o Ensino Superior é outra, que não está desligada destas, mas tem estado, surpreendentemente ou não, distante das discussões públicas e dos gritos dos manifestantes. Saber se as nossas universidades e institutos formam cidadãos com consciência cívica, social e política é, para mim, uma preocupação bem mais pertinente. Não se trata de fazer na universidade o que deveria ter sido feito durante a escolaridade obrigatória (preparar as pessoas para uma vida de cidadania). Trata-se sim de transmitir essa noção mais vasta de que a realidade é transformável. De que as mudanças sociais e estruturais se realizam com o esforço e colaboração de todos. De que o saber e competências adquiridas são ferramentas que temos o privilégio de possuir e o dever de utilizar em proveito de todos. Vejo pouca gente convicta de que o seu curso lhe servirá para mais do que obter um emprego. Defendo o sentido social do estudo, que não é mais que a aplicação prática da vontade de colaborar para uma melhoria das condições de vida de toda a sociedade. Num tempo em que o nosso mundo é atravessado por tantas preocupações, em que tantas mudanças são necessárias, o E.S. teria todas as condições para ser um motor dessas mudanças através de propostas inovadoras e de uma formação exigente dos seus alunos, não só cientificamente mas também incutindo espírito crítico, pedindo aos alunos criatividade e reflexão sobre os problemas, mais do que repetição das soluções do passado.


Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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A propósito de um mail

Na Terça-feira passada os editores da Terra da Alegria fizeram-me o forward dum mail dum leitor, que se exprimiu a sua desilusão por ter visitado o blogue em vão, à espera da nova edição da Segunda-feira, que não chegou a existir.
A este leitor em especial e a todos os outros quero apresentar as minhas desculpas. É verdade que este mail me fez sentir bastante mal e bem ao mesmo tempo. Mal, por saber que desfraudei as suas expectativas, e bem, por verificar que essas expectativas existem! Antes de ser convidado para contribuir para a este blogue, nunca me passou pela cabeça que alguém se interessava pelas minhas opiniões religiosas, muito pessoais e nada ortodoxas. Por isso sensibilizou-me especialmente o facto de o autor do mail ter sido um padre católico! Ora ele não reclamou a falta da edição de quinta-feira (essa também não faltou), mas a falta da edição da Segunda-feira, aquela onde escrevem não só católicos, mas também crentes de outras religiôes e pessoas como eu, que não sabem bem, como autodenominar-se.
Os iniciadores da Terra da Alegria (os que escrevem nas Quarta-feiras) entenderam transformá-la num espaço ecuménico. Não é aqui o lugar apropriado para que eu, que tenho o privilégio de ser convidado a escrever nele, me estender em elogios a este projecto, mas posso dizer que não conheço um forum da troca de ideias e experiências religiosas tão diversas, e, o que aprecio especialmente, também de dúvidas e dificuldades.
Gostava de dar ao Sr. Padre e aos outros leitores desiludidos da semana passada uma justificação:
Quem aqui escreve – ou melhor, só falando por mim: Eu, que aqui escrevo, não sigo a nenhuma agenda ou projecto editorial. Cada semana, consoante a minha inspiração e o tempo disponível, procuro escrever um contributo para a TdA. Nem todas as semanas consigo – ultimamente mesmo raras vezes -, porque uma coisa está para mim fora da questão, que é encher o chouriço. Isso seria o que a Terra da Alegria e os seus leitores menos merecem. (Aqui estou em vantagem em relaão ao padre, que não pode alegar falta de inspiração para cancelar a homília...)

Mas também acharia muito triste, se a edição da Segunda-feira desaparecesse, por falta de contributos, e por isso espero que os editores da Terra da Alegria não me levam mal se lembro o que eles escreveram, quando inauguraram este espaço ecuménico: Este está aberto não só para aqueles que até hoje nele escreveram.


Lutz [QUASE EM PORTUGUÊS]

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O Verbo de Deus

De acordo com as Escrituras Bahá'ís, existem três níveis de realidade: o mundo de Deus, o mundo do "Reino"[1] ou do "Mandamento de Deus"[2] e o mundo da criação. Este conceito está espelhado num símbolo bahá’í onde três linhas horizontais representam cada um desses níveis de realidade e uma linha vertical representa o contacto entre os três.
O segundo nível de realidade é também referido como "Verbo de Deus". A expressão Verbo de Deus é frequentemente entendida como sinónimo de "Palavra de Deus" ou "Sagradas Escrituras". Alguns autores usam esta expressão para descrever o poder criativo de Deus ou algum outro aspecto místico da Revelação Divina. O Verbo de Deus actua como um elo de ligação, ou intermediário, entre Deus e a criação.
Segundo Bahá'u'lláh, o Verbo é uma entidade maior do que qualquer ideia que as pessoas possam ter a seu respeito, e está "santificado de qualquer propriedade ou substância"[3] . O Verbo sempre existiu e sempre existirá. É a primeira emanação de Deus. Através do Verbo todas as outras coisas foram criadas.

Este conceito não é totalmente novo; o evangelho de S. João declara nos primeiros versículos que a primeira coisa que emanou de Deus foi o Seu Verbo. No Islão afirma-se que Deus criou o universo através de uma única palavra - "". Bahá'u'lláh também refere isto nas Suas Epístolas[4], e afirma directamente que o Verbo de Deus é a "Causa de toda a criação"[5]. O Verbo possui uma natureza e um poder que está para lá da nossa compreensão.
Apesar do Verbo, tal como o Próprio Deus, ser incognoscível para a humanidade, as Sagradas Escrituras oferecem-nos alguma ajuda para o compreendermos. 'Abdu'l-Bahá descreve a natureza do Verbo comparando-o aos raios do sol[6]. Deus é como o sol; enquanto o sol existir, também existirão os raios de sol. No entanto, a existência dos raios depende apenas do sol. Tal como o sol emana raios sem se dividir, Deus emana o Verbo sem partilhar a Sua essência. Quando os raios brilham sobre um espelho perfeito (o Manifestante), as qualidades do sol aparecem.
As Escrituras Bahá’ís também comparam o Verbo de Deus com os Manifestantes de Deus[7]. O Verbo é também identificado com a posição é comum a todos os Manifestantes. 'Abdu'l-Bahá explica que "a terceira condição [do Manifestante]... é o Verbo de Deus, a Graça Eterna, o Espírito Santo... A realidade da condição de Profeta... é o Verbo de Deus e o estado perfeito e Manifestante..."[8] Os Profetas fundadores das grandes religiões mundiais – como Moisés, Jesus, Maomé, Bahá'u'lláh e outros – são espelhos que reflectem perfeitamente a luz do Verbo[9].
Ciclicamente, o Verbo revela-se à humanidade; esta revelação do Verbo não é feita de forma fulgurante; pelo contrário, é gradual, é como o aparecimento do sol. "Considerai o sol", escreve Bahá'u'lláh, "como são fracos os seus raios quando aparece sobre o horizonte. Como gradualmente a sua potência e calor aumentam, à medida que se aproxima do zénite, permitindo, entretanto, que todas as coisas criadas se adaptem à crescente intensidade da sua luz"[10]. Cada um dos Mensageiros de Deus traz a "luz da Revelação Divina aos homens em proporção directa à sua capacidade espiritual"[11]; a influência dos Seus ensinamentos vai-se sentido de forma gradual; esses ensinamentos, registados nas Sagradas Escrituras, influenciam os destinos da humanidade e cujos ensinamentos servem de base ao surgimento de novas civilizações e culturas.

O gradual despontar da luz também se aplica a cada Revelação. Bahá'u'lláh revelou as Suas leis e ensinamentos durante várias décadas. Ao longo do tempo, estas leis têm vindo a ser aplicadas pelos bahá'ís e os Seus ensinamentos divulgados por todo o mundo. Para os bahá'ís o poder do Verbo de Deus, conforme revelado por Bahá'u'lláh, está a mudar gradualmente a sociedade. Essa mudança continuará a sentir-se até que este planeta seja um só país e a humanidade os seus cidadãos. Neste momento temos ainda um longo caminho à nossa frente para atingir esse objectivo; mas acredito firmemente que chegaremos lá.
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NOTAS
[1] - 'Abdul-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas (Esplendor da Verdade), cap. 82, pag. 237
[2] - Epístola da Sabedoria, in Epístolas de Bahá'u'lláh, pag. 157
[3] - Epístola da Sabedoria in Epístolas de Bahá'u'lláh, pag. 157
[4] - Oração Obrigatória Longa; Epístola da Visitação.
[5] - Epístola da Sabedoria in Epístolas de Bahá'u'lláh, pag. 157
[6] - Respostas a Algumas Perguntas (O Esplendor da Verdade), cap. 53, pag. 172-173
[7] - Um Manifestante de Deus é um Mensageiro de Deus através de Quem se manifestam as perfeições e atributos de Deus. Exemplos: Abraão, Moisés, Zoroastro, Buda, Jesus, Maomé, o Báb e Bahá'u'lláh.
[8] - 'Abdu'-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas (O Esplendor da Verdade), cap. 38, pag. 134
[9] - Para um estudo detalhado da relação entre o Verbo e o Manifestantes ver The Concept of Manifestation in the Bahá'í Writings, de Juan Ricardo Cole, publicado pela Association for Bahá'í Studies.
[10] - Sel. Escritos de Bahá'u'lláh, XXXVIII, pag. 63
[11] - Sel. Escritos de Bahá'u'lláh, XXXVIII, pag. 63

Marco Oliveira [
POVO DE BAHÁ]

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Quarta-feira, Novembro 24

 

Eu te saúdo, Maria

Maria, tu podes: és mãe de Deus!
Maria, tu queres: és nossa mãe!
(Cantilena dos peregrinos ao Sameiro)

Saúdo-te, Maria, mas nunca soube muito bem o que pensar de ti. Não sei se foste concebida sem pecado. Não sei se o teu corpo ascendeu aos céus, tal como o do Teu Filho. Não sei se permaneceste imaculada ou se deste filhos naturais ao bom José. Não sei qual o papel que desempenhas hoje no Céu, junto do Deus Trino. Não sei se apareces de quando em quando a esta gente aflita que gosta de se sentir tua filha. Não sei se intercedes ainda por nós.
Mas sei, isso sim, que sendo tu como nós, Deus escolheu-te para encarnar no teu seio, para de ti nascer, viver e morrer entre nós e por nós. Como nós todos, tu conténs em ti a imagem e semelhança de Deus, com que Ele nos criou. Mas tu contiveste também a substância Dele. Tu deste-lhe também um pouco da tua própria imagem e semelhança. E se Ele ofereceu a vida por nós todos, a ti Ele ofereceu incomparavelmente mais: como teu Filho, Ele deixou-Se conhecer por ti, inteiramente, como toda a mãe conhece o seu filho. Por ti e unicamente a ti, ele prescindiu da Sua incognoscibilidade. E só tu o compreendeste sempre, inteiramente, durante os trinta anos do vosso silêncio, durante os três anos da Sua revelação ao Mundo, durante os três dias da Sua Páscoa.
E sei que foi de ti que João Evangelista, o discípulo por Ele amado, aquele que se fez teu filho pelo resto dos teus dias, teve o conhecimento verdadeiro do teu filho Jesus, aquele conhecimento que torna tão diferente e tão único o seu Evangelho. Ora foi este mesmo João, talvez olhando para ti, que nos disse a nós outros que «não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é». A ti manifestou-se, em tua vida tu viste-O tal qual Ele é, assim recuperaste tu a tua semelhança com Ele. Tu tornaste-te Um com Ele e Ele contigo. Ainda em tua vida, tu já estavas Nele e Ele em ti.

Por isso, muitos que Nele acreditaram, quiseram acreditar que tu sempre estiveste em Deus, isenta de pecado como Deus é isento de pecado. E sem morte corporal pois, em tua vida, tu já tinhas chegado a Deus, como nunca tinha acontecido nem voltou a acontecer. E sendo tu uma de nós, quiseram também acreditar que estando tu em Deus, tornaste-o mais próximo de nós que andamos por aqui. E como tal, para ti viraram a sua Fé, aquela Fé que não é apenas acreditar e compreender mas também entregar assim a nossa esperança.
E também por isso, Maria, eu que não costumo pedir-te nada, eu que gosto de ti mais do que te adoro, eu compreendo bem todos aqueles que invocam a tua intercessão, aqueles que sabem da tua imaculada concepção, aqueles louvam a tua imaculada condição, aqueles que te chamam Raínha, aqueles que se colocam sob a tua protecção, aqueles que suspiram por um sinal teu. É precisamente pensando neles e em ti, que eu às vezes me pergunto: o que é afinal a teologia ao pé da Fé?

Tu que me viste no Sameiro, pasmando para aquela gente simples que entoava ladaínhas absurdas em teu louvor, não deixaste contudo que aquele detestável e costumeiro desprezo me invadisse o coração. Pois pensando em ti e naquilo que tu fostes, senti que o Deus de quem aqueles meus irmãos na Fé dizem tu seres Mãe, esse Deus em que acredito certamente se comprazia neles.
Por isso, eu te saúdo, Maria, pois estás em Deus e és verdadeiramente Mãe.

José [
GUIA DOS PERPLEXOS]

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Ratos e homens

No quase em português, num post intitulado "Tabú e preconceito", diz o Lutz: "incomoda-me o tabú que existe em relação a toda a atribuição de características genéricas em relação aos judeus em especial e para qualquer etnia em geral".
A explicação para esta perturbante declaração é simples. Segundo o Lutz "só um tabú não é uma solução. O tabú suprime o problema, por algum tempo, mas não o resolve. Um tabú não convence quem devia ser convencido. Como crente na razão não acredito que se pode proibir pensar e discutir livremente questões como esta". Como ele diz: "É ilegítimo colocar esta pergunta? É legítimo chegar a uma resposta para essa pergunta, seja qual for?"
Gostaria de sublinhar que se existe pessoa na blogosfera de cuja convicção na profunda dignidade humana e consequentes sentimentos anti-racistas não duvido é precisamente do Lutz. É aliás óbvio nesse excelente post o seu profundo sentimento anti-racista. Mas julgo que algumas das dúvidas do Lutz resultam precisamente dele se limitar ao que designa como "crença na razão".

O tabú é a generalização. E não tenho dúvidas que deve ser exactamente como um tabú que deve ser tratada a resposta a essa questão que traduza uma abordagem racista. É legítimo colocar a pergunta mas é moralmente ilegítimo dar determinadas respostas.
Porque a razão aqui não é suficiente.
Um tabú é uma barreira moral. O facto de ser uma barreira moral não deve impedir a sua discussão; bem pelo contrário (penso aliás que a parte final do post do Lutz visa, pelo seu carácter algo provocatório, provocar precisamente esta discussão bastante útil).
Mas a resposta a dar não se pode basear apenas na razão.
Porque penso que a generalização é um fenómeno natural cuja crítica fundamental é de natureza moral.
Embora seja óbvio para (quase) toda a gente que encontramos pessoas boas e pessoas más em todos os grupos sociais ou humanos, independentemente dos critérios pelos quais estes grupos sejam classificados: pretos, brancos, ciganos, árabes, nórdicos, heterossexuais, homossexuais, cristãos, muçulmanos, ateus, professores, sapateiros, etc. etc. aparecem sempre fenómenos de generalização que ignoram esta realidade. Qual a razão de ser deste comportamento?

Julgo que foi B. F. Skinner que fez uma experiência com uns bichos (já não me lembro se eram pombos ou ratos; julgo que eram ratos) em que, se se associasse um círculo preto a um choque eléctrico e o rato agredisse o círculo preto o choque eléctrico cessava. Ao fim de algum tempo quando aparecesse esse círculo preto, o rato agredia o círculo preto ainda antes de receber o choque eléctrico. Se surgissem outras formas (quadrados ou triângulos, p. ex.) ou cores (branco, vermelho ou verde p.ex.) o rato responderia a estas formas proporcionalmente ao número e intensidade dos choques eléctricos do seguinte modo: começaria a agredir também primeiro as formas e cores mais semelhantes (hexágonos ou cinzento, p. ex.) e, depois, proporcionalmente ao número e intensidade dos choques eléctricos iria agredir formas e cores que tivessem uma semelhança por mais vaga que fosse com o círculo preto (a partir de um certo nível de choques eléctricos o animal agredia tudo o que aparecesse...). O objectivo das experiências era demonstrar que os animais possuem capacidade de generalização e que esta capacidade não é inata mas um comportamento de aprendizagem. Actualmente considera-se que, possivelmente, também existem genes que determinam esta capacidade de aprendizagem e que ela não é só determinada (como alguns dizem que pensava Skinner) por eventos do meio ambiente.

Isto foi apenas um resumo muito simplista dessas experiências para esclarecer melhor o que vou dizer a seguir.
Penso que a generalização é um comportamento animal de defesa. Perante um perigo ou uma agressão tendemos a generalizar certas características do perigo ou do agressor para impedirmos segundo uma lógica de probabilidades a possibilidade de ocorrência desse perigo ou dessa agressão. O grau de generalização dependerá do grau de emotividade associado a esse perigo ou a esse agressor. Essa emotividade pode ser o resultado ou de características intelectuais baixas do agredido (que é incapaz de distinguir detalhes específicos do agressor) ou de um elevado nível da agressão sofrida. A generalização é uma espécie de cegueira animal.
Contudo, em termos de lógica probabilistica, estes comportamentos fazem todo o sentido (julgo que foi Lenin que disse que valia pena fuzilar cem inocentes se também se fuzilasse um reaccionário). De facto, se o Outro, a outra pessoa individual, não tiver um valor intrínseco, se soubermos que em cem mil pessoas está a pessoa que nos quer matar e não temos maneira de a descobrir (ou mesmo que a tivéssemos) é muito mais simples e muito mais eficaz executar as cem mil. Porque não haveria de ser assim? Se não existir nenhuma utilidade em deixar viver as outras 99 999, e puder executá-las sem grandes problemas logísticos, qual a razão porque não as hei-de matar (o custo das balas ou de outro qualquer método de execução?) para assim ter a certeza de que o perigo desaparece?

Os comportamentos de generalização só são absolutamente condenáveis quando possuímos valores que nos dizem que a dignidade da pessoa humana é divina e individual.
Nenhuma conjuntura permite justificar a violação da dignidade humana de cada pessoa individualmente considerada. Para um cristão, se existir uma raça de homens azuis em que 99,9% têm comportamentos criminosos frequentes, não é justificável afirmar que todos os homens azuis são muito pecadores nem é justificável tratar, directa ou indirectamente, de modo discriminatório, os 0,01% de homens azuis que não são criminosos. Não é justificável moralmente dizer, nomeadamente, com aparente neutralidade, que se constata entre os homens azuis uma elevada taxa de criminalidade. Porque isto já é discriminação para os 0,01% de homens azuis que não são criminosos.
As categorizações generalistas são por vezes adequadas para efeitos de diagnóstico de generalidades.
Mas para um cristão, o que é importante não são os diagnósticos colectivos estatísticos mas as terapêuticas individuais.


Timshel [TIMSHEL]

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Este mundo assim é que faz bem à Igreja

Confesso-me: sou republicano e "laico" (e também socialista, mas para o caso aqui pouco importa). O que me leva a esta confissão é o grito do Ipiranga de alguns sectores católicos: estão-nos a assaltar a caixa de esmolas, dizem, e tocam a rebate os sinos dos templos modernos (jornais, televisões, blogues).
O cardeal Ratzinger veio,
na sexta-feira passada, dia 19, atacar o «laicismo» que se converteu numa nova ideologia «agressiva e intolerante» e lamentar a «marginalização» de Deus no Ocidente, numa entrevista ao diário italiano "La Repubblica". De onde vem este argumentário? Da recusa de Rocco Buttiglione como comissário europeu, pela maioria dos deputados do Parlamento da Europa.
O professor universitário Mário Pinto,
no Público de segunda-feira, volta a insistir em Buttiglione, para reafirmar «[o] crescendo de clara inimizade contra o cristianismo e as religiões (visível em certas potências dominantes)».
Afastemo-nos do caso em particular e situemo-nos num patamar mais lato da questão. Mas leia-se, de novo, Ratzinger: «Passámos de uma cultura cristã a um laicismo agressivo e às vezes intolerante. Apesar disso, ainda que as igrejas se esvaziem e muitas pessoas não sejam crentes, a Fé não morreu», sublinhou o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. [Questões menores, para Ratzinger, a das igrejas que se esvaziam e da cultura cristã, que não "leva" adjectivo?]

Tenho para mim que a laicidade não é negativa. Pelo contrário: só faz bem à Igreja, às igrejas e às religiões. Aliás, é "condição nossa", de crentes não eclesiásticos (chamemo-nos assim – e, por isso, preferiria usar o termo "secularização", mas já que até o senhor cardeal da Cúria assim fala...). Eu que sou leigo na Igreja quero meter-me a sério nas coisas públicas, mas sem a necessidade de publicitar a minha condição de católico. Não preciso. Do que me devo arrepender é, na coisa pública, actuar como se não fosse católico: achar que a guerra é coisa normal, que o desemprego em crescendo é inevitável, ter como certa a existência de pobres ou preguiçosos que gostam de viver do rendimento mínimo. [É interessante – e o
Zé Filipe, já uma vez o apontou – como Mário Pinto, por exemplo, alinha por um discurso neo-liberal que desconsidera as mulheres e homens que não entram na engrenagem social e económico definida pelo "altar da produtividade-rentabilidade". Adiante.]
O problema deve ser outro. O de influência ou poder – e uma e outro são coisas que a Igreja Católica não deve desejar. Não me incomodam as posições de Buttiglione sobre a homossexualidade. Não as entendo, para quem se diz católico. O que me incomoda é, perante um caso de incompetência política (dito simplisticamente: o homem pôs-se a jeito) vir gritar-se que a Igreja está a ser atacada. Eu sinto-me atacado por algumas coisas que muitos da Igreja dizem todos os dias e não vejo onde está a (minha?) religiosidade/fé (laicidade) ser posta em causa.
Na entrevista citada, Ratzinger mostrou-se convicto de que o cristianismo será determinante no futuro e «capaz de fornecer uma força moral» a uma nova Europa multicultural. E, sublinhe-se, considerou igualmente «um desafio positivo» para os cristãos «a firme fé dos muçulmanos em Deus». Há dúvidas sobre o aqui se diz? O que aqui se deseja é o regresso a uma espécie de teocracia? A palavra ao cardeal: «Deus está muito marginalizado. Na vida política parece quase indecente falar de Deus, como se fosse um ataque à liberdade de quem não crê», assinalou, concluindo que «uma sociedade da qual Deus está totalmente ausente auto-destrói-se» dando como exemplos «os grandes regimes totalitários do século passado». Não é indecente falar de Deus na vida política. É indecente invocar a Nossa Senhora de Fátima para nos safar da maré negra do "Prestige" ou dizer god bless us, no fim de um discurso laudatório da guerra, como faz Bush.

Mas à esquerda também há quem se ponha a jeito para as opiniões de "máriospintos" e "ratzingers". É uso e costume da esquerda se insurgir contra o discurso da Igreja (assim se identificando a Igreja de Roma, o Vaticano) na moral sexual. Que devia ser outro o discurso do Papa, concordo. Mas a seguir parece querer remeter-se as igrejas para o interior dos seus templos. Este sinal também é dado, sobretudo em espaços à direita, quando as questões são político-sociais (como já apontei no caso de Mário Pinto).
A laicidade do Estado não se joga na ausência do Estado de iniciativas que partam da Igreja Católica - ou de outras igrejas e comunidades. A laicidade do Estado joga-se na pluralidade de todas as religiões no espaço público (podemos discutir se é isso que acontece na prática, mas isso é outro ponto). Não me incomoda, como na iniciativa recente da Bíblia Manuscrita, ter a "participação" de alunos e professores exteriores à disciplina de religião e moral ou de figuras do Estado "laico/secular". Ou as religiões apenas são toleráveis metidas na sacristia ou enfiadas em sinagogas clandestinas?
Repito-me: a condição da laicidade também é a minha. Defendo a laicidade do Estado, mas esta não se deve basear no totalitarismo da "ausência" de sinais religiosos, como na Albânia de Enver Hoxa ou, salvas as devidas proporções, na França de Chirac, que se meteu numa alhada com a "lei do véu"...Por fim, relembro um
texto do Movimento Católico de Estudantes, redigido já em 1993: «O cristão não é "a alternativa a este mundo corrompido", a única possibilidade de salvação. Evangelizar a partir da cultura, discernir como viver a fé no diálogo reconhecedor da autonomia e da pluralidade da Cidade e das especificidades culturais, exige que os cristãos não se posicionem paralelos a nada, mas numa cidadania feita com outros [...]». Nos tempos que correm este é que o desafio. Não é eleger Buttiglione…

Miguel Marujo [
CIBERTÚLIA]

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