<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, dezembro 8

 

Uma questão de sistema nervoso

Descriminar, ver onde no meio da tua maldade, tu tens ainda assim sinais de bondade. Ver no meio da tua bondade, onde tu tens ainda assim sinais claros da maldade. Não é fácil. Não é fácil distinguir o trigo do joio. Mas ainda assim, mesmo quando julgamos que isso é quase impossível de ser feito, ainda assim permanece este quase.

Por isso, quando nos interrogatórios das diversas Cortinas de Ferro e Aço, o militante, político e ou religioso, se deparava com os que o acusavam de desvio ideológico, de prática desviante, as coisas começavam por ficar muito complicadas. E isto mesmo que não tivesse aparentemente qualquer desvio…
Penso que é dito assim. Se não for também não faz grande diferença para o que aqui nos traz. No 1984, de Georges Orwell, um dos vizinhos do protagonista afadigava-se para mostrar todo o seu empenhamento no regime totalitário. Orava regularmente ao Grande Irmão, doutrinava mulher e filho e fazia o filho militar com ardor nas milícias juvenis. Acirrava-o a lutar pelo regime, a denunciar os inimigos. Até que um dia, o filho o denunciou.
Denúncia feita, a Polícia Política perante os evidentes sinais do empenhamento da personagem, não deixa ainda assim de supor que algo de malsão se enraizara na alma dele e que o enraizamento não tardaria a dar ramos, folhas e frutos. Que todo ele, tarde ou cedo, seria um poço de embriaguês e revolta.
Por isso, é condenado à torturante reciclagem ideológica. O mesmo se passa com o protagonista. Quando depara com a Polícia Política sabe que está em maus lençóis. Era evidente e provado que militava contra. Mas não estava ele e os algozes imbuídos de um desejo comum: transformar a terra num local paradisiacamente habitável? – Valeria a pena lembrá-lo aos que se aprestavam a usar os instrumentos de tortura?

O modo bipolar como olhamos, é bom, é mau, é totalitário. Quando olha a alma e o corpo do outro, cobre a alma do outro e o seu comportamento. Não deixa nada de fora. Toda a alma e todo o comportamento são bons ou maus.

Estas conclusões já aqui foram referidas e repetidas por mais de um dos participantes na terra. Por isso, acrescento três coisas.
A primeira, tem a ver com a ânsia desenfreada e desesperada que marca a vida do que se quer idêntico ao modelo que o guia. As estaladas com que esbofeteia a cara, sempre que não somos como queríamos ser e isto sempre e apesar do esforço e quando ainda assim o mal não se cansa de rir de nós.
A segunda, é para dizer que na raiz desta bipolaridade totalizante e totalizadora está o medo. É o medo que faz o Regime, o Partido, a Igreja, o Futebol, ver quem está na sua frente como um adversário, um adversário inimigo, um inimigo irredutível e que por isso é reduzido a uma cor. É o medo que faz com que procuremos com desespero ver no outro alguém que está irredutível do nosso lado ou que está irredutivelmente no lado dos outros.
A terceira, que não somos assim, que nunca somos assim, que nunca somos um estado totalmente bruto, totalmente brutos, a não ser nos cenários explicativos, e que se assim não somos é porque ainda assim duvidamos.

Por isso, o Partido totalitário se reúne em Congresso. Por isso, o algoz precisa das palmadas nas costas dos seus copinchas. O Partido precisa do ruído das palmas, o algoz das palmas nas costas. Uns e outro e nós para afastar a presença da fina linha de suor frio que percorre a espinha das costas e que ameaça arruinar a solidez de tantos nervos… Então, quando declaramos o outro totalmente bom e quando o declaramos diverso e totalmente mau, a dúvida tem oportunidade de assumir um digno e dignificante estatuto epistemológico: faz estar perto da verdade… O que obriga a perguntar: se mesmo quando toda a razão e toda a evidência jogam a favor dos sólidos juízos, quando não há nada que temer: ele é mesmo isso, de onde provêm afinal tão irracional e tão confuso sentimento?


Fernando Macedo [A BORDO]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?