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quarta-feira, dezembro 15

 

Terra de Missão ou demissão na Terra? – 2ª parte

Que os cristãos assumam o dever de evangelizar, que a cidade conheça o Congresso e que as iniciativas de uma semana tenham continuidade. São os três frutos que D. José Policarpo espera do Congresso Internacional da Nova Evangelização que decorre em Lisboa em Novembro do próximo ano. (…) o Patriarca de Lisboa está certo que “recolhemos aos abrigos, refugiamo-nos no quentinho” esquecendo a cidade, os seus novos dinamismos e estruturas. O ritmo acelerado da urbanização de costumes e sociedades traz consequências para a organização da Igreja que D. José Policarpo quer enfrentar. A organização em paróquias territoriais será, por ventura, a primeira a ter que sofrer fortes alterações para que as propostas da Igreja sintonizem com as necessidades das mulheres e homens do presente.(...) D. José Policarpo quer que o Congresso chegue a todas as pessoas, ao público. Para isso, espera a ajuda dos meios de comunicação social. O Patriarca de Lisboa espera ainda que os debates que a realização de Lisboa deste Congresso Internacional definam “linhas de força que possam permanecer”. Uma delas é, e repetiu-o, esse “dever de evangelizar”, na certeza de que isso não é “anti-democrático”. Outra, “a aprendizagem prática da convivência na diferença”, que exige a passagem da ideia de “respeitar a diferença para valorizar a diferença”. D. José deseja ainda que os dinamismos da nova evangelização, em Lisboa, conduzam à “síntese entre o templo e a rua, as igrejas e a cidade”. (…) Para o conseguir, D. José Policarpo conta com todos os cristãos. Sendo o grande desafio de uma missão na cidade, “estabelecer a ponte, só os cristãos o podem fazer, porque têm a notícia e a frescura do espírito evangélico na vida do homem e da mulher de todos os dias”. Para realização do ICNE em Lisboa, em 2005, D. José Policarpo espera “tudo e muito pouco”. Mas adianta: “gostaria que o Congresso fosse uma sacudidela. Gostaria que os cristão descobrissem que é simples e normal darem testemunho da sua fé quando isso vem a propósito e que se espalhasse um sentido de normalidade de presença da Igreja na cidade (de Agência Ecclesia).

Devo começar por esclarecer que gosto muitíssimo do D. José Policarpo. Acho que os católicos portugueses muito ganham por ter à cabeça da sua Igreja este homem inteligente e culto, de fé profunda e linguagem clara, que prefere a doçura à veemência. E que tão bem simboliza uma Igreja pós-conciliar inquieta, perplexa, perante as encruzilhadas inúmeras que se apresentam à continuação da sua peregrinação milenar. Como aliás se percebe por algumas coisas extraordinárias (no sentido lato) por ele ditas no extracto acima e que eu assinalei a vermelho.
Agora sim, é por demais evidente o facto de vivermos numa Europa pós-cristã, cujo humanismo parece ter esquecido as suas raízes e ter-se transformado num sentimento de culpa angustiado pelo mundo a que deu origem, em que um cardeal tem de apregoar o carácter não anti-democrático do dever de se evangelizar (!!!) e desejar que se espalhe um sentido de normalidade de pertença à Igreja na cidade. Eis aí de facto, uma Europa cuja matriz cultural parece olhar a “nossa” crença como uma inferioridade intelectual e como a a causa primeira de outras crenças, únicos sinais para nós discerníveis de outras culturas, virem agora ameaçarem o doce ripanço em que vivíamos. E mal os herdeiros da Revolução Francesa acabaram de sentir a sociedade quase liberta do torpor opiáceo das Igrejas cristãs, sobretudo a Católica, parecem eles agora perturbar-se perante a irrupção de outras crenças que por serem étnicas não podem ser combatidas à luz do dia. Surgem já, nos campos da esquerda alternativa, extraordinários sinais capitulacionalistas como aquela lei anti-blasfémia com que na Holanda alguns querem calmar uma comunidade islâmica inesperadamente recalcitrante. Está giro isto…
E é já no meio de toda esta confusão que surgem agora os cardeais da Europa a tocar a rebate pela re-evangelização da Europa e das suas cidades. A bem da nossa alma, da nossa identidade ameaçada, da nossa sociedade em colapso moral e material. A intenção é pois excelente. Os meios são sem dúvida simpáticos. No entanto, pelo que irei expôr de seguida, tudo isto me parece muito confinado a um sector da Igreja, muito insuficiente face à dimensão do problema, contando muito com a boa vontade e colaboração dos fiéis.
Aliás é por aí que vou começar pois é bem medida da evolução das coisas.
É bem sabido que a Europa católica já passou por bem crises profundas. Recordemos os séculos XII e XIII, quando a ideia gregoriana da Igreja sociedade total deu origem a escandalosos abusos e desvios do clero. O seu enriquecimento em tempos de chumbo, as simonias, a falta de castidade, tudo isso ofereceu um campo fértil para o florescimento de tendências religiosas que vieram a ser chamadas de heréticas. Recordo os cátaros da Occitânia, herdeiros do dualismo maniqueísta e do gnosticismo oriental, que fundaram uma nova Igreja, com princípios teológicos muito duvidosos mas com práticas de vida puras, justas, muito mais à imagem de Cristo. Recordo também os Valdenses que a partir dum burguês que renunciou aos bens e ao desconhecimento forçado da Palavra de Deus, fundou um movimento que também ele envergonhava padres e bispos. É certo que o problema foi resolvido à bruta, montando-se uma cruzada a expensas do rei de França e ao serviço das suas ambições territoriais e que afogou em sangue aquelas doutrinas novas. Mas a Igreja intuiu que lhe tinha sido lançado um enorme desafio que se iria fatalmente repetir. A Igreja percebeu então os efeitos desastrosos da contradição entre o que pregava e como vivia, bem como da fragilidade do entendimento da Fé pelos seus humildes fiéis. Foi essa a altura de uma nova evangelização, como hoje o é. E para isso a Igreja criou as ordens pregadoras e mendicantes, os franciscanos e dominicanos, que prescindiram dos ricos ataviamentos clericais e partiram descalços a pregar a doutrina ao povo enquanto viviam e sofriam com eles. Devo dizer que funcionou.
Mais tarde, após o desafio de Lutero, a Igreja percebeu igualmente, após a guerra dos trinta anos, que não era à bruta que conseguia defender a sua missão e apesar de ter dado campo livre à Inquisição, vergonhosa vergôntea dos dominicanos, criou também os jesuítas, uma nova ordem de pregadores, um novo conceito de pregação.
Fiquemos por aqui pois já cheguei ao meu ponto: em duas grandes crises de fé na Europa a Igreja Católica virou-se naturalmente para algo que está inserido no seu código genético, se calhar a única coisa para o qual está mandatada por Deus e ordenada por Cristo, uma coisa simples, óbvia, essencial: a pregação!
Ora o que mais me espanta nesta Igreja de hoje, que apela aos seus fiéis, à comunicação social, sei lá mais a quem, para a ajudarem na indispensável Nova Evangelização, é que ela não parece invocar no seu seio aquilo que é a sua função mais sagrada e aquilo que este rebanho perdido mais necessita: a pregação! E a mesma Igreja que ensinou os seus fiéis a aguardarem a sua intercessão no acesso à graça divina, pretende agora que eles se reúnam e, em procissão, se ponham a mostrar à cidade atónita a felicidade da sua fé! Pois se ela mesma se desabituou de lhes dar o alimento espiritual exclusivamente do qual eles podem atingir alguma inteligibilidade na sua fé: a pregação! Pois evangelizar não é, antes do mais, anunciar a Boa Nova e a Palavra de Deus? E como pode ser isso feito sem algo a que a Igreja outorgou apenas aos seus padres e bispos: a pregação!?
Admito que esta minha conversa esteja a ser um pouco pesada e, com toda a certeza, algo injusta. Mas o facto é que a Igreja católica tem, ela própria de readquirir esse carisma essencial, que lhe dá o sentido primeiro, que lhe dá a continuidade com os apóstolos. E que a meu ver, tem vindo ao longo de décadas a ser descurado em benefício duma praxis mais ritual, mais sacramental, que tem eficácia e sentido mas que, por si só, não evangeliza.
Não quero faltar ao respeito a ninguém nem ser destrutivo, mas não posso calar a minha angústia de católico pela gritante falta de pregadores! E eu tenho a sorte de conhecer alguns, de saber quais as paróquias de Lisboa onde eles são priores ou coadjutores. Acabo por os seguir de missa em missa pois, contrariamente ao que a minha veia retórica já aqui disse, uma missa preenche a minha fé muitíssimo melhor se nela houver uma boa prédica, que me emocione ou me faça pensar. Mas a parte maior dos meus irmãos vai à missa que lhe está à mão e aí ouve do que houver para ouvir. E existe a noção clara de que os sermões que nos estão a dar andam muitas vezes longe, muito longe, daquilo que precisamos ouvir.
Porque será assim? Os meus estimados conterrâneos
Miguel e Zé Filipe, que vivem muito mais próximo de movimentos da Igreja do que eu, já tem falado aqui da deficiente formação dos padres, do abandono a que estão sujeitos nas suas paróquias, da sua solidão debilitante. Mas eu queria abordar apenas um aspecto mais prático, aliás aflorado pelo Sr.D.José naquele texto acima: a organização celular da Igreja em paróquias, sobretudo nos meios urbanos e suburbanos.
Eu tenho um amigo que é padre e pároco, sei por isso do que estou a falar. Uma paróquia é muito mais e muito menos do que aquilo que devia ser: uma comunidade de crentes. Uma paróquia é uma instituição, uma organização, com organigramas e estrutura logística. Tem um centro paroquial ou social, tem activo e passivo, tem conta no banco. Tem pilares na Igreja e pilares na congregação. Tem facções e sensibilidades. Tem coros disputando as missas do meio-dia. Tem obras a fazer e tem comissão fabriqueira. Tem relações com a Junta e assento na comissão de festas. Tem também, é certo, sacramentos, missas, casamentos, baptizados e funerais para celebrar ou ministrar. Mas tem, como se vê, uma infinidade de coisas que contribuem para desespiritualizar o ministério do sacerdote, transformando-o numa espécie de funcionário administrativo em vez de um pastor de almas. Seria pois talvez interessante que a Igreja repensasse este modelo, quem sabe se com recurso a leigos desinteressados e com disponibilidade para estas funções necessárias mas terrenas e deixar ao pároco a ocupação principal de apoiar espiritualmente os paroquianos, a evangelizá-los.
Por outro lado é bem certo que a vocação dos padres se manifesta de forma diversa. Uns tem o dom da palavra, outros não. Uns são mais espirituais que outros. Uns tem uma visão mais mística da fé, outros uma visão mais rigorosa. Seria assim interessante ofertar aos crentes uma abordagem múltipla que lhes permita aceder à verdadeira diversidade de onde convergem os caminhos para Deus. Estou assim a falar duma coisa que penso ser novamente necessária: um corpo de padres pregadores, com as características, a formação e o carisma necessários, que andassem de paróquia em paróquia, não apenas para comer as sopas do prior e ler o evangelho na missa, mas sobretudo para serem eles a dizer a homilia, como já antes se fez e devia voltar a fazer-se.
Quero dizer com tudo isto que este novo e nobre esforço de Nova Evangelização, que é sobretudo um esforço para a nossa própria reevangelização, não passará duma pedrada no charco se a Igreja, enquanto instituição e vigária de Cristo, não olhar para si própria e gerar de si mesma as pedras angulares para essa (re)construção. Se assim fôr será muito mais fácil encontrar leigos que a ela se juntem para, “saindo do templo para a rua”, virem aí afirmar alto a fé que os anima.
Isto é a humilde opinião dum católico que apenas vai à missa e tem um blogue.

José [
GUIA DOS PERPLEXOS]

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