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quarta-feira, dezembro 1

 

a rush and a push and the land that we stand on is ours

1. «Deus disse: "Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será o vosso alimento"» (Génesis 1, 29).

Aqui há dias, no seguimento de uma conversa político-etílico-filosófica, o meu amigo AR perguntou-me se eu era a favor da colectivização dos bens de produção. Respondi-lhe que, sem prejuízo de uma regulamentação de ordem prática em relação a alguns bens privados, a maioria dos bens de produção, que permitem a criação de riqueza (como se diz agora), deveria ser pertença de todos estar. Os bens de produção - materiais ou imateriais - deveriam ao serviço da comunidade, através das instituições colectivas - o Estado. Por uma simples razão: quando Deus criou a Terra, a terra nela presente, com todos os seus recursos, atribuiu a sua gestão a todo o género humano, para sua guarda e usufruto. O mesmo se diga caso se queira prescindir da hipótese de Deus. Originalmente, num tempo remoto e comum, não havia propriedade privada. Mesmo o conceito mental era estranho aos nossos antepassados. Se nos reportarmos a um qualquer tempo inicial, encontraremos a repartição da propriedade comum como uma ruptura violenta no modelo comunitário de uso e partilha da terra.
O Catecismo da Igreja Católica (certamente também considerado por muitos como mais uma obra ideológica ultrapassada, que não se compadece com os tempos modernos, uma manifestação do desajuste da Igreja à contemporaneidade) refere expressamente que o direito à propriedade privada não vem abolir a doação original da Terra ao conjunto da humanidade (2403). E a Constituição Gaudium et Spes adverte que «quem usa desses bens não deve considerar as coisas exteriores, que legitimamente possui, só como próprias, mas tembém comuns, no sentido que possam beneficiar não só a si mas também aos outros» (69 § 1).
Pergunto-me muitas vezes, qual conservador do registo histórico predial, onde nos levaria a pesquisa do trato sucessivo de um pedaço de terra que hoje serve para suporte à reserva ecológica nacional, para cultivo na agricultura mais pobre da Europa ou se destina ao loteamento e à construção de um empreendimento em condomínio fechado, consoante a arbitrária vontade dos desenhadores de planos municipais.
E por que estranha razão admitimos sem pensar (nem pestanejar) que um filho de um proprietário nasce proprietário e um filho de um pobre nasce pobre. Eu sei que, como dizem os liberais (ricos), a pobreza é um conceito relativo. Mas se somos todos iguais, se nos reconhecemos todos irmão, porque filhos do mesmo Pai, por que motivo subvertemos a herança que era de todos? Quem roubou os irmãos pobres? Quem rouba os pobres?

2. Foi já publicada em livro a tese de Doutoramento de José Tolentino Mendonça, intitulada A Construção de Jesus (editado pela Assírio & Alvim), já aqui referida, aquando da dissertação apresentada na Universidade Católica, nos princípios de Julho. O livro expõe uma nova abordagem à exegese bíblica centrada nas estruturas narrativas presentes ao longo dos textos sagrados, por forma a recuperar o espaço metafórico e narrativo da verdade - o chamado método de análise narrativa. Partindo de uma perícope de Lucas, José Tolentino Mendonça mostra como o evangelista constrói a figura de Jesus e nos mostra o seu processo revelatório, seguindo o clássico paradigma triádico: acção, reacção e desfecho– assenta, assim, numa «plataforma interdisciplinar onde a Exegese bíblica estabelece importantes relações com outras áreas como os Estudos Literários, a Teoria do Texto, a Linguística, a Teoria da Comunicação, a Retórica ou Pragmática Linguística».
A Construção de Jesus - um bem que se quer comum.

Carlos Cunha [PARTÍCULAS ELEMENTARES]

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