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terra da alegria


 
 
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segunda-feira, dezembro 20

 

Re:

[o texto publicado em seguida é uma carta da autoria de Ludwig Krippahl, do blog Diário Ateísta, como comentário ao artigo de Carlos Cunha, publicado neste espaço na passada 4ª feira. Publicamos a carta, na íntegra, com a devida autorização do seu autor. Na próxima edição da Terra da Alegria será publicada a resposta de Carlos Cunha, já enviada a Ludwig Krippahl. Continuaremos a publicar a troca de correspondência efectuada entre ambos, enquanto tal nos parecer do interesse do blog e se para tal houver autorização dos autores.]

Caro Carlos Cunha,
Sendo eu um dos ateus que referiu no seu texto "Notas Praticantes" de 15 de Dezembro, achei por bem esclarecer alguns aparentes mal-entendidos acerca do nosso ateísmo. O nosso ateísmo é fruto dum processo constante de crítica e auto-crítica, e por isso prezamos o empenho com que outros nos criticam. Espero que explicar-lhe a nossa posição torne as suas críticas mais proveitosas.

"Gabo a paciência de alguns meus conterrâneos para com os
militantes ateus. Os rapazes (e raparigas) têm uma missão hercúlea, é certo. «Escolheram acreditar que Deus não existe», dizem na sua apresentação. Eu, se pudesse, também escolhia não acreditar em alguma coisa. Ou acreditar noutras. Não sei é como se pode escolher acreditar ou não acreditar. Eles também não explicam. Mas adiante."
O acreditar do ateu não é o acreditar do homem capaz de despenhar um avião com uma centena de pessoas contra um arranha céus, na convicção inabalável que tal acto é de alguma forma Bom aos Olhos de Alguém. O acreditar do ateu é o acreditar de quem pergunta à mulher se há papel higiénico e ela diz que sim, há um rolo na dispensa. Se ela o diz, então provavelmente há. Mas se afinal não houver é um mero inconveniente e não uma crise de fé.É assim que eu acredito que esse Deus com D maiúsculo não existe. Ponderei a informação que tenho, e concluí, até ver, que é improvável que crianças morram de cancro porque Alguém planeou cuidadosamente o seu sofrimento, ou que as retinas dos vertebrados estejam por trás dos vasos sanguíneos e nervos porque Alguém se enganou a ler as instrucções quando criou estes animais. O peso das evidências aponta para um universo sem desígnio, sem plano, sem Deus. E eu escolho acreditar naquilo que a observação me sugere ser verdade.

Aceito - acredito, se quiser - que o Carlos não tenha escolha. É bem possível que a fé seja algo mais forte que as pessoas, que as arrebate e que não lhes deixe escolha de acreditar ou não. Teologicamente, penso que será uma posição problemática, mas explicaria muito bem a forma como a fé afecta as pessoas, e como é resistente mesmo às demonstrações mais óbvias da sua falsidade. Nisto de Deus eu tive mais sorte, e pude escolher o que acredito.

"Caso Deus não exista, as religiões ficam reduzidas à sua expressão mais simples, institucional, associativa (as tais «pessoas unidas»), que procuram «a verdade e o conhecimento» e também «centram as suas atenções na humanidade». No fundo, como os nossos irmãos ateus pretendem."
A expressão mais simples da religião, como fé organizada, é de facto uma expressão institucional. Mas esta é, por natureza, uma expressão que visa roubar o mais possível a liberdade de escolha entre a crença na existência, a descrença, ou a crença na inexistêcia do respectivo deus.
O que nós ateus temos como valioso é a expressão mais simples da fé, ou da sua ausência, que é uma expressão individual, feita de valores subjectivos de cada um, e expressa na forma como cada um vive a sua vida, por si próprio e não a mando de uma instituição.

"[...]também quero «que todos tenham o direito a escolher o seu modo de pensar e de viver, sem medo do preconceito e da intolerância». Mesmo do pre-conceito "Deus Não Existe" (ou a certeza negativa, bem contrária aos princípios enunciados de «pensar, duvidar e de questionar») e da intolerância de quem escolhe não acreditar."
Eu escolho não acreditar, e tolero quem escolhe acreditar. Só não tolero instituições e pessoas que, talvez por se verem privadas da liberdade de escolher a sua crença, visem privar outros dessa escolha.

Um abraço,
Ludwig

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