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segunda-feira, dezembro 13

 

A Nova Evangelização

Na semana passada defendi que são hoje necessárias a desconstrução e re-elaboração da fé cristã: "Em primeiro lugar, desconstruir significa voltar a encontrar as origens doutrinais e lê-las à luz do conhecimento humano actual. Em segundo lugar, desconstruir implica reformular – voltar a formular, encontrar novas formas de expressão da fé mais de acordo com a nossa cultura."
Esta semana deparei-me com mais alguns sinais dessa necessidade. Perdoem-me a preguiça, mas hoje o texto é sobretudo feito de citações.

Há algumas semanas, o "Público" noticiou o Congresso Internacional da Nova Evangelização, realizado em Paris, que continuará no próximo ano em Lisboa.
Muito de bom foi feito sob o pano de fundo dessa iniciativa.
Para falar da Nova Evangelização convém termos memória destas coisas e não olhar só para as iniciativas recentes. Foi o que fez Jacques Haab, num texto publicado na "Viragem", revista do
Metanoia, em Dezembro do ano passado(1):
«[A Nova Evangelização] foi um projecto vasto que foi instalado progressivamente a partir dos anos 80, sob o impulso de João Paulo II. Tornava-se evidente a tendência acelerada para a secularização das pessoas (…) em regiões do mundo de tradição cristã, nas quais, evidentemente, se inclui a Europa. Paralelamente, tomam lugar novas formas de religiosidade, até às mais loucas das seitas.
A finalidade do sistema Nova Evangelização foi contrariar essa tendência e partir à reconquista das almas ingratas e perdidas. Tudo parece indicar que as escolhas estratégicas foram feitas com intenção de eficiência rápida.
Quer-se reencontrar depressa o contacto com as populações, tentando melhor resposta às suas expectativas, de modo a que não vão procurar mais longe. Como se se aceitasse o risco de pôr em causa o espírito do Concílio – mesmo que se afirme bem alto que continuamos na sua linha – e de deixar de lado certos valores evangélicos.»
Seguidamente Haab analisa esses aspectos que se podem sintetizar no seguinte: a Nova Evangelização quer preservar a imagem de uma instituição atraente, calorosa ("o que em si, vai na linha dos valores evangélicos, desde que não se tire partido de sentimentalismos desarmantes"), visível ("o que é um direito, mas usa-se uma táctica da Igreja que consiste em fazer crer que esse direito lhe é malignamente recusado em nome da laicidade") e garante de segurança ("privilegia-se a continuidade – o que é, muitas vezes, uma forma suave de retrocesso – mais do que a procura: o unanimismo da «comunhão» vale mais do que o debate público; a autoridade paternalista vale mais do que a confiança"). Adiante fala de muitas medidas que contrariam as declarações de abertura à modernidade, como os golpes na teologia da libertação; as chamadas de atenção aos teólogos e à sua liberdade de investigação; a incitação à demissão de alguns bispos; o descrédito quanto ao legado da "época das Luzes"; a afirmação arrogante de exclusividade da mensagem de Jesus (apesar da organização de vistosos encontros inter-religiosos); a recusa de um debate sério e profundo do estatuto eclesial dos padres, leigos e especialmente das mulheres; a multiplicidade de canonizações; o reforço do poder e intervencionismo da Cúria Romana e o alargamento do domínio da «infabilidade» papal.
Nesse texto, Haab analisa ainda as "operações de charme em altas instâncias", as questões relativas à Constituição Europeia e do ensino da religião nas escolas. O último parágrafo, intitulado "Onde fica o Evangelho?" merece ser transcrito na íntegra:
«É este conjunto estratégico de recuperação-por-etapas-"realistas" que repugna a muitos cristãos convictos, investidos no trabalho de Igreja ou do mundo: cheira-lhes a demasiado político, falacioso, calculador, manipulador, paternalista, clerical. Muito longe dos comportamentos de Cristo na sociedade do Seu tempo; capaz de desencadear rejeições violentas. Pensam que não é nestas condições que o Evangelho será verdadeiramente lido, recebido, vivido em toda a sua profundidade e verdade, sob a acção da Graça. Esperam ainda uma Igreja formada por um conjunto de baptizados, fortes na fé mas sem vaidade, sem ostentação. Capaz de construir a cidade do nosso tempo com todas as outras mulheres e homens, em igualdade, em laicidade.»

Por isso, sorrio condescendente quando vejo notícias de que a comunidade Emanuel vai cantar "evangelizando" pelas ruas de Lisboa... Espero que o Congresso de Lisboa seja mais do que isso. Que procure re-elaborar a mensagem cristã na cultura de hoje, como defendi a semana passada. Ou, nas
palavras do Padre Tolentino Mendonça: «O projecto da nova Evangelização não deveria privilegiar uma nova inculturação do cristianismo, enfrentando o problema cada vez mais decisivo da sua tradução cultural? A vasta realidade da acção e animação pastoral, que se distribui por âmbitos e níveis tão diversos, e quase esgota a totalidade dos esforços, não deveria preocupar-se com a espessura cultural das suas propostas e objectivos? Por vezes, a imagem que passa é a de um circuito fechado e parcelar, sem a capacidade de fazer emergir as questões de fundo, distanciado dos debates culturais que estamos a viver, impotente para interagir positivamente com eles e estimular os crentes a se constituírem protagonistas dessa elaboração, segundo o mandato evangélico.»
Ainda que os congressos da Nova Evangelização ajudem a encontrar novas formas de expressão da fé mais de acordo com a nossa cultura, continua a ser necessário encarar sem medo a necessidade de reler e questionar a doutrina da Igreja à luz da realidade e do conhecimento humano actuais. Nenhuma destas ideias vive sem a outra. A evangelização a partir da cultura leva a própria Igreja a evangelizar-se. A evangelização traz sempre conversão e mudança também para a própria Igreja, como dizia o Papa Paulo VI, há 29 anos: «Evangelizadora como é, a Igreja começa por se evangelizar a si mesma. Comunidade de crentes, comunidade de esperança vivida e comunicada, comunidade de amor fraterno, ela tem necessidade de ouvir sem cessar aquilo que ela deve acreditar, as razões da sua esperança e o mandamento novo do amor. Povo de Deus imerso no mundo, e não raro tentado pelos ídolos, ela precisa de ouvir, incessantemente, proclamar as grandes obras de Deus, que a converteram para o Senhor; precisa sempre ser convocada e reunida de novo por ele. Numa palavra, é o mesmo que dizer que ela tem sempre necessidade de ser evangelizada, se quiser conservar frescor, alento e força para anunciar o Evangelho».(2)
___________________________
(1) traduzido do originial "L'Église de la Nouvelle Évangélisation et l'Europe", Jacques Haab, Les réseaux des Parvis, nº18, Junho 2003
(2) Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, sobre a evangelização
no mundo contemporâneo, Papa Paulo VI (8 de Dezembro de 1975), N.º 15

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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