<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, dezembro 22

 

No presépio

Maria
Conversava há uns dias com um amigo protestante, tão ou mais cristão do que eu, mas que acha ser o seu cristianismo diferente do meu, sobre a importância que a figuração do presépio tem entre nós católicos. Falámos de culto de imagens e de iconoclastias. De Erasmo e de Lutero. E por aí adiante. Mas esqueci-me de lhe dizer que é no Presépio, logo aí, que nós católicos, reconhecemos a santidade, melhor dizendo, a sacralidade de Maria. E só hoje me lembrei dum texto obscuro de Sartre (sim, dele mesmo) lido há muito tempo numa crónica de Frei Bento Domingues e que era mais ou menos assim:
«Maria está pálida e olha para o menino com um encantamento ansioso que não apareceu senão uma vez sobre uma figura humana. Porque Cristo é o seu menino: a carne da sua carne, o fruto das suas entranhas. Cresceu nela durante nove meses e Maria dar-lhe-á o seu seio. Por longos momentos, invadida pelo mais forte dos amores humanos, ela esquece que ele é Deus. E aperta-o nos seus braços dizendo 'Meu pequenino’. Mas noutros momentos ela suspende esse movimento e pensa, abismada: Deus está aqui! E fica possuída por um horror religioso, por este Deus mudo, por esta criança terrificante. É certo que todas as mães ficam assim suspensas, por um momento, diante desse fragmento rebelde da sua carne que é o seu filho, e sentem-se em exílio diante dessa vida nova que se fez a partir da sua. Sentem-se então, todas elas, habitadas por pensamentos estranhos. Mas nenhuma criança, porém, foi tão cruelmente e tão rapidamente arrancada à mãe: aquela criança é Deus e ultrapassará sempre tudo o que Maria possa sequer imaginar. Mas há também momentos fugidios, nos quais ela sente que Cristo é seu filho e que ele é Deus. Ao olhar para ele, pensa: ‘este Deus é meu menino. Esta carne divina é a minha carne. Ele é feito de mim, tem os meus olhos e esta forma da sua boca é a forma da minha. Parece-se comigo. Ele é Deus e parece-se comigo!
Nenhuma mulher teve, desse modo, o seu Deus só para ela, um Deus pequenino que se pode tomar nos braços e cobri-lo de beijos, um Deus quentinho que lhe sorri e que respira, um Deus que ela pode tocar e que lhe ri!».
É por isso mesmo, por ter sido ela a única a quem Deus se entregou tão completamente, deixando-a vê-Lo assim tão absolutamente tal qual Ele é, que nós dizemos que ela é cheia de graça e bendita entre as mulheres.

José
Se Maria aparece poucas vezes mencionada no Evangelho, este meu homónimo aparece ainda menos. E se os católicos vieram a dedicar a Maria uma devoção verdadeiramente religiosa, já o bom José aparece em bem poucos altares e é lembrado com um respeito bem discreto. José é o elo que justifica a profetizada ascendência Davídica de Jesus. José é aquele que não repudiando Maria pela sua inexplicável gestação, permite que Jesus nasça e cresça como um qualquer judeu entre os judeus. É assim que José permite que Ele venha a ser rejeitado por ter vivido como viveu e não por ter nascido como nasceu. A José a vontade de Deus não se revelou como a Maria, através dum anjo resplandescente. Não. A José Deus falou discretamente em sonhos, metáfora certamente duma dolorosa reflexão. E ainda assim, silenciosamente, discretamente, José curva-se à vontade do Pai, para que o Filho encarnado entre nós seja um de nós. A José não coube um papel grandioso no plano divino, coube-lhe sim um papel instrumental. Muito antes de Jesus desafiar os homens a abandonarem tudo para o seguirem, já José abandonou o seu orgulho, que se cola tanto à alma humana. Fala-se tanto do sim de Maria, até lhe chamam a NªSª do Sim, mas a mim impressiona-me mais o sim de José. É esse o sim dos simples, o sim das pessoas como nós, os que procuramos seguir a vontade de Deus sem que esta nos surje com a clareza que gostaríamos, sem que possamos sentir que Lhe fazemos tanta falta assim. É o sim prosaico de quem sacrifica o ego em benefício do dever, de quem ama Deus mesmo em prejuízo do seu amor próprio. No presépio, olhando para a sua amada Maria e para aquele Menino, tão espantoso mas tão frágil, José pensa certamente nas dúvidas passadas e sente que, agora sim, chegou a hora de ser ele o protector Daquele que veio para nos salvar.
Mirem-se pois no exemplo do marido de Maria, pai terreno de Jesus.

O Menino
Nem todos conhecerão a experiência de ter um recém-nascido nos braços, sobretudo de fôr sangue do nosso sangue. Eu tive-a por duas vezes e é algo que nunca esquecerei. Acho que um recém-nascido representa um ponto altíssimo da condição humana: ele é absolutamente frágil o que é um atributo do homem e é absolutamente puro o que é ainda um atributo de Deus. Ao encarnar num recém-nascido, Deus assume a condição humana no momento em que ela ainda não se afastou da semelhança com Ele. Ao encarnar num recém-nascido Deus vem tornar sagrada a condição de todos os recém-nascidos, pois naquele instante Ele foi igual a todos eles, os passados e os futuros. É nesse momento fugaz que Deus veio ser nosso igual. É nesse momento fugaz que nós fomos iguais a ele. É um momento fugaz de unidade de nós com Deus e de Deus connosco.


Bom Natal para todos.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?