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segunda-feira, dezembro 6

 

Descontruções da fé

Com o título “Pastoral da Incredulidade”, Frei Bento Domingues publicou, há cerca de duas semanas, quatro crónicas em que discute questões pertinentes para vida da Igreja numa sociedade secularizada. Na primeira crónica dá voz a Thorkild Grosboll, pastor luterano dinamarquês, e às suas controversas ideias. Na segunda crónica cita um documento deste ano, do Conselho Pontifício da Cultura, intitulado "Onde está o teu Deus?" sobre as problemáticas da fé cristã perante a indiferença religiosa. Na terceira crónica comenta as afirmações do pastor dinamarquês com que começou a série e discute-as: “T. Grosboll será, de facto, um não crente?”. E para terminar, a quarta crónica, um texto imperdível e seguramente dos melhores de Frei Bento, discute a questão maior para os cristãos – a Ressurreição – que Grosboll nega provocatoriamente.
Estas quatro crónicas de Bento Domingues provocaram a reacção de vários leitores, como nos é dito pelo próprio. Alguns acharam inadequado dar voz às heresias daquele pastor luterano, que aliás já tinha sido destituído pelo seu bispo. O autor das crónicas não achou que fosse tão despropositado e eu também não acho.
Um amigo meu, da geração dos meus pais, disse que estes quatro artigos lhe deram completamente a volta ao pensamento teológico. A sua fé e a sua teologia são sólidas, continuamente reflectidas e aprofundadas e, mais importante, a sua vida é coerente. Vir questionar alguns dos seus pilares passou para lá da compreensão deste meu companheiro. “É outra linguagem” – dizia-me. “Mas talvez seja necessária para as novas gerações” – acrescentava ainda.
As questões levantadas por Grosboll são aparentemente chocantes para quem se afirma crente. Correcção – este pastor afirma-se não crente: não crê na ressurreição, na vida eterna, num Deus criador ou salvador. Para pastor, podíamos dizer que fica aquém dos pressupostos... Ele esclarece porém que ao pôr as coisas nestes termos, deseja "ressaltar a verdadeira parte de divino que existe nessas expressões e enfraquecer a antiga imagem de Deus. Não existe o Flash Gordon voando para vir em nosso auxílio em caso de necessidade". Diz Frei Bento que “para este dinamarquês, só nos Jardins de Infância é possível falar de Deus e da oração como antigamente”.
A falta de espírito crítico e científico são coisas que me espantam. Lembro sempre uma colega, beatíssima, que me costumava dizer que tinha rezado muito para o teste lhe correr bem. Eu, armado em pastor-luterano-herege, dizia-lhe sempre que isso não adiantava nada. O intuito era o mesmo de Grosboll: destruir – melhor, desconstruir – a imagem do deus-por-encomenda da minha colega. Duvido que tenha sido minimamente sucedido.
Hoje, a desconstrução e re-elaboração da fé cristã parecem-me fundamentais. Em primeiro lugar, desconstruir significa voltar a encontrar as origens doutrinais e lê-las à luz do conhecimento humano actual. Em segundo lugar, desconstruir implica reformular – voltar a formular, encontrar novas formas de expressão da fé mais de acordo com a nossa cultura. A primeira questão levar-nos-ia à discussão do que há a mudar na doutrina da Igreja e da necessidade de um novo concílio. Não é disso que venho falar hoje. A segunda questão é: como dizer/viver a fé aqui e hoje? Como dizer Deus na linguagem de hoje? São questões demasiado vastas para serem tratadas num texto destes. Por agora, limito-me a defender a necessidade de as discutirmos (o que já não é pouco).
Na história da Igreja, muitos foram os momentos em que a desconstrução veio de fora. Muitas vezes a intervenção dos chamados “inimigos da fé” ou dos que estavam de fora das instituições eclesiais foi marcante para o avanço da teologia. Os exemplos sobram. Logo nos primeiros tempos, a introdução do cristianismo no seio da cultura grega obrigou a uma nova formulação da mensagem cristã dentro dos horizontes da razão e da filosofia helénicas. No século XX o marxismo teve um papel essencial no movimento da teologia da libertação e na doutrina social da Igreja. Na teologia protestante o movimento da “morte de Deus” gerou uma renovação que significou a morte de uma concepção de Deus – o deus-ex-maquina.
Hoje, a Igreja quer continuar atenta às linhas de pensamento e aos valores contemporâneos, do que é exemplo o documento do Conselho Pontifício da Cultura citado na segunda crónica de Frei Bento Domingues:
“Na aurora do novo milénio, nas culturas do Ocidente secularizado, nota-se uma desafeição tanto em relação ao ateísmo militante, como em relação à fé tradicional. Recusam-se ou abandonam-se as crenças tradicionais, quer no campo da prática religiosa, quer na adesão aos conteúdos doutrinais e morais. Aquilo que chamamos "homem indiferente" não abafou o "homem religioso", que procura uma nova religiosidade em perpétuo movimento. A análise deste fenómeno manifesta uma situação caleidoscópica, onde tudo – e o seu contrário – pode acontecer. Existem os que crêem sem pertencer e os que pertencem sem, no entanto, crer em todo o conteúdo da fé e que, sobretudo, não procuram assumir a sua dimensão ética. (...) O panorama geral revela-se complexo. Nos países de raízes cristãs é preciso identificar bem as causas antigas e novas da não crença e dos novos processos da crença.”
O panorama é complexo e a tentação de muito católicos é enveredar por “uma pastoral pura e dura da fé católica. Sem concessões. E quem tiver ouvidos para ouvir que oiça.” É uma atitude pouco evangélica, no sentido de estar pouco disposta a acolher o Outro, as suas perplexidades e dúvidas. À conta desta “fé pura e dura”, a nossa Igreja tem formado muitos agnósticos e indiferentes. O entendimento dos mitos fundadores do cristianismo esbarra muitas vezes na dificuldade de os conciliar com uma visão científica do mundo. E aí só uma resposta qualificada e aberta ao diálogo pode ajudar.
Voltando a citar o pastor luterano, outro sinal de que necessitamos de aprofundar a formulação da fé no contexto da cultura ocidental é a persistência de concepções de fé infantis. “Muitas vezes fala-se [de Deus] como do Robin dos Bosques”. Grosboll é radical na necessidade de construir uma fé adulta. Ele insiste na necessidade de reformular a própria noção de oração: a oração é apenas um momento de reflexão para pensar nas prioridades da existência.
A perversão do simbólico é outro sinal de que é necessário um reencontro com os símbolos da fé. O êxito do “Código Davinci” mostra quão simbolicamente iletrados andamos. A tese é simples e sobejamente conhecida – “é tudo mentira, andam há 20 séculos a enganar-nos” – e foi um sucesso. O Bernardo Sanchez da Motta
já falou amplamente disso. Como disse João Bérnard da Costa, o problema não é tratar-se de uma história que pretende ser mitológico-simbólica. O problema é ser uma má história. Não deixa de ser paradoxal que num tempo de tanta informação, quando já foram mais que publicados os evangelhos apócrifos e os manuscritos do Mar Morto continuem a escrever-se as coisas mais absurdas... Precisamos de reencontrar as boas histórias da nossa fé e da nossa cultura: “Não há, não pode haver, nesta terra, uma comunidade, por mais rudimentares que sejam os seus meios materiais (...), sem essas narrativas da recordação imaginada a que chamamos ‘mito’ e ‘poesia’. Há, de facto, verdade na equação e no axioma; mas é uma verdade menor.” (George Steiner)

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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