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quarta-feira, dezembro 22

 

Da dúvida inerente à fé

[Aqui se publica a resposta de Carlos Cunha à carta de Ludwig Krippahl, do blog Diário Ateísta, já enviada ao autor - e que, entretanto já mereceu réplica, que será editada na próxima segunda-feira. Continuaremos a publicar a troca de correspondência efectuada entre ambos, enquanto tal nos parecer do interesse do blog e se para tal houver autorização dos autores.]

Meu caro Ludwig,
é com a mais humilde sinceridade que lhe digo que gostei muito do seu mail. Não apenas por se dar ao trabalho de esclarecer a sua posição, mas também pelo tom cordato com que o faz. Sendo assim, também teço algumas considerações sobre o meu entendimento em relação à fé e à pertença a uma instituição religiosa.

Como entrei para a "militância" católica à entrada da vida adulta (com 17 ou 18 anos, idade com que muita gente sai), e porque me tenho em conta como uma pessoa racional (por vezes demasiado, com prejuízo da minha vida afectiva e emocional), também a minha adesão à Igreja passou e passa pelo crivo da razão. Concebo a fé como algo extra-razão, mas nunca como algo irracional ou contrário à razão. Daí que também a auto-crítica seja um permanente desafio a quem, como eu, se esforça por acreditar (e já abordarei este ponto). Nunca entenderei a "fé" das seitas e de quem "sente" Deus.
Parafreaseando o que escreve, dir-lhe-ei que o acreditar de um católico não é o mesmo de um homem capaz de despenhar um tal avião contra o WTC cheio de gente. Mas também não é o de exterminar um povo porque tem uma raça diferente (como Hitler) ou para o educar (como Pol Pot). Dou estes exemplos, de ateus, que firmemente acreditavam estar a fazer Bem ao seu povo, aos seus próprios olhos, para tentar demonstrar que o incomparável não se compara. Nem que o humanismo é uma definitiva conquista (e ainda bem). Definha e tem o que merece (mas isso é outra conversa).

Uma grande diferença entre nós – uma divergência de perspectiva – é que eu admito que Deus não exista. O meu caro Ludwig não admite estar enganado – que exista um Deus, qualquer que seja a sua substância. É uma hipótese que exclui.
Ora, a dúvida sobre a própria existência do Divino tem acolhimento na vida de Jesus, expressa de uma forma atenuada (quem escreveu os evangelhos não era totalmente irresponsável), mas com a suprema tragédia que encerra a pergunta no Calvário: "Pai, porque me abandonaste?"

Como a si, também me parece altamente improvável que crianças morram de cancro porque Alguém planeou cuidadosamente o seu sofrimento, ou que as retinas dos vertebrados estejam por trás dos vasos sanguíneos e nervos porque Alguém se enganou a ler as instruções quando criou estes animais. Mas daí não concluo que Deus não existe. Quanto ao sofrimento dos inocentes, tal apenas pode por em causa um atributo rotulado a Deus (a sua omnipotência ou a sua bondade), mas não a sua existência. O meu filho pode sofrer sem que eu me compraza disso ou até sofra com o seu sofrimento, mas também sem que eu lhe possa valer para atenuar ou acabar a sua dor.
Aliás, por essa ordem determinista de razões, eu até era levado a concluir o contrário: a probabilidade de, a partir do caos inicial, se criar sozinho um sistema solar com um planeta habitável e com a diversidade de vida como o nosso é superior à de, numa fábrica, um avião se construir sozinho a partir das suas peças soltas ou à de um macaco que manuseie este teclado escrever A Evolução das Espécies. «A Física moderna leva-nos necessariamente a Deus», disse Arthur Eddington. E Max Plank: «Para o crente, Deus está no começo; para o físico, Deus está no ponto de chegada de toda a sua reflexão».

Quando lhe digo que não escolho acreditar ou não acreditar, não estou a falar da fé (que eu supostamente teria mesmo sem o desejar), mas precisamente do contrário. Falo de uma fé perdida. Falo do facto de que, se pudesse, escolhia acreditar em Deus. Falo-lhe do facto de que, contrariamente à minha escolha, ao que seria a minha opção - que faria sem hesitar -, também não acredito como gostaria. Ou seja, mais não-acredito do que acredito.
Mas nunca na minha Igreja (a "ICAR", como lhe chamam) me foi roubada a liberdade de escolha entre a crença na existência ou não de Deus. É certo que é um pressuposto, uma premissa sine qua non do Credo católico. Mas – repito – a grande diferença entre nós é exactamente a oposta: eu admito que Deus não exista; o Ludwig não admite estar enganado. Tem uma "certeza". Confesso que tenho inveja dessa certeza. Ou de outra.

Quanto às instituições, como é bom de notar, o problema da liberdade da expressão individual coloca-se em todas. E, creia-me, nunca encontrei tanta liberdade em nenhuma outra como na "ICAR". E passei por grupos e partidos políticos que prezam como poucos a Liberdade. Basta olhar de relance para a diversidade de olhares sobre o mundo que há na ICAR (dos jesuitas à Opus Dei, dos médicos missionários nos confins de África aos sinistros corredores do Vaticano, dos anónimos organizadores do Banco Alimentar e do Cais aos movimentos "Pró-Vida", das freiras que vivem nos bairros de lata aos monges contemplativos, da Teologia da Libertação à Cúria Romana, etc., etc.), para se perceber que liberdade é coisa que não falta na ICAR. Nem conheço actualmente quem, na Igreja, queira «privar outros da escolha» da sua crença. Mas posso estar enganado.

Um grande abraço - só não digo "fraternal", caro Ludwig Krippahl, porque isso pressupõe um Pai comum, em que você não crê. ;-)

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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