<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

segunda-feira, dezembro 27

 

A Terra volta dia 2 de Janeiro

Cometa Halley

(0) comments

quarta-feira, dezembro 22

 

Da dúvida inerente à fé

[Aqui se publica a resposta de Carlos Cunha à carta de Ludwig Krippahl, do blog Diário Ateísta, já enviada ao autor - e que, entretanto já mereceu réplica, que será editada na próxima segunda-feira. Continuaremos a publicar a troca de correspondência efectuada entre ambos, enquanto tal nos parecer do interesse do blog e se para tal houver autorização dos autores.]

Meu caro Ludwig,
é com a mais humilde sinceridade que lhe digo que gostei muito do seu mail. Não apenas por se dar ao trabalho de esclarecer a sua posição, mas também pelo tom cordato com que o faz. Sendo assim, também teço algumas considerações sobre o meu entendimento em relação à fé e à pertença a uma instituição religiosa.

Como entrei para a "militância" católica à entrada da vida adulta (com 17 ou 18 anos, idade com que muita gente sai), e porque me tenho em conta como uma pessoa racional (por vezes demasiado, com prejuízo da minha vida afectiva e emocional), também a minha adesão à Igreja passou e passa pelo crivo da razão. Concebo a fé como algo extra-razão, mas nunca como algo irracional ou contrário à razão. Daí que também a auto-crítica seja um permanente desafio a quem, como eu, se esforça por acreditar (e já abordarei este ponto). Nunca entenderei a "fé" das seitas e de quem "sente" Deus.
Parafreaseando o que escreve, dir-lhe-ei que o acreditar de um católico não é o mesmo de um homem capaz de despenhar um tal avião contra o WTC cheio de gente. Mas também não é o de exterminar um povo porque tem uma raça diferente (como Hitler) ou para o educar (como Pol Pot). Dou estes exemplos, de ateus, que firmemente acreditavam estar a fazer Bem ao seu povo, aos seus próprios olhos, para tentar demonstrar que o incomparável não se compara. Nem que o humanismo é uma definitiva conquista (e ainda bem). Definha e tem o que merece (mas isso é outra conversa).

Uma grande diferença entre nós – uma divergência de perspectiva – é que eu admito que Deus não exista. O meu caro Ludwig não admite estar enganado – que exista um Deus, qualquer que seja a sua substância. É uma hipótese que exclui.
Ora, a dúvida sobre a própria existência do Divino tem acolhimento na vida de Jesus, expressa de uma forma atenuada (quem escreveu os evangelhos não era totalmente irresponsável), mas com a suprema tragédia que encerra a pergunta no Calvário: "Pai, porque me abandonaste?"

Como a si, também me parece altamente improvável que crianças morram de cancro porque Alguém planeou cuidadosamente o seu sofrimento, ou que as retinas dos vertebrados estejam por trás dos vasos sanguíneos e nervos porque Alguém se enganou a ler as instruções quando criou estes animais. Mas daí não concluo que Deus não existe. Quanto ao sofrimento dos inocentes, tal apenas pode por em causa um atributo rotulado a Deus (a sua omnipotência ou a sua bondade), mas não a sua existência. O meu filho pode sofrer sem que eu me compraza disso ou até sofra com o seu sofrimento, mas também sem que eu lhe possa valer para atenuar ou acabar a sua dor.
Aliás, por essa ordem determinista de razões, eu até era levado a concluir o contrário: a probabilidade de, a partir do caos inicial, se criar sozinho um sistema solar com um planeta habitável e com a diversidade de vida como o nosso é superior à de, numa fábrica, um avião se construir sozinho a partir das suas peças soltas ou à de um macaco que manuseie este teclado escrever A Evolução das Espécies. «A Física moderna leva-nos necessariamente a Deus», disse Arthur Eddington. E Max Plank: «Para o crente, Deus está no começo; para o físico, Deus está no ponto de chegada de toda a sua reflexão».

Quando lhe digo que não escolho acreditar ou não acreditar, não estou a falar da fé (que eu supostamente teria mesmo sem o desejar), mas precisamente do contrário. Falo de uma fé perdida. Falo do facto de que, se pudesse, escolhia acreditar em Deus. Falo-lhe do facto de que, contrariamente à minha escolha, ao que seria a minha opção - que faria sem hesitar -, também não acredito como gostaria. Ou seja, mais não-acredito do que acredito.
Mas nunca na minha Igreja (a "ICAR", como lhe chamam) me foi roubada a liberdade de escolha entre a crença na existência ou não de Deus. É certo que é um pressuposto, uma premissa sine qua non do Credo católico. Mas – repito – a grande diferença entre nós é exactamente a oposta: eu admito que Deus não exista; o Ludwig não admite estar enganado. Tem uma "certeza". Confesso que tenho inveja dessa certeza. Ou de outra.

Quanto às instituições, como é bom de notar, o problema da liberdade da expressão individual coloca-se em todas. E, creia-me, nunca encontrei tanta liberdade em nenhuma outra como na "ICAR". E passei por grupos e partidos políticos que prezam como poucos a Liberdade. Basta olhar de relance para a diversidade de olhares sobre o mundo que há na ICAR (dos jesuitas à Opus Dei, dos médicos missionários nos confins de África aos sinistros corredores do Vaticano, dos anónimos organizadores do Banco Alimentar e do Cais aos movimentos "Pró-Vida", das freiras que vivem nos bairros de lata aos monges contemplativos, da Teologia da Libertação à Cúria Romana, etc., etc.), para se perceber que liberdade é coisa que não falta na ICAR. Nem conheço actualmente quem, na Igreja, queira «privar outros da escolha» da sua crença. Mas posso estar enganado.

Um grande abraço - só não digo "fraternal", caro Ludwig Krippahl, porque isso pressupõe um Pai comum, em que você não crê. ;-)

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

(0) comments

A escuta

Perguntar-me-ão: qual o sentido que faz falar em “Escuta” na blogosfera?
Não é possível "escutar" na blogosfera pois a escuta não é visível. Falar em "Escuta" na blogosfera é um contradictio in adjecto, uma contradição nos próprios termos. Quando se fala, quando se escreve, quando nos exprimimos, estamos a solicitar a escuta dos outros mas não estamos de maneira nenhuma a escutar.
Dir-me-ão que nesta imensa cacofonia que é a blogosfera, escrever sobre a "escuta" é apenas mais uma aberração própria do meio.
Como escreveu Milan Kundera, em 1978, em "O livro do riso e do esquecimento", «quando um dia (muito em breve) todos os homens acordarem escritores, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais».

Mas é esse o desafio que aqui deixo. Descobrir a escuta na blogosfera. Descobrir a escuta também fora da blogosfera pois embora pareça mais fácil é muito difícil praticá-la quotidianamente. Mas será também possível "escutar" na blogosfera, escutar blogando?
Quando comecei a escrever este post lembrei-me de ir ver o que existe no site do Vaticano sobre a escuta .
Descobri alguns textos fabulosos ("A Fome no Mundo", por exemplo), mas gostaria de aqui deixar um excerto da homília proferida em 25 de Janeiro passado pelo Cardeal Walter Kasper: «Nós estamos habituados a falar da conversão dos outros. Contudo, a conversão deve começar em nós mesmos. Não devemos ver o argueiro na vista do nosso irmão, e não ver a trave que está na nossa própria vista (cf. Mt 7, 3). O ecumenismo encoraja-nos a exercer a autocrítica. Como disse o Santo Padre, ele cumpre também "a função de um exame de consciência" e deve ser uma exortação a pedir perdão (cf. Ut unum sint, 34). Não apenas os outros se devem converter, mas todos nós temos o dever de nos converter a Cristo. Na medida em que estivermos unidos a Ele, estaremos unidos também entre nós mesmos.
Gostaria de acrescentar o segundo ponto, que diz respeito ao diálogo. O diálogo é o método próprio do ecumenismo. Não se trata de um simples intercâmbio de pensamentos e de argumentações, mas é uma verdadeira permuta de dons (cf. Ut unum sint, 28). Não devemos concentrar-nos sobre aquilo que falta nos outros, mas prestar atenção aos seus pontos de força, à sua riqueza. Podemos aprender uns dos outros, enriquecendo-nos reciprocamente. Devemos ser uma bênção uns para os outros. Por conseguinte, é falso pensar que o ecumenismo é um processo de empobrecimento, onde o encontro com o outro tem lugar em redor de um mínimo denominador comum. Pelo contrário, o ecumenismo nada faz perder: é um processo de crescimento e de enriquecimento. Através do diálogo, o Espírito quer orientar-nos para toda a verdade (cf. Jo 16, 13). Portanto, é preciso ter a humildade e a capacidade de reconhecer que também nós temos necessidade dos outros. A virtude principal dos cristãos não é a arrogância ou a obstinação, mas sim a humildade. E por que motivo isto não deveria valer também para o ecumenismo?»

(UF!!consegui escrever este texto sem falar uma única vez no Natal)

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

O meu Natal

[Paula Rego, Virgem grávida, Capela do Palácio de Belém]

Não é coisa digna de relato. Vivido em família, com os dramas de todas as famílias espalhadas pelo país. Experimentam-se todos os anos fórmulas de viver de forma mais autêntica esse Natal, acolher o Menino. Mas acabamos por notar que não se escapa à fórmula (também já velha) de só mais esta prenda.
A prenda, afinal, não tem de ser diabolizada: pode ser o elo do afecto tantas vezes esquecido ou "obliterado" na agenda dos dias e dos trabalhos de todos nós. Claro que não precisa de ser a prenda de muitos euros, claro que podemos pensar sempre numa partilha com quem precisa. Mas, porventura, o desafio está em multiplicar essas prendas pelos 365 dias do ano. Não é fazer Natal todos os dias, é construir e reforçar os laços e os afectos que sublinhamos (apenas?) nesta época. O Natal pode ser a porta final que se abre de uma caminhada feita com amigos, família, colegas.
Por fim, não resisto a trazer um poema de Jean Debruynne, traduzido pelo padre José Manuel Pereira de Almeida*. Afinal, está a chegar o Natal...

Se os teus filhos não quiserem ir
à missa de Natal,
não digas: "Já não têm fé!"
Diz só:
"Eles não vão à missa".
Quem te encarregou de avaliara medida e o grau da fé
deste ou daquele?
Não esqueças nunca o Evangelho!
Foi diante daquela pagã,
a Cananeia,
ou daquele idólatra,
o centurião romano,
que Jesus exclamou,
cheio de alegria:
"Nunca vi, em Israel,
uma fé igual à tua!"
Se a tua filha vive com um amigo
sem ser casada,
não digas: "Ela vive em pecado!"
Diz: "A minha filha vive com um amigo".
Foi, por acaso, a ti que Deus mandou
organizar o juízo final?

Se os teus netos não são baptizados
ou não vão à catequese,
não andes a dizer a quem te queira ouvir:
"Não querem saber da Igreja nem dos sacramentos..."
Que sabes tu dos secretos encontros
que Deus pode ter
com os teus netos?
Estas estranhas surpresas
de que ninguém conhece nem o dia nem a hora?
Sabes que nunca foram tantos,
como neste tempo,
os baptismos de adultos?
Deixa que a fé dos teus netos
não esteja só nas tuas mãos
e não dependa só de ti.

Mas é porque seique sofres com tudo isto
e que corres mesmo o risco
de sofrer ainda maiscom as reuniões de família
que aí vêm,
que eu queria poder iluminar
o teu olhar com uma estrela.
Ser capaz de olhar o outro
como um filho de Deus
e não como um não-praticante,
vê-lo com a mesma ternura com que Deus o vê,
encontrar o outro como alguém a quem se deve amar
e não como presumível culpado,
É o sinal mais concreto
de que chegou o Natal
e de que é bem verdade
que Deus se fez homem.

* - in «Notícias de Santa Isabel» [paróquia de Lisboa], Dezembro de 2003

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

(0) comments

No presépio

Maria
Conversava há uns dias com um amigo protestante, tão ou mais cristão do que eu, mas que acha ser o seu cristianismo diferente do meu, sobre a importância que a figuração do presépio tem entre nós católicos. Falámos de culto de imagens e de iconoclastias. De Erasmo e de Lutero. E por aí adiante. Mas esqueci-me de lhe dizer que é no Presépio, logo aí, que nós católicos, reconhecemos a santidade, melhor dizendo, a sacralidade de Maria. E só hoje me lembrei dum texto obscuro de Sartre (sim, dele mesmo) lido há muito tempo numa crónica de Frei Bento Domingues e que era mais ou menos assim:
«Maria está pálida e olha para o menino com um encantamento ansioso que não apareceu senão uma vez sobre uma figura humana. Porque Cristo é o seu menino: a carne da sua carne, o fruto das suas entranhas. Cresceu nela durante nove meses e Maria dar-lhe-á o seu seio. Por longos momentos, invadida pelo mais forte dos amores humanos, ela esquece que ele é Deus. E aperta-o nos seus braços dizendo 'Meu pequenino’. Mas noutros momentos ela suspende esse movimento e pensa, abismada: Deus está aqui! E fica possuída por um horror religioso, por este Deus mudo, por esta criança terrificante. É certo que todas as mães ficam assim suspensas, por um momento, diante desse fragmento rebelde da sua carne que é o seu filho, e sentem-se em exílio diante dessa vida nova que se fez a partir da sua. Sentem-se então, todas elas, habitadas por pensamentos estranhos. Mas nenhuma criança, porém, foi tão cruelmente e tão rapidamente arrancada à mãe: aquela criança é Deus e ultrapassará sempre tudo o que Maria possa sequer imaginar. Mas há também momentos fugidios, nos quais ela sente que Cristo é seu filho e que ele é Deus. Ao olhar para ele, pensa: ‘este Deus é meu menino. Esta carne divina é a minha carne. Ele é feito de mim, tem os meus olhos e esta forma da sua boca é a forma da minha. Parece-se comigo. Ele é Deus e parece-se comigo!
Nenhuma mulher teve, desse modo, o seu Deus só para ela, um Deus pequenino que se pode tomar nos braços e cobri-lo de beijos, um Deus quentinho que lhe sorri e que respira, um Deus que ela pode tocar e que lhe ri!».
É por isso mesmo, por ter sido ela a única a quem Deus se entregou tão completamente, deixando-a vê-Lo assim tão absolutamente tal qual Ele é, que nós dizemos que ela é cheia de graça e bendita entre as mulheres.

José
Se Maria aparece poucas vezes mencionada no Evangelho, este meu homónimo aparece ainda menos. E se os católicos vieram a dedicar a Maria uma devoção verdadeiramente religiosa, já o bom José aparece em bem poucos altares e é lembrado com um respeito bem discreto. José é o elo que justifica a profetizada ascendência Davídica de Jesus. José é aquele que não repudiando Maria pela sua inexplicável gestação, permite que Jesus nasça e cresça como um qualquer judeu entre os judeus. É assim que José permite que Ele venha a ser rejeitado por ter vivido como viveu e não por ter nascido como nasceu. A José a vontade de Deus não se revelou como a Maria, através dum anjo resplandescente. Não. A José Deus falou discretamente em sonhos, metáfora certamente duma dolorosa reflexão. E ainda assim, silenciosamente, discretamente, José curva-se à vontade do Pai, para que o Filho encarnado entre nós seja um de nós. A José não coube um papel grandioso no plano divino, coube-lhe sim um papel instrumental. Muito antes de Jesus desafiar os homens a abandonarem tudo para o seguirem, já José abandonou o seu orgulho, que se cola tanto à alma humana. Fala-se tanto do sim de Maria, até lhe chamam a NªSª do Sim, mas a mim impressiona-me mais o sim de José. É esse o sim dos simples, o sim das pessoas como nós, os que procuramos seguir a vontade de Deus sem que esta nos surje com a clareza que gostaríamos, sem que possamos sentir que Lhe fazemos tanta falta assim. É o sim prosaico de quem sacrifica o ego em benefício do dever, de quem ama Deus mesmo em prejuízo do seu amor próprio. No presépio, olhando para a sua amada Maria e para aquele Menino, tão espantoso mas tão frágil, José pensa certamente nas dúvidas passadas e sente que, agora sim, chegou a hora de ser ele o protector Daquele que veio para nos salvar.
Mirem-se pois no exemplo do marido de Maria, pai terreno de Jesus.

O Menino
Nem todos conhecerão a experiência de ter um recém-nascido nos braços, sobretudo de fôr sangue do nosso sangue. Eu tive-a por duas vezes e é algo que nunca esquecerei. Acho que um recém-nascido representa um ponto altíssimo da condição humana: ele é absolutamente frágil o que é um atributo do homem e é absolutamente puro o que é ainda um atributo de Deus. Ao encarnar num recém-nascido, Deus assume a condição humana no momento em que ela ainda não se afastou da semelhança com Ele. Ao encarnar num recém-nascido Deus vem tornar sagrada a condição de todos os recém-nascidos, pois naquele instante Ele foi igual a todos eles, os passados e os futuros. É nesse momento fugaz que Deus veio ser nosso igual. É nesse momento fugaz que nós fomos iguais a ele. É um momento fugaz de unidade de nós com Deus e de Deus connosco.


Bom Natal para todos.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

(0) comments

segunda-feira, dezembro 20

 

Evolução tecnológica

NOTA: O texto seguinte é um excerto de documento publicado pela Comunidade Internacional Bahá'í, intitulado "Quem está a escrever o futuro?". Trata-se de uma reflexão sobre a evolução da humanidade ao longo do século XX à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Devido a extensão do documento, este será publicado gradualmente. Os subtítulos, as frases a bold, e entre parentesis recto, assim como algumas notas são da minha responsabilidade.
-----------------

Durante estas décadas críticas, a mente humana experimentava também mudanças fundamentais no modo como compreendia o universo físico. A primeira metade do século viu as teorias da relatividade e da mecânica quântica – ambas intimamente ligadas à natureza e funcionamento da luz – revolucionar o campo da física e alterar todo o curso do desenvolvimento científico. Tornou-se evidente que a física clássica só conseguia explicar fenómenos dentro de um âmbito limitado. Tinha-se, repentinamente, aberto uma nova porta para o estudo tanto dos ínfimos constituintes do universo como dos seus grandes sistemas cósmicos – uma mudança cujos efeitos ultrapassaram largamente o campo da física, abanando os fundamentos de uma mundividência que tinha dominado o pensamento científico durante séculos. Para sempre abolidas foram as imagens de um universo mecânico, governado como um relógio, e a presumida separação entre observador e observado, entre mente e matéria. Tendo como pano de fundo os estudos de longo alcance assim tornados possíveis, a ciência teórica começa agora a investigar a hipótese de que a finalidade e a inteligência sejam, de facto, intrínsecas à natureza e ao funcionamento do universo.
No despertar destas mudanças conceptuais, a humanidade entrou numa era em que a interacção entre as ciências físicas – física, química e biologia, juntamente com a ciência nascente da ecologia – abriu possibilidades de cortar a respiração para a melhoria da qualidade de vida. Os melhoramentos em áreas tão vitais de preocupação como a agricultura e a medicina tornaram-se fortemente evidentes, assim como outros originados pelo sucesso da identificação de novas fontes de energia. Simultaneamente, o novo campo da ciência de materiais começou a produzir uma riqueza de fontes especializadas, desconhecidas no início do século – plásticos, fibras ópticas e fibras carbónicas.
Tais progressos a nível da ciência e da técnica produziram efeitos recíprocos. Grãos de areia – o mais humilde e ostensivamente insignificante dos materiais – metamorfosearam-se em películas de silicone e vidro opticamente puro, tornando possível a criação de redes de comunicação mundiais. Isto, juntamente com a difusão de sistemas satélite cada vez mais sofisticados, começou a facilitar, a todas as pessoas, sem distinção, o acesso ao conhecimento acumulado de toda a raça humana. Torna-se evidente que as décadas imediatamente à nossa frente assistirão à integração das tecnologias ligadas ao telefone, à televisão e aos computadores num sistema único e unificado de comunicação e informação, cujos aparelhos de baixo custo estarão massivamente disponíveis. Seria difícil exagerar o impacto psicológico e social da substituição antecipada da mistura de sistemas monetários existentes – para muitos, o último reduto do orgulho nacionalista – por uma única moeda mundial, operando grandemente através de impulsos electrónicos.
De facto, o efeito unificador da revolução do séc. XX não é mais visível em qualquer outro lado do que nas implicações das mudanças que se concretizaram na vida científica e tecnológica. Ao nível mais óbvio, a raça humana está agora munida com os meios necessários para concretizar os objectivos visionários a que faz apelo uma consciência gradual e sistematicamente amadurecida. Vista mais cuidadosamente, esta capacitação é potencialmente acessível a todos os habitantes da terra, sem discriminação de raça, cultura ou nação."Uma vida nova", Bahá'u'lláh viu profeticamente "está, nesta era, a vibrar em todos os povos da terra; contudo ninguém lhe descobriu a causa nem percebeu o motivo."[1] Hoje, passado mais de um século após o registo destas palavras, as implicações daquilo que desde então tem acontecido começam a tornar-se claras para mentes reflexivas por todo o mundo.
------------------
Notas
[1] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá’u’lláh, XCVI


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

(0) comments

Sentir a dor dos pobres

(texto publicado nos jornais diários conimbricences, da autoria da Comunidade de Acolhimento João XXIII)

“Pobres, sempre os tereis convosco” (Jo 12, 8). Quem disse isto, há 2000 anos atrás, sabia do que falava. Jesus Cristo conhecia demasiado bem o coração humano para arriscar a frase. No entanto, Jesus não disse que a pobreza era uma inevitabilidade. Bastaria que fosse diferente o tal coração humano.
Hoje, mais do que nunca, a pobreza não tem razão de ser. Nunca o mundo esteve mais capaz de combater a que existe, nem mais apto a prevenir a que há-de vir. Por isso, só a distracção comodista evita que nos interroguemos com João Paulo II: “Como é possível que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados médicos mais elementares, quem não tenha uma casa onde abrigar-se? (NMI 50). Apesar da riqueza disponível, talvez estejamos no tempo da História que mais pobres gera. E todos sabemos como se fabrica a pobreza.
Coimbra. Esta cidade que se quer culta, esta cidade de classe média, farta e segura, razões tem, de sobra, para saber eliminar a pobreza. Coimbra, doa a quem doer, não só tem muitos pobres, como os esconde, decididamente.
Fazendo justiça a todas aquelas e a todos aqueles que, na Igreja e fora dela, dedicam as suas vidas ao serviço dos pobres, não podemos deixar de nos interrogar. 40.000 crianças vivem, em Portugal, na mais extrema das pobrezas. Quantas dessas crianças moram em Coimbra? A resposta é: não sabemos. A cidade tem várias dezenas de sem-abrigo. Quantos são? Não sabemos. Não sabem os técnicos que com eles trabalham. Não há estudos globais, nem estatísticas comparadas, nem trabalho coordenado. Há tentativas, pequenos passos e muita vontade de acertar por parte dos poucos samaritanos que se dispõem a parar nas margens da cidade. O certo é que Coimbra vive como se os seus pobres não existissem. Quando não os pode encurralar em guettos físicos – o Ingote, a Rosa – empurra-os para guettos simbólicos, escondendo-os e escondendo-se deles, fingindo que os vapores do perfume, a roupa de marca e os sorrisos de plástico para a imprensa cor-de-rosa hão-de apagar o cheiro, a imagem e a dor dos imigrantes sem papéis, dos velhos sem dinheiro, sem companhia e sem saúde, dos ciganos olhados de soslaio, ou dos sem-abrigo-e-sem-horizontes.
E os cristãos de Coimbra sabem? Não, não sabemos. Descansamos as nossas vagas inquietações nos ombros dos Vicentinos, dos Grupos Sócio-Caritativos, das Criaditas dos Pobres. Os miseráveis mais problemáticos entregamo-los à Caritas, à Abraço, à AMI, etc, etc. Os mais perigosos estão bem entregues aos técnicos e às polícias (porque, para o nosso olhar normal, ser toxicodependente, prostituta ou portador de SIDA não é fruto da pobreza, é CULPA!).
Deste modo descansa o Povo de Deus. Assim dorme em paz, como se não fosse “chegada a hora de despertar porque a salvação está mais próxima” (Rom 13, 11). Assim celebra, pacificado, a Eucaristia Dominical. Assim atravessa o Advento, ignorando o apelo à conversão que João Baptista continua a clamar no deserto: ”Preparai os caminhos do Senhor” (Lc 3, 4). Assim se comove com o Natal do Menino Deus, que veio para que “todos tivessem a vida e a tivessem em abundância” (Jo 10, 10). Assim se aproxima da Páscoa. Assim percorre o ano todo, vibrando, aqui e além, com uma desgraça ou outra, acontecida longe, no mundo.
É porque somos uma Comunidade Cristã que nos dói mais esta realidade. Porque fazemos parte desta doce inoperância, desta confortável demissão. Não desconhecemos, contudo, os limites do problema. Sabemos que a resolução do mesmo não se confina ao adro das Igrejas, nem ao íntimo das consciências.
Com o mesmo vigor denunciamos a sociedade civil, aquela que se baba nas páginas de jet-set das nossas revistas e jornais, aquela outra que “apenas” cuida de si e dos seus, nunca se dignando baixar os olhos para a pobreza que resta. Esta sociedade civil confortada e próspera, em Coimbra e no resto do país, é o terreno em que germina o pecado da recusa em aceitar todo o outro como pessoa e da negação do bem comum, materializado na fuga aos impostos, na exploração do trabalho precário ou na mercantilização da natureza e dos seus dons.
Todos nós, uns e outros, crentes ou não, somos responsáveis pelas lágrimas dos pobres. Nas nossas mãos está o poder de mudar o rumo das coisas, o poder de corrigir as iniquidades do sistema económico que consentimos, as injustiças da Sociedade que construímos. Só que nada faremos enquanto andarmos distraídos com orações egoístas, com Natais comerciais, com cristianismos teóricos, com evangelhos de papel.
O contributo desta Comunidade, aflita com as suas próprias contradições, vai no sentido de ajudar a reflectir o sentido profundo do Natal: a partilha de humanidade que Deus quis fazer, tornando-se pessoa, pobre entre os pobres.

Zé Filipe [
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(0) comments

Re:

[o texto publicado em seguida é uma carta da autoria de Ludwig Krippahl, do blog Diário Ateísta, como comentário ao artigo de Carlos Cunha, publicado neste espaço na passada 4ª feira. Publicamos a carta, na íntegra, com a devida autorização do seu autor. Na próxima edição da Terra da Alegria será publicada a resposta de Carlos Cunha, já enviada a Ludwig Krippahl. Continuaremos a publicar a troca de correspondência efectuada entre ambos, enquanto tal nos parecer do interesse do blog e se para tal houver autorização dos autores.]

Caro Carlos Cunha,
Sendo eu um dos ateus que referiu no seu texto "Notas Praticantes" de 15 de Dezembro, achei por bem esclarecer alguns aparentes mal-entendidos acerca do nosso ateísmo. O nosso ateísmo é fruto dum processo constante de crítica e auto-crítica, e por isso prezamos o empenho com que outros nos criticam. Espero que explicar-lhe a nossa posição torne as suas críticas mais proveitosas.

"Gabo a paciência de alguns meus conterrâneos para com os
militantes ateus. Os rapazes (e raparigas) têm uma missão hercúlea, é certo. «Escolheram acreditar que Deus não existe», dizem na sua apresentação. Eu, se pudesse, também escolhia não acreditar em alguma coisa. Ou acreditar noutras. Não sei é como se pode escolher acreditar ou não acreditar. Eles também não explicam. Mas adiante."
O acreditar do ateu não é o acreditar do homem capaz de despenhar um avião com uma centena de pessoas contra um arranha céus, na convicção inabalável que tal acto é de alguma forma Bom aos Olhos de Alguém. O acreditar do ateu é o acreditar de quem pergunta à mulher se há papel higiénico e ela diz que sim, há um rolo na dispensa. Se ela o diz, então provavelmente há. Mas se afinal não houver é um mero inconveniente e não uma crise de fé.É assim que eu acredito que esse Deus com D maiúsculo não existe. Ponderei a informação que tenho, e concluí, até ver, que é improvável que crianças morram de cancro porque Alguém planeou cuidadosamente o seu sofrimento, ou que as retinas dos vertebrados estejam por trás dos vasos sanguíneos e nervos porque Alguém se enganou a ler as instrucções quando criou estes animais. O peso das evidências aponta para um universo sem desígnio, sem plano, sem Deus. E eu escolho acreditar naquilo que a observação me sugere ser verdade.

Aceito - acredito, se quiser - que o Carlos não tenha escolha. É bem possível que a fé seja algo mais forte que as pessoas, que as arrebate e que não lhes deixe escolha de acreditar ou não. Teologicamente, penso que será uma posição problemática, mas explicaria muito bem a forma como a fé afecta as pessoas, e como é resistente mesmo às demonstrações mais óbvias da sua falsidade. Nisto de Deus eu tive mais sorte, e pude escolher o que acredito.

"Caso Deus não exista, as religiões ficam reduzidas à sua expressão mais simples, institucional, associativa (as tais «pessoas unidas»), que procuram «a verdade e o conhecimento» e também «centram as suas atenções na humanidade». No fundo, como os nossos irmãos ateus pretendem."
A expressão mais simples da religião, como fé organizada, é de facto uma expressão institucional. Mas esta é, por natureza, uma expressão que visa roubar o mais possível a liberdade de escolha entre a crença na existência, a descrença, ou a crença na inexistêcia do respectivo deus.
O que nós ateus temos como valioso é a expressão mais simples da fé, ou da sua ausência, que é uma expressão individual, feita de valores subjectivos de cada um, e expressa na forma como cada um vive a sua vida, por si próprio e não a mando de uma instituição.

"[...]também quero «que todos tenham o direito a escolher o seu modo de pensar e de viver, sem medo do preconceito e da intolerância». Mesmo do pre-conceito "Deus Não Existe" (ou a certeza negativa, bem contrária aos princípios enunciados de «pensar, duvidar e de questionar») e da intolerância de quem escolhe não acreditar."
Eu escolho não acreditar, e tolero quem escolhe acreditar. Só não tolero instituições e pessoas que, talvez por se verem privadas da liberdade de escolher a sua crença, visem privar outros dessa escolha.

Um abraço,
Ludwig

(0) comments

quarta-feira, dezembro 15

 

Egocentrismo

Estava a pensar inicialmente colocar aqui hoje a segunda parte do texto que comecei a semana passada. Mudei de ideias. Tenho algumas dúvidas relativamente ao que tencionava escrever (a blogosfera é uma fonte de dúvidas, manifestamente difícil para fundamentalistas e dogmáticos).
Mas não são essas dúvidas que me impedem de escrever o referido texto (elas até poderiam aumentar a sua qualidade).
O que se passa é que não ando satisfeito com os textos que aqui escrevo. Não ando satisfeito com a minha intervenção neste blogue. Se calhar também não devia andar satisfeito com o blogue em que escrevo a título pessoal mas esse problema não se coloca por variadas razões.
Primeiro porque não escrevo normalmente textos longos nesse blogue. Textos longos exigem trabalho, inteligência, elegância de estilo, graça e Graça. Não me parece que a hereditariedade ou o meio ambiente tenham sido particularmente generosos para comigo nessas capacidades. Sobretudo se, pelo menos no que respeita à primeira, existirem outras dimensões da minha vida que exijam também uma (exigente) quota-parte dessa capacidade.
O segundo motivo pelo qual esse blogue não me levanta problemas é que o escrevo sem qualquer auto-exigência. Escrevo aquilo que me passa pela real gana, tentando não magoar ninguém (nem sempre o consigo, infelizmente, bem pelo contrário), sabendo que sou responsável apenas perante mim. Aqui tenho o dever de corresponder às expectativas dos meus amigos.
Terceiro, embora não exista essa obrigação, sinto que devo escrever aqui todas as semanas. Tal como o alcoólico em tratamento sei que na semana em que aqui não escrever nunca mais escreverei.
Quererá isto dizer que a aversão que tenho a escrever aqui só é comparável ao prazer que me dá apanhar uma bebedeira?
Penso que sim. Penso de facto que não gosto de escrever textos longos. Que não gosto que as pessoas tenham expectativas na minha pessoa. Que não gosto de cumprir o meu dever.
Quarto. Poderia invocar em minha defesa que existem muito poucas coisas importantes no mundo sobre as quais valha a pena escrever. Que no que diz respeito a essas poucas coisas importantes elas podem ser ditas em poucas palavras. Que não convém repeti-las muito para não se transformarem em lama na boca de quem está sempre a dizê-las. Que o importante não é dizê-las mas sim fazê-las. Tudo o resto é ruído.
Mas não acredito integralmente neste argumento. Se algumas vezes ele é verdadeiro, ele traduz sobretudo preguiça em comunicar, preguiça em partilhar. Porque mesmo ideias simples ou tolas são um bom pretexto para a realização do Homem. Ele realiza-se sobretudo a partilhar e a partilha do Tempo e da Palavra é tão ou mais importante que a partilha do Pão.
Até para a semana.

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

Terra de Missão ou demissão na Terra? – 2ª parte

Que os cristãos assumam o dever de evangelizar, que a cidade conheça o Congresso e que as iniciativas de uma semana tenham continuidade. São os três frutos que D. José Policarpo espera do Congresso Internacional da Nova Evangelização que decorre em Lisboa em Novembro do próximo ano. (…) o Patriarca de Lisboa está certo que “recolhemos aos abrigos, refugiamo-nos no quentinho” esquecendo a cidade, os seus novos dinamismos e estruturas. O ritmo acelerado da urbanização de costumes e sociedades traz consequências para a organização da Igreja que D. José Policarpo quer enfrentar. A organização em paróquias territoriais será, por ventura, a primeira a ter que sofrer fortes alterações para que as propostas da Igreja sintonizem com as necessidades das mulheres e homens do presente.(...) D. José Policarpo quer que o Congresso chegue a todas as pessoas, ao público. Para isso, espera a ajuda dos meios de comunicação social. O Patriarca de Lisboa espera ainda que os debates que a realização de Lisboa deste Congresso Internacional definam “linhas de força que possam permanecer”. Uma delas é, e repetiu-o, esse “dever de evangelizar”, na certeza de que isso não é “anti-democrático”. Outra, “a aprendizagem prática da convivência na diferença”, que exige a passagem da ideia de “respeitar a diferença para valorizar a diferença”. D. José deseja ainda que os dinamismos da nova evangelização, em Lisboa, conduzam à “síntese entre o templo e a rua, as igrejas e a cidade”. (…) Para o conseguir, D. José Policarpo conta com todos os cristãos. Sendo o grande desafio de uma missão na cidade, “estabelecer a ponte, só os cristãos o podem fazer, porque têm a notícia e a frescura do espírito evangélico na vida do homem e da mulher de todos os dias”. Para realização do ICNE em Lisboa, em 2005, D. José Policarpo espera “tudo e muito pouco”. Mas adianta: “gostaria que o Congresso fosse uma sacudidela. Gostaria que os cristão descobrissem que é simples e normal darem testemunho da sua fé quando isso vem a propósito e que se espalhasse um sentido de normalidade de presença da Igreja na cidade (de Agência Ecclesia).

Devo começar por esclarecer que gosto muitíssimo do D. José Policarpo. Acho que os católicos portugueses muito ganham por ter à cabeça da sua Igreja este homem inteligente e culto, de fé profunda e linguagem clara, que prefere a doçura à veemência. E que tão bem simboliza uma Igreja pós-conciliar inquieta, perplexa, perante as encruzilhadas inúmeras que se apresentam à continuação da sua peregrinação milenar. Como aliás se percebe por algumas coisas extraordinárias (no sentido lato) por ele ditas no extracto acima e que eu assinalei a vermelho.
Agora sim, é por demais evidente o facto de vivermos numa Europa pós-cristã, cujo humanismo parece ter esquecido as suas raízes e ter-se transformado num sentimento de culpa angustiado pelo mundo a que deu origem, em que um cardeal tem de apregoar o carácter não anti-democrático do dever de se evangelizar (!!!) e desejar que se espalhe um sentido de normalidade de pertença à Igreja na cidade. Eis aí de facto, uma Europa cuja matriz cultural parece olhar a “nossa” crença como uma inferioridade intelectual e como a a causa primeira de outras crenças, únicos sinais para nós discerníveis de outras culturas, virem agora ameaçarem o doce ripanço em que vivíamos. E mal os herdeiros da Revolução Francesa acabaram de sentir a sociedade quase liberta do torpor opiáceo das Igrejas cristãs, sobretudo a Católica, parecem eles agora perturbar-se perante a irrupção de outras crenças que por serem étnicas não podem ser combatidas à luz do dia. Surgem já, nos campos da esquerda alternativa, extraordinários sinais capitulacionalistas como aquela lei anti-blasfémia com que na Holanda alguns querem calmar uma comunidade islâmica inesperadamente recalcitrante. Está giro isto…
E é já no meio de toda esta confusão que surgem agora os cardeais da Europa a tocar a rebate pela re-evangelização da Europa e das suas cidades. A bem da nossa alma, da nossa identidade ameaçada, da nossa sociedade em colapso moral e material. A intenção é pois excelente. Os meios são sem dúvida simpáticos. No entanto, pelo que irei expôr de seguida, tudo isto me parece muito confinado a um sector da Igreja, muito insuficiente face à dimensão do problema, contando muito com a boa vontade e colaboração dos fiéis.
Aliás é por aí que vou começar pois é bem medida da evolução das coisas.
É bem sabido que a Europa católica já passou por bem crises profundas. Recordemos os séculos XII e XIII, quando a ideia gregoriana da Igreja sociedade total deu origem a escandalosos abusos e desvios do clero. O seu enriquecimento em tempos de chumbo, as simonias, a falta de castidade, tudo isso ofereceu um campo fértil para o florescimento de tendências religiosas que vieram a ser chamadas de heréticas. Recordo os cátaros da Occitânia, herdeiros do dualismo maniqueísta e do gnosticismo oriental, que fundaram uma nova Igreja, com princípios teológicos muito duvidosos mas com práticas de vida puras, justas, muito mais à imagem de Cristo. Recordo também os Valdenses que a partir dum burguês que renunciou aos bens e ao desconhecimento forçado da Palavra de Deus, fundou um movimento que também ele envergonhava padres e bispos. É certo que o problema foi resolvido à bruta, montando-se uma cruzada a expensas do rei de França e ao serviço das suas ambições territoriais e que afogou em sangue aquelas doutrinas novas. Mas a Igreja intuiu que lhe tinha sido lançado um enorme desafio que se iria fatalmente repetir. A Igreja percebeu então os efeitos desastrosos da contradição entre o que pregava e como vivia, bem como da fragilidade do entendimento da Fé pelos seus humildes fiéis. Foi essa a altura de uma nova evangelização, como hoje o é. E para isso a Igreja criou as ordens pregadoras e mendicantes, os franciscanos e dominicanos, que prescindiram dos ricos ataviamentos clericais e partiram descalços a pregar a doutrina ao povo enquanto viviam e sofriam com eles. Devo dizer que funcionou.
Mais tarde, após o desafio de Lutero, a Igreja percebeu igualmente, após a guerra dos trinta anos, que não era à bruta que conseguia defender a sua missão e apesar de ter dado campo livre à Inquisição, vergonhosa vergôntea dos dominicanos, criou também os jesuítas, uma nova ordem de pregadores, um novo conceito de pregação.
Fiquemos por aqui pois já cheguei ao meu ponto: em duas grandes crises de fé na Europa a Igreja Católica virou-se naturalmente para algo que está inserido no seu código genético, se calhar a única coisa para o qual está mandatada por Deus e ordenada por Cristo, uma coisa simples, óbvia, essencial: a pregação!
Ora o que mais me espanta nesta Igreja de hoje, que apela aos seus fiéis, à comunicação social, sei lá mais a quem, para a ajudarem na indispensável Nova Evangelização, é que ela não parece invocar no seu seio aquilo que é a sua função mais sagrada e aquilo que este rebanho perdido mais necessita: a pregação! E a mesma Igreja que ensinou os seus fiéis a aguardarem a sua intercessão no acesso à graça divina, pretende agora que eles se reúnam e, em procissão, se ponham a mostrar à cidade atónita a felicidade da sua fé! Pois se ela mesma se desabituou de lhes dar o alimento espiritual exclusivamente do qual eles podem atingir alguma inteligibilidade na sua fé: a pregação! Pois evangelizar não é, antes do mais, anunciar a Boa Nova e a Palavra de Deus? E como pode ser isso feito sem algo a que a Igreja outorgou apenas aos seus padres e bispos: a pregação!?
Admito que esta minha conversa esteja a ser um pouco pesada e, com toda a certeza, algo injusta. Mas o facto é que a Igreja católica tem, ela própria de readquirir esse carisma essencial, que lhe dá o sentido primeiro, que lhe dá a continuidade com os apóstolos. E que a meu ver, tem vindo ao longo de décadas a ser descurado em benefício duma praxis mais ritual, mais sacramental, que tem eficácia e sentido mas que, por si só, não evangeliza.
Não quero faltar ao respeito a ninguém nem ser destrutivo, mas não posso calar a minha angústia de católico pela gritante falta de pregadores! E eu tenho a sorte de conhecer alguns, de saber quais as paróquias de Lisboa onde eles são priores ou coadjutores. Acabo por os seguir de missa em missa pois, contrariamente ao que a minha veia retórica já aqui disse, uma missa preenche a minha fé muitíssimo melhor se nela houver uma boa prédica, que me emocione ou me faça pensar. Mas a parte maior dos meus irmãos vai à missa que lhe está à mão e aí ouve do que houver para ouvir. E existe a noção clara de que os sermões que nos estão a dar andam muitas vezes longe, muito longe, daquilo que precisamos ouvir.
Porque será assim? Os meus estimados conterrâneos
Miguel e Zé Filipe, que vivem muito mais próximo de movimentos da Igreja do que eu, já tem falado aqui da deficiente formação dos padres, do abandono a que estão sujeitos nas suas paróquias, da sua solidão debilitante. Mas eu queria abordar apenas um aspecto mais prático, aliás aflorado pelo Sr.D.José naquele texto acima: a organização celular da Igreja em paróquias, sobretudo nos meios urbanos e suburbanos.
Eu tenho um amigo que é padre e pároco, sei por isso do que estou a falar. Uma paróquia é muito mais e muito menos do que aquilo que devia ser: uma comunidade de crentes. Uma paróquia é uma instituição, uma organização, com organigramas e estrutura logística. Tem um centro paroquial ou social, tem activo e passivo, tem conta no banco. Tem pilares na Igreja e pilares na congregação. Tem facções e sensibilidades. Tem coros disputando as missas do meio-dia. Tem obras a fazer e tem comissão fabriqueira. Tem relações com a Junta e assento na comissão de festas. Tem também, é certo, sacramentos, missas, casamentos, baptizados e funerais para celebrar ou ministrar. Mas tem, como se vê, uma infinidade de coisas que contribuem para desespiritualizar o ministério do sacerdote, transformando-o numa espécie de funcionário administrativo em vez de um pastor de almas. Seria pois talvez interessante que a Igreja repensasse este modelo, quem sabe se com recurso a leigos desinteressados e com disponibilidade para estas funções necessárias mas terrenas e deixar ao pároco a ocupação principal de apoiar espiritualmente os paroquianos, a evangelizá-los.
Por outro lado é bem certo que a vocação dos padres se manifesta de forma diversa. Uns tem o dom da palavra, outros não. Uns são mais espirituais que outros. Uns tem uma visão mais mística da fé, outros uma visão mais rigorosa. Seria assim interessante ofertar aos crentes uma abordagem múltipla que lhes permita aceder à verdadeira diversidade de onde convergem os caminhos para Deus. Estou assim a falar duma coisa que penso ser novamente necessária: um corpo de padres pregadores, com as características, a formação e o carisma necessários, que andassem de paróquia em paróquia, não apenas para comer as sopas do prior e ler o evangelho na missa, mas sobretudo para serem eles a dizer a homilia, como já antes se fez e devia voltar a fazer-se.
Quero dizer com tudo isto que este novo e nobre esforço de Nova Evangelização, que é sobretudo um esforço para a nossa própria reevangelização, não passará duma pedrada no charco se a Igreja, enquanto instituição e vigária de Cristo, não olhar para si própria e gerar de si mesma as pedras angulares para essa (re)construção. Se assim fôr será muito mais fácil encontrar leigos que a ela se juntem para, “saindo do templo para a rua”, virem aí afirmar alto a fé que os anima.
Isto é a humilde opinião dum católico que apenas vai à missa e tem um blogue.

José [
GUIA DOS PERPLEXOS]

(0) comments

Notas praticantes

Perguntam-me se ir à Igreja (ser "praticante", como se diz na rua) faz de mim uma pessoa melhor. Claro que faz. Se não fosse "praticante" (seja lá o que for isso de ser "não-praticante") seria uma pessoa pior.

Gabo a paciência de alguns meus conterrâneos para com os
militantes ateus. Os rapazes (e raparigas) têm uma missão hercúlea, é certo. «Escolheram acreditar que Deus não existe», dizem na sua apresentação. Eu, se pudesse, também escolhia não acreditar em alguma coisa. Ou acreditar noutras. Não sei é como se pode escolher acreditar ou não acreditar. Eles também não explicam. Mas adiante.
O ponto é que, ao contrário do que se propõem - e do que o conceito indicia -, os seus ataques, fruto da não-crença (que "escolheram") não se dirigem Àquele em que não acreditam, mas aos que acreditam n'Ele. Reconheço que isto até faz algum sentido, visto que ainda seria mais absurdo discutir com alguém que se defende não existir, como fazem alguns outros ateus, mas ao focar a sua mira nas religiões (enquanto «instituições»), o tiro sai claramente ao lado. Caso Deus não exista, as religiões ficam reduzidas à sua expressão mais simples, institucional, associativa (as tais «pessoas unidas»), que procuram «a verdade e o conhecimento» e também «centram as suas atenções na humanidade». No fundo, como os nossos irmãos ateus pretendem.
De resto, até subscrevo a defesa da «separação entre Estado e Igreja para construir um mundo mais livre onde todos possam co-existir pacificamente independentemente das suas crenças ou opiniões, onde todos possam expressar os seus sentimentos e ideias, e onde todos ponham a humanidade e a vida na Terra como o centro das nossas preocupações e cuidados» e a recusa do «pensamento uniforme e a massificação de ideologias» e também quero «que todos tenham o direito a escolher o seu modo de pensar e de viver, sem medo do preconceito e da intolerância». Mesmo do pre-conceito "Deus Não Existe" (ou a certeza negativa, bem contrária aos princípios enunciados de «pensar, duvidar e de questionar») e da intolerância de quem escolhe não acreditar.

Carlos Cunha [
A QUINTA COLUNA]

(0) comments

segunda-feira, dezembro 13

 

Um Deus pelo qual se conclui logicamente não é o verdadeiro Deus

Há dias surgiu uma notícia na internet, que um ateísta destacado acabou de convencer-se da existência de Deus. Alguns blogistas crentes, entre eles o meu amigo Timshel, se alegraram com a noticia e divulgaram-na, não sem um certo sentido de humor, como argumento de combate aos ateistas, mais concretamente a estes ateistas.
Da minha parte, não fiquei muito impressionado, e não pelo facto de que o Deus descoberto pelo tal Professor Flew assumidamente nada tem a ver com o Deus cristão, este qual – aliás – caracteriza em termos muito pouco simpáticos.
A minha falta de entusiasmo deriva antes da minha convicção de que as demostrações racionais da existência de Deus são, para além de até agora falaciosas, fúteis.
Porque enquanto entendo e partilho do espanto do Homem perante o mistério que é a vida e a criação, não vejo como uma explicação científica pode eliminar este espanto. (E ainda bem!) Este espanto existe em face ao transcendente. Explicações científicas podem retirar questões do transcendente e integrá-las, respondidas, no nosso domínio do conhecimento, mas é uma ilusão achar que por isso o transcendente é diminuido. É uma operação como retirar uma área finita do infinito. (Mais uma vez apresento este argumento batido: Se é preciso Deus para explicar a origem das coisas, quem explica a origem de Deus?)

Comentei essa notícia então, parafraseando Lao Tse
[1]: “Um Deus pelo qual se conclui logicamente, não é o verdadeiro Deus.“
E isso acredito mesmo. Mas se não acho possivel concluir pelo Deus racionalmente, apesar de acreditando nos benefícios e no imperativo do uso da razão, isso não significa que acho Deus como inexistente ou, o que um positivista podia chamar equivalente, a questão da sua existência irrelevante.
A existência de Deus comprova-se, por mim, pela experiência. Não – necessáriamente – por uma experiência mística, por uma aparição qualquer, mas pela experiência que podemos fazer do Amor: se fomos felizes, por tê-lo recebido, em todo o caso, exercendo-o.
Acredito que essa experiência faculta-me as referências mais fiáveis para fazer uso da razão: não para construir edifícios doutrinárias em cima do meu conceito do divino, mas exactamente pelo contrário, na fiscalização permanente dos edifícios doutrinários, meus e de outros, religiosos e de outros, se eles estão ainda de acordo com a base válida, que não é uma conclusão, mas uma experiência que nos é dada como uma Graça: o Amor.

______________________________
[1] Os primeiros versos do Tao Te King:
O caminho que pode ser seguido

Não é o Caminho Perfeito.
O nome que pode ser dito
não é o Nome eterno.

Lutz [QUASE EM PORTUGUÊS]


(0) comments

Quem está a escrever o Futuro? (2)

NOTA: O texto seguinte é um excerto de documento publicado pela Comunidade Internacional Bahá'í, intitulado "Quem está a escrever o futuro?". Trata-se de uma reflexão sobre a evolução da humanidade ao longo do século XX à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Devido a extensão do documento, este será publicado gradualmente. Os subtítulos, as frases a bold, e entre parentesis recto, assim como algumas notas são da minha responsabilidade.
------------

DIFERENTES VERTENTES DA EVOLUÇÃO HUMANA

(...) A divulgação do sofrimento aterrorizador, visível nas vítimas da perversidade humana durante o decorrer da guerra, provocaram uma onda de choque a nível mundial – e o que pode apenas ser designado como um profundo sentimento de vergonha. Deste trauma, emergiu uma nova espécie de compromisso moral que foi formalmente institucionalizado no trabalho da Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos e das suas agências associadas, desenvolvimento inconcebível para os governantes do séc. XIX, a quem Bahá'u'lláh se tinha dirigido sobre este assunto. Assim fortalecido com este poder, um corpo crescente de organizações não governamentais empenhou-se em assegurar que a Declaração Universal dos Direitos do Homem seja estabelecida como base dos padrões normativos internacionais e seja consequentemente implementada.
Um processo paralelo teve lugar no que respeita à vida económica. Durante a primeira metade do século, em consequência da devastação provocada pela grande depressão, muitos governos adoptaram legislação que criou programas de assistência social e sistemas de controlo financeiro, fundos de reserva e regras comerciais que visavam proteger as suas sociedades de um repercutir de tal devastação. O período seguinte à Segunda Guerra Mundial trouxe o estabelecimento de instituições cujo campo de operação é global: o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio e uma rede de agências de desenvolvimento, dedicadas a racionalizar e promover a prosperidade material do planeta. No final do século – quaisquer que sejam as intenções e apesar do carácter rudimentar da presente geração de meios – as massas da humanidade têm visto que o uso da riqueza do planeta pode ser fundamentalmente reorganizado em resposta a concepções de carência inteiramente novas.
O efeito destes progressos foi enormemente ampliado pela acelerada extensão da educação às massas. Para além da vontade dos governos nacionais e locais de atribuir a esta área fundos grandemente aumentados, e da capacidade da sociedade de mobilizar e treinar exércitos de professores profissionalmente qualificados, dois progressos do séc. XX tiveram uma particular influência a nível internacional. O primeiro foi a série de planos de desenvolvimento centrados nas necessidades de educação e financiados massivamente por entidades como o Banco Mundial, agências governamentais, grandes fundações e vários ramos do sistema das Nações Unidas. O segundo foi a explosão da tecnologia da informação, a qual fez de todos os habitantes da terra potenciais beneficiários de todo o conhecimento da raça.
Este processo de reorganização estrutural a uma escala planetária foi animado e reforçado por uma profunda mudança de consciência. Populações inteiras viram-se abruptamente obrigadas a enfrentar os custos de hábitos mentais arreigados que geravam conflitos – e a fazê-lo mesmo debaixo da mira da censura mundial daquilo que outrora tinham sido consideradas atitudes e práticas aceitáveis. O efeito viria a estimular uma mudança revolucionária na forma como as pessoas se vêm umas às outras.

Ao longo da história, por exemplo, a experiência parecia demonstrar – e os ensinamentos religiosos confirmar – que as mulheres são de uma natureza essencialmente inferior aos homens. Da noite para o dia, no esquema histórico das coisas, esta concepção prevalecente bateu subitamente em retirada por todo o lado. Por muito longo e doloroso que seja o processo de fazer concretizar a declaração de Bahá'u'lláh em como mulheres e homens são, em todos os aspectos, iguais, o apoio intelectual e moral a qualquer ponto de vista oposto desintegra-se continuamente.
Uma outra característica da visão que a humanidade tinha de si própria ao longo dos anteriores milénios era a celebração de distinções étnicas que, em séculos recentes, endureceram em várias fantasias racistas. Com uma rapidez que, na perspectiva histórica, é de cortar a respiração, o séc. XX viu a unidade da raça estabelecer-se como um princípio orientador da ordem internacional. Hoje, os conflitos étnicos que continuam a ser a causa de devastação em muitas partes do mundo são vistos, não como traços característicos das relações entre povos diversos, mas como aberrações, que têm de ser trazidas a um controlo internacional eficaz.
Durante o longo período de infância da humanidade, também se partia do princípio – uma vez mais, com a concordância total da religião organizada – que a pobreza era uma característica duradoura e inevitável da ordem social. Agora, contudo, este pressuposto que moldou as prioridades de todos os sistemas económicos que o mundo conheceu, tem sido universalmente rejeitado. Pelo menos no plano teórico, os governos têm vindo a ser, por todo o lado, olhados essencialmente como provedores responsáveis por assegurar o bem-estar de todos os membros da sociedade.

Particularmente significativo – devido às suas íntimas relações com as raízes da motivação humana – foi o abrandar do preconceito religioso. Prefigurado no "Parlamento de Religiões", que atraiu imenso interesse no final do séc. XIX, o processo de diálogo e colaboração inter-religioso reforçou os efeitos da secularidade, ao minar as em tempos impenetráveis paredes da autoridade clerical. À face da transformação das concepções religiosas, que os últimos cem anos testemunharam, mesmo o actual eclodir de reacções fundamentalistas pode vir, em retrospectiva, a ser olhado como pouco mais do que acções desesperadas de defesa contra uma inevitável dissolução do controlo sectário. Nas palavras de Bahá'u'lláh, "Não pode haver dúvida alguma de que os povos do mundo, de qualquer raça ou religião, derivam a sua inspiração de uma só Fonte divina e são os súbditos de um único Deus."[1]

------------
NOTAS
[1] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá’u’lláh, CXI


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

(0) comments

A Nova Evangelização

Na semana passada defendi que são hoje necessárias a desconstrução e re-elaboração da fé cristã: "Em primeiro lugar, desconstruir significa voltar a encontrar as origens doutrinais e lê-las à luz do conhecimento humano actual. Em segundo lugar, desconstruir implica reformular – voltar a formular, encontrar novas formas de expressão da fé mais de acordo com a nossa cultura."
Esta semana deparei-me com mais alguns sinais dessa necessidade. Perdoem-me a preguiça, mas hoje o texto é sobretudo feito de citações.

Há algumas semanas, o "Público" noticiou o Congresso Internacional da Nova Evangelização, realizado em Paris, que continuará no próximo ano em Lisboa.
Muito de bom foi feito sob o pano de fundo dessa iniciativa.
Para falar da Nova Evangelização convém termos memória destas coisas e não olhar só para as iniciativas recentes. Foi o que fez Jacques Haab, num texto publicado na "Viragem", revista do
Metanoia, em Dezembro do ano passado(1):
«[A Nova Evangelização] foi um projecto vasto que foi instalado progressivamente a partir dos anos 80, sob o impulso de João Paulo II. Tornava-se evidente a tendência acelerada para a secularização das pessoas (…) em regiões do mundo de tradição cristã, nas quais, evidentemente, se inclui a Europa. Paralelamente, tomam lugar novas formas de religiosidade, até às mais loucas das seitas.
A finalidade do sistema Nova Evangelização foi contrariar essa tendência e partir à reconquista das almas ingratas e perdidas. Tudo parece indicar que as escolhas estratégicas foram feitas com intenção de eficiência rápida.
Quer-se reencontrar depressa o contacto com as populações, tentando melhor resposta às suas expectativas, de modo a que não vão procurar mais longe. Como se se aceitasse o risco de pôr em causa o espírito do Concílio – mesmo que se afirme bem alto que continuamos na sua linha – e de deixar de lado certos valores evangélicos.»
Seguidamente Haab analisa esses aspectos que se podem sintetizar no seguinte: a Nova Evangelização quer preservar a imagem de uma instituição atraente, calorosa ("o que em si, vai na linha dos valores evangélicos, desde que não se tire partido de sentimentalismos desarmantes"), visível ("o que é um direito, mas usa-se uma táctica da Igreja que consiste em fazer crer que esse direito lhe é malignamente recusado em nome da laicidade") e garante de segurança ("privilegia-se a continuidade – o que é, muitas vezes, uma forma suave de retrocesso – mais do que a procura: o unanimismo da «comunhão» vale mais do que o debate público; a autoridade paternalista vale mais do que a confiança"). Adiante fala de muitas medidas que contrariam as declarações de abertura à modernidade, como os golpes na teologia da libertação; as chamadas de atenção aos teólogos e à sua liberdade de investigação; a incitação à demissão de alguns bispos; o descrédito quanto ao legado da "época das Luzes"; a afirmação arrogante de exclusividade da mensagem de Jesus (apesar da organização de vistosos encontros inter-religiosos); a recusa de um debate sério e profundo do estatuto eclesial dos padres, leigos e especialmente das mulheres; a multiplicidade de canonizações; o reforço do poder e intervencionismo da Cúria Romana e o alargamento do domínio da «infabilidade» papal.
Nesse texto, Haab analisa ainda as "operações de charme em altas instâncias", as questões relativas à Constituição Europeia e do ensino da religião nas escolas. O último parágrafo, intitulado "Onde fica o Evangelho?" merece ser transcrito na íntegra:
«É este conjunto estratégico de recuperação-por-etapas-"realistas" que repugna a muitos cristãos convictos, investidos no trabalho de Igreja ou do mundo: cheira-lhes a demasiado político, falacioso, calculador, manipulador, paternalista, clerical. Muito longe dos comportamentos de Cristo na sociedade do Seu tempo; capaz de desencadear rejeições violentas. Pensam que não é nestas condições que o Evangelho será verdadeiramente lido, recebido, vivido em toda a sua profundidade e verdade, sob a acção da Graça. Esperam ainda uma Igreja formada por um conjunto de baptizados, fortes na fé mas sem vaidade, sem ostentação. Capaz de construir a cidade do nosso tempo com todas as outras mulheres e homens, em igualdade, em laicidade.»

Por isso, sorrio condescendente quando vejo notícias de que a comunidade Emanuel vai cantar "evangelizando" pelas ruas de Lisboa... Espero que o Congresso de Lisboa seja mais do que isso. Que procure re-elaborar a mensagem cristã na cultura de hoje, como defendi a semana passada. Ou, nas
palavras do Padre Tolentino Mendonça: «O projecto da nova Evangelização não deveria privilegiar uma nova inculturação do cristianismo, enfrentando o problema cada vez mais decisivo da sua tradução cultural? A vasta realidade da acção e animação pastoral, que se distribui por âmbitos e níveis tão diversos, e quase esgota a totalidade dos esforços, não deveria preocupar-se com a espessura cultural das suas propostas e objectivos? Por vezes, a imagem que passa é a de um circuito fechado e parcelar, sem a capacidade de fazer emergir as questões de fundo, distanciado dos debates culturais que estamos a viver, impotente para interagir positivamente com eles e estimular os crentes a se constituírem protagonistas dessa elaboração, segundo o mandato evangélico.»
Ainda que os congressos da Nova Evangelização ajudem a encontrar novas formas de expressão da fé mais de acordo com a nossa cultura, continua a ser necessário encarar sem medo a necessidade de reler e questionar a doutrina da Igreja à luz da realidade e do conhecimento humano actuais. Nenhuma destas ideias vive sem a outra. A evangelização a partir da cultura leva a própria Igreja a evangelizar-se. A evangelização traz sempre conversão e mudança também para a própria Igreja, como dizia o Papa Paulo VI, há 29 anos: «Evangelizadora como é, a Igreja começa por se evangelizar a si mesma. Comunidade de crentes, comunidade de esperança vivida e comunicada, comunidade de amor fraterno, ela tem necessidade de ouvir sem cessar aquilo que ela deve acreditar, as razões da sua esperança e o mandamento novo do amor. Povo de Deus imerso no mundo, e não raro tentado pelos ídolos, ela precisa de ouvir, incessantemente, proclamar as grandes obras de Deus, que a converteram para o Senhor; precisa sempre ser convocada e reunida de novo por ele. Numa palavra, é o mesmo que dizer que ela tem sempre necessidade de ser evangelizada, se quiser conservar frescor, alento e força para anunciar o Evangelho».(2)
___________________________
(1) traduzido do originial "L'Église de la Nouvelle Évangélisation et l'Europe", Jacques Haab, Les réseaux des Parvis, nº18, Junho 2003
(2) Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, sobre a evangelização
no mundo contemporâneo, Papa Paulo VI (8 de Dezembro de 1975), N.º 15

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(0) comments

quarta-feira, dezembro 8

 

Qual o modelo socio-económico ideal que, do meu ponto de vista, poderá decorrer de uma concepção cristã da vida? (1)

Por diversas vezes, nomeadamente aqui, defendi a necessidade de regras mundiais uniformes, regras sociais em sentido lato, que englobem, nomeadamente, regras sociais em sentido estrito, regras fiscais e regras ambientais, que impedissem a globalização económica de ser o capitalismo selvagem do século XIX de volta no século XXI.
Julgo ter explicado porque é lógico para um cristão assumir tal luta (o Papa chama-lhe a luta por uma "globalização solidária") como uma consequência da sua religião.


O tema que hoje e em próximos posts aqui abordarei, visa responder à seguinte pergunta: será que uma economia globalizada, socialmente regulada em termos mundiais, é o modelo económico ideal para um cristão?
Respondo desde já: não me parece. Uma sociedade desse tipo facilitaria a luta política contra a pobreza e as desigualdades mas vejo-a apenas como uma sociedade de transição. Perguntará o leitor: transição para onde?
Transição para a sociedade ideal para um cristão: a sociedade do amor, uma sociedade em que, voluntariamente, todos apliquem o princípio comunista "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades". E este princípio não seria apenas um princípio socio-económico mas um princípio universal orientador da conduta individual em todas as suas dimensões. Porque esse é o princípio do amor. E é um princípio orientador que deve constituir trave mestra do comportamento cristão já, aqui e agora.
A luta por uma economia globalizada, socialmente regulada em termos mundiais, é, por isso, uma luta por um objectivo de curto prazo. A luta contra a pobreza e as desigualdades no quadro actual de uma economia liberalizada em termos mundiais mas compartimentada por diferentes regulamentações sociais aplicáveis a nível nacional é particularmente difícil.


Os detentores do capital no mundo desenvolvido vão invocando a inexistência de regras sociais nos restantes países como razão para eliminar ou impedir a existência de regras sociais no mundo desenvolvido em nome da manutenção da competitividade. E os detentores de capital nos países em desenvolvimento vão defendendo a continuação da inexistência de regras sociais nos seus países para assim assegurarem a competitividade face ao mundo desenvolvido.
E neste jogo de empurra dos capitalistas internacionais, os pobres e os trabalhadores do mundo inteiro é que vão pagando a factura.
Bastaria a existência de regras sociais redistributivas estabelecidas mundialmente para que os mais pobres de todo o mundo vivessem em condições de dignidade.
Um imposto mundial sobre as grandes fortunas impediria os ricos de ser tão ricos e os pobres de ser tão pobres. Sem que os pobres dos países pobres (e por vezes dos países ricos), tivessem, para sobreviver, que trabalhar em condições violadores dos mais elementares princípios de dignidade humana.


Mas, e como seria na tal sociedade ideal de economia globalizada socialmente regulada em termos mundiais?
Admitindo que a redistribuição de recursos afecta o crescimento económico (porque existiriam recursos que seriam destinados à manutenção da dignidade humana de todos os homens e que, portanto, não seriam afectos à produtividade), em que condições é moralmente admissível privilegiar o crescimento económico em detrimento da justiça social?
E quais os objectivos nacionais da luta política de um cristão nesta fase (de uma economia liberalizada em termos mundiais mas compartimentada por diferentes regulamentações sociais aplicáveis a nível nacional)?
Irei tentar, se Deus quiser, responder a esta questão em dois próximos posts.


Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

Uma questão de sistema nervoso

Descriminar, ver onde no meio da tua maldade, tu tens ainda assim sinais de bondade. Ver no meio da tua bondade, onde tu tens ainda assim sinais claros da maldade. Não é fácil. Não é fácil distinguir o trigo do joio. Mas ainda assim, mesmo quando julgamos que isso é quase impossível de ser feito, ainda assim permanece este quase.

Por isso, quando nos interrogatórios das diversas Cortinas de Ferro e Aço, o militante, político e ou religioso, se deparava com os que o acusavam de desvio ideológico, de prática desviante, as coisas começavam por ficar muito complicadas. E isto mesmo que não tivesse aparentemente qualquer desvio…
Penso que é dito assim. Se não for também não faz grande diferença para o que aqui nos traz. No 1984, de Georges Orwell, um dos vizinhos do protagonista afadigava-se para mostrar todo o seu empenhamento no regime totalitário. Orava regularmente ao Grande Irmão, doutrinava mulher e filho e fazia o filho militar com ardor nas milícias juvenis. Acirrava-o a lutar pelo regime, a denunciar os inimigos. Até que um dia, o filho o denunciou.
Denúncia feita, a Polícia Política perante os evidentes sinais do empenhamento da personagem, não deixa ainda assim de supor que algo de malsão se enraizara na alma dele e que o enraizamento não tardaria a dar ramos, folhas e frutos. Que todo ele, tarde ou cedo, seria um poço de embriaguês e revolta.
Por isso, é condenado à torturante reciclagem ideológica. O mesmo se passa com o protagonista. Quando depara com a Polícia Política sabe que está em maus lençóis. Era evidente e provado que militava contra. Mas não estava ele e os algozes imbuídos de um desejo comum: transformar a terra num local paradisiacamente habitável? – Valeria a pena lembrá-lo aos que se aprestavam a usar os instrumentos de tortura?

O modo bipolar como olhamos, é bom, é mau, é totalitário. Quando olha a alma e o corpo do outro, cobre a alma do outro e o seu comportamento. Não deixa nada de fora. Toda a alma e todo o comportamento são bons ou maus.

Estas conclusões já aqui foram referidas e repetidas por mais de um dos participantes na terra. Por isso, acrescento três coisas.
A primeira, tem a ver com a ânsia desenfreada e desesperada que marca a vida do que se quer idêntico ao modelo que o guia. As estaladas com que esbofeteia a cara, sempre que não somos como queríamos ser e isto sempre e apesar do esforço e quando ainda assim o mal não se cansa de rir de nós.
A segunda, é para dizer que na raiz desta bipolaridade totalizante e totalizadora está o medo. É o medo que faz o Regime, o Partido, a Igreja, o Futebol, ver quem está na sua frente como um adversário, um adversário inimigo, um inimigo irredutível e que por isso é reduzido a uma cor. É o medo que faz com que procuremos com desespero ver no outro alguém que está irredutível do nosso lado ou que está irredutivelmente no lado dos outros.
A terceira, que não somos assim, que nunca somos assim, que nunca somos um estado totalmente bruto, totalmente brutos, a não ser nos cenários explicativos, e que se assim não somos é porque ainda assim duvidamos.

Por isso, o Partido totalitário se reúne em Congresso. Por isso, o algoz precisa das palmadas nas costas dos seus copinchas. O Partido precisa do ruído das palmas, o algoz das palmas nas costas. Uns e outro e nós para afastar a presença da fina linha de suor frio que percorre a espinha das costas e que ameaça arruinar a solidez de tantos nervos… Então, quando declaramos o outro totalmente bom e quando o declaramos diverso e totalmente mau, a dúvida tem oportunidade de assumir um digno e dignificante estatuto epistemológico: faz estar perto da verdade… O que obriga a perguntar: se mesmo quando toda a razão e toda a evidência jogam a favor dos sólidos juízos, quando não há nada que temer: ele é mesmo isso, de onde provêm afinal tão irracional e tão confuso sentimento?


Fernando Macedo [A BORDO]

(0) comments

Imaculada Conceição

O dogma da Imaculada Conceição foi proclamado a 8 de Dezembro de 1854, pelo Papa Pio IX, através da Bula Ineffabilis Deus. Nele se declara a santidade da Virgem Santa Maria desde o primeiro momento da sua existência – ou seja, desde a sua concepção. Significa isto que a mãe de Jesus, pela Graça de Deus, foi preservada desde sempre da mácula do pecado original, no qual nascem todos os descendentes de Adão.
Importa aqui referir dois pontos importantes: o primeiro sobre interrupção da transmissão do pecado original. Diz S. Francisco de Sales no seu Tratado do amor de Deus: «A torrente da iniqüidade original veio lançar as suas ondas impuras sobre a conceição da Virgem Sagrada, com a mesma impetuosidade que sobre a dos demais filhos de Adão; mas chegando ali, as vagas do pecado não passaram além, mas se detiveram, como outrora o Jordão no tempo de Josué, aqui respeitando a arca da aliança a torrente parou; lá em atenção ao Tabernáculo da verdadeira aliança, que é a Virgem Maria, o pecado original se deteve».
Ora, o pecado original não é inscrito em cada um aquando da criação da alma por parte de Deus, nem se transmite geneticamente dos pais para os filhos. A transmissão do pecado original ocorre com a corrupção própria da carne que todos somos. É a natureza humana.
Diz Santo Agostinho que «Apesar de nascerem de pais batizados, os filhos vêm à luz com o pecado original, como do trigo inutilizado germina uma espiga, em que o grão é misturado com a palha».

Outra consequência deste dogma é a da intervenção de Deus na assunção deste mistério. A Virgem Maria foi pensada por Deus como a mediadora do mistério da Incarnação. Desta forma, Maria não podia ser pensada senão como a primeira totalmente redimida, de modo a acolher em si a Palavra de Deus e a encarnação do Verbo.
Foi pelo privilégio único de Deus – a Graça – que, em Maria, não se operou a corrupção inerente à pessoa humana, mantendo a pureza original da criação divina, tal como a que se realizou com Adão. Maria é, assim, uma segunda Eva, como a designou Sto. Ireneu.
Mesmo Lutero admite a Concepção sem mácula de Maria: «Era justo e conveniente, diz ele, fosse a pessoa de Maria preservada do pecado original, visto o filho de Deus tomar dela a carne que devia vencer todo pecado».

O dogma da Imaculada Conceição proclama, assim, que a Virgem, desde o início do seu ser, não foi apenas envolta no mistério da redenção prometida a todos nós, mas a primeira redimida pelo Filho que ia gerar. Este dogma toca, portanto, no próprio mistério da Redenção.
Neste dia, em que se festeja a Imaculada Conceição, a Igreja e todos os fiéis exultam de alegria, porque nela está o exemplo das maravilhas de Deus na história, do que Ele pode fazer na nossa vida, na vida de cada um de nós.


Carlos Cunha [PARTÍCULAS ELEMENTARES]

(0) comments

segunda-feira, dezembro 6

 

Quem está a Escrever o Futuro? (1)

NOTA: O texto seguinte é um excerto de documento publicado pela Comunidade Internacional Bahá'í, intitulado "Quem está a escrever o futuro?". Trata-se de uma reflexão - à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh - sobre a evolução da humanidade ao longo do século XX. Devido a extensão do documento, este será publicado gradualmente. Os subtítulos, as frases a bold, e entre parentesis recto, assim como algumas notas são a minha responsabilidade.
------------------------

PARA ONDE CAMINHA A HUMANIDADE?

A trave-mestra da mensagem de Bahá'u'lláh consiste em expor a realidade como sendo, fundamentalmente, de natureza espiritual, e as leis que governam o operar dessa realidade. Não só vê o indivíduo como um ser espiritual, "uma alma racional", mas também insiste que todo o empreendimento, a que nós chamamos civilização, é, em si mesmo, um processo espiritual, no qual a mente e o coração do homem criaram progressivamente meios mais complexos e eficientes de exprimir as suas capacidades morais e intelectuais.

Rejeitando os dogmas vigentes do materialismo, Bahá'u'lláh apresenta uma interpretação oposta do processo histórico. A humanidade, ponta de lança de evolução da consciência, passa por estádios análogos aos períodos da infância e da adolescência nas vidas dos seus membros individuais. A viagem transportou-nos até ao limiar da vinda tão desejada da nossa maturidade como raça humana unificada. As guerras, a exploração e o preconceito, que marcaram estádios de imaturidade no processo, não deveriam ser causa de desespero, mas sim um estímulo para assumir as responsabilidades da maturidade colectiva.

Escrevendo a líderes políticos e religiosos do seu tempo[1], Bahá'u'lláh afirmou que novas capacidades de incalculável poder – para além daquilo que a geração de então podia conceber – estavam a despertar nas pessoas, capacidades essas que, em breve, transformariam a vida material do planeta. Era essencial, disse Ele, fazer destas vantagens materiais emergentes veículos de desenvolvimento moral e social. Se conflitos nacionalistas e sectários impedissem isto de acontecer, então o progresso material produziria não só benefícios, mas também males inimagináveis. Alguns dos avisos de Bahá'u'lláh despertam ecos severos na nossa era: "Coisas estranhas e espantosas existem na terra," preveniu ele. "Estas coisas têm capacidade para mudar toda a atmosfera da terra e a sua contaminação provará ser letal."[2]

A questão espiritual central que todos os povos enfrentam, diz Bahá'u'lláh, qualquer que seja a sua nação, religião ou origem étnica, é a do estabelecimento das fundações de uma sociedade global que reflicta a unidade da natureza humana. A unificação dos habitantes da terra não é nem uma remota visão utópica, nem, em última análise, uma questão de escolha. Constitui o próximo, inevitável estádio, para o qual toda a experiência do passado e do presente nos impele. Até esta questão ser reconhecida e tratada, nenhum dos males que afligem o nosso planeta encontrará soluções, porque todos os desafios da era em que nós entrámos são globais e universais, e não particulares ou regionais.

Muitas das passagens dos escritos de Bahá'u'lláh, que tratam da maturidade da humanidade, estão impregnadas pelo seu uso da luz como uma metáfora para apreender o poder transformador da unidade: "Tão poderosa é a luz da unidade", insistem, "que pode iluminar toda a terra."[3] A afirmação coloca a história corrente numa perspectiva agudamente diferente daquela que prevalece no final do séc. XX. Urge-nos a encontrar – dentro do sofrimento e apatia dos nossos tempos – a operação de forças que estão a libertar a consciência humana para um novo estádio na sua evolução. Convida-nos a reexaminar o que tem estado a acontecer durante os últimos cem anos, bem como o efeito que estes desenvolvimentos tiveram na massa heterogénea de povos, raças, nações e comunidades que os experimentaram.

Se, tal como Bahá'u'lláh afirma "o bem-estar da humanidade, sua paz e segurança são irrealizáveis, a não ser que, primeiro, se estabeleça firmemente a sua unidade" [4], é compreensível porque é que os Bahá’ís vêem o séc. XX – com todos os seus desastres – como "o século da luz."[5] Estes cem anos testemunharam uma transformação, tanto no modo como os habitantes da terra começaram a planear o seu futuro colectivo, como no modo em que nós começamos a olharmo-nos mutuamente. O cunho de ambos tem sido um processo de unificação. Convulsões, que escaparam ao controlo das instituições existentes, obrigaram os líderes mundiais a implementar novos sistemas de organização mundial, que seriam impensáveis no início do século. Enquanto isto ocorria, uma rápida erosão ultrapassava hábitos e atitudes que tinham dividido povos e nações durante séculos incontáveis de conflito, e que parecia que iriam subsistir durante eras vindouras.

Em meados do século XX, estes dois desenvolvimentos produziram uma brecha, cujo significado histórico apenas as gerações futuras apreciarão devidamente. Em consequência do choque da Segunda Guerra Mundial, líderes de visão ampla acharam, finalmente, possível, através da organização das Nações Unidas, começar a consolidar os fundamentos de uma ordem mundial. Há muito sonhado por pensadores progressistas, o novo sistema de convenções internacionais, e de agências a elas ligadas, era agora dotado de poderes cruciais, que tinham sido tragicamente negados à abortiva Liga das Nações. Com o avançar do século, os músculos primitivos do sistema de manutenção internacional da paz foram de tal forma progressivamente exercitados que demonstraram, de modo persuasivo, o que podia ser atingido. Com isto, veio a rápida expansão das instituições de governação democrática por todo o mundo. Se os efeitos práticos ainda nos desiludem, isto de modo algum diminui a mudança histórica e irreversível de direcção, que teve lugar na organização dos assuntos humanos.

-------------------------
Notas
[1] - Para exemplos, ver
Rainha Vitória, Napoleão III, Kaiser Guilherme I, Papa Pio IX e Francisco José.
[2] - Bahá'u'lláh, Epístolas de Bahá'u'lláh reveladas depois de Kitab-i-Aqdas
[3] - Bahá'u'lláh, Epístola ao Filho do Lobo
[4] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá'u'lláh, CXXXI
[5] - 'Abdu'l-Bahá, Promulgação da Paz Universal
[6] - Bahá'u'lláh, Selecção de Escritos de Bahá'u'lláh, CXI


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

(0) comments

Descontruções da fé

Com o título “Pastoral da Incredulidade”, Frei Bento Domingues publicou, há cerca de duas semanas, quatro crónicas em que discute questões pertinentes para vida da Igreja numa sociedade secularizada. Na primeira crónica dá voz a Thorkild Grosboll, pastor luterano dinamarquês, e às suas controversas ideias. Na segunda crónica cita um documento deste ano, do Conselho Pontifício da Cultura, intitulado "Onde está o teu Deus?" sobre as problemáticas da fé cristã perante a indiferença religiosa. Na terceira crónica comenta as afirmações do pastor dinamarquês com que começou a série e discute-as: “T. Grosboll será, de facto, um não crente?”. E para terminar, a quarta crónica, um texto imperdível e seguramente dos melhores de Frei Bento, discute a questão maior para os cristãos – a Ressurreição – que Grosboll nega provocatoriamente.
Estas quatro crónicas de Bento Domingues provocaram a reacção de vários leitores, como nos é dito pelo próprio. Alguns acharam inadequado dar voz às heresias daquele pastor luterano, que aliás já tinha sido destituído pelo seu bispo. O autor das crónicas não achou que fosse tão despropositado e eu também não acho.
Um amigo meu, da geração dos meus pais, disse que estes quatro artigos lhe deram completamente a volta ao pensamento teológico. A sua fé e a sua teologia são sólidas, continuamente reflectidas e aprofundadas e, mais importante, a sua vida é coerente. Vir questionar alguns dos seus pilares passou para lá da compreensão deste meu companheiro. “É outra linguagem” – dizia-me. “Mas talvez seja necessária para as novas gerações” – acrescentava ainda.
As questões levantadas por Grosboll são aparentemente chocantes para quem se afirma crente. Correcção – este pastor afirma-se não crente: não crê na ressurreição, na vida eterna, num Deus criador ou salvador. Para pastor, podíamos dizer que fica aquém dos pressupostos... Ele esclarece porém que ao pôr as coisas nestes termos, deseja "ressaltar a verdadeira parte de divino que existe nessas expressões e enfraquecer a antiga imagem de Deus. Não existe o Flash Gordon voando para vir em nosso auxílio em caso de necessidade". Diz Frei Bento que “para este dinamarquês, só nos Jardins de Infância é possível falar de Deus e da oração como antigamente”.
A falta de espírito crítico e científico são coisas que me espantam. Lembro sempre uma colega, beatíssima, que me costumava dizer que tinha rezado muito para o teste lhe correr bem. Eu, armado em pastor-luterano-herege, dizia-lhe sempre que isso não adiantava nada. O intuito era o mesmo de Grosboll: destruir – melhor, desconstruir – a imagem do deus-por-encomenda da minha colega. Duvido que tenha sido minimamente sucedido.
Hoje, a desconstrução e re-elaboração da fé cristã parecem-me fundamentais. Em primeiro lugar, desconstruir significa voltar a encontrar as origens doutrinais e lê-las à luz do conhecimento humano actual. Em segundo lugar, desconstruir implica reformular – voltar a formular, encontrar novas formas de expressão da fé mais de acordo com a nossa cultura. A primeira questão levar-nos-ia à discussão do que há a mudar na doutrina da Igreja e da necessidade de um novo concílio. Não é disso que venho falar hoje. A segunda questão é: como dizer/viver a fé aqui e hoje? Como dizer Deus na linguagem de hoje? São questões demasiado vastas para serem tratadas num texto destes. Por agora, limito-me a defender a necessidade de as discutirmos (o que já não é pouco).
Na história da Igreja, muitos foram os momentos em que a desconstrução veio de fora. Muitas vezes a intervenção dos chamados “inimigos da fé” ou dos que estavam de fora das instituições eclesiais foi marcante para o avanço da teologia. Os exemplos sobram. Logo nos primeiros tempos, a introdução do cristianismo no seio da cultura grega obrigou a uma nova formulação da mensagem cristã dentro dos horizontes da razão e da filosofia helénicas. No século XX o marxismo teve um papel essencial no movimento da teologia da libertação e na doutrina social da Igreja. Na teologia protestante o movimento da “morte de Deus” gerou uma renovação que significou a morte de uma concepção de Deus – o deus-ex-maquina.
Hoje, a Igreja quer continuar atenta às linhas de pensamento e aos valores contemporâneos, do que é exemplo o documento do Conselho Pontifício da Cultura citado na segunda crónica de Frei Bento Domingues:
“Na aurora do novo milénio, nas culturas do Ocidente secularizado, nota-se uma desafeição tanto em relação ao ateísmo militante, como em relação à fé tradicional. Recusam-se ou abandonam-se as crenças tradicionais, quer no campo da prática religiosa, quer na adesão aos conteúdos doutrinais e morais. Aquilo que chamamos "homem indiferente" não abafou o "homem religioso", que procura uma nova religiosidade em perpétuo movimento. A análise deste fenómeno manifesta uma situação caleidoscópica, onde tudo – e o seu contrário – pode acontecer. Existem os que crêem sem pertencer e os que pertencem sem, no entanto, crer em todo o conteúdo da fé e que, sobretudo, não procuram assumir a sua dimensão ética. (...) O panorama geral revela-se complexo. Nos países de raízes cristãs é preciso identificar bem as causas antigas e novas da não crença e dos novos processos da crença.”
O panorama é complexo e a tentação de muito católicos é enveredar por “uma pastoral pura e dura da fé católica. Sem concessões. E quem tiver ouvidos para ouvir que oiça.” É uma atitude pouco evangélica, no sentido de estar pouco disposta a acolher o Outro, as suas perplexidades e dúvidas. À conta desta “fé pura e dura”, a nossa Igreja tem formado muitos agnósticos e indiferentes. O entendimento dos mitos fundadores do cristianismo esbarra muitas vezes na dificuldade de os conciliar com uma visão científica do mundo. E aí só uma resposta qualificada e aberta ao diálogo pode ajudar.
Voltando a citar o pastor luterano, outro sinal de que necessitamos de aprofundar a formulação da fé no contexto da cultura ocidental é a persistência de concepções de fé infantis. “Muitas vezes fala-se [de Deus] como do Robin dos Bosques”. Grosboll é radical na necessidade de construir uma fé adulta. Ele insiste na necessidade de reformular a própria noção de oração: a oração é apenas um momento de reflexão para pensar nas prioridades da existência.
A perversão do simbólico é outro sinal de que é necessário um reencontro com os símbolos da fé. O êxito do “Código Davinci” mostra quão simbolicamente iletrados andamos. A tese é simples e sobejamente conhecida – “é tudo mentira, andam há 20 séculos a enganar-nos” – e foi um sucesso. O Bernardo Sanchez da Motta
já falou amplamente disso. Como disse João Bérnard da Costa, o problema não é tratar-se de uma história que pretende ser mitológico-simbólica. O problema é ser uma má história. Não deixa de ser paradoxal que num tempo de tanta informação, quando já foram mais que publicados os evangelhos apócrifos e os manuscritos do Mar Morto continuem a escrever-se as coisas mais absurdas... Precisamos de reencontrar as boas histórias da nossa fé e da nossa cultura: “Não há, não pode haver, nesta terra, uma comunidade, por mais rudimentares que sejam os seus meios materiais (...), sem essas narrativas da recordação imaginada a que chamamos ‘mito’ e ‘poesia’. Há, de facto, verdade na equação e no axioma; mas é uma verdade menor.” (George Steiner)

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

(0) comments

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?