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quarta-feira, novembro 24

 

Ratos e homens

No quase em português, num post intitulado "Tabú e preconceito", diz o Lutz: "incomoda-me o tabú que existe em relação a toda a atribuição de características genéricas em relação aos judeus em especial e para qualquer etnia em geral".
A explicação para esta perturbante declaração é simples. Segundo o Lutz "só um tabú não é uma solução. O tabú suprime o problema, por algum tempo, mas não o resolve. Um tabú não convence quem devia ser convencido. Como crente na razão não acredito que se pode proibir pensar e discutir livremente questões como esta". Como ele diz: "É ilegítimo colocar esta pergunta? É legítimo chegar a uma resposta para essa pergunta, seja qual for?"
Gostaria de sublinhar que se existe pessoa na blogosfera de cuja convicção na profunda dignidade humana e consequentes sentimentos anti-racistas não duvido é precisamente do Lutz. É aliás óbvio nesse excelente post o seu profundo sentimento anti-racista. Mas julgo que algumas das dúvidas do Lutz resultam precisamente dele se limitar ao que designa como "crença na razão".

O tabú é a generalização. E não tenho dúvidas que deve ser exactamente como um tabú que deve ser tratada a resposta a essa questão que traduza uma abordagem racista. É legítimo colocar a pergunta mas é moralmente ilegítimo dar determinadas respostas.
Porque a razão aqui não é suficiente.
Um tabú é uma barreira moral. O facto de ser uma barreira moral não deve impedir a sua discussão; bem pelo contrário (penso aliás que a parte final do post do Lutz visa, pelo seu carácter algo provocatório, provocar precisamente esta discussão bastante útil).
Mas a resposta a dar não se pode basear apenas na razão.
Porque penso que a generalização é um fenómeno natural cuja crítica fundamental é de natureza moral.
Embora seja óbvio para (quase) toda a gente que encontramos pessoas boas e pessoas más em todos os grupos sociais ou humanos, independentemente dos critérios pelos quais estes grupos sejam classificados: pretos, brancos, ciganos, árabes, nórdicos, heterossexuais, homossexuais, cristãos, muçulmanos, ateus, professores, sapateiros, etc. etc. aparecem sempre fenómenos de generalização que ignoram esta realidade. Qual a razão de ser deste comportamento?

Julgo que foi B. F. Skinner que fez uma experiência com uns bichos (já não me lembro se eram pombos ou ratos; julgo que eram ratos) em que, se se associasse um círculo preto a um choque eléctrico e o rato agredisse o círculo preto o choque eléctrico cessava. Ao fim de algum tempo quando aparecesse esse círculo preto, o rato agredia o círculo preto ainda antes de receber o choque eléctrico. Se surgissem outras formas (quadrados ou triângulos, p. ex.) ou cores (branco, vermelho ou verde p.ex.) o rato responderia a estas formas proporcionalmente ao número e intensidade dos choques eléctricos do seguinte modo: começaria a agredir também primeiro as formas e cores mais semelhantes (hexágonos ou cinzento, p. ex.) e, depois, proporcionalmente ao número e intensidade dos choques eléctricos iria agredir formas e cores que tivessem uma semelhança por mais vaga que fosse com o círculo preto (a partir de um certo nível de choques eléctricos o animal agredia tudo o que aparecesse...). O objectivo das experiências era demonstrar que os animais possuem capacidade de generalização e que esta capacidade não é inata mas um comportamento de aprendizagem. Actualmente considera-se que, possivelmente, também existem genes que determinam esta capacidade de aprendizagem e que ela não é só determinada (como alguns dizem que pensava Skinner) por eventos do meio ambiente.

Isto foi apenas um resumo muito simplista dessas experiências para esclarecer melhor o que vou dizer a seguir.
Penso que a generalização é um comportamento animal de defesa. Perante um perigo ou uma agressão tendemos a generalizar certas características do perigo ou do agressor para impedirmos segundo uma lógica de probabilidades a possibilidade de ocorrência desse perigo ou dessa agressão. O grau de generalização dependerá do grau de emotividade associado a esse perigo ou a esse agressor. Essa emotividade pode ser o resultado ou de características intelectuais baixas do agredido (que é incapaz de distinguir detalhes específicos do agressor) ou de um elevado nível da agressão sofrida. A generalização é uma espécie de cegueira animal.
Contudo, em termos de lógica probabilistica, estes comportamentos fazem todo o sentido (julgo que foi Lenin que disse que valia pena fuzilar cem inocentes se também se fuzilasse um reaccionário). De facto, se o Outro, a outra pessoa individual, não tiver um valor intrínseco, se soubermos que em cem mil pessoas está a pessoa que nos quer matar e não temos maneira de a descobrir (ou mesmo que a tivéssemos) é muito mais simples e muito mais eficaz executar as cem mil. Porque não haveria de ser assim? Se não existir nenhuma utilidade em deixar viver as outras 99 999, e puder executá-las sem grandes problemas logísticos, qual a razão porque não as hei-de matar (o custo das balas ou de outro qualquer método de execução?) para assim ter a certeza de que o perigo desaparece?

Os comportamentos de generalização só são absolutamente condenáveis quando possuímos valores que nos dizem que a dignidade da pessoa humana é divina e individual.
Nenhuma conjuntura permite justificar a violação da dignidade humana de cada pessoa individualmente considerada. Para um cristão, se existir uma raça de homens azuis em que 99,9% têm comportamentos criminosos frequentes, não é justificável afirmar que todos os homens azuis são muito pecadores nem é justificável tratar, directa ou indirectamente, de modo discriminatório, os 0,01% de homens azuis que não são criminosos. Não é justificável moralmente dizer, nomeadamente, com aparente neutralidade, que se constata entre os homens azuis uma elevada taxa de criminalidade. Porque isto já é discriminação para os 0,01% de homens azuis que não são criminosos.
As categorizações generalistas são por vezes adequadas para efeitos de diagnóstico de generalidades.
Mas para um cristão, o que é importante não são os diagnósticos colectivos estatísticos mas as terapêuticas individuais.


Timshel [TIMSHEL]

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