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quarta-feira, novembro 10

 

Pensamento – os mártires.

O martírio teve longa vida na história da religião. Hoje, o martírio continua vivo e embora diversas confissões o reclamem, tem vindo a luz a propósito a propósito de certas variantes políticas radicais que se reclamam do Islamismo. Os documentários e os filmes documentários sobre o martírio contemporâneo levado a cabo por estas variantes, se não são abundantes povoam pelo menos aqui e ali o espaço televisivo. Quem os viu não pode deixar de ficar impressionado com uma série de características que apresentam e que apresentam os que se predispõem ao martírio.
A primeira característica que estes mártires apresentam é a serenidade. De facto, estes mártires impressionam pela ausência de conflito interior. Nem o passado, nem o futuro são para o mártir pretexto para conflito interior. O martírio apaga o passado. O mártir mesmo se no seu passado há uma mulher que julgou ter amado, uma família com a qual se julga identificado, um grupo de amigos com quem partilhou esperanças, quando é posto perante a proximidade do acto não introduz a amada, os pais ou os amigos na balança que faria oscilar ponderações interiores. Do mesmo modo, nada no futuro há que o possa fazer balançar. Ele só quer uma coisa. Ser mártir. E ponto final.
Esta certeza que envolve o acto que quer cometer, está em directa sintonia no modo como lida com aquilo que o inspira. De facto, estes mártires mostram uma absoluta ausência de dúvida. É assim Deus, assim que Deus quer, assim será feito. Esta ausência de hesitação na interpretação da palavra divina, esta ausência do uso da dúvida é inusitada nos dias que correm. Parece de facto não contemporâneo o que se dá ao luxo da ausência de dúvida. Não parece de hoje quem não duvida.

No entanto, pensar a dúvida como primeira actividade intelectual é ilusório. Não que a dúvida não tenha uma função real no pensamento. Mas por razões lógicas e cronológicas não é primeira actividade. Logicamente, as negações implicam sempre a antecedência de uma afirmação. Cronologicamente, só podemos duvidar sobre o que já é adquirido e nada podemos adquirir se mantivermos o que adquirimos no regime do pode ou pode não ser.
Penso que T. S. Elliot disse qualquer coisa assim: só podemos aprender qualquer coisa se nos rendermos ao que temos de aprender. O que implica por arrastamento a aceitação da autoridade. É a submissão, não a dúvida, a autoridade, não a crítica, a primeira fonte de conhecimento. Por aqui iríamos certamente até Kant, até ao espírito da revolução copernicana, e iríamos – não sei se iremos – até à questão da autoridade. Deixamos dito entretanto que no cristianismo a verdadeira fonte de autoridade se encontra no serviço e no cuidado.
Como é óbvio, não se trata aqui de contrapor dois universos distintos, o universo da dúvida e o universo da autoridade, que por si só mereceriam imediatamente o nosso consentimento. Trata-se apenas de realçar o facto de o martírio nos colocar perante um mecanismo mental que julgamos fora de circulação. E de afirmar a autoridade como mecanismo primeiro. E daí, a dúvida como mecanismo segundo e derivado. Por fim, dizer, como sempre que a validade de um dado mecanismo mental depende do fim que persegue e da capacidade que tem ou não para se lhe adequar.
O que por fim é dizer que se de facto os mártires de que falamos nos impressionam, se a sua serenidade e as suas certezas não deixam de impressionar, aquilo que realmente interessa é se eles, a sua serenidade, as suas certezas, servem ou não adequadamente o que visam servir.


Fernando Macedo [A BORDO]

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