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quarta-feira, novembro 24

 

Passar a vontade pela cruz

No domingo passado em que se celebrou a festa de Cristo-Rei tive a sorte de assistir a uma homília ministrada por um padre jovem, cujo nome desconheço, que abordou com particular felicidade a questão: Cristo-Rei.
Depois de denunciar os abusos que uma falsa concepção do reino promoveu ao longo da história, deu conta da longa história que pensou o Messias como Rei. Somou sinais. Como não podia deixar de ser, começou pelo reinado auspicioso de David, percorreu brevemente alguns profetas e acabou por mostrar como a questão do reinado estava presente no momento histórico de Jesus, nos judeus que o ouviram, nos Apóstolos que O acompanhavam.
Se os abusos históricos foram motivados por uma concepção do reinado em termos de poder e de poder não posto ao serviço, mostrou como esse mesmo poder mal usado se pode ler no tempo de Jesus, nos judeus, e nos Apóstolos.
Os Evangelhos quando começam a contar a história de Jesus, começam por acentuar os sinais que assinalam a sua realeza. Por isso, Belém e a sua árvore genealógica. Depois, analisou com mais cuidado a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém, a exclamação dos judeus, “Hossana o que vem em nome de David”, David, portanto, o que dizia que os judeus continuavam a ver em Jesus um novo David, um novo Rei, como o antigo tinha sido. Antes, a pergunta da mãe dos dois irmãos apóstolos, em que lado do trono os colocarás?, diz que os Apóstolos e seus familiares continuavam igualmente a ver em Jesus um David como David tinha sido.
Contudo, como é sabido uns e outros incorriam em engano. Não era ainda o tempo de impor o Reino sobre a terra. Era apenas altura de dar conta da natureza da semente que germina esse Reino. E ela é – dito de modo abrupto – a cruz.


Carregai a vossa a cruz! – Incentivam-nos. E pensamos – bem – que isso tem a ver com trabalho. «Ai, vizinha, nem sabe a cruz que carrego!», podia dizer – ou disse – alguma das personagens da Aldeia da Roupa Branca ou alguma figura trágico-cómica que tenha cirandado em torno das desventuras cinematográficas de Vasco Santana.
Mas se isso é verdade, se pegar na cruz é pegar nos nossos trabalhos, é também verdade que é pegar na nossa vontade. É passar a nossa vontade pela cruz.
O que é que isto quer dizer? – Nos seus reais contornos, nenhum de nós sabe. Há uma zona de mistério na conformação da nossa vontade à cruz. Mas ainda assim talvez possamos dizer que isso significa abdicar de querermos reinar no mundo. Abdicar de tentar submeter os outros à nossa vontade, não porque ela é má, porque por aí as razões seriam evidentes, mas porque mesmo quando boa, se realizada contra a vontade dos outros isso destruiria um dos maiores dons que Deus nos deu: a liberdade.
Foi isso que ganhamos com a não intervenção dos exércitos celestes. A certeza da fidelidade de Deus: Deus deu-nos a liberdade e ela foi mantida mesmo quando nós levamos o Seu filho à Cruz e à Crucificação… A terra podia ter vivido a partir daí debaixo do Seu reino. Mas esse Reino de Adão até hoje, sempre foi e é um reino de liberdade. Passar a nossa vontade pela cruz? – Viver em paz com a liberdade dos outros. Mesmo quando. Mesmo quando…


Fernando Macedo [A BORDO]

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