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quarta-feira, novembro 17

 

O fio da navalha

Quando há uns tempos passei pelo país basco, recordei-me de ter lido algures que a igreja basca foi (é?) um dos maiores suportes do nacionalismo basco e pensei que tal ideia era intrinsecamente absurda. Como é possível que uma igreja, instituição internacionalista por natureza, que tem como princípio fundamental a ideia de que todos os homens são irmãos em Cristo, sem diferenças entre eles, possa estimular a ideia de nação, conceito este que implica o criar ou acentuar diferenças entre os homens, criando fronteiras que potencialmente só servem para estimular a violência? Como é possível a uma igreja ser um suporte do nacionalismo?

Mas este raciocínio deparava com um outro. A igreja luta pela dignidade da pessoa humana. Será legítimo que se negue a certas pessoas o direito à sua língua, à sua cultura? Imaginemos que Portugal era ocupado por uma potência estrangeira que impedisse os portugueses de falar português e os nossos filhos de aprender português, que "limpasse" todos os vestígios da cultura portuguesa. Se a Igreja não se opusesse a tais medidas estaria objectivamente a ajudar a esmagar a dignidade humana dos portugueses.

Já aqui falei sobre a importância do princípio da proporcionalidade. Por outras palavras, a importância do equilíbrio, do bom-senso, do consenso, enquanto instrumentos fundamentais para nos orientarmos em contextos de valores morais cuja aplicação prática implica por vezes uma contradição flagrante entre si.

Em tempos, um católico acusou-me de, com as propostas que em tempos escrevi sobre a não punição de certas situações de aborto, estar a esquecer o valor sagrado da vida humana.

Existem situações da vida real em que é impossível não pecar. O célebre exemplo já clássico do agulheiro que vê um comboio aproximar-se a toda a velocidade na direcção de um comboio cheio de gente e que tem uma outra linha alternativa para onde dirigir o comboio: só que nesta linha está um comboio com uma pessoa. Se ele mudar a agulha para esta via está a cometer um pecado. Mas está a cometer outro se nada fizer. É uma situação de fronteira em que, necessariamente, se peca sempre. Como se, pelo simples facto de conhecer uma realidade, uma decisão ou a possibilidade de uma decisão implicasse sempre a existência do pecado.

É verdade que este é um exemplo quase caricatural. Mas a vida está cheia de outras situações de conflitos de valores.

Normalmente, as decisões problemáticas apenas existem nestas situações de fronteira. É neste tipo de situações que se exige a um cristão uma análise atenta e exaustiva do máximo de elementos que permitam uma decisão em consciência. Decisão essa que deverá sempre ter como critérios decisivos a proporcionalidade, o equilíbrio, o bom-senso e o consenso, num quadro de valores morais sólidos.

Li ontem no
infirmus umas palavras que a Marvi ouviu na sexta-feira passada ao Santo Padre:

"La sofferenza, l'anzianitá, lo stato di incoscienza, l'imminenza della morte non diminuiscono l'intrinseca dignità della persona, creata ad immagine di Dio".
[...]
"L'eventuale decisione di non intraprendere o di interrompere una terapia sarà ritenute eticamente corretta quando questa risulti inefficace o chiaramente sproporzionata ai fini del sostegno alla vita o del recupero della salute. Il rifiuto dell'accanimento terapeutico, pertanto, è espressione del rispetto che in ogni istante si deve al paziente"


(não faça a tradução para português porque os meus conhecimentos de italiano, embora suficientes, como os de qualquer pessoa que saiba ler português, para compreender as palavras do Papa, não me permitem a ousadia de as traduzir)

Como dizia em tempos um antigo companheiro secreto: o mais importante é saber para onde vivemos voltados. Ou como dizia um filósofo (Radbruch, num contexto particularmente difícil – sobre o nazismo) na última frase do seguinte excerto:

"Quinto minuto

Há também princípios fundamentais de direito que são mais fortes do que todo e qualquer preceito jurídico positivo, de tal modo que toda a lei que os contrarie não poderá deixar de ser privada de validade. Há quem lhes chame direito natural e quem lhes chame direito racional. Sem dúvida, tais princípios acham-se, no seu pormenor, envoltos em graves dúvidas. Contudo o esforço de séculos conseguiu extrair deles um núcleo seguro e fixo, que reuniu nas chamadas declarações dos direitos do homem e do cidadão, e fê-lo com um consentimento de tal modo universal que, com relação a muitos deles, só um sistemático cepticismo poderá ainda levantar quaisquer dúvidas.

Na linguagem da fé religiosa estes mesmos pensamentos acham-se expressos em duas passagens do Novo Testamento.

Está escrito numa delas (S. Paulo, Aos romanos, 3, 1) : «deveis obediência à autoridade que exerce sobre vós o poder». Mas numa outra (Actos dos Apóstolos, 5, 29) está escrito também: «deveis mais obediência a Deus do que aos homens». E não é isto aí, note-se, a expressão dum simples desejo, mas um autêntico principio jurídico em vigor. Poderia tentar-se resolver o conflito entre estas duas passagens, é certo, por meio de uma terceira, também do Evangelho, que nos diz: «dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César». Tal solução é, porém, impossível. Esta última sentença deixa-nos igualmente na dúvida sobre as fronteiras que separam os dois poderes. Mais: ela deixa afinal a decisão à voz de Deus, àquela voz que só nos fala à consciência em face de cada caso concreto."


Aquela voz que só nos fala à consciência em face de cada caso concreto.

Timóteo Shel (
TIMSHEL)

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