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segunda-feira, novembro 15

 

O Evangelho ao serviço da Revolução

Enquanto frequentei o medonho curso de filosofia, na não menos medonha Faculdade de Letras de Lisboa, só guardo memória de protagonizar dois actos de que me orgulho. Um foi comer uma miúda num gabinete de (cof cof) estudo da biblioteca. O outro foi «comprar» (no próximo parágrafo ficará explicado o uso das aspas) Rumo a Novos Horizontes do Padre Domingos Gomes, fulano que me é tão obscuro como Deus.
Passo ao relato. Do acto católico, claro está. Certo dia, enquanto percorria os corredores sem me dignar a entrar nas jaulas de aula, encontrei um alfarrabista. Detive-me diante da banca e amargurei-me por me faltar cacau para levar metade dos livros que queria levar comigo. Recorri à minha língua afiada a navalha de sofista. Comecei a regatear o preço dos livros. Palavra puxa palavra puxa livro, e já tinha entre mãos Manhattan do Woody Allen, Teatro do Picasso e Ensaios do Montaigne. Apercebendo-se de que estava diante da persistência personificada, o alfarrabista, simulando um gesto de bonomia, ofereceu-me Rumo a Novos Horizontes, de modo a fazer-me rumar a novos horizontes que não os seus. De pronto, aceitei. Abrir as páginas a um livro desconhecido é um desafio tão empolgante como abrir as pernas a uma miúda desconhecida.


Li-o durante a semana passada. E não me arrependi, nem me vou penitenciar por o ter feito. Bom, encontra-se dividido em três partes. Na primeira são desmascarados (no sentido malsão de pôr impudicamente a nu as verdades) os rituais da Igreja, na segunda são assinaladas as discordâncias da doutrina católica com o cristianismo puro e primordial, na terceira são tecidas considerações acerca da conduta ambígua dos Papas do século XX. Resumindo, um violento ataque verbal de um padre à sua própria igreja.
Trata-se, portanto, de uma análise lúcida, ferozmente lúcida, dos meandros da instituição católica. A escrita é tumultuosa, cadenciada a raiva e fúria. Registo que, para quem ainda não se desfez do preconceito de que todo o padre é a paz em pessoa, parecerá estranho. O mesmo preconceito tem deturpado o Jesus. As pessoas tendem, por verem-no representado de túnica e sandália, a achá-lo um tipo melífluo e delicodoce. E a esse erro, à propagação, como uma peste, desse erro, a culpa cai no cartório da Igreja.

Cada vez mais me convenço de que em nome de Cristo, se professaram o maior número de mentiras e se cometeram barbaridades que não lembrariam à imaginação, sempre fértil e inesgotável, do Diabo. Se regressasse ao nosso mundo, o Jesus tomaria-o pelo Inferno.
Ateus, budistas, adoradores de Satã, talibans, judeus, catequistas, polteirgesters de todo o mundo, não deixem de ler o Padre Domingos Gomes. Fazê-lo foi um passo, um longo passo de velocista olímpico, na minha conversão ao cristianismo e mais uma acha na minha fogueira de hostilidade à Igreja que, ao longos dos séculos, tem gangrenado o alcance espiritual e - porque não? - cósmico, das palavras que nos disse o Jesus.

Vítor Vicente [
O ANIMADOR DESANIMADO]

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