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quarta-feira, novembro 24

 

Este mundo assim é que faz bem à Igreja

Confesso-me: sou republicano e "laico" (e também socialista, mas para o caso aqui pouco importa). O que me leva a esta confissão é o grito do Ipiranga de alguns sectores católicos: estão-nos a assaltar a caixa de esmolas, dizem, e tocam a rebate os sinos dos templos modernos (jornais, televisões, blogues).
O cardeal Ratzinger veio,
na sexta-feira passada, dia 19, atacar o «laicismo» que se converteu numa nova ideologia «agressiva e intolerante» e lamentar a «marginalização» de Deus no Ocidente, numa entrevista ao diário italiano "La Repubblica". De onde vem este argumentário? Da recusa de Rocco Buttiglione como comissário europeu, pela maioria dos deputados do Parlamento da Europa.
O professor universitário Mário Pinto,
no Público de segunda-feira, volta a insistir em Buttiglione, para reafirmar «[o] crescendo de clara inimizade contra o cristianismo e as religiões (visível em certas potências dominantes)».
Afastemo-nos do caso em particular e situemo-nos num patamar mais lato da questão. Mas leia-se, de novo, Ratzinger: «Passámos de uma cultura cristã a um laicismo agressivo e às vezes intolerante. Apesar disso, ainda que as igrejas se esvaziem e muitas pessoas não sejam crentes, a Fé não morreu», sublinhou o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. [Questões menores, para Ratzinger, a das igrejas que se esvaziam e da cultura cristã, que não "leva" adjectivo?]

Tenho para mim que a laicidade não é negativa. Pelo contrário: só faz bem à Igreja, às igrejas e às religiões. Aliás, é "condição nossa", de crentes não eclesiásticos (chamemo-nos assim – e, por isso, preferiria usar o termo "secularização", mas já que até o senhor cardeal da Cúria assim fala...). Eu que sou leigo na Igreja quero meter-me a sério nas coisas públicas, mas sem a necessidade de publicitar a minha condição de católico. Não preciso. Do que me devo arrepender é, na coisa pública, actuar como se não fosse católico: achar que a guerra é coisa normal, que o desemprego em crescendo é inevitável, ter como certa a existência de pobres ou preguiçosos que gostam de viver do rendimento mínimo. [É interessante – e o
Zé Filipe, já uma vez o apontou – como Mário Pinto, por exemplo, alinha por um discurso neo-liberal que desconsidera as mulheres e homens que não entram na engrenagem social e económico definida pelo "altar da produtividade-rentabilidade". Adiante.]
O problema deve ser outro. O de influência ou poder – e uma e outro são coisas que a Igreja Católica não deve desejar. Não me incomodam as posições de Buttiglione sobre a homossexualidade. Não as entendo, para quem se diz católico. O que me incomoda é, perante um caso de incompetência política (dito simplisticamente: o homem pôs-se a jeito) vir gritar-se que a Igreja está a ser atacada. Eu sinto-me atacado por algumas coisas que muitos da Igreja dizem todos os dias e não vejo onde está a (minha?) religiosidade/fé (laicidade) ser posta em causa.
Na entrevista citada, Ratzinger mostrou-se convicto de que o cristianismo será determinante no futuro e «capaz de fornecer uma força moral» a uma nova Europa multicultural. E, sublinhe-se, considerou igualmente «um desafio positivo» para os cristãos «a firme fé dos muçulmanos em Deus». Há dúvidas sobre o aqui se diz? O que aqui se deseja é o regresso a uma espécie de teocracia? A palavra ao cardeal: «Deus está muito marginalizado. Na vida política parece quase indecente falar de Deus, como se fosse um ataque à liberdade de quem não crê», assinalou, concluindo que «uma sociedade da qual Deus está totalmente ausente auto-destrói-se» dando como exemplos «os grandes regimes totalitários do século passado». Não é indecente falar de Deus na vida política. É indecente invocar a Nossa Senhora de Fátima para nos safar da maré negra do "Prestige" ou dizer god bless us, no fim de um discurso laudatório da guerra, como faz Bush.

Mas à esquerda também há quem se ponha a jeito para as opiniões de "máriospintos" e "ratzingers". É uso e costume da esquerda se insurgir contra o discurso da Igreja (assim se identificando a Igreja de Roma, o Vaticano) na moral sexual. Que devia ser outro o discurso do Papa, concordo. Mas a seguir parece querer remeter-se as igrejas para o interior dos seus templos. Este sinal também é dado, sobretudo em espaços à direita, quando as questões são político-sociais (como já apontei no caso de Mário Pinto).
A laicidade do Estado não se joga na ausência do Estado de iniciativas que partam da Igreja Católica - ou de outras igrejas e comunidades. A laicidade do Estado joga-se na pluralidade de todas as religiões no espaço público (podemos discutir se é isso que acontece na prática, mas isso é outro ponto). Não me incomoda, como na iniciativa recente da Bíblia Manuscrita, ter a "participação" de alunos e professores exteriores à disciplina de religião e moral ou de figuras do Estado "laico/secular". Ou as religiões apenas são toleráveis metidas na sacristia ou enfiadas em sinagogas clandestinas?
Repito-me: a condição da laicidade também é a minha. Defendo a laicidade do Estado, mas esta não se deve basear no totalitarismo da "ausência" de sinais religiosos, como na Albânia de Enver Hoxa ou, salvas as devidas proporções, na França de Chirac, que se meteu numa alhada com a "lei do véu"...Por fim, relembro um
texto do Movimento Católico de Estudantes, redigido já em 1993: «O cristão não é "a alternativa a este mundo corrompido", a única possibilidade de salvação. Evangelizar a partir da cultura, discernir como viver a fé no diálogo reconhecedor da autonomia e da pluralidade da Cidade e das especificidades culturais, exige que os cristãos não se posicionem paralelos a nada, mas numa cidadania feita com outros [...]». Nos tempos que correm este é que o desafio. Não é eleger Buttiglione…

Miguel Marujo [
CIBERTÚLIA]

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