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segunda-feira, novembro 15

 

Desfragmentação do quotidiano

Este é o último de uma série de sete textos que têm vindo a ser publicados nesta casa que simpaticamente me acolheu. Chamei a este conjunto de crónicas (se é que merecem esse nome) de lições de moral, por motivos duvidosos e já sobejamente conhecidos. O assunto de hoje é ainda mais simples do que os anteriores – falarei sobre a coerência.
Sendo simples, a coerência é um valor que vejo frequentemente mal tratado. Basta lembrar a guerra do Iraque e aquela pergunta incómoda dos jornalistas – "Sendo católico, como reage o senhor ministro à condenação veemente da guerra pela Igreja?" –, à qual se seguiam explicações enviesadas para explicar a inexplicável incoerência. Ou as afirmações gerais de que os cristãos devem ser solidários no meio de discursos completamente avessos à solidariedade e alheios à urgência da erradicação da pobreza. A coerência é simples, mas não é fácil.
De seguida gostava de desmentir aquele célebre refrão do Sérgio Godinho que diz que "a vida é feita de pequenos nadas". A vida é feita de muitas coisas, umas pequenas outras grandes, mas vejo-a mais feita de um "grande tudo" do que de "pequenos nadas". A coerência tem a ver com isso – não viver a vida espartilhada; não considerar que cada episódio é só um pequeno episódio independente dos outros, em que a vida no emprego não tem nada a ver com a vida familiar, em que a vida no bairro não tem nada a ver com a vida na casa de férias, em que a esmola que damos não tem nada a ver com o nosso estilo de vida, e por aí fora. Já por aqui disse que um dos problemas de hoje é fazer-se da vida um negócio, que é a negação do ócio. E deixar o ócio – aquilo de que gostamos – só para os intervalos. O desafio da desfragmentação do quotidiano é tornar os espaços onde estamos apetecíveis. Quem sou eu nos vários espaços onde estou presente? Qual é o gosto que tenho de estar em cada um deles? Qual é a linha de coerência que me orienta? Desfragmentação do quotidiano é dizer que tudo tem a ver com tudo, numa expressão que li no infelizmente desaparecido "Companheiro Secreto". E se tudo tem a ver com tudo, não devemos ser alheios a nada do que nos rodeia – aceitamos comprometermo-nos com todos os espaços em que estamos, levando profundamente a sério os que estão à nossa volta.
Neste sentido sou cada vez mais avesso ao discursos do "nós não podemos mudar isso, mas podemos mudar qualquer coisinha em nós próprios". A mudança pessoal pequenina, mesquinha, é a desculpa mais frequente para, no fundo, permanecermos iguais. Com uns toques de maquilhagem e uns acrescentos de incoerência pessoal e estrutural. Viver com coerência implica estar disposto a aceitar a sua própria mudança, porque percebemos que o caminho que percorremos se afasta daquilo que queremos ser; e simultaneamente a trabalhar para a mudança dos locais onde nos movemos, porque percebemos que a nossa coerência implica aí mudanças estruturais. Ela alimenta-se da mudança pessoal e do testemunho de vida, com tudo o que ele tem de poderoso, mas transcende a mudança superficial ou parcelar. Por isso mesmo, por causa dessa dimensão estrutural, viver a desfragmentação do quotidiano implica atenção e reflexão sobre o que acontece e, mais importante, sobre o que as pessoas fazem acontecer.

Para terminar, deixo-vos um excerto do editorial do primeiro número do boletim "Mudar a Vida", publicação do
Graal, da autoria de Maria de Lurdes Pintasilgo. Já foi publicado no Futuros, mas parece-me um bom epílogo para as sete lições de moral, que aqui terminam. É precisamente sobre o que falei nos últimos sete textos – mudar a vida:
De todos os lados nos vem o convite à estabilidade, à segurança, ao já conhecido, aos terrenos firmes, ao ideal entrevisto. Por todos os meios nos atrai e nos paralisa o mito do eterno retorno. Transformações à nossa volta? Sem dúvida, desde que elas nos conduzam ao eu ideal que imaginámos, à imagem de nós próprios que, ao longo dos anos, cuidadosamente formámos.
Deixamos assim de longe a única via pela qual horizontes novos se podem rasgar: aquela em que escolhemos percorrer o próprio trilho da mudança. E quando digo que escolhemos percorrer esse trilho, não estou a imaginar um caminho linearmente percorrido sem perigos nem desvios. Pelo contrário, no caminho da mudança, seremos ossos encharcados debaixo da chuva, seremos gestos descontrolados nas areias movediças, seremos passos indecisos a contornar rochas de granito.
Quantas vezes falámos de mudança de estruturas e de instituições, opondo essa mudança, numa espécie de antinomia inevitável, à mudança de mentalidades que queríamos ter visto operar, pela obra mágica do nosso verbo e das nossas incitações, para concluirmos (pacificante conforto!) que nada se podia fazer sem que se mudassem as estruturas. Quando finalmente as estruturas nos vieram parar às mãos verificámos que não éramos senão aprendizes de feiticeiro: não as soubemos desmantelar porque não conhecíamos as engrenagens escondidas; não as pudemos reorganizar porque não tínhamos alternativa viável a opor à sua gigantesca irracionalidade; não as pudemos deixar cair como mero anacronismo da história, porque não tínhamos delineado o projecto das estruturas novas que as substituiriam, superando-as e anulando-as. E quando reconhecemos que o aparelho institucional se agitou, tremeu, mas permaneceu inalterável nos seus vícios, na sua burocracia e na sua inutilidade, dissemos então que o que importa é mudar as mentalidades!
Passageiras são as estruturas, plasmáveis as mentalidades. Por entre o feito mecanicista de umas nas outras (mentalidades obscurecidas por estruturas aniquilosadas; estruturas inoperantes por mentalidades embrutecidas) brota a esperança duma outra relação, que não é senão o dinamismo da própria vida.
Por isso, a grande empresa não é o plano pensado e repensado, a estrutura gigantesca que, com os seus tentáculos, tudo vai abafar, nem a mentalidade renovada, adaptada, ajustada, conformada. A grande empresa é mudar a vida»
.

Zé Filipe [
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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