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segunda-feira, novembro 15

 

Das várias higienes

Lotário di Segni (que viria a ser Papa com o nome de Inocêncio III) escreveu um livro dedicado à baixeza da condição humana: “Consideremos as plantas, consideremos as árvores. Dão nascimento a flores, folhas e frutos. Mas tu, a que dás origem? A piolhos, lêndeas, vermina. As árvores e as plantas exsudam óleo, vinho, bálsamo - e tu, saliva, muco, urina, fezes. Elas difundem aromas de todas as fragrâncias; tu o mais abominável mau cheiro.”

Fugindo a uma certa abominação ao corpo que me parece ter sido herdada do helenismo, a verdade é que Lotário teria de mudar de ditame e opinião, quanto às baixeza e abjecção humanas, se entrasse numa boa biblioteca ou museu, por exemplo. O homem, além de urina, fezes, peidos e mucos vários, exsuda belas palavras, ideias, inventos, arte, tudo isso processos fundamentais ao ser homem e vertical. Por outro lado, se de dentro do homem escorrem e saem muitas coisas boas, justas e belas, não é menos verdade que saem muitas coisas cruentas, más e virulentas, e para isso bastaria a Lotário abrir um qualquer dos nossos jornais ou livros da nossa empestada História Universal, para voltar à sua primeira conclusão: Não somos nenhumas flores!
É dentro da alma que acumulamos o lixo mais nefasto, “o mais abominável mau cheiro”, um canalhismo capitoso. Os evangelhos estão cheios de referências a esse espaço interior, mais digno da nossa atenção e preocupação que aquilo que nos cobre e envolve.

A higiene tem vindo, por razões óbvias, a ganhar espaço no nosso quotidiano duma forma elementar e espontânea. As chamadas abluções foram remetidas para um canto simbólico e ritual, e de certa maneira substituídas pela elementar higiene do dia-a-dia (que Desmond Morris denuncia como exageração típica do macaco pelado das grandes cidades e, com ironia, num dos seus livros mais clássicos, afirma que o homem se lava para esconder o odor sexual e o substitui por perfumes compostos de fluidos sexuais de animais: olores mais discretos ou menos evidentes). Hoje, quando se lavam as mãos, não se lavam os pecados que elas cometeram, como simbolicamente a isso estaria vinculado tal acto e teria sido prática corrente. Não me refiro ao secular gesto de Pilatos (apesar de ser um bom exemplo de como a água não se limitava, noutros tempos, a lavar a pele e a retirar o sarro). Pegando em exemplos próximos, qualquer umas das três grandes religiões monoteístas usam rituais onde a água tem o poder de lavar, não apenas o corpo, mas os pecados e a alma.

Mas, se a higiene do nosso corpo tem uma solução evidente, já a higiene da alma reserva alguns problemas. É verdade que podemos recorrer a uma ou outra ablução como símbolo de uma lavagem interior, mas a sua eficácia é, nos dias de hoje, muito limitada e assim será cada vez mais.
O único método que conheço verdadeiramente higiénico, no que respeita à alma, é a confissão. É a única lavagem interior que me ocorre com o devido potencial purgativo, capaz de esfregar e varrer dos nossos recantos intestinos todo o resíduo pútrido e danado. Desde o simples “falar com amigos”, passando pelo psicólogo, e terminando na sacramental confissão cristã, tudo isso é purga e método higienicamente eficaz, é bica, chafariz, e banho.
Raskolnikov (do “Crime e Castigo”) é um bom exemplo do drama a que é sujeito o homem que se sente de alma suja. Sem me estender a toda a higiene da personagem de Dostoievski, a verdade é que a sua confissão é acompanhada e cumulada dum acto expiatório de redenção (mas isso seria motivo para outro artigo, portanto, ficamo-nos pela necessidade de confissão).

Desde os AAs até aos modernos consultórios de psicologia, tudo se confessa, com relativo, e maior ou menor, grau de eficácia. A verdade é que muitas vezes fica alguma coisa atrás da orelha, e até em locais mais visíveis e em acúmulo razoável. O problema da confissão fora do âmbito religioso é que todo o homem se mente a si mesmo, e quando deveria dizer que fez, que pecou, diz, em vez disso, que fez justiça. Há um certo perigo de um uso teleológico da razão, da justificação, o que pode facilmente encobrir e disfarçar a sujidade. São os perfumes e desodorizantes da alma, se me é permitida tão burlesca analogia. É o “bati-lhe, dei-lhe cabo do coiro, mas é para o bem dele, daqui a uns tempos, vai-me dar razão”, “bati-lhe porque mereceu”, “bati-lhe porque me bateram antes”, ou o mais titânico “se matamos milhares agora é para não morrerem milhões depois”. Sem alguém que separe o acto e o avalie dentro dum paradigma moral, o homem, é duma maneira geral, incapaz de avaliar a verdadeira dimensão dos seus actos e tem mesmo declive para se enobrecer e decorar a sua ignomínia com belas palavras de desculpante auto-lisonja. Além disso, a psicologia, por exemplo, é incapaz de dar um sentido ao gesto e portanto retira alguma eficácia ao remédio. Uma pessoa pode saber que fez mal, mas não encontra motivo para fazer bem, a menos que tenha o tal sentido, a direcção. A Religião é capaz de o fazer, e será uma das únicas coisas que poderá alijar o homem da queda no absurdo.

Em tempos, a confissão cristã foi pública. A violência de tal lavagem (conquanto, certamente, mais eficaz) foi substituida pela mais suave e delicada confissão auricular, mais propícia à confissão regular e frequente. Mas a verdade é que está, a cada dia, mais rara. Hoje, no Ocidente, parece-me que a confissão está cada vez mais minorizada e a higiene interior cada vez mais comprometida. No Leste, na Igreja oriental, a confissão mantém um valor catártico impressionante. Não é raro, quando assistimos a confissões, ver incontidos acessos de lágrimas.

No final, esperemos que Lotário de Conti tenha apenas razão no que se refere a mucos e outros humores, pois esperemos que o homem e a sociedade encontrem ou redescubram métodos seguros para as suas abluções interiores e dos seus corações ou arriscamo-nos a perpetuar e propagar uma fétida poluição interna.

Afonso Cruz [ALERTA AMARELO]

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