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segunda-feira, novembro 1

 

Cidadania na Igreja

No texto de apresentação da minha crónica da semana passada citei Abbé Pierre dizendo que a distinção essencial entre as pessoas não era entre crentes e não-crentes, mas entre os que se bastam a si mesmos e os que procuram viver a sua liberdade num espírito de abertura e acolhimento aos outros -- entre os "idólatras de si mesmo" e os "comungantes". Se o essencial não é sermos crente ou não crentes, que necessidade há de haver Igreja? É sobre isso que hoje vou falar. A primeira parte deste texto é mais histórica[1]. Na segunda falo então da cidadania na Igreja.

I
O termo ecclesia, do grego, assembleia, passou a ser usado na tradição cristã só a partir de São Paulo, que provavelmente o tomou da comunidade de Jerusalém. Nos Evangelhos, a palavra Igreja só é usada duas vezes. Se fundamos a nossa fé em Jesus Cristo, a pergunta que se coloca é esta: Jesus quis fundar uma Igreja? A resposta objectiva não é fácil. Os textos dos evangelhos dificilmente podem ser considerados retratos sociológicos. Porém, até ao Vaticano II, a resposta era considerada evidente. Jesus fundou uma sociedade hierárquica quando pronunciou "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja".

Cristo teria fundado a Igreja, como uma instituição hierárquica, monárquica, com autoridade, sacramentos e dotada de um magistério infalível mediante um acto jurídico. Chegou inclusivamente a dizer-se que o Reino anunciado por Jesus era a Igreja. Vem daí a terrível frase "extra ecclesiam nulla salus" (fora da Igreja não há salvação).
O Luterano H. S. Reimarus (1694-1768) foi o primeiro a contestar a fundação da Igreja por Jesus. O mesmo pensaram A. Harnack e A. Loisy (1857-1940) segundo o qual «Cristo não fundou formalmente uma Igreja, nem estabeleceu nenhuma forma de governo para ela. Porém, o Seu anúncio do Reino de Deus e a transmissão dessa mensagem aos discípulos conduziu à formação da Igreja, que é resultado da obra e vontade de Jesus». É neste contexto que Loisy pronuncia a tão famosa frase «Jesus pregou o Reinou de Deus e o que apareceu foi a Igreja». Quando foi proferida não tinha o sentido pejorativo que lhe foi dado posteriormente. Esta ideia de que a fundação da Igreja é posterior a Cristo desenvolveu-se e o chamado primeiro consenso entre os protestantes consistiu em afirmar que Jesus não fundou uma Igreja, já que esta é uma realidade pós-pascal.
Mais tarde, mas ainda antes do Concílio Vaticano II, diversos teólogos propuseram uma tese dialéctica em que propõem que a Igreja não foi fundada por Jesus mas está subjacente à sua pregação. Propõem que Jesus não fundou a Igreja -- e nesse sentido só se pode falar de Igreja depois do mistério da morte e Ressurreição de Jesus -- mas propôs os seus fundamentos. Em vez de fundação da Igreja por Jesus diz-se que a Igreja procede de Jesus. Já no Concílio Vaticano II se afirma que "a Igreja de Cristo subsiste na Igreja católica, embora fora de sua estrutura visível se encontrem muitos elementos de santificação e de verdade"[2].
Mais recentemente, a polémica à volta do termo "subsiste" usado neste texto voltou a surgir, entre o teólogo Leonardo Boff e o Cardeal Ratzinger. Este último é acusado por Boff de substituir o "subsiste" por um "é", identificando a Igreja de Cristo exclusivamente com a Igreja católica e subvertendo assim o espírito do Concílio. Já o cardeal acusa o profeta de relativismo moral [3]. Estas querelas teológicas são interessantes para perceber a forma como a comunidade cristã se foi auto-entendendo e como ela é ainda hoje entendida por quem detém tanto poder dentro da sua estrutura. Mas voltemos um pouco mais atrás, ao tempo de Paulo, o apóstolo que levou a Igreja para fora do contexto judaico.

As primeiras comunidades cristãs reuniam-se para celebrar a Ressurreição de Cristo -- o cumprimento da profecia. Os elementos constitutivos destas comunidades são definidos por Paulo em três elementos essenciais: fé, esperança e caridade. A Igreja não nasce como organização mas como expressão desses três elementos -- fé na Ressurreição de Cristo que derrotou a morte, esperança no Deus da história, caridade como expressão do supremo Amor.
O início das comunidades cristãs, mais do que um processo organizativo é a formação de comunidades de convicção -- grupos que, no seio do judaísmo, professam a sua fé no Ressuscitado, uma fé que entendem progressivamente ter uma vocação universal. Curiosamente, a designação de "cristãos" nasce em Antioquia e é utilizada para definir os judeus que se afastam do Templo. Ao longo do seu desenvolvimento a comunidade crente vai entrando em debate não só com o messianismo judaico, mas também com outras culturas e propostas religiosas. Em particular o encontro com a cultura helénica, de onde nasce o Evangelho de S. João, leva ao desenvolvimento doutrinal quando procura exprimir a fé no seio da tradição filosófica grega. O crescimento e complexificação levam à organização da comunidade segundo as formas usadas nesse tempo.

II
A história já vai longa e à parte a passagem pelos tempos pré e pós-conciliares, ainda nem chegámos a Constantino. Por isso é melhor avançar. A questão com que comecei este texto é a da função da Igreja. A contextualização histórica é importante para pensar no sentido da Igreja. E é importante porque nos diz precisamente isto: mais do que seu papel enquanto organização, a Igreja foi e é sobretudo sinal e instrumento da mensagem de Cristo, mensagem de união das pessoas com Deus e da unidade de todo o género humano. Ela nasce a partir de comunidades de convicção -- gente que mudou a sua vida por causa da mensagem de Jesus e que testemunha essa forma de viver. É também isso que nos diz a "Lumen Gentium" logo no primeiro parágrafo.

Para falar da Igreja e de Deus, os padres conciliares usaram a metáfora do espelho: «A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a Sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura.» Olhando para a Igreja, olhando para a vida dos crentes, devemos ver um reflexo do imenso amor de Deus. É essa a essência e missão da Igreja, é isso que lhe dá sentido. O que não significa que ela detenha qualquer tipo de exclusividade nessa tarefa, como pretende o cardeal Ratzinger.
É claro que as evoluções são bem conhecidas -- a história da Humanidade e da Igreja deu muitas voltas, e por vezes bastante escandalosas. Apesar disso, apesar de todos os seus erros e pecados, é através da Igreja que recebemos a fé. Ou, na versão desinstitucionalizada, é pelo testemunho de um estilo de vida plenamente livre de outros que acreditamos na Esperança e no Amor. Não obstante os erros passados e presentes da Igreja, é através dela que recebemos o testemunho de que Cristo vive. É isso que nos dizem as duras palavras de Henri de Lubac: «Todos nós gostamos de ter uma mãe carinhosa, bela e fiel. Em vez disso, a Igreja, por vezes, é uma mãe madrasta e prostituta... Mesmo assim, é ela que sempre nos gera na fé».

Por isso mesmo, a cidadania na Igreja é uma das traves mestras da minha vivência da fé. Se reconhecemos na Igreja a missão universal (mas não exclusiva) de anúncio da mensagem de Amor, não somos coerentes quando nos alheamos de nela exercer a nossa cidadania. Cidadania no sentido de colaborarmos e nos sentirmos profundamente responsáveis pelos seus caminhos. Nessa linha, os leigos têm um papel essencial na formulação e discussão da fé dentro dos diversos contextos culturais e sociais. Falando da harmonia entre a cultura humana e a mensagem cristã diz-nos de novo o Concílio: «É mesmo de desejar que muitos leigos adquiram uma conveniente formação nas disciplinas sagradas e que muitos deles se consagrem expressamente a cultivar e aprofundar estes estudos. E para que possam desempenhar bem a sua tarefa, deve reconhecer-se aos fiéis, clérigos ou leigos, uma justa liberdade de investigação, de pensamento e de expressão da própria opinião, com humildade e fortaleza, nos domínios da sua competência.» [3] Expressar esta opinião, exercer esta cidadania nem sempre é fácil. Implica transportar para dentro da Igreja as inquietações que o mundo complexo em que vivemos nos coloca. Implica desconstruír a doutrina, percebendo o seu cerne e por vezes implica mesmo propor reformulações aos ensinamentos da Igreja, sabendo que eles não valem todos o mesmo. O que não é fácil, não é rápido e nem sempre é bem aceite. Um amigo meu, professor de Filosofia, diz que costuma ser mal entendido em discussões em espaços da Igreja porque coloca muitas dúvidas. Diz-me ele que, tendo uma formação filosófica, procura sempre duvidar metodicamente. Na Igreja as dúvidas continuam a ser mal entendidas. O que não deixa de ser estranho, já que o percurso do cristianismo está cheio de disputas, dúvidas, querelas teológicas, heresias, reformulações e divisões. Como disse o José, de dúvida em dúvida chegaremos à fé.

[1] A secção I deste texto nasceu dos meus apontamentos de uma intervenção do Professor António Matos Ferreira no Encontro Teológico de 2003 do Movimento Católico de Estudantes (MCE) e do livro "La Iglesia, Comunidad de Creyentes" de Casiano Floristan.

[2] Declaração dogmática "Lumen Gentium" (sobre a Igreja), n.º 8.

[3] Sobre a polémica do significado de "subsiste", vale a pena confrontar as teses de Leonardo Boff e do Cardeal Rantzinger expressas na declaração "Dominus Iesus" (cf. nota de rodapé 56).

[3] Constituição Pastoral "Gaudium et Spes" (sobre a Igreja no mundo contemporâneo), nº62




Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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