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segunda-feira, novembro 8

 

"As pedras hão-de gritar"

O que aqui me traz hoje é mais uma lição de moral, desta feita sobre a nossa (minha e de quem mais vier) capacidade e maneira de dar testemunho da sua fé. Muitas vezes me questiono se sou coerente com o que vou apregoar. Feito o acto de contrição, passemos à lição de moral.

Uma das discussões recorrentes nas questões da fé é perguntar o que é que ela traz de novo. Que diferença faz ser cristão? Uma amiga minha reage sempre epidermicamente a estas conversas e responde imediatamente, como que para provocar o interculotor, que "não faz diferença nenhuma!". Depois explica que não procura andar com o "cristão" ou o "católico" colado na testa. Nem tão pouco "impingir" a sua fé aos outros. Também não acha que as suas boas acções e más acções se distingam das de qualquer outra pessoa. Por isso responde logo que a fé não a distinge dos outros. No essencial tem razão — não me considero mais ou menos sábio do que quem segue outras filosofias de vida e de crença (exceptuando talvez alguns individualistas convictos e monoteístas do seu ego). Conheço muitos não-crentes cuja entrega aos outros supera em larga medida a de muitos individualistas da fé, mas isso são outras conversas. Para mim (e creio que para a minha amiga também) assumimo-nos como crentes, mais do que por exclusão ou diferença, por solidariedade e empatia. Que diferença faz ser cristão? A fé fundamenta uma ética e uma maneira de estar que só faz sentido quando entra em jogo aquele que está Absolutamente para além de nós — essa dimensão de transcendência a que damos o nome de Deus e que, acreditamos, ser na sua própria essência Amor. Nesse sentido a fé faz toda a diferença.
Esta síntese entre a não diferenciação dos cristãos nos usos e costumes do seu tempo e a novidade do seu estilo de vida está brilhantemente sintetizada na
Carta a Diogneto, um texto dos padres da Igreja, escrito nos primeiros séculos do cristianismo: «Os cristãos não se distinguem das outras pessoas nem pela pátria, nem pela língua, nem por um género de vida especial; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos alimentos que tomam, quer noutros usos; mas a sua maneira de viver é sempre admirável aos olhos de todos. Habitam a sua pátria, mas vivem como que de passagem; em tudo participam como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátria. Toda a terra estrangeira é sua pátria e toda a pátria lhes é estrangeira. Obedecem às leis estabelecidas, mas pelo seu modo de vida superam as leis.»
É possível viver essa ética de entrega aos outros, sem a fundamentar na fé de que todos somos irmãos por termos um Pai (ou uma Mãe) comum? Exemplos não faltam. Porém, para mim, essa entrega da nossa vida aos outros não é apenas voluntarismo. Insere-se numa perspectiva mais abrangente, num horizonte de esperança a que os cristãos dão o nome pomposo de Reino de Deus — horizonte de Deus. Só assim consigo dar sentido e manter a esperança mesmo contra todas as evidências. Numa excelente crónica com o título roubado a Heidegger,
"Só um Deus nos pode salvar", diz Frei Bento Domingues: «só o amor pode ressuscitar em nós o sentido da vida humana. Dizer que a vida humana tem sentido é acreditar em Deus.»
Voltemos a outro título, o desta crónica, "as pedras hão-de gritar". É uma expressão retirada da narração da entrada de Jesus em Jerusalém, normalmente lida no Domingo de Ramos, do texto de São Lucas (cap. 19, 40):
«Ao chegarem perto da descida do monte das Oliveiras, todos os discípulos, rejubilando, começaram a dar louvores a Deus em grandes brados de alegria por tudo o que haviam visto como manifestação do seu poder, dizendo: 'Bendito seja aquele, o Rei, que vem em nome do Senhor. Paz no céu e glória nas alturas!' Então alguns fariseus que estavam entre a multidão, disseram: 'Mestre, repreende os teus discípulos.' Respondendo, ele disse-lhes: 'Digo-vos que se estes se calarem, as pedras hão-de gritar.'»
Tendo percebido (aparentemente) a mensagem de esperança que Jesus lhes apresentava, os seu discípulos exultavam. Os mesmos que passados uns dias perderam a esperança e fugiram cheios de medo, quando O viram crucificado. Tinham na verdade compreendido pouco da novidade proposta por Cristo. No momento da chegada a Jerusalém, o ambiente era festivo e os fariseus, talvez receando a autoridade romana, pediram contenção e silêncio. Jesus responde-lhes essa frase extraordinária e enigmática: se eles se calarem, "as pedras hão-de gritar". Logo a seguir, São Lucas mostra-nos Jesus a contemplar a cidade, chorando, provavelmente por perceber que o caminho que percorreram em alegria O levaria à morte de cruz. Não se trata de uma alegria frívola, trata-se da celebração de um caminho percorrido ao longo dos três anos de pregação. Um caminho que estava a chegar ao seu doloroso culminar.
Este episódio diz muito do que deve ser, para os cristãos, o testemunho da sua fé. Esse testemunho não é proselitismo, nem alegria inconsequente ou superficial. Quem entra na dinâmica do Reino, quem tenta viver a sua liberdade descentrado de si, deixa inevitavelmente transparecer um rasgo de alegria que impregna o seu estilo de vida. A diferença da fé não é distinguir o crente do que o não é e, menos ainda, o católico dos outros. A diferença da fé é iluminar a nossa vida com um horizonte mais largo, que transparece nas nossas acções, na nossa maneira de estar, na atenção que damos aos outros, sobretudo aos excluídos. "As pedras hão-de gritar" — a esperança que nos alimenta há-de transparecer na nossa vida. É nessa altura que nos perguntam: "porque és assim?", "porque não desistes daquilo?", e outros intermináveis porquês. E quando a conversa chega a esse ponto, as palavras servem mesmo para o que foram inventadas — para explicar em que acreditamos, consequentemente, de forma incarnada.


Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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