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quarta-feira, novembro 10

 

Amor com amor se paga

"Não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais. Não há nada que possamos fazer para Deus nos amar menos." (Philip Yancey)

Há tempos num comentário no blogue do
Timshel, um ateu republicano e laico aí da blogosfera dizia-nos uma coisa paradigmática: “Tenham cuidado com o «amor». É com essa treta que os vossos padres e santos vos enganam, e limitam um valor mais importante: a liberdade”. Na verdade, não deve haver noção mais irritante para quem não tem Fé do que esta história de Deus nos amar, tão repetida, tão cara àqueles que creem. Em primeiro porque parece ser desmentida todos os dias pela evidência dos acontecimentos: guerras, terrorismos, catástrofes, miséria, injustiças. Como podemos ser amados por alguém que nos abandona a tão cruel destino? Mas qual alguém? Como é possível haver alguém assim? E como é possível haver quem consiga discernir amor nisto tudo? O que há é pessoas fracas que em vez de encarar de frente o peso da realidade procuram disfarçá-lo com a ficção confortável de um amor transcendente que vela por elas. E outros há, habilidosos manipuladores de multidões, que usam a narcotizante ideia do amor divino para consolar e assim controlar os fiéis.
Assim dizem os descrentes, sobretudo aqueles que se irritam pela mera ocorrência da Fé. A esses lamento-os porque no fundo são uns mal-amados. Não digo que sejam mal amados por Deus mas digo que são mal-amados por não se deixarem amar. E lamento-os porque sendo mal-amados são tristes. É claro que, como dizia Bertrand Russel, um descrente que todavia amava os crentes, "o homem triste, tal como o que dorme mal, tem sempre um certo orgulho no facto". Mas já se sabe que mesmo o orgulho é consolo precário para um coração vazio.


Mas lá estou eu estou a derivar. Do que eu quero falar é mesmo do amor de Deus. Por nós todos e por cada um de nós. Pelos satisfeitos da vida e pelos deserdados da sorte. Pelos santos e pelos pecadores. Pelos crentes e pelos descrentes. Pelos que riem e pelos que choram. Pelos que amam e pelos que odeiam. Pelos humildes e pelos de ego inflamado.
Devo dizer que a minha noção do amor divino tem a ver não só com os meus pobres conceitos teológicos mas também a ver com a minha forma particular de ver o meu semelhante. É que, sendo um céptico, acabo por ser um optimista. Quero eu dizer que, desconfiando muitas vezes do que me dizem, acredito profundamente que toda a gente, até eu próprio, tem alguma ponta por onde se pegue, tem uma faceta boa na sua natureza que não só espera para se manifestar como também se compraz nisso. Na meia-vida que já levo, conheci muita gente mas nunca conheci ninguém integralmente mau. Conheço pessoas com egoísmos monumentais. Conheço pessoas de rancor fácil e persistente. Conheço pessoas estupidamente violentas e outras violentamente estúpidas. Conheço pessoas intrinsecamente desonestas. Conheço pessoas absurdamente vaidosas. Conheço pessoas dramaticamente escravas, umas escravas de vícios, outras escravas de ter e de poder, o que também são vícios. Conheço pessoas doentiamente invejosas. E por aí fora. Mas posso dizer sem mentir que, em maior ou menor grau, gosto de todas elas. Gosto à minha maneira, pois claro, um bocado à distância, sem muitas vezes o mostrar e sem agir em conformidade. Mas gosto. Pois em todas elas reconheço algo que me toca de alguma maneira nem que seja o seu sofrimento por uma falta de atenção. Eis aqui um ponto importante: a atenção. Diz a minha experiência de vida que mesmo o mais desagradável indivíduo, se lhe dermos um pouco de atenção, baixa as suas guardas e mostra que é um ser humano, exactamente tal como eu.

Ora é nesta coisa do ser-se humano que eu chego ao meu ponto. Para mim a prova do amor de Deus por nós não está naquilo em que nos acontece mas naquilo que verdadeiramente somos, naquilo que verdadeiramente temos em nós. É na nossa natureza e condição humanas, que partilhamos todos, onde eu vejo o sinal palpável do amor paternal de Deus. Dirão alguns de vocês: para assinalar o 249º aniversário do terramoto de Lisboa aparece-nos agora aqui um tipo a querer ser a reedição do Cândido, o eterno optimista, de Voltaire!... Dirão outros: ora eis aqui um gajo satisfeito da vida a justificá-la com Deus, assim como que uma espécie de born-again calvinista!...
Não, meus caros amigos. Este que vos escreve, como quase toda a gente, levou e leva no pêlo a dose diária recomendável para manter baixa a grimpa! Este que vos escreve é, isso sim, daqueles que não tendo tudo o que querem, querem tudo o que tem. E uma das coisas que tenho é toda esta gente que conheço e de que vos falava há pouco: familiares, amigos, colegas, conhecidos. Gente de que gosto mais ou menos mas de que gosto, pois como dizia, em todos eles e elas reconheço pelo menos às vezes algo de gostável. A ver se me explico agora.
Em toda a gente, se olharmos bem, existe algo que não vem da natureza nem da educação nem da moral vigente. É a capacidade, comum a todos, de em determinadas condições, às vezes condições limite, ser-se capaz de atitudes que são contra a nossa natureza mais material. Atitudes que contrariam os instintos da nossa natureza mas atitudes que provém unicamente do facto de em nós estar contida uma grandeza que nos transcende. Já assisti a estupores compulsivos a serem tocados por certas e determinadas situações que, de alguma forma, os tocaram e que os levaram a ter atitudes perante outras pessoas, atitudes totalmente inesperadas neles.
E quando isso acontece, e falo por experiência própria, na qualidade de “estupor intermitente”, a sensação que ocorre, misturada com o espanto de nos termos surpreendido a nós próprios, essa sensação é verdadeiramente admirável, única mesmo.

E chego então ao queria dizer hoje. Deus criou-nos como seres de instintos duvidosos e de perigoso livre-arbítrio. No entanto, em cada um de nós deixou algo de imenso, por ínfimo que seja: a possibilidade de redenção. Para mim não há conceito mais belo nem espectáculo mais satisfatório que uma boa história de redenção. A nossa própria ou a da pessoa à nossa frente. Está então aí, nessa possibilidade para nós todos, a maior prova do Amor de Deus.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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