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segunda-feira, novembro 29

 

Um postal de Advento… Metrópole 2004

Jesus nasceu numa manjedoura nas margens da cidade... revelou-se, em primeiro lugar, aos que viviam para lá dos limites da cidade.
Também há margens nas nossas metrópoles: ruas sem luz, bairros esquecidos inundados de lama. E há pessoas que vivem do lado de fora das nossas cidades, mesmo que durmam debaixo das nossas arcadas, em estações solitárias ou à porta das nossas Igrejas.
No mais fundo de cada um de nós há uma cidade que se agita. Trazemos cá dentro praças de festa onde encontramos amigos, montras coloridas onde estão expostas as nossas qualidades, recantos de mistério e conforto, sótãos de acolhimento, caminhos estreitos e pontes de madeira frágil. Há o mar a inundar de azul a nossa alma.
Na nossa cidade interior escondem-se ruas sombrias onde ecoam conversas amargas, pequenas vielas onde nos ferimos para sempre e aonde não queremos voltar. Há pessoas que vivem nas margens da nossa vida, dormindo às portas do nosso templo.
É nas vielas onde nos ferimos que Jesus quer nascer. São as ruas sombrias que ele quer iluminar e são as pessoas que dormem esquecidas que o vêm anunciar.
Somos eternamente responsáveis pelo que se passa no coração dos outros. Podemos abrir estradas de luz ou transformar praças de festa em lugares esquecidos e feridos.
No segredo do que somos, Jesus nasce em cada dia para transformar os nossos gestos em chamas e os nossos braços em pontes que unem a nossa cidade à cidade de todos os que nos visitam.


Zé Maria Brito, sj

P.S. 1 – este texto foi escrito a partir de um momento de oração de um campo de férias que teve o nome de Metrópole. E que decorreu em Julho de 2004.
P.S. 2 - Bom Advento…

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Comentário à situação actual do Ensino Superior

Começou ontem o tempo litúrgico do Advento. Os próximos domingos serão dedicados pelos católicos à preparação do Natal, preparação para a festa do nascimento de Cristo. E para começar santamente o ano litúrgico, nada melhor que deixar os temas da fé das últimas sete crónicas e passar aos temas do mundo. E como o meu mundo é, ainda, o de estudante do Ensino Superior, aí vai um comentário à sua situação actual. Baseei-me num texto escrito há cerca de um ano, que actualizei, corrigi e aumentei. A quem não interessar, vemo-nos para a semana.

Há um ano eram agitados os tempos no Ensino Superior. Em Coimbra, a Universidade encontrava-se trancada a cadeado. Hoje a contestação esmoreceu. Duas escassas centenas de estudantes têm participado nas múltiplas Assembleias Magnas e manifestações. Como desculpa de mau pagador, um dirigente estudantil chegou mesmo a dizer, quando perguntado sobre a escassa mobilização, que o mais importante nas manifestações era o seu simbolismo. Sendo o nível de contestação tão baixo, valeria a pena reflectir sobre a distância que vai do discurso dos dirigentes estudantis às preocupações reais dos alunos. Mas vou deixar para outra vez o problema da democracia entre os estudantes.


Queixas
Falemos antes das queixas, da sua razão de ser e de não ser. As motivações invocadas para o descontentamento estudantil são essencialmente quatro: qualidade; acção social; peso dos estudantes nos órgãos de gestão; propinas/financiamento.
Temo que apenas a última questão tenha tido projecção nos últimos tempos, graças aos renovados gritos de "não pagamos". Se juntarmos o regresso do velho slogan a formas de contestação ilegais e pouco credíveis (como invasões de Senado e outras manobras tais), temos tudo o que é preciso para fechar os ouvidos da opinião pública e da maioria dos estudantes. Não foi por acaso que, na opinião pública e entre os próprios estudantes, se deixou de reconhecer credibilidade às manifestações, ouvindo-se até aquele discurso demagógico de que "os estudantes só querem borga".
Sobre as questões do financiamento, creio que os benefícios trazidos por qualquer curso superior justificam uma contribuição mais do que simbólica por parte de quem tem o privilégio de o frequentar. E é claro que isso traz a exigência de um sistema de bolsas eficiente, onde os que verdadeiramente necessitam sejam apoiados. Infelizmente, no nosso país, saber-se o verdadeiro rendimento de alguém é um quebra-cabeças (no caso dos rendimentos por conta própria, um juramento de honra é a solução adoptada). Temos muito a aprender com o norte da Europa, onde não são os contribuintes que apresentam declarações de IRS – é o fisco que lhes envia a sua informação, que eles apenas têm que validar ou corrigir.
Os problemas de exclusão são bem mais visíveis e dramáticos no abandono escolar e insucesso ao longo dos ensinos Básico e Secundário (em 2001 aproximadamente 1/4 da população residente no Continente português dos 18 aos 24 anos não havia concluído o 3º ciclo nem se encontrava a frequentar a escola). Os filhos dos mais pobres dificilmente chegam ao 12º ano.


Qualidade
A reivindicação de melhor qualidade é acertada. Porém, dizer que precisamos genericamente de mais qualidade não traz grande novidade à discussão. A qualidade exige avaliação e avaliação com consequências. Para alunos, e para docentes. Nesta óptica, um sistema equilibrado de penalização das reprovações sucessivas (e já nem falo na inexistência de precedências em algumas faculdades), bem como um sistema consequente de avaliação dos docentes pelos alunos são imperativos. Mas têm subjacente um princípio essencial que não me parece claro entre alunos e professores: a universidade tem que estar orientada ao sucesso. Os índices de assiduidade bem como os de reprovações mostram-nos que andamos distantes desta meta. Creio que essa distância tem causas mais complexas do que a indisposição dos alunos para estudar ou a dos docentes para ensinar. Aponto apenas quatro, de que falarei de seguida: a falta de ofertas credíveis de formação mais profissionalizantes; a entrada directa dos estudantes do Secundário no E.S.; os problemas no ensino secundário; o modelo pedagógico no E.S..
1. Quanto à questão das ofertas de formação, não tenho dúvidas em afirmar que temos poucos percursos de formação credíveis que não passem por um curso superior. Por outro lado, para muitos alunos, o curso superior é considerado demasiado teórico e académico. A solução não é transformar as universidades em politécnicos, passando estas a fazer “formação profissional”. Essa é uma competência dos politécnicos e escolas profissionais, que em vez de quererem ser mini-universidades (as solicitações para que possam passar a conferir o grau de doutor são perfeitamente aberrantes) deveriam estar mais apostados numa formação sólida com ligação ao mundo empresarial. Já nas universidades, creio que o processo de Bolonha poderá introduzir mudanças positivas. A divisão em dois ciclos de formação, o primeiro de banda larga, o segundo de especialização, parece-me vantajosa. Um ciclo exigente de três/quatro anos em que seja dada uma formação de base sólida parece-me suficiente para os objectivos de emprego da maioria dos estudantes. As competências específicas têm que ser dadas pelos empregadores, que não podem estar à espera que a universidade forme as pessoas para a sua empresazinha. Aliás, as boas empresas (que escasseiam no nosso país) fazem formação aos seus novos quadros há muito tempo. Quem quiser aprofundar a sua formação e especializar-se pode sempre voltar à universidade mais tarde, ou fazer esse ciclo logo após o primeiro. Ressalvo que me parece completamente inaceitável que o estado se desresponsabilize do financiamento do segundo ciclo. Investir em conhecimento de topo é o melhor que o país pode fazer se não quiser passar a ser apenas a instância de férias da Europa (às vezes parece que quer mesmo...).
2. Defendo que, antes de ingressar num curso de nível superior, os estudantes devem abrir horizontes. Sou um adepto fervoroso do sistema inglês, onde ninguém entra directamente para a universidade. Um ano de trabalho, de serviço cívico, de empenhamento em ONG's, de desporto, de contacto com o mundo do trabalho, que permita sair do mundo escolar, é o melhor que se pode fazer a alguém que vai escolher o seu percurso profissional. Evitavam-se os milhares de desistentes dos primeiros anos de faculdade e as respectivas frustrações.
3. Quanto à situação do Ensino Secundário, basta dizer que temos tido tantas reformas quantos ministros da educação. Por isso justifica-se a desconfiança dos docentes do Ensino Superior em relação ao Secundário, apesar de muitas vezes ela servir para esconder o puro e simples desconhecimento dos respectivos programas. A sofreguidão reformista tem sido dos factores mais desgastantes para professores e alunos do Básico e Secundário. Falar-se da autonomia das escolas básicas e secundárias é uma verdadeira miragem – elas funcionam dependentes da burocracia kafkiana da máquina do Ministério de Educação, que pensa que basta aprovar mais uma reforma para melhorar o sistema. Não é sequer dado tempo às escolas para adoptarem um modelo e já se lhes está a pedir para implementarem outra reforma. Conheço vários professores, que tenho como excelentes, que se queixam da total falta de respeito pelo seu trabalho com esta sucessão de alterações cujos efeitos não são sequer avaliados.
4. Sobre o modelo pedagógico utilizado no Ensino Superior, de novo acho que o Processo de Bolonha pode trazer alterações positivas. Por vias travessas – o corte de custos – propõe-se uma medida positiva: a redução dos tempos lectivos, de acordo com o modelo seguido noutros países (nomeadamente no E.U.A.), sendo reduzido o tempo de aulas, aumentando a componente laboratorial e de pesquisa e a exigência de trabalho para os alunos. As aulas teóricas (“lectures”) não deviam servir para o professor esmiuçar toda a matéria, mas para apresentar as linhas essenciais que permitissem o estudo dos alunos. Da mesma maneira, as aulas práticas não deviam servir para os alunos copiarem a resolução dos exercícios feita pelo professor, como aconteceu na maior parte das minhas disciplinas. Referir ainda iniciativas como sistemas de tutoria e de formação pedagógica dos professores como bons exemplos que têm surgido nalgumas universidades.

Onde fica a mudança social?
A questão que me preocupa mais na reflexão sobre o Ensino Superior é outra, que não está desligada destas, mas tem estado, surpreendentemente ou não, distante das discussões públicas e dos gritos dos manifestantes. Saber se as nossas universidades e institutos formam cidadãos com consciência cívica, social e política é, para mim, uma preocupação bem mais pertinente. Não se trata de fazer na universidade o que deveria ter sido feito durante a escolaridade obrigatória (preparar as pessoas para uma vida de cidadania). Trata-se sim de transmitir essa noção mais vasta de que a realidade é transformável. De que as mudanças sociais e estruturais se realizam com o esforço e colaboração de todos. De que o saber e competências adquiridas são ferramentas que temos o privilégio de possuir e o dever de utilizar em proveito de todos. Vejo pouca gente convicta de que o seu curso lhe servirá para mais do que obter um emprego. Defendo o sentido social do estudo, que não é mais que a aplicação prática da vontade de colaborar para uma melhoria das condições de vida de toda a sociedade. Num tempo em que o nosso mundo é atravessado por tantas preocupações, em que tantas mudanças são necessárias, o E.S. teria todas as condições para ser um motor dessas mudanças através de propostas inovadoras e de uma formação exigente dos seus alunos, não só cientificamente mas também incutindo espírito crítico, pedindo aos alunos criatividade e reflexão sobre os problemas, mais do que repetição das soluções do passado.


Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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A propósito de um mail

Na Terça-feira passada os editores da Terra da Alegria fizeram-me o forward dum mail dum leitor, que se exprimiu a sua desilusão por ter visitado o blogue em vão, à espera da nova edição da Segunda-feira, que não chegou a existir.
A este leitor em especial e a todos os outros quero apresentar as minhas desculpas. É verdade que este mail me fez sentir bastante mal e bem ao mesmo tempo. Mal, por saber que desfraudei as suas expectativas, e bem, por verificar que essas expectativas existem! Antes de ser convidado para contribuir para a este blogue, nunca me passou pela cabeça que alguém se interessava pelas minhas opiniões religiosas, muito pessoais e nada ortodoxas. Por isso sensibilizou-me especialmente o facto de o autor do mail ter sido um padre católico! Ora ele não reclamou a falta da edição de quinta-feira (essa também não faltou), mas a falta da edição da Segunda-feira, aquela onde escrevem não só católicos, mas também crentes de outras religiôes e pessoas como eu, que não sabem bem, como autodenominar-se.
Os iniciadores da Terra da Alegria (os que escrevem nas Quarta-feiras) entenderam transformá-la num espaço ecuménico. Não é aqui o lugar apropriado para que eu, que tenho o privilégio de ser convidado a escrever nele, me estender em elogios a este projecto, mas posso dizer que não conheço um forum da troca de ideias e experiências religiosas tão diversas, e, o que aprecio especialmente, também de dúvidas e dificuldades.
Gostava de dar ao Sr. Padre e aos outros leitores desiludidos da semana passada uma justificação:
Quem aqui escreve – ou melhor, só falando por mim: Eu, que aqui escrevo, não sigo a nenhuma agenda ou projecto editorial. Cada semana, consoante a minha inspiração e o tempo disponível, procuro escrever um contributo para a TdA. Nem todas as semanas consigo – ultimamente mesmo raras vezes -, porque uma coisa está para mim fora da questão, que é encher o chouriço. Isso seria o que a Terra da Alegria e os seus leitores menos merecem. (Aqui estou em vantagem em relaão ao padre, que não pode alegar falta de inspiração para cancelar a homília...)

Mas também acharia muito triste, se a edição da Segunda-feira desaparecesse, por falta de contributos, e por isso espero que os editores da Terra da Alegria não me levam mal se lembro o que eles escreveram, quando inauguraram este espaço ecuménico: Este está aberto não só para aqueles que até hoje nele escreveram.


Lutz [QUASE EM PORTUGUÊS]

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O Verbo de Deus

De acordo com as Escrituras Bahá'ís, existem três níveis de realidade: o mundo de Deus, o mundo do "Reino"[1] ou do "Mandamento de Deus"[2] e o mundo da criação. Este conceito está espelhado num símbolo bahá’í onde três linhas horizontais representam cada um desses níveis de realidade e uma linha vertical representa o contacto entre os três.
O segundo nível de realidade é também referido como "Verbo de Deus". A expressão Verbo de Deus é frequentemente entendida como sinónimo de "Palavra de Deus" ou "Sagradas Escrituras". Alguns autores usam esta expressão para descrever o poder criativo de Deus ou algum outro aspecto místico da Revelação Divina. O Verbo de Deus actua como um elo de ligação, ou intermediário, entre Deus e a criação.
Segundo Bahá'u'lláh, o Verbo é uma entidade maior do que qualquer ideia que as pessoas possam ter a seu respeito, e está "santificado de qualquer propriedade ou substância"[3] . O Verbo sempre existiu e sempre existirá. É a primeira emanação de Deus. Através do Verbo todas as outras coisas foram criadas.

Este conceito não é totalmente novo; o evangelho de S. João declara nos primeiros versículos que a primeira coisa que emanou de Deus foi o Seu Verbo. No Islão afirma-se que Deus criou o universo através de uma única palavra - "". Bahá'u'lláh também refere isto nas Suas Epístolas[4], e afirma directamente que o Verbo de Deus é a "Causa de toda a criação"[5]. O Verbo possui uma natureza e um poder que está para lá da nossa compreensão.
Apesar do Verbo, tal como o Próprio Deus, ser incognoscível para a humanidade, as Sagradas Escrituras oferecem-nos alguma ajuda para o compreendermos. 'Abdu'l-Bahá descreve a natureza do Verbo comparando-o aos raios do sol[6]. Deus é como o sol; enquanto o sol existir, também existirão os raios de sol. No entanto, a existência dos raios depende apenas do sol. Tal como o sol emana raios sem se dividir, Deus emana o Verbo sem partilhar a Sua essência. Quando os raios brilham sobre um espelho perfeito (o Manifestante), as qualidades do sol aparecem.
As Escrituras Bahá’ís também comparam o Verbo de Deus com os Manifestantes de Deus[7]. O Verbo é também identificado com a posição é comum a todos os Manifestantes. 'Abdu'l-Bahá explica que "a terceira condição [do Manifestante]... é o Verbo de Deus, a Graça Eterna, o Espírito Santo... A realidade da condição de Profeta... é o Verbo de Deus e o estado perfeito e Manifestante..."[8] Os Profetas fundadores das grandes religiões mundiais – como Moisés, Jesus, Maomé, Bahá'u'lláh e outros – são espelhos que reflectem perfeitamente a luz do Verbo[9].
Ciclicamente, o Verbo revela-se à humanidade; esta revelação do Verbo não é feita de forma fulgurante; pelo contrário, é gradual, é como o aparecimento do sol. "Considerai o sol", escreve Bahá'u'lláh, "como são fracos os seus raios quando aparece sobre o horizonte. Como gradualmente a sua potência e calor aumentam, à medida que se aproxima do zénite, permitindo, entretanto, que todas as coisas criadas se adaptem à crescente intensidade da sua luz"[10]. Cada um dos Mensageiros de Deus traz a "luz da Revelação Divina aos homens em proporção directa à sua capacidade espiritual"[11]; a influência dos Seus ensinamentos vai-se sentido de forma gradual; esses ensinamentos, registados nas Sagradas Escrituras, influenciam os destinos da humanidade e cujos ensinamentos servem de base ao surgimento de novas civilizações e culturas.

O gradual despontar da luz também se aplica a cada Revelação. Bahá'u'lláh revelou as Suas leis e ensinamentos durante várias décadas. Ao longo do tempo, estas leis têm vindo a ser aplicadas pelos bahá'ís e os Seus ensinamentos divulgados por todo o mundo. Para os bahá'ís o poder do Verbo de Deus, conforme revelado por Bahá'u'lláh, está a mudar gradualmente a sociedade. Essa mudança continuará a sentir-se até que este planeta seja um só país e a humanidade os seus cidadãos. Neste momento temos ainda um longo caminho à nossa frente para atingir esse objectivo; mas acredito firmemente que chegaremos lá.
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NOTAS
[1] - 'Abdul-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas (Esplendor da Verdade), cap. 82, pag. 237
[2] - Epístola da Sabedoria, in Epístolas de Bahá'u'lláh, pag. 157
[3] - Epístola da Sabedoria in Epístolas de Bahá'u'lláh, pag. 157
[4] - Oração Obrigatória Longa; Epístola da Visitação.
[5] - Epístola da Sabedoria in Epístolas de Bahá'u'lláh, pag. 157
[6] - Respostas a Algumas Perguntas (O Esplendor da Verdade), cap. 53, pag. 172-173
[7] - Um Manifestante de Deus é um Mensageiro de Deus através de Quem se manifestam as perfeições e atributos de Deus. Exemplos: Abraão, Moisés, Zoroastro, Buda, Jesus, Maomé, o Báb e Bahá'u'lláh.
[8] - 'Abdu'-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas (O Esplendor da Verdade), cap. 38, pag. 134
[9] - Para um estudo detalhado da relação entre o Verbo e o Manifestantes ver The Concept of Manifestation in the Bahá'í Writings, de Juan Ricardo Cole, publicado pela Association for Bahá'í Studies.
[10] - Sel. Escritos de Bahá'u'lláh, XXXVIII, pag. 63
[11] - Sel. Escritos de Bahá'u'lláh, XXXVIII, pag. 63

Marco Oliveira [
POVO DE BAHÁ]

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quarta-feira, novembro 24

 

Eu te saúdo, Maria

Maria, tu podes: és mãe de Deus!
Maria, tu queres: és nossa mãe!
(Cantilena dos peregrinos ao Sameiro)

Saúdo-te, Maria, mas nunca soube muito bem o que pensar de ti. Não sei se foste concebida sem pecado. Não sei se o teu corpo ascendeu aos céus, tal como o do Teu Filho. Não sei se permaneceste imaculada ou se deste filhos naturais ao bom José. Não sei qual o papel que desempenhas hoje no Céu, junto do Deus Trino. Não sei se apareces de quando em quando a esta gente aflita que gosta de se sentir tua filha. Não sei se intercedes ainda por nós.
Mas sei, isso sim, que sendo tu como nós, Deus escolheu-te para encarnar no teu seio, para de ti nascer, viver e morrer entre nós e por nós. Como nós todos, tu conténs em ti a imagem e semelhança de Deus, com que Ele nos criou. Mas tu contiveste também a substância Dele. Tu deste-lhe também um pouco da tua própria imagem e semelhança. E se Ele ofereceu a vida por nós todos, a ti Ele ofereceu incomparavelmente mais: como teu Filho, Ele deixou-Se conhecer por ti, inteiramente, como toda a mãe conhece o seu filho. Por ti e unicamente a ti, ele prescindiu da Sua incognoscibilidade. E só tu o compreendeste sempre, inteiramente, durante os trinta anos do vosso silêncio, durante os três anos da Sua revelação ao Mundo, durante os três dias da Sua Páscoa.
E sei que foi de ti que João Evangelista, o discípulo por Ele amado, aquele que se fez teu filho pelo resto dos teus dias, teve o conhecimento verdadeiro do teu filho Jesus, aquele conhecimento que torna tão diferente e tão único o seu Evangelho. Ora foi este mesmo João, talvez olhando para ti, que nos disse a nós outros que «não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é». A ti manifestou-se, em tua vida tu viste-O tal qual Ele é, assim recuperaste tu a tua semelhança com Ele. Tu tornaste-te Um com Ele e Ele contigo. Ainda em tua vida, tu já estavas Nele e Ele em ti.

Por isso, muitos que Nele acreditaram, quiseram acreditar que tu sempre estiveste em Deus, isenta de pecado como Deus é isento de pecado. E sem morte corporal pois, em tua vida, tu já tinhas chegado a Deus, como nunca tinha acontecido nem voltou a acontecer. E sendo tu uma de nós, quiseram também acreditar que estando tu em Deus, tornaste-o mais próximo de nós que andamos por aqui. E como tal, para ti viraram a sua Fé, aquela Fé que não é apenas acreditar e compreender mas também entregar assim a nossa esperança.
E também por isso, Maria, eu que não costumo pedir-te nada, eu que gosto de ti mais do que te adoro, eu compreendo bem todos aqueles que invocam a tua intercessão, aqueles que sabem da tua imaculada concepção, aqueles louvam a tua imaculada condição, aqueles que te chamam Raínha, aqueles que se colocam sob a tua protecção, aqueles que suspiram por um sinal teu. É precisamente pensando neles e em ti, que eu às vezes me pergunto: o que é afinal a teologia ao pé da Fé?

Tu que me viste no Sameiro, pasmando para aquela gente simples que entoava ladaínhas absurdas em teu louvor, não deixaste contudo que aquele detestável e costumeiro desprezo me invadisse o coração. Pois pensando em ti e naquilo que tu fostes, senti que o Deus de quem aqueles meus irmãos na Fé dizem tu seres Mãe, esse Deus em que acredito certamente se comprazia neles.
Por isso, eu te saúdo, Maria, pois estás em Deus e és verdadeiramente Mãe.

José [
GUIA DOS PERPLEXOS]

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Ratos e homens

No quase em português, num post intitulado "Tabú e preconceito", diz o Lutz: "incomoda-me o tabú que existe em relação a toda a atribuição de características genéricas em relação aos judeus em especial e para qualquer etnia em geral".
A explicação para esta perturbante declaração é simples. Segundo o Lutz "só um tabú não é uma solução. O tabú suprime o problema, por algum tempo, mas não o resolve. Um tabú não convence quem devia ser convencido. Como crente na razão não acredito que se pode proibir pensar e discutir livremente questões como esta". Como ele diz: "É ilegítimo colocar esta pergunta? É legítimo chegar a uma resposta para essa pergunta, seja qual for?"
Gostaria de sublinhar que se existe pessoa na blogosfera de cuja convicção na profunda dignidade humana e consequentes sentimentos anti-racistas não duvido é precisamente do Lutz. É aliás óbvio nesse excelente post o seu profundo sentimento anti-racista. Mas julgo que algumas das dúvidas do Lutz resultam precisamente dele se limitar ao que designa como "crença na razão".

O tabú é a generalização. E não tenho dúvidas que deve ser exactamente como um tabú que deve ser tratada a resposta a essa questão que traduza uma abordagem racista. É legítimo colocar a pergunta mas é moralmente ilegítimo dar determinadas respostas.
Porque a razão aqui não é suficiente.
Um tabú é uma barreira moral. O facto de ser uma barreira moral não deve impedir a sua discussão; bem pelo contrário (penso aliás que a parte final do post do Lutz visa, pelo seu carácter algo provocatório, provocar precisamente esta discussão bastante útil).
Mas a resposta a dar não se pode basear apenas na razão.
Porque penso que a generalização é um fenómeno natural cuja crítica fundamental é de natureza moral.
Embora seja óbvio para (quase) toda a gente que encontramos pessoas boas e pessoas más em todos os grupos sociais ou humanos, independentemente dos critérios pelos quais estes grupos sejam classificados: pretos, brancos, ciganos, árabes, nórdicos, heterossexuais, homossexuais, cristãos, muçulmanos, ateus, professores, sapateiros, etc. etc. aparecem sempre fenómenos de generalização que ignoram esta realidade. Qual a razão de ser deste comportamento?

Julgo que foi B. F. Skinner que fez uma experiência com uns bichos (já não me lembro se eram pombos ou ratos; julgo que eram ratos) em que, se se associasse um círculo preto a um choque eléctrico e o rato agredisse o círculo preto o choque eléctrico cessava. Ao fim de algum tempo quando aparecesse esse círculo preto, o rato agredia o círculo preto ainda antes de receber o choque eléctrico. Se surgissem outras formas (quadrados ou triângulos, p. ex.) ou cores (branco, vermelho ou verde p.ex.) o rato responderia a estas formas proporcionalmente ao número e intensidade dos choques eléctricos do seguinte modo: começaria a agredir também primeiro as formas e cores mais semelhantes (hexágonos ou cinzento, p. ex.) e, depois, proporcionalmente ao número e intensidade dos choques eléctricos iria agredir formas e cores que tivessem uma semelhança por mais vaga que fosse com o círculo preto (a partir de um certo nível de choques eléctricos o animal agredia tudo o que aparecesse...). O objectivo das experiências era demonstrar que os animais possuem capacidade de generalização e que esta capacidade não é inata mas um comportamento de aprendizagem. Actualmente considera-se que, possivelmente, também existem genes que determinam esta capacidade de aprendizagem e que ela não é só determinada (como alguns dizem que pensava Skinner) por eventos do meio ambiente.

Isto foi apenas um resumo muito simplista dessas experiências para esclarecer melhor o que vou dizer a seguir.
Penso que a generalização é um comportamento animal de defesa. Perante um perigo ou uma agressão tendemos a generalizar certas características do perigo ou do agressor para impedirmos segundo uma lógica de probabilidades a possibilidade de ocorrência desse perigo ou dessa agressão. O grau de generalização dependerá do grau de emotividade associado a esse perigo ou a esse agressor. Essa emotividade pode ser o resultado ou de características intelectuais baixas do agredido (que é incapaz de distinguir detalhes específicos do agressor) ou de um elevado nível da agressão sofrida. A generalização é uma espécie de cegueira animal.
Contudo, em termos de lógica probabilistica, estes comportamentos fazem todo o sentido (julgo que foi Lenin que disse que valia pena fuzilar cem inocentes se também se fuzilasse um reaccionário). De facto, se o Outro, a outra pessoa individual, não tiver um valor intrínseco, se soubermos que em cem mil pessoas está a pessoa que nos quer matar e não temos maneira de a descobrir (ou mesmo que a tivéssemos) é muito mais simples e muito mais eficaz executar as cem mil. Porque não haveria de ser assim? Se não existir nenhuma utilidade em deixar viver as outras 99 999, e puder executá-las sem grandes problemas logísticos, qual a razão porque não as hei-de matar (o custo das balas ou de outro qualquer método de execução?) para assim ter a certeza de que o perigo desaparece?

Os comportamentos de generalização só são absolutamente condenáveis quando possuímos valores que nos dizem que a dignidade da pessoa humana é divina e individual.
Nenhuma conjuntura permite justificar a violação da dignidade humana de cada pessoa individualmente considerada. Para um cristão, se existir uma raça de homens azuis em que 99,9% têm comportamentos criminosos frequentes, não é justificável afirmar que todos os homens azuis são muito pecadores nem é justificável tratar, directa ou indirectamente, de modo discriminatório, os 0,01% de homens azuis que não são criminosos. Não é justificável moralmente dizer, nomeadamente, com aparente neutralidade, que se constata entre os homens azuis uma elevada taxa de criminalidade. Porque isto já é discriminação para os 0,01% de homens azuis que não são criminosos.
As categorizações generalistas são por vezes adequadas para efeitos de diagnóstico de generalidades.
Mas para um cristão, o que é importante não são os diagnósticos colectivos estatísticos mas as terapêuticas individuais.


Timshel [TIMSHEL]

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Este mundo assim é que faz bem à Igreja

Confesso-me: sou republicano e "laico" (e também socialista, mas para o caso aqui pouco importa). O que me leva a esta confissão é o grito do Ipiranga de alguns sectores católicos: estão-nos a assaltar a caixa de esmolas, dizem, e tocam a rebate os sinos dos templos modernos (jornais, televisões, blogues).
O cardeal Ratzinger veio,
na sexta-feira passada, dia 19, atacar o «laicismo» que se converteu numa nova ideologia «agressiva e intolerante» e lamentar a «marginalização» de Deus no Ocidente, numa entrevista ao diário italiano "La Repubblica". De onde vem este argumentário? Da recusa de Rocco Buttiglione como comissário europeu, pela maioria dos deputados do Parlamento da Europa.
O professor universitário Mário Pinto,
no Público de segunda-feira, volta a insistir em Buttiglione, para reafirmar «[o] crescendo de clara inimizade contra o cristianismo e as religiões (visível em certas potências dominantes)».
Afastemo-nos do caso em particular e situemo-nos num patamar mais lato da questão. Mas leia-se, de novo, Ratzinger: «Passámos de uma cultura cristã a um laicismo agressivo e às vezes intolerante. Apesar disso, ainda que as igrejas se esvaziem e muitas pessoas não sejam crentes, a Fé não morreu», sublinhou o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. [Questões menores, para Ratzinger, a das igrejas que se esvaziam e da cultura cristã, que não "leva" adjectivo?]

Tenho para mim que a laicidade não é negativa. Pelo contrário: só faz bem à Igreja, às igrejas e às religiões. Aliás, é "condição nossa", de crentes não eclesiásticos (chamemo-nos assim – e, por isso, preferiria usar o termo "secularização", mas já que até o senhor cardeal da Cúria assim fala...). Eu que sou leigo na Igreja quero meter-me a sério nas coisas públicas, mas sem a necessidade de publicitar a minha condição de católico. Não preciso. Do que me devo arrepender é, na coisa pública, actuar como se não fosse católico: achar que a guerra é coisa normal, que o desemprego em crescendo é inevitável, ter como certa a existência de pobres ou preguiçosos que gostam de viver do rendimento mínimo. [É interessante – e o
Zé Filipe, já uma vez o apontou – como Mário Pinto, por exemplo, alinha por um discurso neo-liberal que desconsidera as mulheres e homens que não entram na engrenagem social e económico definida pelo "altar da produtividade-rentabilidade". Adiante.]
O problema deve ser outro. O de influência ou poder – e uma e outro são coisas que a Igreja Católica não deve desejar. Não me incomodam as posições de Buttiglione sobre a homossexualidade. Não as entendo, para quem se diz católico. O que me incomoda é, perante um caso de incompetência política (dito simplisticamente: o homem pôs-se a jeito) vir gritar-se que a Igreja está a ser atacada. Eu sinto-me atacado por algumas coisas que muitos da Igreja dizem todos os dias e não vejo onde está a (minha?) religiosidade/fé (laicidade) ser posta em causa.
Na entrevista citada, Ratzinger mostrou-se convicto de que o cristianismo será determinante no futuro e «capaz de fornecer uma força moral» a uma nova Europa multicultural. E, sublinhe-se, considerou igualmente «um desafio positivo» para os cristãos «a firme fé dos muçulmanos em Deus». Há dúvidas sobre o aqui se diz? O que aqui se deseja é o regresso a uma espécie de teocracia? A palavra ao cardeal: «Deus está muito marginalizado. Na vida política parece quase indecente falar de Deus, como se fosse um ataque à liberdade de quem não crê», assinalou, concluindo que «uma sociedade da qual Deus está totalmente ausente auto-destrói-se» dando como exemplos «os grandes regimes totalitários do século passado». Não é indecente falar de Deus na vida política. É indecente invocar a Nossa Senhora de Fátima para nos safar da maré negra do "Prestige" ou dizer god bless us, no fim de um discurso laudatório da guerra, como faz Bush.

Mas à esquerda também há quem se ponha a jeito para as opiniões de "máriospintos" e "ratzingers". É uso e costume da esquerda se insurgir contra o discurso da Igreja (assim se identificando a Igreja de Roma, o Vaticano) na moral sexual. Que devia ser outro o discurso do Papa, concordo. Mas a seguir parece querer remeter-se as igrejas para o interior dos seus templos. Este sinal também é dado, sobretudo em espaços à direita, quando as questões são político-sociais (como já apontei no caso de Mário Pinto).
A laicidade do Estado não se joga na ausência do Estado de iniciativas que partam da Igreja Católica - ou de outras igrejas e comunidades. A laicidade do Estado joga-se na pluralidade de todas as religiões no espaço público (podemos discutir se é isso que acontece na prática, mas isso é outro ponto). Não me incomoda, como na iniciativa recente da Bíblia Manuscrita, ter a "participação" de alunos e professores exteriores à disciplina de religião e moral ou de figuras do Estado "laico/secular". Ou as religiões apenas são toleráveis metidas na sacristia ou enfiadas em sinagogas clandestinas?
Repito-me: a condição da laicidade também é a minha. Defendo a laicidade do Estado, mas esta não se deve basear no totalitarismo da "ausência" de sinais religiosos, como na Albânia de Enver Hoxa ou, salvas as devidas proporções, na França de Chirac, que se meteu numa alhada com a "lei do véu"...Por fim, relembro um
texto do Movimento Católico de Estudantes, redigido já em 1993: «O cristão não é "a alternativa a este mundo corrompido", a única possibilidade de salvação. Evangelizar a partir da cultura, discernir como viver a fé no diálogo reconhecedor da autonomia e da pluralidade da Cidade e das especificidades culturais, exige que os cristãos não se posicionem paralelos a nada, mas numa cidadania feita com outros [...]». Nos tempos que correm este é que o desafio. Não é eleger Buttiglione…

Miguel Marujo [
CIBERTÚLIA]

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Colateral

Como sou herdeiro da tradição católica, cheia de formalismos, rituais, ademanes, simbolismos cujo significado se perde no tempo e que a fraca razão contemporânea tem dificuldade em atingir, não tenho o à-vontade com o divino que têm, por exemplo, os nossos irmãos protestantes. Invejo a intimidade que eles têm com Deus. Parece que falam directamente com Ele e - suponho eu - Deus deve responder-lhes.

A minha relação com Deus passa sempre ao lado d'Ele. É colateral. Concretiza-se sempre através duma externalidade: pela Igreja (a Católica, Apostólica, Romana), com a mediação da comunidade (a paróquia, por exemplo), na pessoa do padre; pela intercessão dos santos; pela leitura dos textos sagrados (com a plena consciência que Jesus apenas escreveu um rabisco fugaz no chão e que nenhum versículo da Bíblia mereceu o imprimatur do Pai); pelo Magistério. Por vezes tenho, como qualquer ateu, pequenas epifanias da natureza. Como qualquer ateu. Noutras ocasiões parece-me que chego mais perto de Deus (ou deixo que Ele se aproxime de mim) através de coisas ainda mais pequenas, como um filme, um romance, uma música. Sei também que não foi Deus quem realizou Por Um Fio (foi o Scorsese), mas não o trocava pelo livro de Judite.
Claro, há a oração. Mas mesmo nos momentos mais intensos de oração, individual ou comunitária, nunca senti que Deus estava pessoalmente perto de mim, a escutar-me. Talvez esteja, mas nunca houve qualquer feed-back da parte d'Ele. Admito, no entanto, que o conteúdo das minhas orações não O comova particularmente.
E também não sou muito bom a ler sinais. Nunca percebi o que Ele me quer dizer. Na verdade, acho que não me quer dizer nada de especial. Caso contrário dizia.

A mim Deus não liga nenhuma importância. Isto é, coloca-me no meu devido lugar, reduzindo-me à minha humilde significância. Assim, como tenho dificuldades em comunicar com Ele, em O conhecer (e, portanto, de O amar), fico-me pela tentativa de amar os meus irmãos. E nem disso sou capaz.

Carlos Cunha [
PARTÍCULAS ELEMENTARES]

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Passar a vontade pela cruz

No domingo passado em que se celebrou a festa de Cristo-Rei tive a sorte de assistir a uma homília ministrada por um padre jovem, cujo nome desconheço, que abordou com particular felicidade a questão: Cristo-Rei.
Depois de denunciar os abusos que uma falsa concepção do reino promoveu ao longo da história, deu conta da longa história que pensou o Messias como Rei. Somou sinais. Como não podia deixar de ser, começou pelo reinado auspicioso de David, percorreu brevemente alguns profetas e acabou por mostrar como a questão do reinado estava presente no momento histórico de Jesus, nos judeus que o ouviram, nos Apóstolos que O acompanhavam.
Se os abusos históricos foram motivados por uma concepção do reinado em termos de poder e de poder não posto ao serviço, mostrou como esse mesmo poder mal usado se pode ler no tempo de Jesus, nos judeus, e nos Apóstolos.
Os Evangelhos quando começam a contar a história de Jesus, começam por acentuar os sinais que assinalam a sua realeza. Por isso, Belém e a sua árvore genealógica. Depois, analisou com mais cuidado a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém, a exclamação dos judeus, “Hossana o que vem em nome de David”, David, portanto, o que dizia que os judeus continuavam a ver em Jesus um novo David, um novo Rei, como o antigo tinha sido. Antes, a pergunta da mãe dos dois irmãos apóstolos, em que lado do trono os colocarás?, diz que os Apóstolos e seus familiares continuavam igualmente a ver em Jesus um David como David tinha sido.
Contudo, como é sabido uns e outros incorriam em engano. Não era ainda o tempo de impor o Reino sobre a terra. Era apenas altura de dar conta da natureza da semente que germina esse Reino. E ela é – dito de modo abrupto – a cruz.


Carregai a vossa a cruz! – Incentivam-nos. E pensamos – bem – que isso tem a ver com trabalho. «Ai, vizinha, nem sabe a cruz que carrego!», podia dizer – ou disse – alguma das personagens da Aldeia da Roupa Branca ou alguma figura trágico-cómica que tenha cirandado em torno das desventuras cinematográficas de Vasco Santana.
Mas se isso é verdade, se pegar na cruz é pegar nos nossos trabalhos, é também verdade que é pegar na nossa vontade. É passar a nossa vontade pela cruz.
O que é que isto quer dizer? – Nos seus reais contornos, nenhum de nós sabe. Há uma zona de mistério na conformação da nossa vontade à cruz. Mas ainda assim talvez possamos dizer que isso significa abdicar de querermos reinar no mundo. Abdicar de tentar submeter os outros à nossa vontade, não porque ela é má, porque por aí as razões seriam evidentes, mas porque mesmo quando boa, se realizada contra a vontade dos outros isso destruiria um dos maiores dons que Deus nos deu: a liberdade.
Foi isso que ganhamos com a não intervenção dos exércitos celestes. A certeza da fidelidade de Deus: Deus deu-nos a liberdade e ela foi mantida mesmo quando nós levamos o Seu filho à Cruz e à Crucificação… A terra podia ter vivido a partir daí debaixo do Seu reino. Mas esse Reino de Adão até hoje, sempre foi e é um reino de liberdade. Passar a nossa vontade pela cruz? – Viver em paz com a liberdade dos outros. Mesmo quando. Mesmo quando…


Fernando Macedo [A BORDO]

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quarta-feira, novembro 17

 

O fio da navalha

Quando há uns tempos passei pelo país basco, recordei-me de ter lido algures que a igreja basca foi (é?) um dos maiores suportes do nacionalismo basco e pensei que tal ideia era intrinsecamente absurda. Como é possível que uma igreja, instituição internacionalista por natureza, que tem como princípio fundamental a ideia de que todos os homens são irmãos em Cristo, sem diferenças entre eles, possa estimular a ideia de nação, conceito este que implica o criar ou acentuar diferenças entre os homens, criando fronteiras que potencialmente só servem para estimular a violência? Como é possível a uma igreja ser um suporte do nacionalismo?

Mas este raciocínio deparava com um outro. A igreja luta pela dignidade da pessoa humana. Será legítimo que se negue a certas pessoas o direito à sua língua, à sua cultura? Imaginemos que Portugal era ocupado por uma potência estrangeira que impedisse os portugueses de falar português e os nossos filhos de aprender português, que "limpasse" todos os vestígios da cultura portuguesa. Se a Igreja não se opusesse a tais medidas estaria objectivamente a ajudar a esmagar a dignidade humana dos portugueses.

Já aqui falei sobre a importância do princípio da proporcionalidade. Por outras palavras, a importância do equilíbrio, do bom-senso, do consenso, enquanto instrumentos fundamentais para nos orientarmos em contextos de valores morais cuja aplicação prática implica por vezes uma contradição flagrante entre si.

Em tempos, um católico acusou-me de, com as propostas que em tempos escrevi sobre a não punição de certas situações de aborto, estar a esquecer o valor sagrado da vida humana.

Existem situações da vida real em que é impossível não pecar. O célebre exemplo já clássico do agulheiro que vê um comboio aproximar-se a toda a velocidade na direcção de um comboio cheio de gente e que tem uma outra linha alternativa para onde dirigir o comboio: só que nesta linha está um comboio com uma pessoa. Se ele mudar a agulha para esta via está a cometer um pecado. Mas está a cometer outro se nada fizer. É uma situação de fronteira em que, necessariamente, se peca sempre. Como se, pelo simples facto de conhecer uma realidade, uma decisão ou a possibilidade de uma decisão implicasse sempre a existência do pecado.

É verdade que este é um exemplo quase caricatural. Mas a vida está cheia de outras situações de conflitos de valores.

Normalmente, as decisões problemáticas apenas existem nestas situações de fronteira. É neste tipo de situações que se exige a um cristão uma análise atenta e exaustiva do máximo de elementos que permitam uma decisão em consciência. Decisão essa que deverá sempre ter como critérios decisivos a proporcionalidade, o equilíbrio, o bom-senso e o consenso, num quadro de valores morais sólidos.

Li ontem no
infirmus umas palavras que a Marvi ouviu na sexta-feira passada ao Santo Padre:

"La sofferenza, l'anzianitá, lo stato di incoscienza, l'imminenza della morte non diminuiscono l'intrinseca dignità della persona, creata ad immagine di Dio".
[...]
"L'eventuale decisione di non intraprendere o di interrompere una terapia sarà ritenute eticamente corretta quando questa risulti inefficace o chiaramente sproporzionata ai fini del sostegno alla vita o del recupero della salute. Il rifiuto dell'accanimento terapeutico, pertanto, è espressione del rispetto che in ogni istante si deve al paziente"


(não faça a tradução para português porque os meus conhecimentos de italiano, embora suficientes, como os de qualquer pessoa que saiba ler português, para compreender as palavras do Papa, não me permitem a ousadia de as traduzir)

Como dizia em tempos um antigo companheiro secreto: o mais importante é saber para onde vivemos voltados. Ou como dizia um filósofo (Radbruch, num contexto particularmente difícil – sobre o nazismo) na última frase do seguinte excerto:

"Quinto minuto

Há também princípios fundamentais de direito que são mais fortes do que todo e qualquer preceito jurídico positivo, de tal modo que toda a lei que os contrarie não poderá deixar de ser privada de validade. Há quem lhes chame direito natural e quem lhes chame direito racional. Sem dúvida, tais princípios acham-se, no seu pormenor, envoltos em graves dúvidas. Contudo o esforço de séculos conseguiu extrair deles um núcleo seguro e fixo, que reuniu nas chamadas declarações dos direitos do homem e do cidadão, e fê-lo com um consentimento de tal modo universal que, com relação a muitos deles, só um sistemático cepticismo poderá ainda levantar quaisquer dúvidas.

Na linguagem da fé religiosa estes mesmos pensamentos acham-se expressos em duas passagens do Novo Testamento.

Está escrito numa delas (S. Paulo, Aos romanos, 3, 1) : «deveis obediência à autoridade que exerce sobre vós o poder». Mas numa outra (Actos dos Apóstolos, 5, 29) está escrito também: «deveis mais obediência a Deus do que aos homens». E não é isto aí, note-se, a expressão dum simples desejo, mas um autêntico principio jurídico em vigor. Poderia tentar-se resolver o conflito entre estas duas passagens, é certo, por meio de uma terceira, também do Evangelho, que nos diz: «dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César». Tal solução é, porém, impossível. Esta última sentença deixa-nos igualmente na dúvida sobre as fronteiras que separam os dois poderes. Mais: ela deixa afinal a decisão à voz de Deus, àquela voz que só nos fala à consciência em face de cada caso concreto."


Aquela voz que só nos fala à consciência em face de cada caso concreto.

Timóteo Shel (
TIMSHEL)

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Bona Fides

NOTA: desculpem lá mas este texto é repescado do Guia. Não é má fé, são frutos da época.

Eu fui educado como católico mas não é por isso que ainda o sou. Diria antes que é apesar disso que o sou. Aliás, a educação católica é algo que em rigor não existe. Nós católicos não somos como os muçulmanos nem temos as madrassas que eles tem. A nossa chamada educação católica não é mais do que educação geral num ambiente exteriormente católico. Obviamente, a educação religiosa não deve servir para nos impôr a Fé. Isso simplesmente não é possível. Mas o que deveria fazer era pôr-nos minimamente em contacto com o conteúdo ou contexto histórico, filosófico, sociológico e cultural da nossa Fé. E é aí que a coisa falha normalmente. Senão como explicar que, tendo eu andado na catequese até aos 14 anos (e dela saí quando, embora não assumidamente, tinha já perdido a minha primeira fé), só já depois dos 30 é que percebi a simbologia do Génesis e a relação entre Antigo e Novo Testamentos, só depois dos 30 é que li os Evangelhos na íntegra, só perto dos 40 é que, como dizia S.Tomás de Aquino, comecei a ter alguma inteligibilidade na minha Fé? Mas não é sobre a educação católica que venho hoje falar. Venho sim falar um pouco sobre a perda da Fé.
Eu conheço gente que diz que perdeu a Fé mas aquilo que verdadeiramente perdeu foi a convicção de que tinha fé pois, verdadeiramente, nunca a teve ou já a perdera há muito. Volto ao meu caso pessoal: durante anos fingi a mim próprio que tinha fé e só a recuperei algum tempo depois de ter interiorizado que, verdadeiramente, já não a tinha mais.Quero com isto dizer o seguinte: quando pensamos que estamos a perder a fé devemos primeiro pensar como é a fé que ainda temos, devemos sobretudo pensar porque a temos.
E as respostas são normalmente desanimadoras pois descobrimos muitas vezes que a nossa fé não tem uma base sólida, não tem raízes dentro de nós, é algo a que aderimos por inércia, por tradição, simplesmente porque sim. Mas, apesar disso, sentimo-la como algo que nos faz falta, algo que completa a nossa condição humana, algo que poderia dar um maior sentido às nossas vidas e por isso não a queremos perder. Ora essa altura é a ocasião por excelência para recuperar, ou melhor, para adquirir a verdadeira Fé. E para isso devemos esquecer a nossa educação católica, devemos começar tudo de novo. E por onde? Naturalmente pelas origens, pela Palavra de Deus, pelo Cristo dos Evangelhos. Se os lermos com abertura de espírito e de coração, sem ideias feitas, vamos descobrir lá coisas espantosas, belíssimas, transcendentes. Vamos descobrir lá, lendo simplesmente, que Deus não é nosso Senhor mas nosso Pai e que nos ama como Seus filhos. Vamos descobrir que: "Ele nos formou à Sua imagem e semelhança, e enviou-nos o Seu Filho Unigénito, prometendo-nos o Reino dos Céus, que dará aos que O tiverem amado. Com toda a clemência e doçura, tal como um rei envia o rei seu filho, Ele O enviou não como o Deus que Ele era, mas sim como convinha que Ele fosse para os homens, para nos salvar pela persuasão, não pela violência, porque não há violência em Deus. Ele enviou-O para nos chamar para Ele, não para nos acusar: enviou-O porque nos amou, não para nos julgar.” (da Carta a Diogneto)
E percebendo a nossa qualidade de filhos amados de Deus, discernindo em nós, na nossa natureza, aquilo que é de matéria divina e a que chamamos alma, encontramos ou reencontramos uma Fé melhor que aquela que antes tivemos, uma fé que nos engrandece mas que nos torna humildes, uma fé que nos suaviza mas que nos torna fortes, uma fé que nos chama para junto Dele mas que nos ensina a viver, uma fé que nos faz saber amar e saber sofrer, uma fé que nos enche mas não de nós próprios, uma fé que nos alimenta e nos consome, uma fé que confia mas anseia.
A Fé é de tal modo uma benção que devemos lutar, até contra nós próprios, para voltar a tê-la de novo. E como reencontrá-la? Pela simples acção e graça do Espírito Santo? Eu sou um firme crente no Espírito Santo: vejo-O como a inteligência de Deus em nós. Por isso penso que o raciocínio e a lógica são também fundamentais para se alcançar a Fé. Só que esse raciocínio não leva a lado nenhum se se desenvolver em circuito fechado. Porém, se esse raciocínio for aplicado à Verdade revelada por Cristo e fixada nas escrituras, se esse raciocínio fôr um esforço de inteligibilidade dessa Palavra e da vida à luz dela, então sim, ele pode levar à Fé. A mim levou.
Há uma bela frase de Sto.Anselmo que diz tudo: “Não busco compreender para crer, mas creio, sim, para compreender. Creio, porque se não cresse, não chegaria nunca a compreender e, meu Deus, como desejo compreender-Te!”.
A Fé que hoje eu tenho não é, certamente, inabalável. Será porventura forte mas não o suficiente para que a minha vida seja coerente com ela, para que “crendo em Cristo, eu tenha a vida em Seu nome”. E essa incoerência causa-me um mal-estar que me leva muitas vezes a duvidar de mim como crente mas que, todavia, não me faz nunca pôr em causa a Fé em si mesma. Quer isto dizer que nos momentos mais negros é de mim próprio que duvido. Nunca de Deus.

José (
GUIA DOS PERPLEXOS)

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Autoridade, um tema, vários temas.

Sem que eu perceba grande coisa de latim, dizem-me que autoridade pensada em latim tem a ver com autor, o autor que escreveu um documento – normalmente legal – e que por tê-lo escrito pode dar garantias da verdade do que nele se encontra consignado. Se pensarmos então autoridade por aqui, ela revela três coisas: um autor; um texto; uma garantia de verdade.

Com Nietzsche ou sem Nietzsche, hoje pensamos a autoridade de modo diferente. Mantemos a referência a uma fonte, a um indivíduo ou um conjunto de indivíduos, esquecemos o texto – o quadro legal, e vemos apenas a força. Pouco nos interessa a qualidade moral da fonte, do indivíduo, ou dos indivíduos: mentem e fazem a guerra; que importa? – há motivos de força maior, sejam eles quais forem, a religião ou geo-estratégia. E esquecemos que não há relação intra-individual, inter-individual, social, cósmica, que se aguente sem o laço da verdade. Mas isso parece não contar nos dias de hoje. E isso mereceria certamente outro texto.
Também pouco nos interessa o texto. Quanto de nós conhecem a constituição portuguesa ou as resoluções da ONU? – Interessa-nos sim, se a autoridade tem ou não tem força. Uma das diferenças que podem ser encontradas entre Bin Laden e Hitler é que o segundo teve força suficiente. Tivesse essa força o primeiro e teria provavelmente honras de estado.
… Mais outro tema.
De qualquer modo, se vemos a força, podemos também ver que nestes dois modos de conceber a autoridade, se contrapõe – pela sua terceira característica –, a verdade à força.
… E outro tema.
De facto, e não resisto a uma pincelada, não deixa de ser curioso que os nossos maiores libertadores, nos tenham deixado com um conceito que dificilmente se pode opor à força. A verdade, se anda de rastos na realidade, – não só no futebol e no dizer certeiro do antigo presidente do Vitória: o que hoje é mentira, amanhã é verdade, anda também de rastos na teoria. É histórica, subjectiva, consensual.
Seja.
Mas quem assim a vê, o que contrapõe à força?
Ao cacete?
«Desculpe lá mas o senhor antes de usar a arma devia primeiro ver se de facto as coisas são assim»
«Como!?»
«Relativo, caro Watson!»
E zás que se faz tarde.

Na aprendizagem, surgia outrora, um modo específico de conceber a autoridade. A autoridade que punha em jogo um professor competente, um texto com competência, um ensino que ensinava. Por aqui se justificava a submissão do aprendiz ao mestre. O mestre mecânico era respeitado na sua autoridade porque sabia e ensinava como se mudavam os pneus. Hoje, vivemos tempos pós modernos. E por isso habitamos a nostalgia dos técnicos.
… Ah, se em vez do Santana, tivéssemos quem percebesse de economia. Ah, se os economistas fizessem previsões que o fossem. Ah.
… Outro tema.

Aqui e ali, como é óbvio e tão óbvio que os USA vão comprando massa cinzenta por esse planeta azul fora, procuram-se profissionais competentes, textos competentes e acções eficazes. Pois é do mais elementar senso comum, e nem é preciso aprender isso em nenhum dos modos new age, MT, pose meditativa e transcendental, que enquanto um número limitado e suficiente meditar, a meditação é suficiente. É isto que de modo “perverso” alimenta a esperança nas elites.
… Outro tema.

E por hoje chega. Talvez um dia voltemos ao modo específico como o cristianismo concebe a autoridade. O que também mete um autor, Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, um texto, e uma verdade: a do cuidado. Da caridade, se quiserem.

Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis como os governantes, das nações fazem sentir o seu domínio sobre elas e os magnates, a sua autoridade. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós faz-se Vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre todos, faça-se escravo de todos. Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos». (Marcos, 10:42-45)

Fernando Macedo (
A BORDO)

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segunda-feira, novembro 15

 

Das várias higienes

Lotário di Segni (que viria a ser Papa com o nome de Inocêncio III) escreveu um livro dedicado à baixeza da condição humana: “Consideremos as plantas, consideremos as árvores. Dão nascimento a flores, folhas e frutos. Mas tu, a que dás origem? A piolhos, lêndeas, vermina. As árvores e as plantas exsudam óleo, vinho, bálsamo - e tu, saliva, muco, urina, fezes. Elas difundem aromas de todas as fragrâncias; tu o mais abominável mau cheiro.”

Fugindo a uma certa abominação ao corpo que me parece ter sido herdada do helenismo, a verdade é que Lotário teria de mudar de ditame e opinião, quanto às baixeza e abjecção humanas, se entrasse numa boa biblioteca ou museu, por exemplo. O homem, além de urina, fezes, peidos e mucos vários, exsuda belas palavras, ideias, inventos, arte, tudo isso processos fundamentais ao ser homem e vertical. Por outro lado, se de dentro do homem escorrem e saem muitas coisas boas, justas e belas, não é menos verdade que saem muitas coisas cruentas, más e virulentas, e para isso bastaria a Lotário abrir um qualquer dos nossos jornais ou livros da nossa empestada História Universal, para voltar à sua primeira conclusão: Não somos nenhumas flores!
É dentro da alma que acumulamos o lixo mais nefasto, “o mais abominável mau cheiro”, um canalhismo capitoso. Os evangelhos estão cheios de referências a esse espaço interior, mais digno da nossa atenção e preocupação que aquilo que nos cobre e envolve.

A higiene tem vindo, por razões óbvias, a ganhar espaço no nosso quotidiano duma forma elementar e espontânea. As chamadas abluções foram remetidas para um canto simbólico e ritual, e de certa maneira substituídas pela elementar higiene do dia-a-dia (que Desmond Morris denuncia como exageração típica do macaco pelado das grandes cidades e, com ironia, num dos seus livros mais clássicos, afirma que o homem se lava para esconder o odor sexual e o substitui por perfumes compostos de fluidos sexuais de animais: olores mais discretos ou menos evidentes). Hoje, quando se lavam as mãos, não se lavam os pecados que elas cometeram, como simbolicamente a isso estaria vinculado tal acto e teria sido prática corrente. Não me refiro ao secular gesto de Pilatos (apesar de ser um bom exemplo de como a água não se limitava, noutros tempos, a lavar a pele e a retirar o sarro). Pegando em exemplos próximos, qualquer umas das três grandes religiões monoteístas usam rituais onde a água tem o poder de lavar, não apenas o corpo, mas os pecados e a alma.

Mas, se a higiene do nosso corpo tem uma solução evidente, já a higiene da alma reserva alguns problemas. É verdade que podemos recorrer a uma ou outra ablução como símbolo de uma lavagem interior, mas a sua eficácia é, nos dias de hoje, muito limitada e assim será cada vez mais.
O único método que conheço verdadeiramente higiénico, no que respeita à alma, é a confissão. É a única lavagem interior que me ocorre com o devido potencial purgativo, capaz de esfregar e varrer dos nossos recantos intestinos todo o resíduo pútrido e danado. Desde o simples “falar com amigos”, passando pelo psicólogo, e terminando na sacramental confissão cristã, tudo isso é purga e método higienicamente eficaz, é bica, chafariz, e banho.
Raskolnikov (do “Crime e Castigo”) é um bom exemplo do drama a que é sujeito o homem que se sente de alma suja. Sem me estender a toda a higiene da personagem de Dostoievski, a verdade é que a sua confissão é acompanhada e cumulada dum acto expiatório de redenção (mas isso seria motivo para outro artigo, portanto, ficamo-nos pela necessidade de confissão).

Desde os AAs até aos modernos consultórios de psicologia, tudo se confessa, com relativo, e maior ou menor, grau de eficácia. A verdade é que muitas vezes fica alguma coisa atrás da orelha, e até em locais mais visíveis e em acúmulo razoável. O problema da confissão fora do âmbito religioso é que todo o homem se mente a si mesmo, e quando deveria dizer que fez, que pecou, diz, em vez disso, que fez justiça. Há um certo perigo de um uso teleológico da razão, da justificação, o que pode facilmente encobrir e disfarçar a sujidade. São os perfumes e desodorizantes da alma, se me é permitida tão burlesca analogia. É o “bati-lhe, dei-lhe cabo do coiro, mas é para o bem dele, daqui a uns tempos, vai-me dar razão”, “bati-lhe porque mereceu”, “bati-lhe porque me bateram antes”, ou o mais titânico “se matamos milhares agora é para não morrerem milhões depois”. Sem alguém que separe o acto e o avalie dentro dum paradigma moral, o homem, é duma maneira geral, incapaz de avaliar a verdadeira dimensão dos seus actos e tem mesmo declive para se enobrecer e decorar a sua ignomínia com belas palavras de desculpante auto-lisonja. Além disso, a psicologia, por exemplo, é incapaz de dar um sentido ao gesto e portanto retira alguma eficácia ao remédio. Uma pessoa pode saber que fez mal, mas não encontra motivo para fazer bem, a menos que tenha o tal sentido, a direcção. A Religião é capaz de o fazer, e será uma das únicas coisas que poderá alijar o homem da queda no absurdo.

Em tempos, a confissão cristã foi pública. A violência de tal lavagem (conquanto, certamente, mais eficaz) foi substituida pela mais suave e delicada confissão auricular, mais propícia à confissão regular e frequente. Mas a verdade é que está, a cada dia, mais rara. Hoje, no Ocidente, parece-me que a confissão está cada vez mais minorizada e a higiene interior cada vez mais comprometida. No Leste, na Igreja oriental, a confissão mantém um valor catártico impressionante. Não é raro, quando assistimos a confissões, ver incontidos acessos de lágrimas.

No final, esperemos que Lotário de Conti tenha apenas razão no que se refere a mucos e outros humores, pois esperemos que o homem e a sociedade encontrem ou redescubram métodos seguros para as suas abluções interiores e dos seus corações ou arriscamo-nos a perpetuar e propagar uma fétida poluição interna.

Afonso Cruz [ALERTA AMARELO]

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O Evangelho ao serviço da Revolução

Enquanto frequentei o medonho curso de filosofia, na não menos medonha Faculdade de Letras de Lisboa, só guardo memória de protagonizar dois actos de que me orgulho. Um foi comer uma miúda num gabinete de (cof cof) estudo da biblioteca. O outro foi «comprar» (no próximo parágrafo ficará explicado o uso das aspas) Rumo a Novos Horizontes do Padre Domingos Gomes, fulano que me é tão obscuro como Deus.
Passo ao relato. Do acto católico, claro está. Certo dia, enquanto percorria os corredores sem me dignar a entrar nas jaulas de aula, encontrei um alfarrabista. Detive-me diante da banca e amargurei-me por me faltar cacau para levar metade dos livros que queria levar comigo. Recorri à minha língua afiada a navalha de sofista. Comecei a regatear o preço dos livros. Palavra puxa palavra puxa livro, e já tinha entre mãos Manhattan do Woody Allen, Teatro do Picasso e Ensaios do Montaigne. Apercebendo-se de que estava diante da persistência personificada, o alfarrabista, simulando um gesto de bonomia, ofereceu-me Rumo a Novos Horizontes, de modo a fazer-me rumar a novos horizontes que não os seus. De pronto, aceitei. Abrir as páginas a um livro desconhecido é um desafio tão empolgante como abrir as pernas a uma miúda desconhecida.


Li-o durante a semana passada. E não me arrependi, nem me vou penitenciar por o ter feito. Bom, encontra-se dividido em três partes. Na primeira são desmascarados (no sentido malsão de pôr impudicamente a nu as verdades) os rituais da Igreja, na segunda são assinaladas as discordâncias da doutrina católica com o cristianismo puro e primordial, na terceira são tecidas considerações acerca da conduta ambígua dos Papas do século XX. Resumindo, um violento ataque verbal de um padre à sua própria igreja.
Trata-se, portanto, de uma análise lúcida, ferozmente lúcida, dos meandros da instituição católica. A escrita é tumultuosa, cadenciada a raiva e fúria. Registo que, para quem ainda não se desfez do preconceito de que todo o padre é a paz em pessoa, parecerá estranho. O mesmo preconceito tem deturpado o Jesus. As pessoas tendem, por verem-no representado de túnica e sandália, a achá-lo um tipo melífluo e delicodoce. E a esse erro, à propagação, como uma peste, desse erro, a culpa cai no cartório da Igreja.

Cada vez mais me convenço de que em nome de Cristo, se professaram o maior número de mentiras e se cometeram barbaridades que não lembrariam à imaginação, sempre fértil e inesgotável, do Diabo. Se regressasse ao nosso mundo, o Jesus tomaria-o pelo Inferno.
Ateus, budistas, adoradores de Satã, talibans, judeus, catequistas, polteirgesters de todo o mundo, não deixem de ler o Padre Domingos Gomes. Fazê-lo foi um passo, um longo passo de velocista olímpico, na minha conversão ao cristianismo e mais uma acha na minha fogueira de hostilidade à Igreja que, ao longos dos séculos, tem gangrenado o alcance espiritual e - porque não? - cósmico, das palavras que nos disse o Jesus.

Vítor Vicente [
O ANIMADOR DESANIMADO]

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Desfragmentação do quotidiano

Este é o último de uma série de sete textos que têm vindo a ser publicados nesta casa que simpaticamente me acolheu. Chamei a este conjunto de crónicas (se é que merecem esse nome) de lições de moral, por motivos duvidosos e já sobejamente conhecidos. O assunto de hoje é ainda mais simples do que os anteriores – falarei sobre a coerência.
Sendo simples, a coerência é um valor que vejo frequentemente mal tratado. Basta lembrar a guerra do Iraque e aquela pergunta incómoda dos jornalistas – "Sendo católico, como reage o senhor ministro à condenação veemente da guerra pela Igreja?" –, à qual se seguiam explicações enviesadas para explicar a inexplicável incoerência. Ou as afirmações gerais de que os cristãos devem ser solidários no meio de discursos completamente avessos à solidariedade e alheios à urgência da erradicação da pobreza. A coerência é simples, mas não é fácil.
De seguida gostava de desmentir aquele célebre refrão do Sérgio Godinho que diz que "a vida é feita de pequenos nadas". A vida é feita de muitas coisas, umas pequenas outras grandes, mas vejo-a mais feita de um "grande tudo" do que de "pequenos nadas". A coerência tem a ver com isso – não viver a vida espartilhada; não considerar que cada episódio é só um pequeno episódio independente dos outros, em que a vida no emprego não tem nada a ver com a vida familiar, em que a vida no bairro não tem nada a ver com a vida na casa de férias, em que a esmola que damos não tem nada a ver com o nosso estilo de vida, e por aí fora. Já por aqui disse que um dos problemas de hoje é fazer-se da vida um negócio, que é a negação do ócio. E deixar o ócio – aquilo de que gostamos – só para os intervalos. O desafio da desfragmentação do quotidiano é tornar os espaços onde estamos apetecíveis. Quem sou eu nos vários espaços onde estou presente? Qual é o gosto que tenho de estar em cada um deles? Qual é a linha de coerência que me orienta? Desfragmentação do quotidiano é dizer que tudo tem a ver com tudo, numa expressão que li no infelizmente desaparecido "Companheiro Secreto". E se tudo tem a ver com tudo, não devemos ser alheios a nada do que nos rodeia – aceitamos comprometermo-nos com todos os espaços em que estamos, levando profundamente a sério os que estão à nossa volta.
Neste sentido sou cada vez mais avesso ao discursos do "nós não podemos mudar isso, mas podemos mudar qualquer coisinha em nós próprios". A mudança pessoal pequenina, mesquinha, é a desculpa mais frequente para, no fundo, permanecermos iguais. Com uns toques de maquilhagem e uns acrescentos de incoerência pessoal e estrutural. Viver com coerência implica estar disposto a aceitar a sua própria mudança, porque percebemos que o caminho que percorremos se afasta daquilo que queremos ser; e simultaneamente a trabalhar para a mudança dos locais onde nos movemos, porque percebemos que a nossa coerência implica aí mudanças estruturais. Ela alimenta-se da mudança pessoal e do testemunho de vida, com tudo o que ele tem de poderoso, mas transcende a mudança superficial ou parcelar. Por isso mesmo, por causa dessa dimensão estrutural, viver a desfragmentação do quotidiano implica atenção e reflexão sobre o que acontece e, mais importante, sobre o que as pessoas fazem acontecer.

Para terminar, deixo-vos um excerto do editorial do primeiro número do boletim "Mudar a Vida", publicação do
Graal, da autoria de Maria de Lurdes Pintasilgo. Já foi publicado no Futuros, mas parece-me um bom epílogo para as sete lições de moral, que aqui terminam. É precisamente sobre o que falei nos últimos sete textos – mudar a vida:
De todos os lados nos vem o convite à estabilidade, à segurança, ao já conhecido, aos terrenos firmes, ao ideal entrevisto. Por todos os meios nos atrai e nos paralisa o mito do eterno retorno. Transformações à nossa volta? Sem dúvida, desde que elas nos conduzam ao eu ideal que imaginámos, à imagem de nós próprios que, ao longo dos anos, cuidadosamente formámos.
Deixamos assim de longe a única via pela qual horizontes novos se podem rasgar: aquela em que escolhemos percorrer o próprio trilho da mudança. E quando digo que escolhemos percorrer esse trilho, não estou a imaginar um caminho linearmente percorrido sem perigos nem desvios. Pelo contrário, no caminho da mudança, seremos ossos encharcados debaixo da chuva, seremos gestos descontrolados nas areias movediças, seremos passos indecisos a contornar rochas de granito.
Quantas vezes falámos de mudança de estruturas e de instituições, opondo essa mudança, numa espécie de antinomia inevitável, à mudança de mentalidades que queríamos ter visto operar, pela obra mágica do nosso verbo e das nossas incitações, para concluirmos (pacificante conforto!) que nada se podia fazer sem que se mudassem as estruturas. Quando finalmente as estruturas nos vieram parar às mãos verificámos que não éramos senão aprendizes de feiticeiro: não as soubemos desmantelar porque não conhecíamos as engrenagens escondidas; não as pudemos reorganizar porque não tínhamos alternativa viável a opor à sua gigantesca irracionalidade; não as pudemos deixar cair como mero anacronismo da história, porque não tínhamos delineado o projecto das estruturas novas que as substituiriam, superando-as e anulando-as. E quando reconhecemos que o aparelho institucional se agitou, tremeu, mas permaneceu inalterável nos seus vícios, na sua burocracia e na sua inutilidade, dissemos então que o que importa é mudar as mentalidades!
Passageiras são as estruturas, plasmáveis as mentalidades. Por entre o feito mecanicista de umas nas outras (mentalidades obscurecidas por estruturas aniquilosadas; estruturas inoperantes por mentalidades embrutecidas) brota a esperança duma outra relação, que não é senão o dinamismo da própria vida.
Por isso, a grande empresa não é o plano pensado e repensado, a estrutura gigantesca que, com os seus tentáculos, tudo vai abafar, nem a mentalidade renovada, adaptada, ajustada, conformada. A grande empresa é mudar a vida»
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Zé Filipe [
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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quarta-feira, novembro 10

 

Amor com amor se paga

"Não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais. Não há nada que possamos fazer para Deus nos amar menos." (Philip Yancey)

Há tempos num comentário no blogue do
Timshel, um ateu republicano e laico aí da blogosfera dizia-nos uma coisa paradigmática: “Tenham cuidado com o «amor». É com essa treta que os vossos padres e santos vos enganam, e limitam um valor mais importante: a liberdade”. Na verdade, não deve haver noção mais irritante para quem não tem Fé do que esta história de Deus nos amar, tão repetida, tão cara àqueles que creem. Em primeiro porque parece ser desmentida todos os dias pela evidência dos acontecimentos: guerras, terrorismos, catástrofes, miséria, injustiças. Como podemos ser amados por alguém que nos abandona a tão cruel destino? Mas qual alguém? Como é possível haver alguém assim? E como é possível haver quem consiga discernir amor nisto tudo? O que há é pessoas fracas que em vez de encarar de frente o peso da realidade procuram disfarçá-lo com a ficção confortável de um amor transcendente que vela por elas. E outros há, habilidosos manipuladores de multidões, que usam a narcotizante ideia do amor divino para consolar e assim controlar os fiéis.
Assim dizem os descrentes, sobretudo aqueles que se irritam pela mera ocorrência da Fé. A esses lamento-os porque no fundo são uns mal-amados. Não digo que sejam mal amados por Deus mas digo que são mal-amados por não se deixarem amar. E lamento-os porque sendo mal-amados são tristes. É claro que, como dizia Bertrand Russel, um descrente que todavia amava os crentes, "o homem triste, tal como o que dorme mal, tem sempre um certo orgulho no facto". Mas já se sabe que mesmo o orgulho é consolo precário para um coração vazio.


Mas lá estou eu estou a derivar. Do que eu quero falar é mesmo do amor de Deus. Por nós todos e por cada um de nós. Pelos satisfeitos da vida e pelos deserdados da sorte. Pelos santos e pelos pecadores. Pelos crentes e pelos descrentes. Pelos que riem e pelos que choram. Pelos que amam e pelos que odeiam. Pelos humildes e pelos de ego inflamado.
Devo dizer que a minha noção do amor divino tem a ver não só com os meus pobres conceitos teológicos mas também a ver com a minha forma particular de ver o meu semelhante. É que, sendo um céptico, acabo por ser um optimista. Quero eu dizer que, desconfiando muitas vezes do que me dizem, acredito profundamente que toda a gente, até eu próprio, tem alguma ponta por onde se pegue, tem uma faceta boa na sua natureza que não só espera para se manifestar como também se compraz nisso. Na meia-vida que já levo, conheci muita gente mas nunca conheci ninguém integralmente mau. Conheço pessoas com egoísmos monumentais. Conheço pessoas de rancor fácil e persistente. Conheço pessoas estupidamente violentas e outras violentamente estúpidas. Conheço pessoas intrinsecamente desonestas. Conheço pessoas absurdamente vaidosas. Conheço pessoas dramaticamente escravas, umas escravas de vícios, outras escravas de ter e de poder, o que também são vícios. Conheço pessoas doentiamente invejosas. E por aí fora. Mas posso dizer sem mentir que, em maior ou menor grau, gosto de todas elas. Gosto à minha maneira, pois claro, um bocado à distância, sem muitas vezes o mostrar e sem agir em conformidade. Mas gosto. Pois em todas elas reconheço algo que me toca de alguma maneira nem que seja o seu sofrimento por uma falta de atenção. Eis aqui um ponto importante: a atenção. Diz a minha experiência de vida que mesmo o mais desagradável indivíduo, se lhe dermos um pouco de atenção, baixa as suas guardas e mostra que é um ser humano, exactamente tal como eu.

Ora é nesta coisa do ser-se humano que eu chego ao meu ponto. Para mim a prova do amor de Deus por nós não está naquilo em que nos acontece mas naquilo que verdadeiramente somos, naquilo que verdadeiramente temos em nós. É na nossa natureza e condição humanas, que partilhamos todos, onde eu vejo o sinal palpável do amor paternal de Deus. Dirão alguns de vocês: para assinalar o 249º aniversário do terramoto de Lisboa aparece-nos agora aqui um tipo a querer ser a reedição do Cândido, o eterno optimista, de Voltaire!... Dirão outros: ora eis aqui um gajo satisfeito da vida a justificá-la com Deus, assim como que uma espécie de born-again calvinista!...
Não, meus caros amigos. Este que vos escreve, como quase toda a gente, levou e leva no pêlo a dose diária recomendável para manter baixa a grimpa! Este que vos escreve é, isso sim, daqueles que não tendo tudo o que querem, querem tudo o que tem. E uma das coisas que tenho é toda esta gente que conheço e de que vos falava há pouco: familiares, amigos, colegas, conhecidos. Gente de que gosto mais ou menos mas de que gosto, pois como dizia, em todos eles e elas reconheço pelo menos às vezes algo de gostável. A ver se me explico agora.
Em toda a gente, se olharmos bem, existe algo que não vem da natureza nem da educação nem da moral vigente. É a capacidade, comum a todos, de em determinadas condições, às vezes condições limite, ser-se capaz de atitudes que são contra a nossa natureza mais material. Atitudes que contrariam os instintos da nossa natureza mas atitudes que provém unicamente do facto de em nós estar contida uma grandeza que nos transcende. Já assisti a estupores compulsivos a serem tocados por certas e determinadas situações que, de alguma forma, os tocaram e que os levaram a ter atitudes perante outras pessoas, atitudes totalmente inesperadas neles.
E quando isso acontece, e falo por experiência própria, na qualidade de “estupor intermitente”, a sensação que ocorre, misturada com o espanto de nos termos surpreendido a nós próprios, essa sensação é verdadeiramente admirável, única mesmo.

E chego então ao queria dizer hoje. Deus criou-nos como seres de instintos duvidosos e de perigoso livre-arbítrio. No entanto, em cada um de nós deixou algo de imenso, por ínfimo que seja: a possibilidade de redenção. Para mim não há conceito mais belo nem espectáculo mais satisfatório que uma boa história de redenção. A nossa própria ou a da pessoa à nossa frente. Está então aí, nessa possibilidade para nós todos, a maior prova do Amor de Deus.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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O último almoço grátis (o que andava a fazer Deus antes de ter criado o Universo?)

Julgo que foi um professor de Fisica Nuclear do MIT, Alan Guth, que disse que o nascimento do Universo foi o último almoço grátis. De facto, a célebre declaração de Lavoisier "na natureza nada se cria e nada se perde: tudo se transforma" só é verdadeira a partir do Big Bang. Só o Universo nasceu a partir do nada.
Isto não é, aparentemente, inteiramente verdade. Parece consolidar-se nos meios cientítficos a ideia de que antes existia qualquer coisa: informação pura, o instanton (para não falar de outras teorias ainda mais metafísicas como a teoria dos "universos paralelos"), algo para o qual os cientistas até descobriram a forma.
Com efeito, num artigo do New York Times (22/5/2001), Dennis Overbye escreveu: "The universe, up to and including its origin, is then represented by a single conical-shaped mathematical object, known as an instanton, that has four spatial dimensions (shaped roughly like a squashed sphere) at the Big Bang end and then shifts into real time and proceeds to inflate. "Actually it sort of bursts and makes an infinite universe," said Dr. Neil Turok, also from Cambridge University. "Everything for all future time is determined, everything is implicit in the instanton."

Uma pergunta que sempre atormentou os físicos foi a de saber o que apareceu primeiro, o Universo ou as leis que o regem. Numa célebre expressão do Professor Linde, "se não havia leis como é que o universo apareceu?"
Ignoro exactamente a natureza de um "objecto matemático" (o "instanton") que se apresenta como simples informação provinda de um "tempo" em que os conceitos de tempo e de espaço tal como os concebemos não fazem sentido. Resumo-me por isso ao único consenso científico possível actualmente, o de que se trata de simples informação.
Escrevi aqui há uns tempos que "não deixa de ser curioso que tudo o que nós somos é também, de um certo ponto de vista, simples informação. O ADN é um código informativo. Nós somos os produtos da informação genética e ambiental, mais próxima ou mais remota. Os nossos antepassados que já morreram, vivem de facto. São a informação genética e ambiental que nós somos. Aquilo que somos fisicamente e aquilo que pensamos é a informação transmitida pelos nossos antepassados. Nós somos à sua imagem e semelhança. E eles, eram à imagem e semelhança de quem? Da informação que existia antes de existir o Universo?"
Se o Universo teve em tempos a dimensão de um simples átomo e se a partir do seu nascimento nada se ganhou nem nada se perdeu mas apenas tudo se transformou, parece que as leis (as informações) que determinaram o nascimento do Universo contêm em si uma estranha mais-valia que parece metafísica: como é possível que tudo o que existe actualmente no mundo e no Universo tenha origem e se limite apenas a algo que existiu com as dimensões de um simples átomo?

O problema parece-me, contudo, um pouco mais sério. Se agora existe o Bem e o Mal então a informação que deu origem ao Universo continha também em si o Bem e o Mal. Talvez apenas o Homem tenha a consciência do Bem e do Mal e o poder de, ajudado por Deus, escolher o Bem e erradicar o Mal. O problema da escolha entre o Bem e o Mal leva-nos contudo demasiado longe: ao determinismo versus indeterminismo, ao funcionamento dos sistemas complexos (de que um exemplo clássico é o próprio Homem) e à tomada de decisões dentro destes sistemas, à própria natureza humana (genes e memes). Fica tudo isto para próximos posts.
Por agora, e para responder à pergunta "O que andava Deus a fazer antes de criar o Universo?" lembro-me da resposta de Santo Agostinho a esta pergunta: "Andava extremamente ocupado a criar o Inferno para aqueles que se lembram de fazer tais perguntas".
Mais a sério: o período em que não houve almoços grátis foi desde o nascimento do Universo até há 2004 anos atrás.

Timshel [TIMSHEL]

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Pensamento – os mártires.

O martírio teve longa vida na história da religião. Hoje, o martírio continua vivo e embora diversas confissões o reclamem, tem vindo a luz a propósito a propósito de certas variantes políticas radicais que se reclamam do Islamismo. Os documentários e os filmes documentários sobre o martírio contemporâneo levado a cabo por estas variantes, se não são abundantes povoam pelo menos aqui e ali o espaço televisivo. Quem os viu não pode deixar de ficar impressionado com uma série de características que apresentam e que apresentam os que se predispõem ao martírio.
A primeira característica que estes mártires apresentam é a serenidade. De facto, estes mártires impressionam pela ausência de conflito interior. Nem o passado, nem o futuro são para o mártir pretexto para conflito interior. O martírio apaga o passado. O mártir mesmo se no seu passado há uma mulher que julgou ter amado, uma família com a qual se julga identificado, um grupo de amigos com quem partilhou esperanças, quando é posto perante a proximidade do acto não introduz a amada, os pais ou os amigos na balança que faria oscilar ponderações interiores. Do mesmo modo, nada no futuro há que o possa fazer balançar. Ele só quer uma coisa. Ser mártir. E ponto final.
Esta certeza que envolve o acto que quer cometer, está em directa sintonia no modo como lida com aquilo que o inspira. De facto, estes mártires mostram uma absoluta ausência de dúvida. É assim Deus, assim que Deus quer, assim será feito. Esta ausência de hesitação na interpretação da palavra divina, esta ausência do uso da dúvida é inusitada nos dias que correm. Parece de facto não contemporâneo o que se dá ao luxo da ausência de dúvida. Não parece de hoje quem não duvida.

No entanto, pensar a dúvida como primeira actividade intelectual é ilusório. Não que a dúvida não tenha uma função real no pensamento. Mas por razões lógicas e cronológicas não é primeira actividade. Logicamente, as negações implicam sempre a antecedência de uma afirmação. Cronologicamente, só podemos duvidar sobre o que já é adquirido e nada podemos adquirir se mantivermos o que adquirimos no regime do pode ou pode não ser.
Penso que T. S. Elliot disse qualquer coisa assim: só podemos aprender qualquer coisa se nos rendermos ao que temos de aprender. O que implica por arrastamento a aceitação da autoridade. É a submissão, não a dúvida, a autoridade, não a crítica, a primeira fonte de conhecimento. Por aqui iríamos certamente até Kant, até ao espírito da revolução copernicana, e iríamos – não sei se iremos – até à questão da autoridade. Deixamos dito entretanto que no cristianismo a verdadeira fonte de autoridade se encontra no serviço e no cuidado.
Como é óbvio, não se trata aqui de contrapor dois universos distintos, o universo da dúvida e o universo da autoridade, que por si só mereceriam imediatamente o nosso consentimento. Trata-se apenas de realçar o facto de o martírio nos colocar perante um mecanismo mental que julgamos fora de circulação. E de afirmar a autoridade como mecanismo primeiro. E daí, a dúvida como mecanismo segundo e derivado. Por fim, dizer, como sempre que a validade de um dado mecanismo mental depende do fim que persegue e da capacidade que tem ou não para se lhe adequar.
O que por fim é dizer que se de facto os mártires de que falamos nos impressionam, se a sua serenidade e as suas certezas não deixam de impressionar, aquilo que realmente interessa é se eles, a sua serenidade, as suas certezas, servem ou não adequadamente o que visam servir.


Fernando Macedo [A BORDO]

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Podre de rica!

Uma Igreja rica e opulenta, de cofres cheios e monetariamente mercenária. É assim que críticos e zangados olham para Roma ou para a casa paroquial, com desdém dos anéis do senhor. As fábricas das paróquias são frutos apetecidos e espoletam guerras intestinas, na melhor faca e alguidar para telejornal em horário nobre – e lá se vai o recato devido às coisas da fé. Mas essa é outra matéria – o que aqui nos traz é de outra ordem material: o pilim, o graveto, o dinheiro, a riqueza claro está. Que a Igreja é do mundo e no mundo só assim se governa.

A Igreja tem dinheiro. Muito dinheiro – mas nem todo é mensurável (a riqueza patrimonial dos museus do Vaticano ou a talha dourada de uma qualquer igreja barroca) e nem todo é censurável (numa IPSS de boa gestão e melhor partilha). Mas entre o ideal de pobreza franciscana e a obscena riqueza de ordens religiosas pré-República vai uma grande distância.

Do reino do Mal, há histórias de vil metal. A do Banco Ambrosiano (que origina uma mais interessante teoria conspirativa em «O Padrinho III» que "códigos" recentes) borra toda – ou ainda mais, dirão críticos e zangados – a pintura. Definitivamente: cardeal não rima com banqueiro. Mas é possível que o dinheiro não estrague o manto do Senhor dos Passos.

Primeiro: dispam-se de notas os santos que vão de procissão pelas ruas (antes havia uma deliciosa ironia com os mantos cobertos de Santos Antónios ou Bocages, perdida agora nos euros globalizados).
Segundo: partilhe-se donativos e promessas. Ou restrinja-se cada vez mais (para acabar de vez com...) as encomendas das almas que vivem de transacções comerciais. Tornem-se públicas contas, para um deve e haver de transparência entre fiéis e pastores.
Terceiro: generalize-se a prática de uma remuneração partilhada de padres e religiosos, para evitar a história de ricos e pobres entre o clero – e de paróquia para paróquia, ou de diocese para diocese.

Retome-se a procissão, que agora sai do adro. E não se tenha medo – mas como mais dificilmente o rico chegará aos céus do que o camelo passará o buraco da agulha, é bom desconfiar sempre do pilim. E do "muito" multiplicar, como o pão. Não é preciso nenhuma concordata para concordar com este caminho.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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Taizé em Lisboa

No Sul da Borgonha, em França, encontra-se a Comunidade de Taizé, uma comunidade ecuménica internacional fundada em 1940 pelo irmão Roger, em plena II Guerra Mundial.
Conta o irmão Roger que a ideia lhe surgiu naturalmente, pelo exemplo da sua avó materna, de confissão calvinista, que, durante a I Guerra Mundial ficou na sua terra, alvo dos ataques alemães, com o objectivo de prestar assistência às vítimas da guerra. E, seguindo o seu testemunho, Roger, apenas com 25 anos, começa o seu trabalho de ajuda aos refugiados da guerra, entre os quais muitos judeus.
A partir daí a Comunidade cresce, com a entrada de outros irmãos, de diferentes confissões cristãs, dando vida à prece da sua avó: «que os cristãos divididos – que já se mataram o bastante entre si – possam reconciliar-se para tentar impedir uma nova guerra».
Os irmãos
comprometem-se para toda a vida («renunciando daqui em diante a olhar para trás, alegre, com uma gratidão imensa, não tenhas medo de preceder a madrugada para louvar bendizer e cantar Cristo, o teu Senhor») na partilha dos bens materiais e espirituais, no celibato e numa grande simplicidade de vida.
No seio da vida quotidiana em Taizé, encontram-se os três momentos de oração comunitária. Os irmãos vivem somente do seu trabalho. Não aceitam qualquer donativo nem qualquer presente para eles mesmos. Alguns dos irmãos vivem em pequenas fraternidades no meio dos mais pobres.
Os irmãos de Taizé efectuam também visitas e animam em África, na América do Sul e do Norte, na Ásia e na Europa, pequenos e grandes encontros que fazem parte de uma «peregrinação de confiança na terra».
Através da sua própria existência, a comunidade procura ser um sinal concreto de reconciliação entre os cristãos divididos e os povos separados. Actualmente, a comunidade tem cerca de uma centena de irmãos, católicos e de diversas origens evangélicas, vindos de mais de vinte e cinco países.

Desde o fim dos anos '50 que milhares de jovens começaram a ir em peregrinação a Taizé, para aí participarem nos encontros de oração e de reflexão que têm lugar semana após semana. São os
encontros intercontinentais de jovens.
Todos os dias, os irmãos da comunidade fazem introduções bíblicas, que são seguidas por tempos de reflexão, de partilha e de participação em tarefas práticas. É ainda possível passar a semana em silêncio para deixar o Evangelho iluminar profundamente a sua própria vida.
Alguns workshops sobre temas específicos permitem perceber a relação entre as fontes da fé e a realidade pluralista do mundo contemporâneo. Estes
encontros de Taizé significam, para muitos jovens que neles participam, uma experiência única de comunhão com Deus através da oração e da reflexão pessoal, e, por outro lado, uma experiência de comunhão e de solidariedade com os outros.

Encontro em Lisboa
No final de cada ano, numa das principais cidades da Europa, Taizé anima um grande encontro no qual participam dezenas de milhares de jovens, vindos de toda a Europa e também de outros continentes. Estes encontros constituem etapas da referida peregrinação de confiança na terra. O
27º Encontro Europeu de Jovens terá lugar na região de Lisboa, de terça-feira, 28 de Dezembro de 2004, a sábado, 1 de Janeiro de 2005.
A escolha de Lisboa com local do encontro deste ano ficou a dever-se sobretudo ao empenho do cardeal patriarca de Lisboa: «O Irmão Roger, superior e fundador da Comunidade Ecuménica de Taizé, aceitou o meu pedido de realizar em Lisboa o encontro deste ano. É mais uma etapa na longa peregrinação da confiança através do Mundo, que há quase três décadas tem posto em diálogo de comunhão muitos milhares de jovens nas principais cidades europeias», disse D. José Policarpo.
Espera-se que o Encontro de Lisboa acolha cerca de 40 mil jovens, «peregrinos da esperança, num mundo ameaçado pela violência e que procura a luz que dará sentido novo ao seu futuro», pelo que é imperiosa a mobilização das comunidades cristãs e paróquias em toda a Grande Lisboa. Na
organização do Encontro estão envolvidas as dioceses de Lisboa, Setúbal e Santarém, seis das sete vigararias de Lisboa, a que se juntam as paróquias de Sacavém, Amadora, Oeiras, Sintra, Cascais, Loures, Vila Franca de Xira, Alenquer, Almada, Caparica, Seixal, Barreiro, Moita e Montijo.

2m² = 1 jovem em casa
Quem, como eu, estiver está disponível para acolher jovens em sua casa durante o Encontro Europeu, por favor preencha
esta ficha e envie para a organização ou remeta a sua oferta de alojamento para o seguinte endereço e-mail: alojamento@taize-lx.net.
O alojamento nas famílias pode ser muito simples. Os jovens (entre 16 e 29 anos) sabem que vão dormir no chão e trazem saco-cama e colchão (2m²= 1 jovem em casa!) A quem acolhe, pedimos apenas os pequenos-almoços e o almoço de 1 de Janeiro. Durante o dia, os jovens estarão fora de casa. Partem de manhã pelas 8h e voltam à noite pelas 22h, depois da oração das 19h nos pavilhões da FIL (Parque das Nações).

Carlos Cunha [
PARTÍCULAS ELEMENTARES]

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