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quarta-feira, outubro 20

 

Peregrinar sempre

Este ano, pela terceira vez, fiz o Caminho de Santiago a pé. Fiz um dos percursos possíveis: entre Valença do Minho e Compostela – o Caminho Português. Fui a acompanhar um grupo de escuteiros, adolescentes entre os 14 e os 18 anos. Todos eles peregrinavam pela primeira vez. Foi interessante verificar o contraste daqueles 6 dias com as nossas rotinas de trabalho e de escola. Sobretudo o contraste com a vida deles, jovens de hoje, mergulhados numa sociedade consumista, longe dos valores e das referências espirituais. Ao longo desses dias o silêncio foi tomando conta de nós. Aparentemente não houve grandes mudanças: continuaram as brincadeiras, risos, discussões, zangas, amuos, naturais na convivência permanente. Mas a precariedade das condições, o cansaço provocado pelos cerca de 20 km diários de percurso levam a esse tal Silêncio, mesmo que não seja evidente. Afastarmo-nos do conforto das nossas casas remete-nos espontaneamente para outros horizontes, para a constatação dos vazios que deixámos para trás. Vamos pensando: “o que é que eu faço aqui?”, “porque é que me meti nisto?”, “para que serve estar a estafar-me desta maneira?” e vamos olhando para dentro, revendo as nossas prioridades, reorganizando a vida a partir das coisas simples. E fica. Esse Silêncio permanece quando se regressa, ainda que não seja explícito. Despojarmo-nos da nossa rotina automática, mesmo que seja só por uns dias, é um acto de construção interior, uma recuperação (ou encontro) do sentido primeiro da Vida.

Creio que peregrinar é a melhor metáfora para a vida. Fazer caminho é confrontarmo-nos com as nossas fragilidades, reconhecer a incerteza do passo seguinte e alegrarmo-nos por o alcançarmos. Caminhar remete para o Silêncio.

Falo de Silêncio uma semana depois de o Miguel ter levantado, aqui na Terra, uma questão delicada para a Igreja: o celibato dos padres e outras questões relacionadas. Adiantava o conterrâneo que eu sairia em defesa do celibato enquanto riqueza da Igreja. E vou falar disso. Mas se falo de Silêncio neste contexto é porque o considero factor indispensável para qualquer questão, de maior ou menor importância, que se vai levantando nas nossas vidas e, consequentemente, na vida da Igreja – e não apenas como prólogo de discussão, mas como envolvência que terá que remeter constantemente para o essencial. Sabemos, porém, que a necessidade desse Silêncio é muitas vezes usado como desculpa para uma premeditada “interrupção voluntária do diálogo” (usando a feliz expressão do Miguel), mas nesses casos o próprio silêncio ensurdece os que o desvirtuam. Saibamos nós deixar que o Silêncio fale mais alto que o ruído do medo.

Rui Almeida (RUIALME)

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