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quarta-feira, outubro 20

 

A passagem de testemunho. Também os santos são pecadores.

Nota de abertura: este é um texto abertamente exploratório.

Queiramos ou não e por vezes não queremos, a história do cristianismo tem momentos que gostaríamos de esquecer. Outros que gostaríamos de pensar que ficaram definitivamente para trás. Assim, há quem gostaria de esquecer Constantino, a Inquisição, as Cruzadas ou a colaboração dos cristãos com as guerras empreendidas com os diversos Impérios que surgiram no palco da história. Outros que gostariam de lembrá-los como algo que ficou definitivamente para trás. Que, por exemplo, ficou para trás o fenómenos do apego dos cristãos ao mau poder. Que isto foi sacudido de tal maneira pela razão e pela influência de humanitarismos diversos que hoje tal tentação não se coloca ou é vivida apenas por um cristianismo atávico.

Há aqui, colateralmente, uma primeira evidência que por vezes não é nada evidente e que se traduz pela presença obsessiva de pensar o cristianismo nas suas relações com o poder. Constantino, as Cruzadas, a Inquisição, os Impérios, dizem o cristianismo no meio do poder social. Perante isto, e porque hoje nos atemos com afinco a estes dados, deixamos uma questão: qual a razão que determina hoje a necessidade de pensar a relação entre cristianismo e poder social?

Alguns dirão: porque é necessário. Pode ser. E nisso estamos de acordo. No entanto, é bom lembrar que existem diversas necessidades e que se a necessidade de pensar socialmente o cristianismo se impôs é porque se tornou prioritária. No entanto, para além desta verdade óbvia, outra se impõe: as prioridades são não só discutíveis como variáveis.

Aqui, e para que a conversa não fique num nível demasiado abstracto, pense-se por exemplo que para o cristianismo de Agostinho a grande prioridade era a definir o que poderia ser ou não Igreja. Daí, uma parte significativa do seu trabalho de polemista. Deste modo, em Agostinho e em Agostinho tomado como símbolo de preocupações colectivas, confirmadas em Niceia, Pelágio, ou no arianismo, mostra uma preocupação primeira pelo que era Igreja e pelo que devia nortear a Igreja. Claro que podemos sempre traduzir esta necessidade em termos de poder social. Mas é bom que não esqueçamos que somos nós a traduzir.

Voltemos, entretanto, aos acontecimentos relatados, às Cruzadas, à Inquisição, a Constantino, ou – se quisermos – à Igreja do Império colonial de Salazar. E suponhamos – o que é maioritário – que fazemos deles uma avaliação negativa. Aqui, duas questões se levantam: a primeira tem a ver com o facto de acolhermos ou não a sua herança, com isto é connosco, não podemos negar que foi nosso; a segunda incide sobre a questão de saber se seríamos o que somos se não tivéssemos tido que passar por esses momentos? - E por fim uma terceira: como foi possível que ainda assim o Espírito cristão tenha sobrevivido? – Como é que no meio do erro foi possível passar o seu testemunho? – Ou será que respondemos que sobreviveu porque antes existiram de um lado os maus e de outro lado os bons e que estes bons como nós não cometeram nem esses erros, nem outros? – Assim, teríamos de facto encontrado uma explicação para a passagem de testemunho. A mim parece-me fictícia. Porque os santos nos ensinam uma coisa: também eles são pecadores.

Fernando Macedo (
A BORDO).

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