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quarta-feira, outubro 6

 

Padre Abel Varzim: exemplo de coragem e humildade

Completaram-se, no passado dia 20 de Agosto, 40 anos sobre a morte do Padre Abel Varzim.
Abel Varzim da Cunha e Silva nasceu em pleno Minho (Cristelo – Barcelos), em 1902, numa família de pequenos proprietários rurais.
Cedo decidiu tornar-se padre, ao que tudo indica impelido por uma sincera vocação, até porque o ambiente social do país em que cresceu e se formou era muito conturbado e pouco propício às coisas da religião.
Logo depois de se ter ordenado, em 1925, aceitou rumar ao Alentejo para ser professor do Seminário de Serpa (diocese de Évora), onde começou a implementar novas formas de formação, sobretudo através do Escutismo, permitindo aos seminaristas um maior contacto com o mundo.
Cinco anos depois Abel Varzim é enviado para Lovaina (Bélgica) para estudar. Forma-se em Ciências Político-Sociais e alarga consideravelmente os seus horizontes e perspectivas, impossíveis no Portugal tacanho daquela altura. A sua tese de doutoramento é um estudo aprofundado duma experiência bem sucedida de associativismo agrícola de inspiração cristã, na qual se consideravam todas as dimensões sociais, culturais e religiosas de modo a promover processos económicos saudáveis e benéficos para todos: o “Boerenrenbond Belge”.
Durante o tempo em que esteve na Bélgica pode contactar directamente com o grande reformador da Acção Católica (AC) e criador da Juventude Operária Católica (JOC), o cónego (mais tarde bispo) Cardijn e aprofundar as possibilidades de intervenção da Igreja na contrução de uma sociedade melhor, a partir dos documentos oficiais, mas sobretudo a partir da experiência e constatação da realidade social.
Abel Varzim regressa em 1935 para ser assistente eclesiástico da Liga Operária Católica, órgão da Acção Católica Portuguesa, de que tinha sido, com o seu colega de Lovaina Pe. Manuel Rocha, redactor dos Estatutos.
Em 1938 é nomeado deputado à Assembleia Nacional, integrado na lista única, em representação da Igreja, como era uso na altura. Apenas fica por uma legislatura (4 anos), pois a sua voz em S. Bento eleva-se para denunciar a falta de condições dos trabalhadores, as perseguições levadas a cabo pelos patrões àqueles que ousavam protestar, bem como a conivência do Estado com estas situações. Propõe maneiras de melhorar as condições dos operários e acusa o Governo de estar a fazer um corporativismo a partir de cima, ou seja: manipulado pelos patrões com objectivos apenas lucrativos.
Mas o padre Abel Varzim não pára, continua a sua acção por diversos organismos da AC, faz conferências, dá aulas, atende aos inúmeros pedidos de ajuda por parte de operários em situação difícil e colabora com vários órgão da imprensa, sempre com grande lucidez e pertinência. Em 1934 tinha ajudado a criar o quinzenário “O Trabalhador”, no qual colabora ininterruptamente até à sua sufocação pelo Governo, em 1946. Mas reaparece, como semanário, em 1948, para publicar apenas 25 números e ser definitivamente esmagado pela censura.
Os poderes estabelecidos sentem o incómodo do arrebatamento deste homem apostado em defender, através do Evangelho e da doutrina da Igreja, a dignidade humana e os mais elementares princípios sociais e morais; é demitido de todas as suas funções na AC.
No seu diário pessoal desabafa:
“O Estado-Salazar é quem manda na Igreja! Estado e Igreja confundem-se quase neste país e o mal avança cada vez mais. (...) A minha grande mágoa é que o braço secular se tenha servido do báculo para me desferir este golpe... que não atingirá apenas este pobre e inútil servidor. Infelizmente!”

Após dois anos de “reserva” é nomeado pároco da Encarnação (Chiado), em Lisboa. Dos seis intensos anos como prior duma paróquia que incluia o Bairro Alto com as suas inúmeras casas de passe, fica-nos o testemunho na primeira pessoa, editado recentemente em livro (A Procissão dos Passos), da impressionante tomada de consciência da complexidade do problema da prostituição e a actitude de humildade e permanente conversão de um homem que talvez já não precisasse de mais para alcançar a santidade. Baseando-se no projecto de “O Ninho de Paris” cria, com o apoio pessoal do Cardeal Cerejeira, seu amigo e admirador, o Centro de Recuperação de Raparigas na Quinta do Bosque, na Amadora, cujo sucesso o leva a fundar a Liga Nacional contra a Prostituição. (Este empreendimento teve seguimento até aos dias de hoje através da Associação “O Ninho” ).
Mas, mais uma vez, a hipocrisia e os falsos moralismos se atravessam na vida do Padre Abel Varzim. Desgastado pelo ambiente de calúnia, demite-se e regressa à sua terra natal.
Os últimos anos da sua vida continuam, no entanto, marcados pelo intenso trabalho. Tendo presente o objecto da sua tese de doutoramento, incentiva os seus conterrâneos a associarem-se com vista a melhorarem a produtividade e envolve-se na criação da Sociedade Avícola do Minho. Cria no Porto uma Obra para raparigas semelhante à que criara em Lisboa. E vai continuando atento aos desenvolvimentos políticos do país e a receber os amigos.
O facto de ter assinado, em 1959, a célebre carta de católicos a Salazar, denunciando os abusos da PIDE e os excessos da censura, levam a que fique sob vigilância da polícia política. Não deixa de ser curioso que, por mais de uma vez, agentes encarregues de o vigiar o tivessem abordado com o fim de os ajudar a arranjar um emprego alternativo, de modo a deixarem “aquela vida”...
O Padre Abel Varzim morre no dia 20 de Agosto de 1964, vítima de um terceiro ataque cardíaco. Ao seu funeral acorre gente de todo o país, recordando a sua coragem e dedicação.

Alguma bibliografia:
Domingos Rodrigues, “Abel Varzim –Apóstolo Português da Justiça Social”, editora Rei dos Livros, 1990 (biografia elaborada a propósito do 25º aniversário da sua morte)
Nuno Teotónio Pereira, “Um Homem que não pode ser esquecido: Abel Varzim”, Público, 20 de Agosto de 1994 / reproduzido em “Tempos, Lugares, Pessoas”, Contemporânea e Jornal Público, 1996 (evocação no 30º aniversário da sua morte)
Abel Varzim, “Entre o Ideal e o Possível”, Forum Abel Varzim e Multinova, 2000 (antologia de textos, prefaciada por D. José Policarpo e com os testemunhos de António Cerejo e Manuel Braga da Cruz)
Abel Varzim, “Procissão dos Passos – Uma Vivência no Bairro Alto”, Forum Abel Varzim e Multinova, 2ª ed: 2003 (testemunho pessoal, deixado inédito, sobre a experiência na paróquia da Encarnação)

Torcato Sepúlveda, “O padre que enfrentou Salazar”, Grande Reportagem, 14 de Agosto de 2004


Rui Almeida [RUIALME]

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