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quarta-feira, outubro 20

 

O meu Manifesto (4ª e última parte, uuufff!)

Se bem se recordam, falei na semana passada sobre a minha visão de como a partir da Revolução Industrial inglesa e sua disseminação por todo o Ocidente, o proto-capitalismo evoluiu para o capitalismo moderno, através sobretudo duma tremenda mudança de focagem estratégica: deixando de considerar as massas trabalhadoras como um mero factor de produção mas sim também como a principal fonte de consumidores. E é minha convicção profunda que estas massas apreciaram imensamente esta distinção. Quando vejo às vezes aqueles revolucionários serôdios, tipo Camilo Mortágua ou Aires Rodrigues, perguntando amargamente “mas onde é que estão os trabalhadores?” apetece-me dizer-lhes que actualmente, neste rico mundo ocidental, os trabalhadores são consumidores que, por necessidade, também trabalham. Foi aliás assim que o marxismo perdeu a mente dos trabalhadores: esta sociedade da abundância e do lazer, do materialismo consumista (e não o dialético), da universalização do direito ao prazer, fez com que o ter, o comprar, o gastar, em suma o consumir, se tornasse num objectivo de vida para todos. Em resumo, os trabalhadores aburguesaram-se, perante o espanto e desgosto dos crentes na via comunista para os amanhãs que cantam.
Mas permitam-me que regresse aos anos 50 e aos primeiros passos do Estado Providência. Nunca saberei se conscientemente ou inconscientemente, se altruisticamente ou cinicamente, mas em dada altura certas cabeças pensantes decidiram uma coisa bonita e muito útil: que o pagamento justo ao trabalhador não chegava, que ele deveria estar protegido pelo Estado contra a adversidade, a doença, a velhice, o desemprego. Criaram-se assim os sistemas de segurança social que duram até hoje. Estes sistemas foram reter parte dos rendimentos do capital e do trabalho para constituir um fundo durável e fiável para acorrer a todos na necessidade e no infortúnio. Cumpria assim a Europa capitalista dos direitistas Adenauer, De Gaulle, Eden e Mac Millan, a máxima marxista do “de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades”, enquanto que, ao lado, a Europa comunista exauria as possibilidades de todos sem satisfazer as necessidades de ninguém. Não deixa de ter uma certa piada.
Mas sejamos realistas, o capitalismo não costuma dar ponto sem nó. E na verdade, penso eu, o que verdadeiramente se quis com o Estado Providência foi uma coisa esperta. Assegurando-se a todos uma segurança material numa base permanente, isto é, até à morte, iniciou-se uma profundíssima alteração de mentalidades, hoje bem visível, até de forma preocupante. Vou explicar melhor: libertando as pessoas da preocupação face à adversidade imprevista, tornaram-nas mais receptivas a afectar ao consumo uma parte cada vez maior do seu rendimento disponível. Isto é, a velha poupança deixava de fazer sentido pois o Estado tratava disso por nós, retendo e gerindo os fundos necessários e, por outro lado, a impressão de crescimento económico sem fim libertava-nos de preocupação maior quanto ao futuro dos nossos filhos.
Tendo sido despoletada esta tremenda mudança de mentalidades (que foi mais progressiva do que transparece neste esboço), a partir daí o aumento da procura, o crescimento económico, o enriquecimento das empresas, dependiam apenas do aumento da oferta. Apareceram então com toda a força os marketings e os marketeers, a publicidade, os vendedores de sonhos de plástico ou de papel. Convirá contudo não esquecer uma coisa importantíssima, de que falarei mais tarde: por esses anos 50 e 60, toda essa imensidão de bens, inventados ou reinventados, antigas superfluosidades tornadas necessidades, toda essa mercadoria infindável era produzida aqui na Europa, deixando pois aqui todo o seu valor acrescentado, dividido pinguemente pelo capital e pelo trabalho, numa espiral de enriquecimento e bem-estar, generalizados e sem fim à vista. Belos tempos esses!
Resumindo: tecnologias eficientes, economias de escala, remunerações e regalias crescentes, lucros galopantes e reinvestidos em tecnologias ainda melhores e em marketings mais apelativos. Tudo batia certo. Não me consta que tenham sido tempos de profundas querelas ideológicas. Aliás, a cortina de ferro e o medo do urso soviético, ajudavam a aproximar sensibilidades em vez de as afastar.
Mas esta situação tão cómoda e tão contrastante com a de outra parte tão significativa da humanidade, não poderia durar para sempre. Durou ainda até hoje mas está a mudar rapidamente, inexoravelmente. E é disso que vou falar a seguir.
Vou falar então daquilo que entendo ser o colapso do modelo social e económico europeu, algo que está a acontecer sem nos darmos bem conta. As razões deste colapso são inúmeras, como habitualmente. Mas podem-se talvez resumir numa frase patusca: crescemos muito mas para os lados. Engordámos. Perdemos fibra. E o resto do Mundo, mais musculado (como os americanos) ou mais franzino (como todos os restantes), esse não parou.
Expliquemo-nos melhor, começando por um lado qualquer.
Apesar do baby-boom do pós-guerra, a população da Europa Ocidental era limitada e a dado momento parou de crescer. Quer isto dizer que o mercado, após crescimentos supersónicos, acabou por atingir os seus limites em termos de procura. Sobrando a oferta, a concorrência enrijece, o marketing torna-se agressivo e consome recursos cada vez maiores. E porque era necessário manter os preços competitivos, surge crescentemente a pressão sobre os custos de produção, sobretudo numa Europa onde as fronteiras quebravam ainda as economias de escala. A tecnologia, ao substituir cada vez mais mão de obra, ajuda a criar mais pressão sobre o trabalho, reduzindo-se a oferta de emprego. Novas técnicas tornaram obsoletas indústrias inteiras, começando então a fazer verdadeiramente sentido o Estado providência perante as primeiras vagas de desempregados da modernidade. Paralelamente, a sociedade de consumo continuava aceleradamente a penetrar na mente e comportamentos das pessoas. Era necessário criar continuamente novas necessidades de consumo para o crescimento continuar, afectando cada vez mais recursos das gentes. A emulação da mirífica american way of life, trazida pelo cinema, ajudou governos, empresas, imprensa, sindicatos, uns a promover e outros a exigir um novo direito sagrado: o direito ao consumo. Entrámos na era do Homo Consummatore.
Entretanto o resto do mundo existia também, não se limitando a assistir embasbacado à prosperidade ocidental. Começam as imitações do modelo económico e industrial do Ocidente em culturas diferentes, menos individualistas, com uma muito maior produtividade. O Japão, depois a Coreia e Taiwan, começaram a despejar sobre nós uma imensa parafernália de produtos manufacturados, primeiro apenas baratos e mais tarde também de qualidade.
Houve depois um facto determinante: o paradigma do petróleo a baixo custo desapareceu em 1973 e nunca mais voltou. Voltou então a acontecer algo quase esquecido, o choque inflacionista. Mas o sistema é forte e pressão sobre os custos de produção torna-se tremenda. Isto numa altura em que o modelo social europeu estava plenamente sedimentado e em que as relações entre o capital e o trabalho estavam já regulamentadas de forma rígida. Neste contexto, a impossibildade de baixar o custo do trabalho aliada ao interesse geral de lutar contra a inflação e à necessidade intrínseca e legítima de manter o lucro, levou a que a indústria europeia, com o beneplácito dos governos, nessa altura (meados de 70 a meados de 80) quase todos de esquerda, iniciasse um processo hoje irreversível: a sua deslocalização para países do Terceiro Mundo com uma mão-de-obra de custos muito mais baixos e de direitos quase inexistentes.
Este movimento, que deu origem à globalização da economia, teve consequências inexoráveis. Acelerou-se assim a redução de oferta de emprego, passando o desemprego a ser um problema crónico e estrutural. Por outro lado a deslocação do valor acrescentado para outros países levou a consideráveis perdas de receita para os estados e sociedades europeias, ao mesmo tempo que aumentavam as despesas sociais. Mas, para agravar tudo, a sociedade do bem estar, do materialismo individualista, tinha trazido sequelas importantes e profundas. O choque inflacionista dos anos 70 contribuiu para interromper e inverter drasticamente o crescimento demográfico. As melhores condições de vida fizeram aumentar substancialmente a longevidade média. As novas tecnologias, aliadas a um certo egocentrismo das novas gerações, fez alargar os tempos de educação e formação. Assim, as pessoas passaram a entrar no mercado de trabalho muito mais tarde e, por opção ou fruto das reestruturação da indústria, passaram a saír dele muito mais cedo. A vida contributiva das pessoas foi-se tornando progressivamente mais curta do que a vida assistida pelo Estado. Tudo isto gerou um desequilíbrio insanável dos sistemas de segurança social. Já lá voltaremos.
Entretanto, com a globalização, que mais não é do que a deslocalização institucionalizada, outros países onde os custos e direitos do trabalho são impressionantemente mais magros, passaram eles a ser os fabricantes de grande parte do que consumimos: a China, a Indonésia, a Malásia, o Paquistão, a Índia, o Bangladesh, etc. Nesses países reproduzem-se hoje os primeiros tempos da Revolução Industrial: o trabalho quase escravo, de 18 horas por dia, 7 dias por semana, o trabalho infantil, a ausência de condições de trabalho, a ausência de protecção e garantias ao trabalhador, todas aquelas coisas que hoje nos horrorizam mas que são iguais às que haviam na industriosa Inglaterra dos primórdios do séc.XIX. Mas o facto é que estas condições miseráveis permitem custos baixíssimos que atraem empresas de todo o lado. E estes países, os novos manufactureiros do Mundo, começam a saber fazer, a saber fabricar, começam a ter a sua própria revolução industrial, importada mas revolução ainda assim. E começam a criar riqueza a sério, riqueza que é chocantemente mal distribuída. Mas quem sabe se tal como aqui na Europa, o correr dos tempos não corrigirá isso. Pois tal como os antigos e miseráveis camponeses da Inglaterra, estes novos proletários começam agora talvez a ganhar qualquer coisita para comer.
Recordo-me duma história contada por um amigo meu, que partiu a seguir ao curso, para trabalhar em ONG´s internacionais. Há cerca de 10 anos andava ele pelo Paquistão a prestar assistência em higiene e saúde públicas. Conheceu aí as tais crianças que trabalham em fábricas a fazerem bolas de futebol da Nike e da Adidas, recebendo 1 ou 2 dólares por dia, um dia sem fim em condições terríficas. E bolas que a mesma Nike vende a 50 dólares cada uma! Disse-lhe um dia um dos miúdos que “fazer bolas para o Ronaldo era muitíssmo melhor e mais bem pago do que passar todo o dia, todo o ano, a fazer tijolos de adobe”! Não me entendam mal: a exploração do trabalho infantil é algo inominável, não estou a defendê-la. O que estou a dizer é que a globalização criou um mercado global de trabalho completamente assimétrico.
E quanto ao capital? Esse foi-se desnacionalizando a partir do momento em que teve que se deslocalizar. E desnacionalizando-se, perdeu a noção da responsabilidade comum com os Estados de onde provém originalmente. Os leões da indústria passaram a ser enguias que nos escorregam pelos dedos. Não será pois fácil contar muito com o capital para ajudar a resolver o berbicacho que pela Europa vai surgindo. Até porque eu tenho cá um pressentimento: o capital sente que é nestes países emergentes, os países dos seus novos trabalhadores a meio-tostão furado, que vivem também os seus futuros consumidores. E são bilhões e bilhões deles! Por isso, adivinho que, mitigada e progressivamente, lhes será aplicada a mesma fórmula que foi aplicada na Europa. Ainda bem para toda aquela gente!
Agora cá pela Europa as coisas não andarão simples. Hoje a luta ideológica assentou arraiais à volta de uma coisa cuja sobrevivência penso não ser possível: o modelo social europeu. Penso que é uma luta essencialmente retórica. Os liberais direitistas, procuram aliviar os estados europeus do fardo imenso que sobre ele pende custe isso o que custar às populações, os esquerdistas solidários e utópicos defendem a todo o transe os belos direitos que foram conquistados num contexto que desapareceu já há uns bons anos. Mas, curiosamente, vemos o SPD alemão a cortar no factor trabalho, e os chiraquianos franceses a apertar o factor capital. E vemos os trabalhistas britânicos a pairar divertidos sobre tudo isto pois a crise não mora lá ainda. No fundo, a verdadeira luta deverá ser dar a conhecer a situação que se nos depara. E que surjam líderes que tomem opções difíceis e convençam as pessoas da bondade dessas opções.
Mas não ando optimista. Para mim a Europa entrou num ciclo prolongado de empobrecimento. A sociedade do bem-estar terá aqui os dias contados. E, como de costume, a primeira vítima do empobrecimento geral é a justiça social. Não gosto de o pensar, mas não resisto a um pequeno sentimento, talvez mesquinho, talvez masoquista, de que nós merecemos o que aí vem.
Quanto ao resto do Mundo, a situação variará certamente. Quanto aos Estados Unidos, nunca fui capaz de perceber um país capaz de reeleger uma marionete desengonçada; por isso não consigo prever nada. Quanto ao Terceiro Mundo, aquele que passa à margem da globalização, prevejo infelizmente que venha a ser cada vez mais pobre. E prevejo também que os novos tycoons da economia global, de outras culturas e filosofias, alheios à ética humanista e cristã, se irão estar ainda mais borrifando para eles. Disse.

Comecei a escrever este texto, que se converteu numa pastelada imensa, para explicar porque é que eu acho que a dicotomia direita/esquerda nada tem a ver com o ser-se cristão. Neste momento, porém, o que verdadeiramente penso é que essa dicotomia não tem nada a ver com nada. Começo também a pensar que a diferença entre a esquerda e a direita consiste apenas em se andar mais ou menos enganado. Os tempos que se avizinham irão demonstrá-lo.

E pensando agora em tudo isto, sinto-me amparado pelo facto de ter Fé em Cristo. Que Ele nos valha a todos.

José (
GUIA DOS PERPLEXOS)

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