<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, outubro 13

 

O meu Manifesto (3ª parte)

Nota prévia: que me perdoem os leitores mas caiu-me no goto esta coisa das notas prévias. Neste caso apenas para dizer que o texto abaixo não tem quaisquer pretensões científicas, resultando apenas de meras impressões retidas de leituras várias. E que não é ainda desta que vou directo ao assunto.

Se a Revolução Francesa foi a grande contribuição que a França nos deu para o caldo ideológico que hoje consumimos, já a Inglaterra essa ofereceu-nos a Revolução Industrial. As duas, quase contemporâneas uma da outra, e cujos efeitos se tem inextrincavelmente associado, deixaram-nos um lastro que ainda hoje carregamos. Falemos pois um pouco da que mais me interessa - a Industrial, naturalmente.
Como outras anteriores, a Revolução Industrial do séc.XIX, surgiu e desenvolveu-se a partir dum enorme salto tecnológico que, neste caso, foi a invenção e aplicação da máquina a vapor aos mais diversos domínios industriais. Isto levou a que fosse possível fabricar novos bens de consumo a uma escala nunca antes de vista. Tal facto teve enormes consequências aos mais diversos níveis. Tendo surgido numa altura em que o colonialismo europeu, sobretudo o britânico se estendia já por todo o globo terrestre, procurando criar por todo o lado sociedades-réplicas, foi importantíssimo poder alargar espantosamente a oferta de produtos manufacturados a preços muito mais baixos, podendo assim ser distribuídos por todo o lado, ajudando assim ao processo de colonização material e cultural. O império marítimo britânico, depois do português e do holandês, tinha criado uma poderosa rede de distribuição global que assegurava o escoamento rápido e eficiente dos produtos made in Britannia. O progresso do comércio e da banca inglesas levaram a um espantoso crescimento e enriquecimento da sua classe mercantil. Isto levou a uma 1ª mutação social na Inglaterra protestante, diferenciando-a notavelmente das monarquias continentais: um enorme desenvolvimento material, moral e político da burguesia industrial e comercial, independente da nobreza terra-tenente, a qual contudo, com privilégios ainda feudais estendidos por todo o mundo, se manteve nesses tempos como a mais poderosa e orgulhosa de toda a Terra.
Mas há uma 2ª mutação ainda mais importante. A nova indústria, que trabalhava não só a vapor como também a todo o vapor, precisou subitamente de uma enorme massa de mão de obra que foi roubada ao campesinato oprimido e explorado pelos landlords descendentes dos normandos. E que partiu em massa para os bairros industriais de Yorkshire e não só. Foram aos milhões servir não só a indústria transformadora, como também a indústria extractiva do combustível sobre o qual tudo assentava: o carvão. Criou-se assim um imenso proletariado industrial, concentrado em áreas muito mais restritas que o vasto countryside inglês. Naturalmente, dada a eterna cupidez dos homens, esse proletariado foi durante décadas e décadas ferozmente explorado. Foi este proletariado imenso que deu motivação e matéria para que alguns recolhessem os estilhaços ideológicos da Revolução Francesa e criassem a nova ideologia universal do socialismo. Curiosamente não surgida na Inglaterra da Revolução Industrial original mas no seio das suas réplicas tardias e continentais. Todavia a mensagem de Marx e seus amigos chegou também a Inglaterra e aí encontrou terreno fértil. E o proletariado inglês, ciente da riqueza que produzia e da força do seu número, levantou a sua voz e o seu punho. Ora, curiosamente, enquanto que na Europa Continental os levantamentos operários foram travados à cutilada e se esbateram sem consequências, em Inglaterra isso não aconteceu. Em Inglaterra a coisa correu até muito bem!
Será interessante tentar perceber porquê. Aqui, eu devo dizer que não estou a citar nenhum autor de teoria política (eu cá não leio coisas dessas...), mas sim a recordar o que li na riquíssima obra jornalística de Eça de Queiroz enquanto cônsul e correspondente em Inglaterra e mais tarde em Paris (compilada nas Crónicas de Londres, Cartas de Inglaterra, Notas Contemporâneas).
Na realidade, a longa tradição constitucional inglesa (contrariamente aos absolutismos continentais) aliada a uma profunda tradição de ética protestante, permitiu uma eficaz gestão desta primeira crise do capitalismo industrial moderno. É que em Inglaterra a opinião pública sempre contou e, desde a revolução cromwelliana, o poder instalado sempre teve um temor reverencial pelas plebes enfurecidas. Por isso quando o proletariado britânico começou a falar grosso as pragmáticas elites desceram logo dos pedestais para perceberem qual o problema daquela gente e como poderia o capital desenvolver-se de mão dada com o trabalho.
Houve em tudo isto vários aspectos que me interessam bastante. Um deles foi o facto de, surgindo do meio do protestantismo inglês, mais precisamente do Metodismo, ter aparecido uma derivação interessante, a Conexão Metodista Primitiva, que quis restaurar o carisma inicial de John Wesley, afastando-se das classes dominantes e virando-se decididamente para a assistência espiritual e material das novas camadas mais pobres da classe trabalhadora, do novo proletariado. Estávamos nos idos de 1815 e este revivalismo metodista deu origem a pregadores revolucionários e mais tarde reformadores. Esta igreja colocou-se ostensivamente do lado dos trabalhadores, aliando-se politicamente aos liberais e mais tarde aos trabalhistas. Ao fazê-lo, deram ao operário inglês a sensação de uma legitimidade transcendente nas suas aspirações e, fazendo-no sentir Deus do seu lado, reduziram assim o seu desespero. Fizeram-no acreditar que a sua condição iria fatalmente melhorar, ao fim de mais ou menos gerações. Por outro lado, o protestantismo vive da Escritura e portanto da literacia. Não é pois surpreendente, que estes metodistas tenham desenvolvido um extraordinário trabalho de educação daqueles milhões de ex-camponeses e, sobretudo, dos seus filhos. Estavam já a lançar as sementes para um nova classe média...
Por outro lado, o capital inglês não podia ser mais pragmático. Depois das primeiras greves desesperadas nas minas e nos teares mecânicos, percebeu logo que não podia passar sem o braço do operário. E descobriu uma coisa mais importante ainda: ali mesmo, não nas Índias distantes, mas bem ao seu lado estavam milhões de potenciais consumidores de toda aquela imensa parafernália de produtos que conseguia fabricar a custos tão razoáveis. Foi assim que o espírito mercantil se encontrou com o humanismo cristão num mesmo propósito: dar melhores condições de vida ao operariado.
Com esta coisa simples conseguiu-se quase tudo. Tornou-se a massa desordeira e incontrolável do proletariado numa nova classe social respeitável e respeitada, digna e dignificada, tão fiel súbdita da Coroa como as restantes. Gastando-se mais dinheiro em salários e regalias para toda aquela gente, vinda já remotamente dum campesinato miserável, conseguiram-se novos consumidores que fizeram desenvolver ainda mais a indústria e o comércio. Entrou-se assim num ciclo de desenvolvimento económico e humano, que foi rapidamente emulado primeiramente e melhor ainda pelos americanos e depois mas mais imperfeitamente pelos europeus continentais.
Provém desta coisa simples o facto de o comunismo dos fins do séc.XIX, nunca ter conseguido ultrapassar o canal da Mancha e ainda menos o oceano Atlântico. Já na Europa continental conseguiu fazer uns bons estragos. O autoritarismo atávico dos Estados, a mistura da velha aristocracia com a burguesia industrial, prejudicaram a inteligência do capital, exasperarado o trabalho. Daí ter havido muitíssimo mais chatices. Até porque o sucesso evidente do operariado inglês e, mais tarde, do americano, funcionou como estímulo para longas e penosas lutas.
Na minha amadora opinião, só depois das duas tremendas e debilitantes guerras mundiais é que a “velha Europa”, para empregar um bushismo, percebeu através do salvador americano e do seu plano Marshall que o modelo de desenvolvimento anglo-saxónico era o bom. E soube aplicá-lo finalmente e com sabedoria, tanto que passados 10 anos do termo da catástrofe, já a Europa, neste caso a Ocidental, tinha renascido das cinzas e entrava numa época de progresso e bem-estar generalizados. Foi então, que nessa Europa se quiz ir mais longe na protecção ao trabalhador. A prosperidade geral permitia já estender a protecção ao trabalhador à sua velhice, à altura de doença, ao episódio de desemprego. E foi isso que se fez, o tal welfare state, o Estado providência, aquilo que hoje se chama o modelo social europeu. Foi por este caminho que os Estados europeus ocidentais seguiram, mal a sua situação o foi permitindo. Um caminho nobre e justo, digno da herança cristã e da herança iluminista, um caminho que, contudo, os americanos não seguiram, vá-se lá saber porquê.
Na próxima (e espero que última) parte irei divagar um bocado sobre este modelo social, pois é ele que hoje em dia dá ainda algum sentido à dicotomia entre direita e esquerda. Será afinal para a semana que falarei sobre quem melhor responde aos desafios que se colocam hoje a este modelo, no qual nascemos e crescemos e do qual não queremos sair.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?