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quarta-feira, outubro 6

 

O meu Manifesto (2ª parte)

Nota: na semana passada quando finalmente me dispuz a falar um bocado de política, verifiquei que todos os outros meus conterrâneos estiveram todos, à uma, a falar de coisas muitíssimo mais importantes. E ainda bem. Mas agora eu meti-me nisto e lá terei de o terminar. Com dificuldade, muita dificuldade. Até porque tenho muito poucas habilitações para falar destes assuntos.

Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom.” (Génesis 1, 31)

Durante longos anos a minha fé encalhou repetidamente na narrativa do Génesis. O facto da ciência demonstrar à saciedade, desde há séculos, um relato cosmológico consistente e divergente do relato bíblico perturbou sem dúvida a minha fé juvenil. Da mesma forma, a descoberta de outros mitos religiosos ou não, contemporâneos ou ainda mais antigos do que a Bíblia, com episódios semelhantes mas falando de outros deuses e de outros heróis (o Livro de Gilgamesh, por ex.) causou-me igual perturbação. Vem daí uma relação difícil com o Antigo Testamento, típica de muitos católicos, da qual ainda não me curei. Contudo, há coisa de quatro anos, resolvi ler o Génesis (naquela fabulosa edição da Três Sinais Editores, de que já aqui falei) e mergulhar nele. Descobri então, com surpresa e com verdadeiro fascínio, o imenso valor simbólico da sua descrição da génese do Mundo. E, muito para além da letra, descobri que sobretudo os onze primeiros capítulos (a Criação, Adão e Eva e sua expulsão do Éden, Caim e Abel, Noé e o dilúvio, a torre de Babel) muito mais do que a descrição histórica da formação do Mundo, são a descrição, simbólica mas exacta, da construção da condição humana, aquela que efectivamente é comparativamente com a que poderia ter sido (ou será um dia) se o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, não tivesse perdido o atributo supremo da semelhança, retendo ainda o da imagem, essa sim inarrancável dada a nossa relação filial com Deus. Descobri então que o livre-arbítrio, oferecido por Deus para que a nossa condição se assemelhe à Dele, nobilitando assim a nossa existência de criaturas neste mundo, é precisamente aquilo que nos permite afastar Dele. O que temos feito. Falei desta questão da imagem e semelhança há pouco tempo no Guia; é um assunto a que irei voltar mas noutra oportunidade. Sintetizando pois e socorrendo-me da Carta a Diogneto, a nossa condição humana tem a ver com o facto de “para nós Ele ter criado o mundo, nos submeteu todas as coisas que estão sobre a terra, nos deu a razão e a inteligência e só a nós permitiu que elevássemos o olhar para o Céu”. Só que também nos ofereceu o tal livre-arbítrio e, consequentemente, toda a estimulante mas perigosa entropia do mundo em que habitamos.
Um pequeno parêntesis para não crentes: não sendo eu um criacionista, não estou naturalmente a defender que estas coisas aconteceram assim, literalmente, cronologicamente. O que estou a dizer é que foram criadas assim, com estas potencialidades.
Mas voltemos ao homem, que é dele que quero falar. Pois muito mais do que da noção que tenho de Deus e do seu projecto para o homem, a minha matriz ideológica tem, isso sim, a vir com a visão que tenho do homem e da condição humana. Senão vejamos.
É certo que o homem surgiu algures e evolui desde aí com necessidades materiais e espirituais, ambas prementes. E que a sua história desde então tem sido a da luta para a satisfação dessas necessidades. Foi para isso que se organizou em sociedade. Foi para isso e por causa disso que se tem desenvolvido tanto. E é precisamente neste ponto que eu volto ao meu manifesto ideológico. Começo por afirmar a minha visão de que, sendo a vida em sociedade o leito pelo qual a Humanidade pode avançar no atingimento das suas aspirações e no aperfeiçoamento da sua condição, então é desejável que a evolução dessa sociedade seja feita sem a sua desestruturação. Tenho um genuíno receio de tudo o que é socialmente desestruturante, endógena ou exogenamente, pois tem trazido sempre catástrofes e recuos civilizacionais. Já sei que vão dizer que isto é a visão de um conservador (e é!), e que a evolução se faz por ciclos de destruição e de reconstrução e sei lá mais o quê. Talvez o seja, mas o presente esgotamento de recursos do planeta e as enormes tensões provindas das extremas diferenças “geodésicas” em termos de conforto material e ethos cultural, tornam tudo isto imensamente mais perigoso. Daí que quando me aparece algum peralvilho bem intencionado a falar de temas fracturantes tenho um desejo incontido de chamar o 112...ou pior.
Mas adiante. Quanto ao papel do homem na sociedade, eu coloco uma ênfase muito forte na responsabilidade individual. É que, na minha modesta opinião, o valor superior da solidariedade não é simplesmente possível de ser exercido se não houver uma noção generalizada e interiorizada da responsabilidade de cada um perante todos os outros, material e espiritualmente. Aquela máxima marxista, tão do agrado do meu amigo Timshel, “de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades” parece-me uma obrigação axiomática para qualquer sociedade, infinitamente superior em termos morais àquele “a cada um segundo as suas possibilidades” deste neo-liberalismo sem alma, à la Haliburton, tão em voga mas tão reles. Contudo a aplicação prática desse princípio excelente tem-se traduzido infelizmente por uma redução das possibilidades dos primeiros e um aumento das necessidades dos segundos...E isto tem acontecido porque é grande e crescente a diluição da responsabilidade individual. Os que tem e podem, não querem partilhar, não querendo ver a necessidade que existe a seu lado. Mas também entre aqueles que necessitam de receber há aqueles que não querem deixar de receber, há mesmo quem receba sem verdadeiramente necessitar. Dando assim mais pretextos aos que não querem partilhar o que tem.
Isto está certamente a soar pessimamente pelo que será melhor precisar que, neste momento, falo apenas da nossa sociedade mais próxima. Não falo obviamente do Terceiro Mundo do qual falarei mais tarde, aquando da globalização. Estou a falar sim da sociedade que conheço, a nossa, a portuguesa. Onde parece ter-se perdido a noção de que antes de ser distribuída, a riqueza que permite o bem-estar tem de ser produzida. E que quanto menor a riqueza produzida inevitavelmente maior será a injustiça na sua distribuição.
Eu sei que estou a ser confuso o que decorre do meu pouco à-vontade nestas temáticas, mas surge-me agora uma reflexão. É bem conhecido o facto de que o capitalismo derrotou o marxismo, subvertendo-o através das legítimas aspirações materiais das gentes. Eu diria que o capitalismo conseguiu substituir o materialismo dialético pelo materialismo consumista. O espectáculo de um nível de vida muito melhor e aparentemente possível, minou as convicções das bases que sentiam que as suas cúpulas já há muito tinham atravessado para o outro lado do rio e que por esse facto tinham já morto a credibilidade ética do próprio marxismo. Agora o que me parece interessante é que a falência do marxismo subverteu ela própria o capitalismo, também na sua dimensão ética, o que provavelmente, se nada se fizer, levará à sua destruição e substituição por um sistema oligopolista sem alma. E essa falência quase simultânea acontece, no meu ponto de vista, pelo facto destes dois sistemas antagónicos terem afinal ambos na sua génese uma matriz cristã. Vinda de um Cristo que nos fala da multiplicação dos talentos e nos diz também que não podemos servir o dinheiro. De um Cristo que para alguns denuncia a maldade inata do homem e que para outros anuncia a permanente possibilidade do bem em cada um de nós. Ora, sendo o capitalismo e o marxismo filhos da mesma mãe, natural será que o naufrágio ético de um acarrete o desamparo ético do outro neste mundo de homens que querem esquecer-se de Deus. Há uns meses, quando ouvia de manhã na TSF os Sinais do Fernando Lopes, escutei uma frase que me deixou varado: "Hoje o capitalismo já não explora os pobres: ignora-os.
" Eis uma verdade que grita.
É pois com tristeza que assisto, também no meio em que me movo, a um crescente alheamento da noção da responsabilidade social, a um cada vez maior sentido darwinista da vida em sociedade, no fundo a uma perda do sentido cristão da vida que devemos ter. É precisamente por isto que eu não gosto de falar de política: sendo direitista, sou um direitista triste, eu que em quase tudo o resto sou alegre. E mais triste sou pelo facto de não encontrar na esquerda uma resposta eficaz para os desafios que se nos colocam nos dias de hoje. Explicarei porquê na próxima semana.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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