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segunda-feira, outubro 25

 

O lugar do outro

Terminei a última lição de moral dizendo que o Outro é um elemento essencial na escuta da Verdade. É sobre isso que vou falar hoje, com algumas citações à mistura (já há uns tempos que me tenho contido!).

E para começar, vamos a um post do
manuel:
"Onde dois ou três se reunirem em meu nome, Eu estarei aí". Deus está onde há relação entre as pessoas. Deus não é um tesouro escondido que cada um guarda para si, fechado no cofre da sua individualidade. Este Deus está sempre mais perto dos pobres. E, por isso, Ele está onde dois ou três se complementam, Ele está onde dois ou três assumem os seus limites. É o Deus dos frágeis, não dos seguros e poderosos."

Já aqui falei sobre a parte do Deus dos frágeis e não dos seguros e poderosos. Hoje o que quero dizer é muito simples e dispensava bem linhas e linhas de texto. Podia exprimir-se assim: a fé dos cristãos ou é vivida em relação com os outros, ou não é.
Todos nós definimos a nossa personalidade por exclusão. Percebendo-nos distintos uns dos outros. O desenvolvimento psico-social segue este caminho: a criança que percebe-se independente do que a rodeia e dos que a rodeiam. Em Jesus Cristo encontramos o que se podia chamar de personalidade inclusiva. Alguém que está pronto a acolher e escutar a todos. Nós, naturalmente, construímos as nossas reservas e preconceitos em relação a outros. Guardamos sempre um pedaço de desconfiança com desconhecidos e conhecidos. Especialmente se tiverem perspectivas, maneiras de pensar e de ser diferentes das nossas. Para mim, essa é a diferença fundamental expressa pela célebre frase que diz que Jesus era "em tudo igual a nós menos no pecado". O pecado é sempre quebra de relação. A disponibilidade plena e total para o Outro é a diferença que Jesus marca e que os cristãos seguem como inspiração.
Entre os (muitos) messias que povoavam o médio oriente há 2000 anos, não são os milagres que distinguem Jesus dos restantes. Curandeiros, ermitas, profetas e milagreiros abundavam no seio da cultura hebraica. Tão pouco os dois mandamentos essenciais do amor a Deus e ao próximo são uma genuína novidade. Essa forma de resumir a doutrina era própria de uma determinada corrente de pensamento entre os fariseus. A novidade de Jesus não é nem fenomenológica nem doutrinal. A novidade de Jesus é que nos propõe um Deus que é relação. Os cristãos acreditam que é possível aqui e hoje amar Jesus -- vislumbrar a dimensão de Deus -- porque é Ele que nos propõe essa relação. Mais: é na relação entre as pessoas, que nos é possível encontrar essa dimensão de Deus.
É nesse sentido que vão as palavras de D. Manuel Clemente: «A grande descoberta deste século é precisamente esta: as verdades não existem fora das pessoas. Sob este ponto de vista, a primeira realidade é o acolhimento do Outro.»
A primeira realidade é o acolhimento do Outro. A espiritualidade cristã não busca nenhuma auto-iluminação, nenhuma auto-elevação espiritual. Tão pouco busca energias cósmicas ou passar pela vida evitando o sofrimento. A espiritualidade cristã é a vivência com outros, na relação com outros e com a natureza, de um estilo de vida coerente com a sua mensagem de Amor. A mensagem da Ressurreição é também essa: a morte, a separação suprema entre as pessoas, não terá a última palavra. Assim, a questão do cristianismo não é tanto de religião, mas sobretudo de humanidade. Não é tanto uma questão de re-ligação de cada pessoa a Deus, mas sobretudo de encontro de Deus na relação entre as pessoas. Por isso se diz que ninguém se salva sozinho, ou que ninguém é livre sozinho. A nossa liberdade não acaba onde a do outro começa mas, precisamente ao contrário, a nossa liberdade só é plenamente vivida enquanto participa na liberdade do outro. Não sou plenamente livre enquanto houver quem vida oprimido.
O célebre versículo "quem procurar salvar a vida, há-de perdê-la; e quem a perder, há-de conservá-la", presente nos três evangelhos sinópticos aponta nessa direcção: a nossa vida só é ganha, só vale a pena, se for perdida, se for gasta com os outros.

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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