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quarta-feira, outubro 27

 

O último segredo

«Por isso, vos digo: Todo o pecado ou blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia contra o Espírito não lhes será perdoada. E, se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no futuro». (Mateus 12:31-32)

Como é que no meio do erro foi possível passar o seu testemunho? – Ou será que respondemos que sobreviveu porque antes existiram de um lado os maus e de outro lado os bons e que estes bons como nós não cometeram nem esses erros, nem outros? – Assim, teríamos de facto encontrado será uma explicação para a passagem de testemunho. O testemunho teria passado então porque transportado pelas mãos dos bons. No entanto, dissemo-lo, essa hipótese parece fictícia. A começar, porque os santos ensinam que também são pecadores. Entretanto, podemos continuar por outros lados. Pelos lados onde habita a maldade. E assim inquirir: se a maldade habitou no coração dos santos, a bondade poderá ter lugar nos corações dos impuros? – Terão os maiores entre os maiores criminosos espaço para a santidade?
Se estamos dispostos a aceitar o pecadão nos santos, já não parece tão fácil admitir que nos piores criminosos possa habitar – seja de que modo for – a santidade. Nesta ausência de sinais de santidade encontramos a justificação para os condenarmos. Encontramos a paz que não perturba os nossos julgamentos. Mas, diz o Evangelho que quando julgamos o outro, devemos ver primeiro se aquilo que julgamos nele não se encontra já em nossos olhos. Se a nossa voz não é subornada, se a nossa força não é passividade que ajuda a colocar gás em campos de concentração. Se o verificarmos, talvez, tenhamos depois autoridade para dizer qualquer coisa acerca do seu comportamento. Mas nunca autoridade para os condenarmos.

Para um cristão, está de todo afastada a hipótese de condenação. Nunca sabemos – é mais uma vez a lição do ladrão na cruz – o que se passa no diálogo entre um homem e Deus. Ou desviando-nos até um post em realce no Timshel que provém do Enchamos tudo de futuros, nunca sabemos que diálogo se estabelece entre o homem e o Espírito. E isto é importante. Pois há apenas uma fronteira onde a blasfémia e o insulto se tornam condenação. Podemos blasfemar contra Deus, contra as suas barbas, ou pura e simplesmente arrancar os nossos pêlos perante o mal que presumimos que tolere no mundo. Podemos dizer que Cristo não o era. Mas não podemos fazê-lo contra o Seu Espírito. Não contra o Amor. Podemos amaldiçoar o dia em que nascemos e o dia em Deus criou o mundo, podemos recusar-nos a conversar com Deus ou com o mundo, mas não podemos amaldiçoar o amor, nem interromper de vez o diálogo que ele sempre quer estabelecer connosco. Se o fizermos cairemos na alçada dura da condenação.

Isso, esse diálogo, esse fluir, é coisa que não sabemos se já aconteceu ou se irá acontecer na vida do outro. É coisa que não sabemos se o outro faz ou não faz. Não sabemos o que outro conversa com o amor, nem sabemos como o amor flúi ou reflui nas suas veias. E se isto nos está velado, também nos está vedada a condenação: de facto, se podemos ter provas que o outro não fala com Deus ou com Cristo, se para isso basta na maioria das vezes que confesse que não o faz, a verdade é que nunca teremos nas mãos a prova definitiva de que o fluir e o diálogo amoroso está no seu coração definitivamente interrompido…

Isto também porque o outro dificilmente sabe quando poderá encerrar as portas. Por vezes, mais vezes do que aquelas que poderia e poderíamos julgar, habita nele a esperança. E por mais que se esforce a abafá-la tem que lidar com algo que é muito mais do que apenas resistente... É dito que a esperança é a última coisa a morrer. E é a última – mesmo – quando nela habita o melhor desejo, mesmo que este desejo seja teimosamente deixado na sombra e no segredo.

Fernando Macedo (
A BORDO)

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