<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

segunda-feira, outubro 4

 

Intervenção Divina (I)

Há duas semanas, o Timshel referia aqui na Terra da Alegria algumas perguntas que lhe tinha colocado num comentário a um post em que afirmava não acreditar na omnipotência de Deus. Parecia-me uma afirmação invulgar para um católico, e fiquei ainda mais surpreendido quando descobri mais tarde que alguns dos seus conterrâneos na Terra da Alegria partilham esta ideia.
Para que não haja mal-entendidos: longe de mim censurar o
Timshel ou outro católico para ter opiniões heterodoxas! Nem sei se são heterodoxas...
Fiquei com a ideia de que o Timshel (e outros), talvez não só mas também por isso, se recusa de acreditar num Deus omnipotente porque lhe parece essa ideia incompatível com a dum Deus bom.
Mas não é preciso de recorrer a questão da compatibilidade de “Deus omnipotente” com o “Deus bom”, para encontrar respostas sobre a Sua omnipotência.
Deus omnipotente seria não só o Criador, como um ser consciente com poder para intervir, em qualquer altura, na sua criação e alterar os acontecimentos de acordo com o seu livre-arbítrio.

Há o famoso paradoxo – ainda há dias referido pelo
Carlos, da pedra tão grande, criado por Deus, que Ele já não a consegue levantar. Há outros. Logicamente, não vejo como Deus possa evitar que um determinado acto Seu, que visa ter o efeito a, mas que teria, por razões lógicas os efeitos a e b, acabe mesmo ter também o efeito b e não só o desejado efeito a. Um exemplo: se Ele decidia ceder mil anos de vida a todos os homens e uma taxa de natalidade de 900 filhos por casal e vida, não podia mantê-los todos no nosso planeta terra. Teria que aliar a essa medida outras, quer queira que não queira. Também Ele terá de escolher os Seus actos tendo em conta as suas consequências nefastas...
Como se vê, a Sua liberdade é limitada pela causalidade geral. Podemos admitir, o que é logicamente possível, que Ele tem a liberdade de quebrar a causalidade ocasiaonalmente, mas não pode violá-la de um modo geral. Se o fizesse, deixava de haver lógica qualquer ordem no mundo.
Concluimos então que Ele é, embora não necessariamente de forma total, refém da Sua criação. Podemos imaginá-Lo como um mecânico ao lado da máquina que construiu e que agora está em andamento: Pode intervir aqui e acolá, modificando o seu funcionamento e os seus resultados, tanto pontualmente e sem efeitos mais vastos, como também com efeitos duradouros, pode até mudar algumas regras, mas não pode fazer com que ela faça tudo que lhe podia – hipoteticamente – dar na gana.
É inevitável que, se queremos especular sobre a (omni)potência de Deus, temos que admitir a validade da lógica. Não se pode invocar aqui o argumento, que se ouve frequentemente em face da revolta humana perante o sofrimento injusto (ainda lá vamos...), que “os caminhos do senhor são insondáveis”. Isto não é um argumento. Não é mais do que um convite à submissão ao incompreensível. Enquanto conselho para quem não consegue entender o sofrimento inútil, este não é logo de dispensar, mas como proposta para uma atitude em situações nas quais talvez não restam alternativas melhores.

Se nos viramos agora para a questão da bondade de Deus, tendo em vista o Seu poder, temos porém de constatar que a limitação do Seu poder não explica de forma bastante a Sua aparente inacção perante tantas desgraças e injustiças. Não parece que seja por razões lógicas que não pode fazer mais. Se não pode fazer mais, não pode por outras razões, (que, no entanto, não vislumbro.) Outra alternativa razoável é supor que Ele não esgota, de longe, os seus poderes para minorar o sofrimento e a injustiça.
Aqui alguém dirá: “Ele terá as Suas razões.”
Certamente. Devemos admitir que Ele tenha as Suas razões. Ele é Deus.
Mas então das duas uma, ou as Suas razões são parte integrante duma grande Razão Sua, universalmente válido para Ele e para nós, e tudo o que acontece e que Ele faz passa se dentro dessa Razão, que nós humanos só não conseguimos ver, porque está além do horizonte da nossa compreensão.
Neste caso seriamos convidados para admitir que no fim, no fundo, tudo se equilibrará, seja através duma aritmética da culpa, seja através de compensações invisíveis, ou futuros, que existem, ou irão existir na vida eterna. É uma suposição que resolve a questão, mas confesso que não me satisfaz. Por um lado, porque insistindo naquilo que eu humano posso ver e compreender, não compreendo por exemplo como e porquê o sofrimento duma criança vítima de experiências médicas em Auschwitz passa a fazer sentido só porque será compensada numa vida após a morte. Por outro, porque esta explicação não se livra do sabor pouco credível dum elemento adicionado com custo a uma teoria, pela única razão porque sem ela a teoria estar condenada.

Há uma outra alternativa: as Suas razões não têm nada a ver com o que nós, humanos, consideramos como Bem ou Mal. As regras que Ele estabeleceu para nós, não regem de forma alguma as Suas acções.
Porque Ele é soberano, soberano absoluto. E se assim for, não faz sentido reclamar-lhe justiça.
Só, neste caso, também não podemos considerá-Lo justo. Não adianta estabelecer, mesmo para um soberano absoluto, como regra que qualquer dos seus actos, por definição, seja justo. Se o fizermos, esvaziávamos o conceito da justiça de todo o seu conteúdo. Se os Seus actos são arbitrários e não obedecem a qualquer regra, não têm justiça. O que ainda não tem que dizer que Ele seja censurável. Não seria justo, mas como Deus está em qualquer caso acima da censura humana.
Neste caso resta ao homem só a total submissão a Sua vontade. Só podemos pedir a sua misericórdia: não porque Ele se revelou como misericordioso, mas somente porque está no seu poder de o ser! (Não é essa a visão de Deus do Velho Testamento e também, quanto sei, do Deus do Islão?) .
Podemos falar, neste caso, dum Deus bom? Sim, mas num sentido muito diferente de que hoje estamos habituados de chamar um homem bom. Não é bom porque obedece aos códigos morais que definem o Bem e o Mal, mas duma forma elementar e amoral: porque tem o poder de fazer nos bem!
Pode ser bom como o Bom Rei, que amamos para poder temê-lo um pouco menos (ele também tem o poder de nos fazer mal).
Não são os seus actos, é a nossa expectativa que nos leva a qualificá-lo como bom.

Creio que se percebeu, que, quando aqui falei de Deus, não falei Dele mesmo, mas duma ideia coerente que tentei conceber Dele, dum ser dotado de consciência, vontade, poder e um mínimo de atenção dirigido a sua criação. Não posso dizer que tenho indícios de que esta ideia está correcta, e se conseguir construir uma ideia coerente Dele, não terei mais do que a coerência e compatibilidade com as minhas observações do mundo.
O que é muito, mas mesmo muito menos do que Fé, e por isso reafirmo que estas especulações teóricas sobre Deus são interessantes, mas para mim, no fundo bastante laterais.
Tenho, sim, uma ideia da intervenção divina. Mas já não me resta tempo e espaço para a desenvolver neste post. Fica para o próximo. Não sei se será para o leitor, mas para mim o próximo post será incomparavelmente mais interessante. Porquê?
Hoje, só um palpite: quando escrevi o presente post, reparei como ele me sempre remeteu para ideias e conceitos do Velho Testamento. O próximo irá remeter-me para o Novo Testamento. Em vez de raciocinar sobre o Poder do Deus Pai falarei sobre o Amor do Deus Irmão.


Lutz [QUASE EM PORTUGUÊS]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?