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quarta-feira, outubro 6

 

História

No que concerne a tudo que tem a ver com o Novo Testamento, temos de partir de um dado básico. Houve primeiro uma Revelação oral que por vicissitudes diversas passou a escrita. O processo sofreu diversas vicissitudes e para compreender a fixação escrita do Novo Testamento era preciso analisar as diversas tradições orais, a fonte Q, a complexa história que envolve a selecção dos textos. Mas o que aqui se retém é um facto simples: uma vez fixado o Novo Testamento, é preciso lê-lo.
Essa leitura, como qualquer leitura, sempre foi fonte de problemas. Estes problemas não são nem nunca foram poucos. A começar porque a tradição cristã sempre viveu no registo da divergência. Este é um facto a que não se dá a importância devida. Mas é verdade que as divergências no cristianismo começaram cedo. E tanto que se pode dizer que não há cristianismo sem divergência.
Para o percebermos, basta olhar para os primeiros dias e observar o que envolve a vida e obra de São Paulo. Com Paulo, vemos divergências teóricas e práticas. Em primeiro lugar, podemos ver algumas divergências que parecem menores, mas que quanto a nós mereceriam melhor meditação. Por exemplo, o modo como são vividas pessoalmente as diferentes rotas evangélicas e que têm a ver com o modo como São Paulo se relaciona com aqueles que o acompanham no caminho ou que dele se afastam para avançarem em trajectos diferentes mas igualmente evangélicos.
Em segundo lugar, São Paulo levanta questões mais «pesadas»: devem os cristãos seguir a tradição judaica? Com que fundamento? – Para estas perguntas, as soluções oscilaram entre as propostas que advogavam uma mesma linha teórica ou de conduta, e as propostas que propunham um registo de pluralidade.
Seja como for, é inegável que a pluralidade é marca do cristianismo desde o seu nascimento. E é também um facto a que não se dá importância devida. Fora e dentro do cristianismo.

Ler implica interpretar. E a interpretação varia. Quando o cristianismo procurou tornar «claro» o Novo Testamento, viu-se ao longo da sua história confrontado frequentemente com uma pluralidade de interpretações. Assim, a sua história dá a ver diversas interpretações quanto à natureza do Espírito Santo – pense-se por exemplo na interpretação Católica e na interpretação Ortodoxa –, diversas interpretações quando à natureza do Filho – pense-se por exemplo no adopcionismo, no monofisismo, no arianismo, em Niceia, etc., etc.… Entretanto se ler implica interpretar e se as interpretações têm variado, também os «mecanismos» usados na interpretação têm a sua história de divergências. Isto pode por exemplo, ser constatado na questão que tenta dirimir o peso a atribuir à fé ou à razão.

Entretanto, hoje a leitura do Novo Testamento parece confrontar-se com dificuldades que provêm de outro lado. Foucault anunciava que vivemos o tempo da história. E parece que sim. Parece que qualquer interpretação tem de ser sustentada por um passado, um presente e um futuro. Parece que nenhuma interpretação pode estar «segura» de si se não for suportada por um relato histórico. Por isso, vemos hoje multiplicadas as histórias da física, da matemática, da biologia, as histórias da história, as histórias da economia, as histórias da arte, da pintura, da música ou ainda as histórias da filosofia.
Por isso, não é de estranhar que a Revelação neo-testementária se veja envolvida por este ambiente e que se veja envolvida nas problemáticas da história. Não é de estranhar também que uma das estratégias de alguma teologia contemporânea passe por procurar na história um dos meios para melhor compreender as palavras e actos de Jesus. Mas também não é de estranhar então que autores como Dan Brown procurem na história um dos meios para atacar aquilo que as diversas tradições cristãs propuseram pensar acerca da sua fonte de inspiração.

Fernando Macedo [A BORDO]

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