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segunda-feira, outubro 4

 

A escuta

Como prometido, aqui está a minha primeira de sete lições de moral. E para começar falemos da escuta:
Do
dicionário online da Texto Editora: Escutar: v. tr., dar atenção a; fazer por ouvir; atentar, prestar ouvidos; indagar; ouvir.

Sempre me intrigou ouvir alguns discursos de outros crentes falando da sua relação com Deus numa perspectiva de encontro. Sempre que ouço alguém dizer que aqui ou ali encontrou Deus, fico de pé atrás. Já ouvi demasiados discursos intimistas sobre a felicidade de encontrar Deus nesta ou naquela ocasião, nesta ou naquela missa ou oração, neste ou naquele encontro de dezenas ou milhares de pessoas. Discursos muito sentidos, na maior parte das vezes comovidos até. Respeito, obviamente, a espiritualidade de cada um, nem pretendo, ao contrário do que o título destas crónicas possa fazer crer, fazer de professor em matéria tão delicada. Porém, tenho para mim que para um cristão, a sua relação com Deus, mais do que de encontro, é uma relação de escuta, de procura.
Deus está sempre para lá do julgamos ter encontrado. Ele "habita numa luz inacessível" (1 Tm 6, 16), que "nem os céus nem os céus dos céus conseguem conter" (1 Rs 8, 27), Ele é "o mistério escondido ao longo das gerações" (Cl 1, 26), a quem "jamais alguém viu" (Jo 1, 17). A primeira condição do crente é afirmar a transcendência de Deus. Como dizia Simone Weil, «estou certa de que não existe Deus no sentido em que estou certa de que nada de real se assemelha àquilo que eu concebo quando pronuncio esse nome. Mas aquilo que eu não posso conceber não é uma ilusão».
Não O podemos conceber. Onde e como podemos então encontrar/procurar/escutar Deus? A tradição judaico-cristã desenvolveu uma ideia peculiar: Deus revela-se na história. Os cristãos acreditam no “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob” (Ex 3, 6). Não é o Deus da sabedoria das ideias, nem da magia da natureza, mas o Deus dos antepassados, da história das pessoas. Mas não vou antecipar "O lugar do outro" e "A História nunca pode ser travada", por isso voltemos à escuta.

Karl Rahner, um grande teólogo alemão, num texto sobre a nossa relação pessoal com Jesus intitulado "Amar Jesus", começa por distinguir dois mal entendidos comuns entre muitos cristãos: ao primeiro mal entendido chama "jesuanismo" -- encarar Jesus simplesmente como um modelo, um homem que viveu de maneira iluminada, exemplar e desinteressada, mas não mais que isso --; o segundo mal entendido é fazer de Cristo uma ideia abstracta, esquecendo o homem histórico Jesus de Nazaré, sem perceber que é justamente naquele homem concreto que se realiza a boa vontade e o interesse absolutos de Deus pelo mundo. Muitos dos que se dizem cristãos encontraram já o seu deus entre um Jesus-nazareno-revolucionário mais ou menos mistificado e um Cristo-no-céu desenraizado do dia a dia, alheio às nossas alegrias, tristezas, angústias e esperanças.
Por isso reajo epidermicamente quando ouço dizer que nesta ou naquela ocasião "encontrei ou encontrámos Deus". A experiência de fé é feita mais de procura e de escuta do que de certezas e encontros confortáveis. Escutar o fio dos dias. Com outros, falar e voltar a falar do quotidiano, procurar aí os sinais de uma Cidade Outra, da acção do Espírito que "sopra onde quer e como quer". A realidade não é a preto e branco. Não possuímos a história no sentido de ter perfeitamente claro por onde passam os caminhos insondáveis de Amor. Por isso a experiência de Deus é sobretudo uma experiência de escuta e procura.
Contemplação e participação são duas faces da mesma moeda. Conceber um cristianismo onde nos sentamos a contemplar depois de ter encontrado Deus é como se tentássemos imaginar uma moeda com uma só face. Uma moeda a que tivesse sido removida a face da história humana e de todas as suas contradições. Quem diz "encontrei Deus", parou de procurar. Parou de escutar - de fazer por ouvir - o Deus da História.

Zé Filipe [
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

PS: Já depois de escrito este texto, apareceu na
crónica de Frei Bento Domingues, no "Público" uma citação de S. Tomás de Aquino que não resisto a transcrever:
«A Deus conhece-o melhor quem confessa que tudo o que dele pensa e diz fica aquém daquilo que Ele realmente é. (...) De Deus sabemos sobretudo o que Ele não é. O que Ele é, permanece para nós totalmente desconhecido. Por isso, estamos unidos a Deus como a um desconhecido».

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