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quarta-feira, outubro 27

 

[escritos à flor da pele]

há uma semana estive em silêncio. apanhado entre arreliadoras avarias de computador e ausências do computador. afinal, o silêncio também pode falar, lembrava-nos o Rui. hoje, escrevo como num telegrama. sem stopes. mas com minúsculas. porque às vezes é preciso reduzirmo-nos à insignificância das nossas palavras. e de que servem essas palavras se o eco que temos é um muro de indiferença cúmplice. se a réplica que lemos, mesmo que indirecta, mesmo que desconhecendo os nossos gritos ou as nossas estupefacções, é a da verdade, não admitindo diferenças, não querendo quaisquer diálogos. há quem nos diga, nós somos a verdade e a vida, como se não pudessemos nós defender a vida e a verdade, amando de modo diferente, acreditando de forma diversa.
«
casei com um padre», dizia-nos a autora/testemunha, citada aqui neste espaço. e nessa altura desafiava-nos para um debate sobre o celibato, a reintegração de padres casados, a formação nos nossos seminários e como vivem os padres da Igreja deste nosso tempo a sua sexualidade. nada disto parece interessar esses guardiães da verdade que nos enchem os ouvidos, que nem vendilhões do templo único, de pregões dogmáticos. recuso esses pregões, reformo a minha visão se for preciso evangelizar este catolicismo cheio de certezas.
«a igreja é a própria culpa», gritava a autora. não, não é. a culpa transportamo-la nós, desejamo-la nós. e insistimos em viver assim, na culpa. adiante: dizia-me em tempos um padre que tinha abandonado: «nunca tive dúvidas de que queria ser padre! até o ser». para ele, a questão da «afectividade» foi o motor das dúvidas, mesmo não havendo ninguém em concreto no seu caso. nas dioceses portuguesas, outros saíram nos últimos anos: alguns pelos mesmos motivos, outros num "cocktail" de dificuldades e problemas que os afastaram dos altares. mas, geralmente, seguiram o caminho do casamento. em média, os jovens padres têm abandonado quatro a cinco anos depois da sua ordenação, em números recolhidos por mim, em 2002. não nos fazem pensar estes dados. fazem pois.
«as coisas cruzam-se: uma coisa chama outra, e outra chama uma», contava-me outro padre, agora casado. e o abandono acontece. a integração dos novos padres dificulta qualquer acompanhamento rigoroso e um "estágio" mais prolongado: a falta de padres obriga a uma rápida colocação em paróquias (às vezes, mais do que uma paróquia), com o necessário acompanhamento de movimentos e outras instituições ligadas à igreja. «o modelo pastoral é desadequado, as pessoas não se sentem bem e procuram outras coisas», critica quem por lá anda ou andou. os bispos preferem pensar de modo mais complexo - para evitar simplismos. e para evitar soluções. «não há dois casos iguais», dizem os bispos. «cada um tem a sua história própria, cada um tem as suas motivações. reduzir a questão ao problema do celibato é demasiado simplista», disse-me um bispo em tempos. que acrescentava: «a opção profunda pelo celibato precisa de um ambiente onde o jovem padre se sinta acompanhado, como equipas sacerdotais. e nem todos o querem». mas o actual modelo «pode deixar as pessoas mais vulneráveis», reconhecia ele, que recusava "pressa" nas ordenações: «não acredito que algum bispo ordene um padre sem mais, só porque há falta de padres». mas ainda ficava o alerta final: «antes estas crises não aconteciam tão pouco tempo depois das ordenações». pois. e então? sinais dos tempos, dir-me-ão. sinais de sermos todos igreja sem o querermos ser, digo eu.
já vai longo o telegrama. escrito assim, à flor da pele. peço desculpa se os silêncios que se lêem nas entrelinhas não vos dizem nada.

Miguel Marujo (
Cibertúlia)

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