<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, outubro 6

 

Eis como imagino Deus (3) – Continuação do post da quarta-feira passada. Fim.

No post da semana passada, após concluir que o Bem e o Mal são o produto de fenómenos quase inteiramente deterministas, perguntava-me "Qual é então a área de intervenção divina?"
Este vai ser um post longo (cerca de três páginas A4). Em compensação, na próxima semana farei aqui um post com dois parágrafos apenas.

Gostaria de sublinhar previamente que o Bem e o Mal referidos nestes posts são definidos axiomaticamente por referência aos valores cristãos e aos valores comuns em sociedades civilizadas: a guerra, a tortura, a fome, a miséria, o sofrimento, a infelicidade, são alguns dos aspectos do Mal e a paz, a bondade, a generosidade, a disponibilidade, a humildade, a felicidade, são alguns dos aspectos do Bem.

Suponhamos que em virtude de uma determinada relação de forças ambientais e genéticas num determinado momento irei ser vitima do Mal (activa, nos casos em que sou impelido para a prática do Mal ou passiva quando sou vítima de uma série de eventos maléficos. Todavia, o Mal não se chega a concretizar porque um acontecimento perfeitamente casual (uma casca de banana, uma constipação ou a queda de um meteorito) o impede. Foi o acaso, a parcela indeterminista do real que neste caso impediu o Mal.

Um exemplo mais concreto: poderia ter nascido e crescido num meio ambiente que me levasse a ser um criminoso e um ser profundamente infeliz. As circunstâncias que levaram a que isso não acontecesse são o indeterminismo, o acaso.

Quando praticamos o Bem ajudamos Deus a lutar contra o Mal porque aumentamos as possibilidades de ocorrência do Bem, isto é reduzimos as forças que poderiam levar à ocorrência do Mal. Mas, por mais que façamos, existe sempre o acaso, o indeterminismo. É aqui que talvez se encontre Deus na sua luta contra o Mal.

Através das orações e da prática do Bem podemos ajudar Deus a contrariar o indeterminismo maléfico. Porquê? Não é explicável; é apenas uma crença. O acaso (indeterminismo) maléfico também não é explicável. Aconteceu assim como poderia ter acontecido de outra maneira. Foi uma coincidência, um acaso. O que é um facto é que esse acaso pode provocar consequências maléficas ou benéficas. O Homem pode ser afectado por estes factos casuais de um modo benéfico ou maléfico. Pode vir a ser feliz ou infeliz apenas por acasos que não são explicáveis ou que, mesmo que o sejam, nunca constituem a resposta última. Porque razão é que o modo como as orações e a prática do Bem ajudam a combater o indeterminismo maléfico haveria de ser explicável se este também não é explicável? Isto é, é sempre possível estabelecer uma série de cadeias causais, mas estas continham sempre uma dose de imprevisibilidade casuística, por um lado, e por outro lado, a sequência de relações causais levar-nos-ia apenas até ao Big Bang, um simples núcleo de átomos.

Quando digo que Deus é, fundamentalmente, Amor, isto é, o imperativo ético da prática do Bem, não me estou a referir à relação de causalidade "prática do Bem/factos benéficos", pois essa é simplesmente determinista, mas estou-me a referir a uma componente não explicável que a prática do Bem implica (tal como as orações propriamente ditas) e que resulta no aumento das forças do Bem na relação universal de forças "indeterminismo benéfico/ indeterminismo maléfico". Não é uma relação de troca individual entre eu e Deus do tipo "se eu for bonzinho, Deus permite-me ganhar no totoloto". A metafísica desta ajuda a Deus através da prática do Bem é expressa em termos universais e, sublinho, vai mais para além do simples processo determinista que decorre do facto de o Bem aumentar apenas e simplesmente pela prática do Bem. Utilizando um exemplo concreto: se eu, pela prática do Bem, ajudar alguém a ser feliz, essa pessoa feliz vai por sua vez praticar o Bem e assim sucessivamente em "círculo virtuoso". Mas este processo é simplesmente determinista. Ora, penso que há algo mais. Penso que quando se pratica o Bem se está a acrescentar algo de metafísico, de inexplicável e de transcendente, algo que vai para além do simples determinismo, para que em termos universais o Bem triunfe.

O Mal e Bem não são conceitos absolutos, costumam dizer os relativistas. É parcialmente verdade. No entanto julgo que se pode descortinar um núcleo duro de fronteiras não claramente definidas que permite delimitar com relativa precisão o Bem e os Valores Divinos. Esses valores estão presentes em grande parte das religiões e são os comportamentos de defesa dos direitos humanos (essa é outra razão para ter Fé; porque se não se acreditar num fundamento religioso para eles, eles serão sempre relativos - isso aliás é outro problema interessante que está na origem da minha Fé e sobre o qual já aqui escrevi) de luta contra a guerra, a fome, a miséria, o sofrimento e a infelicidade. Dir-se-á que não existe nenhuma situação em que a defesa absoluta destes valores não possa conduzir ao seu contrário. É verdade, mas isso não significa que eles deixem de ser valores que devem nortear o nosso comportamento e que tendencialmente resultem, com o auxílio do esclarecimento divino (podemos chamar-lhe indeterminismo benéfico), naquilo a que pretendem conduzir.

Apenas mais algumas palavras sobre o acaso para poder clarificar o meu pensamento. O acaso é, como já disse, também o resultado de fenómenos (quanto mais não seja físicos) deterministas. Mas isso não lhe retira o carácter "a priori" indeterminante, quanto mais não fosse em virtude das próprias condições, limites e essência da existência humana. Um exemplo: tenho uma moeda. Atiro-a ao ar. Se sair "cara" terei uma infelicidade, se sair coroa terei uma "felicidade". O resultado vai desencadear uma série de reacções deterministas que resultarão em felicidade ou infelicidade, mas o acontecimento que está na sua origem foi perfeitamente arbitrário. O conhecimento humano já avançou na área do conhecimento do arbitrário com as teorias das probabilidades, mas não deixa de ser um enigma que tendo nove bolas pretas e uma branca e sendo a probabilidade de sair uma bola branca de um para dez, saia precisamente essa bola branca. A teoria das probabilidades é de facto a validação científica do mínimo arbitrário. Existe ao longo de todos os fenómenos uma componente determinista e uma componente indeterminista que se influenciam mutuamente. O que eu quero salientar é que na componente indeterminista, arbitrária, do acaso, existe permanentemente uma luta entre Deus e o Mal. A razão pela qual umas vezes vence Deus e outra vence o Mal, significa que as forças de uma e outra parte são limitadas. É inexplicável qual a razão porque umas vezes triunfa Deus e outras o Mal. A única coisa que se pode fazer na área do inexplicável é ter Fé e fazer acções aparentemente inexplicáveis. De qualquer modo, os nossos comportamentos são determinados por crenças e não por uma pretensa racionalidade 100% exacta que aliás não existe fora da lógica formal. O facto de dizermos que o Sol vai nascer amanhã é uma crença como disse Wittgenstein. De facto, sabemos apenas probabilidades. A metodologia científica actual sabe que, fora da lógica formal, a ciência é apenas um conjunto de afirmações probabilisticamente mais ou menos exactas. O nosso conhecimento do real é feito apenas de crenças que têm mais ou menos probabilidades de serem exactas.

A própria lógica probabilística, sobre a qual assenta toda a ciência, é uma lógica utilitária. Se dizemos que o Sol nascerá amanhã ou que se eu largar um objecto ele cairá estamos apenas a fazer afirmações de natureza probabilística, cuja única virtude é permitir uma melhor adaptação ao meio ambiente em que vivemos. Com efeito, as probabilidades de determinados eventos não se verificarem (o Sol não nascer amanhã ou os objectos que largo não caírem) é negligenciável em termos de previsibilidade. E isso permite-nos sobreviver muito mais eficazmente. Mas, e é isto que penso vale a pena sublinhar, fora do contexto probabilístico essencial em termos utilitários para a existência humana, nada mais podemos afirmar.

Porque razão não rezamos? Porque não é explicável? Se estamos na área do inexplicável (a área do acaso é por natureza inexplicável), as probabilidades de as orações serem eficazes é de 50%. Fazemos quotidianamente acções nas quais acreditamos profundamente com menos de 50% de probabilidades de serem eficazes.

Uma última palavra a propósito do indeterminismo. Dizem alguns que o indeterminismo é um falso conceito. O que realmente se passa é apenas incognoscibilidade, simples incapacidade de previsão inerente às limitadas possibilidades tecnológicas fornecidas pela ciência actual. Bricmont (que com Sokal escreveu o célebre "Imposturas intelectuais"), professor de Física Teórica na Universidade de Louvain-la-Neuve na Bélgica, diz ("Science of Chaos or Chaos of Science") que nunca poderemos inferir o indeterminismo a partir da nossa ignorância, querendo com isto dizer que, a partir de tecnologias adequadas, seria possível compreender e prever toda a realidade mesmo aquela a que por agora chamamos indeterminismo.

O problema desta tese é que ela ignora as suas consequências. A possibilidade de conhecer a realidade (e o que é conhecer? Em tempo real? a totalidade? O que é a totalidade da realidade? e como é esta compatível com o tempo real?) desde o primeiro átomo do primeiro segundo do Universo até ao último átomo do último segundo do Universo é uma noção que, a supor que alguma vez fosse possível, seria incompatível com a própria natureza humana. Isto é, imprevisibilidade ou indeterminismo são, em virtude das condições, limites e essência de existência da natureza humana, uma e mesma coisa: o acaso.

The strangely law-like behaviour of the statistical sequences remain, for the determinist, ultimately irreducible and inexplicable.” (K. R. Popper, The Open Universe. An argument for Indeterminism., Rowman & Littlefield, Totowa (N.J.), 1956, p.102).

It is clearly absurd to believe that pennies fall or molecules collide in a random fashion because we do not know the initial conditions, and that they would do otherwise if some demon were to give their secret away to us: it is not only impossible, it is absurd to explain objective statistical frequencies by subjective ignorance.” (K. R. Popper, Quantum Theory and the Schism in Physics, Rowman & Littlefield, Totowa (N.J.), 1956. , p.106)

Já depois de feito este texto, li o post de anteontem do
Lutz aqui na Terra da Alegria. Pareceu-me que a noção de Deus que ele avança na sua última frase é a que permite compreender este imbróglio. O Amor é talvez a chave que desequilibra a favor do Bem os pratos da balança do acaso.

Timóteo Shel [TIMSHEL]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?