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quarta-feira, outubro 13

 

Confissão

Não é preciso andar muito. O Inferno é o local para onde somos mandados depois dos nossos actos pecaminosos. O que quer dizer que é já aqui. Só que aqui temos uma possibilidade de redenção. E ela passa primeiro pelo arrependimento. O que o arrependimento tenha a ver com a confissão é coisa que não vemos imediatamente nem claramente.
A começar porque a confissão tem hoje má nota. O que por sua vez não deixa de ser curioso. Uma grossa fatia da actividade intelectual contemporânea é de algum modo confessional. Há um perpétuo confessar de ansiedades próprias. E há uma cultura que valoriza a falta de vergonha.
Assim, se for verdade que a confissão impera nos nossos dias, – e se disso for sintoma o apego que temos às Confissões de Santo Agostinho e ao lugar menor que ocupa nas nossas leituras a Trindade e a Cidade de Deus –, também poderá ser verdade que por outro lado, muito por culpa das experiências de confissão pública dos desvios marxistas-leninistas nos países socialistas e muito por culpa da imperiosa necessidade de vivermos num regime individual de orgulho aparente, não temos grande apreço pela confissão.

Mas a confissão como qualquer outro acto depende de um contexto. O que num contexto parece mal, noutro parece bem. Isto pode parecer uma verdade trivial. E é. Mas é importante.
Daqui – a talhe ou não de foice – uma das dificuldades maiores da leitura dos Evangelhos. De facto, ler qualquer episódio ou qualquer indicação só colhe pertinência quando o acto descrito no episódio é jogado com outro acto que é jogado com actos seguintes. E o mesmo para as indicações comportamentais. No entanto, – é sabido –, que actos e palavras do Evangelho pressupõem uma dada ontologia e que esta – diz-nos a teologia negativa – se é algo que agarramos, é algo que quando agarrado sempre nos escapa. Daqui, o carácter «escorregadio» do contexto evangélico.
Seja lá como for, é então o contexto que deve determinar o lugar ocupado. A confissão que num dado contexto pode parecer um acto negativo, pode noutro ser compreendida como um acto positivo.

Há nos Evangelhos histórias de confissão. Umas mais dramáticas que outras. Dentro das mais dramáticas, a história do arrependimento do ladrão na cruz e da confissão pública dos seus pecados, parece colher um dos maiores índices de dramatismo. E isto porque se é da essência do drama revelar a verdade, dizer aquilo que realmente somos, se é da sua essência revelar a intensidade dos conflitos que nos atravessam, o ladrão na cruz mostra-nos uma personagem que após ter resolvido os seus conflitos interiores, procura ainda resolver os conflitos que tem com o Criador. Depois de se ter reconciliado com o que de melhor tem dentro de si, procura ansiosamente reconciliar-se com o melhor que existe fora de si. E tanto mais rapidamente quanto pouco é o tempo que tem para o fazer.
De facto, o ladrão na cruz já não tem muito tempo para revelar a sua verdade, para dizer aquilo que realmente é. O tempo urge e esta urgência faz subir a tensão – companhia assídua das situações dramáticas.

É de alguma modo, esta tensão – ou a sua ausência – que determina a importância a dar à confissão. De facto, se vivemos – como vivemos – como se não houvesse um além onde todas as coisas serão reveladas, porque haveríamos de revelá-las? – Elas só nos causam problemas. Problemas com os outros, porque sabemos a dificuldade que os outros têm de perdoar e de aceitar que os ofendemos. Problemas dentro de nós, porque confessar os pecados – ou em linguagem contemporânea, confessar os nossos erros –, implica assumirmo-nos como fracos e frágeis, personagens longe das figuras de acção de Hollywood ou do museu de cera do Pompidou. Tate. Do MoMA. Do Panteão. Ou apenas da nossa rua.


Fernando Macedo [A BORDO]

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