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segunda-feira, outubro 18

 

A complexidade

Apesar do título, o texto de hoje será simples (e relativamente pequeno). Para os que não têm seguido este espaço, esta é a terceira de sete crónicas a que chamei lições de moral -- sobre aquilo que possuímos como bem próprio, do património que nos dá sentido, daquilo com o que estamos de acordo para a nossa vida. Mais explicações aqui. E vamos então à complexidade.

A complexidade é frequentemente um refúgio para não entrar no debate. Quem não se quer comprometer, quem não quer entrar na discussão, quem prefere passar pela calada, refugia-se na complexidade dos assuntos que estão em cima da mesa para manter a sua imparcialidade ou simplesmente para não dizer asneiras. Assim se esconde muita preguiça intelectual, muita vontade de não tocar em "questões fracturantes", como se alguma questão houvesse que não nos fracturasse e interpelasse obrigatoriamente. A complexidade é muito usada como desculpa de mau pagador. Apesar disso, acho que reconhecer e lidar com a complexidade é um elemento essencial na minha vivência da fé. Reconhecer e lidar com a complexidade significa entender que a realidade não é a preto e branco. Perceber que as coisas não são apenas o que parecem ser. Einstein exprimiu isso brilhantemente dizendo que os cientistas devem fazer as leis físicas tão simples quanto possíveis, mas nunca mais simples do que o possível.
Além de reconhecer que o mundo é complexo, encarar a complexidade é reconhecer que não somos donos da verdade. As ciências da psicologia dizem-nos que nós não conhecemos a realidade objectivamente, conhecemos apenas imagens dela e criamos as nossas imagens -- às vezes tão distorcidas! -- do que se passa à nossa volta. E isso é um elemento fundamental para um crente. Se acreditamos que Deus é "o caminho a verdade e a vida", acreditamos que a nossa mundividência é limitada. A Deus "nunca ninguém viu" -- as pessoas não possuem a verdade nem a história. Constróem a sua imagem da verdade. São Paulo dizia isto mesmo usando a metáfora do espelho: "Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido."(1) . O tempo em que veremos face a face, em que contemplaremos a Verdade ainda não chegou, mas acontece , sempre que vamos mais longe na busca do que é autêntico, sempre que, com outros, fazemos por ver um pouco mais além, por nos entendermos um pouco mais, por entender mais profundamente a realidade.
Se me incomodam os que temem a discussão, incomodam-me igualmente as pessoas com demasiadas certezas. As pessoas que têm sempre uma farpa para responder ao que quer que seja. Aqueles que no fundo não procuram verdadeiramente escutar os outros. Os mais convictos da clarividência dos seus argumentos parecem-me sempre um pouco absurdos. Os maiores sábios que conheço são todos humildes. Isto não significa que devamos ter medo do confronto, de expor claramente a nossa forma de encarar as coisas, de sermos exigentes na nossa argumentação. Significa simplesmente que devemos guardar uma pontinha de descrença em nós próprios e as nossas opiniões. É contra os argumentadores-mores que fala a canção de Tom Jobim e Newton Mendonça:

Se você pretende sustentar opinião
E discutir por discutir
Só pra ganhar a discussão
Eu lhe asseguro, pode crer
Que quando fala o coração
Às vezes é melhor perder
Do que ganhar, você vai ver
Já percebei a confusão
Você quer ver prevalecer
A opinião sobre a razão
Não pode ser, não pode ser
P'ra que trocar o sim por não
Se o resultado é solidão
Em vez de amor, uma saudade
Vai dizer quem tem razão


É por causa da complexidade que eu gosto tanto de cinema -- um filme nunca é o mesmo para dois espectadores. E como são deliciosas as conversas depois de um bom filme em que juntos percebemos o que o outro viu naquele ecrã gigante, em que nos apropriamos um pouco mais do que passou à frente dos nossos olhos, em que sondamos a realidade insondável de cada personagem e de cada cena. É também por isso que ir ao cinema acompanhado é muito mais interessante do que ver um filme sozinho. O Outro é um elemento essencial da nossa busca de verdade. E o mote fica dado para a minha próxima crónica.

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

(1) - 1ª Carta aos Coríntios: 13, 12

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