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quarta-feira, outubro 27

 

Evangelho social

Nota: o Carlos Cunha é o meu amigo mais antigo da blogosfera. Foi com ele que pela primeira vez abdiquei do anonimato sem rosto dos blogues e almocei um dia para nos conhecermos melhor. Não foi certamente por acaso. Partilho com ele muita coisa: uma Fé insatisfeita mas estruturante, uma certa visão do mundo e da vida, um pessimismo esperançado a meias com um optimismo reticente, uma heterodoxia que gosta das coisas no seu lugar, uma iconoclastia conservadora, um certo prazer em se ser diferente do estereótipo que nos querem colar na testa, os engarrafamentos no IC-19 ouvindo a música que se reserva para essa solidão, uma série de coisas mais. Discordamos na generalidade e surpreendemo-nos muitas vezes ao concordar na especialidade. Eu vejo nele um comuna às direitas, daqueles como deve ser. Mas adiante. Escreveu esse meu estimado amigo na Terra da semana passada uma versão apócrifa e capciosa dum belo trecho dos Evangelhos. Pois eis uma outra coisa que eu partilho com o Carlos: também eu sei fazer disso. Cá vai.

Naquele tempo, encontrava-se Jesus no campo, a olhar os lírios, quando d'Ele se acercaram Pedro, João e os restantes discípulos do costume. Ao vê-l'O cabisbaixo e de sobrancelhas franzidas, os discípulos entreolharam-se e Pedro, enchendo-se de coragem, perguntou a Jesus: «Senhor, porque estais triste?». Ao que Jesus, fazendo um gesto circular com a mão direita para que se sentassem em Seu redor, retorquiu: «Em verdade vos digo que olhava para estes campos, onde florescem os lírios, em que as aves cantame em que toda a Criação exulta ao Pai». Ainda mais surpreendidos, os discípulos interrogavam-se interiormente sobre qual a causa da tristeza e irritação de Jesus, e João perguntou: «Senhor, queres descansar um pouco?». Suspirando, disse Jesus: «Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar».E reparando que os discípulos continuavam sem nada compreender, disse: «Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram».
Tendo-se acercado deles muitos homens e mulheres, para escutarem o que dizia Jesus, levantou-se um certo judeu de Alexandria, que ensinava semiótica helenística no Liceu de Cesaréia e, para O experimentar, disse: «Mestre, que farei para herdar a vida eterna?»
Perguntou-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês tu?»
Respondeu-lhe aquele: «Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo».
Tornou-lhe Jesus: «Respondeste bem; faze isso, e viverás».
Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: «E quem é o meu próximo?»
Jesus, prosseguindo, disse: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. Casualmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: "Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar”. Qual, pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?»
Respondeu o professor: «O levita, Mestre. Pois o samaritano, indivíduo sem cultura, que da Lei só conhece os 5 livros da Torah, esse ignorante ao ajudar o homem vítima dos salteadores, só fez atenuar a revolta que este deveria sentir perante as sevícias que lhe foram infligidas por uns salteadores que são também eles vítimas da opressão que se abateu sobre este povo que vive enganado pensando ter sido o escolhido. Foi escolhido sim por esta casta de saduceus que se aliaram ao imperialismo romano para o oprimirem fazendo-o pensar que é Deus que o castiga por um lado e o consola por outro. O samaritano, ao praticar uma caridade pontual, atenuando uma dor legítima, está a contribuír para atrasar a revolta contra esta sociedade que o oprime também a ele, pobre tolo que é. Já o levita, embora membro da casta opressora, esse sim é que teria interesse em amparar o pobre homem. Se não o fez e não sendo ele estúpido, pois os levitas nunca o são, suspeito que esse levita guarda no segredo do seu coração a semente da revolta contra os seus iguais, o desejo duma sociedade sem levitas nem samaritanos, sem vítimas nem salteadores, sem oprimidos nem opressores, sem romanos imperialistas nem lacaios saduceus. Ao negar o auxílio ele estava certamente a querer aumentar o desespero daquele homem, por forma a que ele se liberte das peias da doce ilusão com que o dominam. Está assim a ajudar à sementeira da revolução que trará finalmente o fim da injustiça e a verdadeira irmandade entre os homens.”


O professor calou-se, esperando um momento pela resposta de Jesus que o escutou sempre fixando nele o olhar penetrante e calmo. De repente, Jesus aproxima-se em silêncio do professor e beija-lhe os lábios exangues, sem mais dizer. O professor tem um sobressalto, mexe os lábios mas afasta-se de Jesus que lhe diz: "Vai e faz como quiseres". E Jesus deixa-o ir, nas trevas da cidade. O professor vai-se, o beijo queimou-lhe o coração, mas persiste na sua idéia.*


* plágio de Dostoievski (d´O Grande Inquisidor)


José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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A escola enquanto variável da competitividade (1)

No post da semana passada tentei fazer passar a ideia da extrema importância da existência de uma família que tenha uma permanente e grande disponibilidade em termos de afecto, tempo e atenção para os filhos. Para que estes possam vir a ser no futuro pessoas equilibradas, competentes, intelectualmente curiosas e inovadoras, com grande capacidade de trabalho.
A este respeito, não posso deixar de fazer uma breve referência à importância que têm os jogos, em particular os jogos educativos, no desenvolvimento de competências, em especial nos primeiros anos de vida e na infância.
A família é, de facto, a primeira etapa da elaboração da matéria-prima mais importante no processo de produção: as pessoas. É a qualidade desta "matéria-prima" que será decisiva em termos de competitividade de uma economia.
A segunda etapa mais importante decorre na escola. Exige-se da escola que ela transmita eficazmente valores e competências. Fundamentalmente através dos professores. É importante por isso que os professores que tenham grandes capacidades para transmitir eficazmente conhecimentos e valores sejam devidamente remunerados.
Neste momento da discussão surge sempre a eterna questão: qual o modelo educacional? Escolas públicas ou escolas privadas?
Digo desde já que me inclino para um modelo baseado em escolas privadas. Por razões que os neo-liberais já explicaram melhor do que eu (e parece-me que nisso têm razão) o Estado, tendencialmente, não é um bom prestador de serviços. Tendencialmente a relação qualidade/custo dos serviços prestados pelo Estado é inferior à dos serviços prestados por privados. Pelo menos nas actuais condições de desenvolvimento da consciência na espécie humana, por razões que radicam na própria natureza humana mais primitiva.
É com base neste pressuposto que digo que o Estado não deve ter funções de prestador. O Estado deve reservar-se para o papel de regulador, de garante e de financiador.
Um modelo educativo baseado nas escolas privadas é mais eficaz e mais eficiente na transmissão de conhecimentos e de valores.
Como é que o Estado deve exercer o seu papel de regulador, de garante e de financiador do sistema educativo?
O Estado deve exercer o seu papel de regulador, de garante e de financiador no sistema educativo do mesmo modo que o deve fazer no resto da sociedade: de modo a assegurar a igualdade de oportunidades e a combater as desigualdades resultantes de mecanismos automáticos do funcionamento dos sistemas sociais em que a procura e a oferta funcionam livremente.
O Estado, no seu papel de regulador, no seu papel de controlo, e no seu papel de financiador, deverá intervir num modelo de ensino baseado em escolas privadas de modo a assegurar o acesso do ensino a todas as classes sociais em igualdade de circunstâncias e a uniformidade na transmissão de conhecimentos e valores (uniformidade esta necessária para assegurar a coesão social de um povo).
Como, em concreto?
Tentarei responder a esta questão na próxima semana.

Timóteo Shel (
TIMSHEL)

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[escritos à flor da pele]

há uma semana estive em silêncio. apanhado entre arreliadoras avarias de computador e ausências do computador. afinal, o silêncio também pode falar, lembrava-nos o Rui. hoje, escrevo como num telegrama. sem stopes. mas com minúsculas. porque às vezes é preciso reduzirmo-nos à insignificância das nossas palavras. e de que servem essas palavras se o eco que temos é um muro de indiferença cúmplice. se a réplica que lemos, mesmo que indirecta, mesmo que desconhecendo os nossos gritos ou as nossas estupefacções, é a da verdade, não admitindo diferenças, não querendo quaisquer diálogos. há quem nos diga, nós somos a verdade e a vida, como se não pudessemos nós defender a vida e a verdade, amando de modo diferente, acreditando de forma diversa.
«
casei com um padre», dizia-nos a autora/testemunha, citada aqui neste espaço. e nessa altura desafiava-nos para um debate sobre o celibato, a reintegração de padres casados, a formação nos nossos seminários e como vivem os padres da Igreja deste nosso tempo a sua sexualidade. nada disto parece interessar esses guardiães da verdade que nos enchem os ouvidos, que nem vendilhões do templo único, de pregões dogmáticos. recuso esses pregões, reformo a minha visão se for preciso evangelizar este catolicismo cheio de certezas.
«a igreja é a própria culpa», gritava a autora. não, não é. a culpa transportamo-la nós, desejamo-la nós. e insistimos em viver assim, na culpa. adiante: dizia-me em tempos um padre que tinha abandonado: «nunca tive dúvidas de que queria ser padre! até o ser». para ele, a questão da «afectividade» foi o motor das dúvidas, mesmo não havendo ninguém em concreto no seu caso. nas dioceses portuguesas, outros saíram nos últimos anos: alguns pelos mesmos motivos, outros num "cocktail" de dificuldades e problemas que os afastaram dos altares. mas, geralmente, seguiram o caminho do casamento. em média, os jovens padres têm abandonado quatro a cinco anos depois da sua ordenação, em números recolhidos por mim, em 2002. não nos fazem pensar estes dados. fazem pois.
«as coisas cruzam-se: uma coisa chama outra, e outra chama uma», contava-me outro padre, agora casado. e o abandono acontece. a integração dos novos padres dificulta qualquer acompanhamento rigoroso e um "estágio" mais prolongado: a falta de padres obriga a uma rápida colocação em paróquias (às vezes, mais do que uma paróquia), com o necessário acompanhamento de movimentos e outras instituições ligadas à igreja. «o modelo pastoral é desadequado, as pessoas não se sentem bem e procuram outras coisas», critica quem por lá anda ou andou. os bispos preferem pensar de modo mais complexo - para evitar simplismos. e para evitar soluções. «não há dois casos iguais», dizem os bispos. «cada um tem a sua história própria, cada um tem as suas motivações. reduzir a questão ao problema do celibato é demasiado simplista», disse-me um bispo em tempos. que acrescentava: «a opção profunda pelo celibato precisa de um ambiente onde o jovem padre se sinta acompanhado, como equipas sacerdotais. e nem todos o querem». mas o actual modelo «pode deixar as pessoas mais vulneráveis», reconhecia ele, que recusava "pressa" nas ordenações: «não acredito que algum bispo ordene um padre sem mais, só porque há falta de padres». mas ainda ficava o alerta final: «antes estas crises não aconteciam tão pouco tempo depois das ordenações». pois. e então? sinais dos tempos, dir-me-ão. sinais de sermos todos igreja sem o querermos ser, digo eu.
já vai longo o telegrama. escrito assim, à flor da pele. peço desculpa se os silêncios que se lêem nas entrelinhas não vos dizem nada.

Miguel Marujo (
Cibertúlia)

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O último segredo

«Por isso, vos digo: Todo o pecado ou blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia contra o Espírito não lhes será perdoada. E, se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no futuro». (Mateus 12:31-32)

Como é que no meio do erro foi possível passar o seu testemunho? – Ou será que respondemos que sobreviveu porque antes existiram de um lado os maus e de outro lado os bons e que estes bons como nós não cometeram nem esses erros, nem outros? – Assim, teríamos de facto encontrado será uma explicação para a passagem de testemunho. O testemunho teria passado então porque transportado pelas mãos dos bons. No entanto, dissemo-lo, essa hipótese parece fictícia. A começar, porque os santos ensinam que também são pecadores. Entretanto, podemos continuar por outros lados. Pelos lados onde habita a maldade. E assim inquirir: se a maldade habitou no coração dos santos, a bondade poderá ter lugar nos corações dos impuros? – Terão os maiores entre os maiores criminosos espaço para a santidade?
Se estamos dispostos a aceitar o pecadão nos santos, já não parece tão fácil admitir que nos piores criminosos possa habitar – seja de que modo for – a santidade. Nesta ausência de sinais de santidade encontramos a justificação para os condenarmos. Encontramos a paz que não perturba os nossos julgamentos. Mas, diz o Evangelho que quando julgamos o outro, devemos ver primeiro se aquilo que julgamos nele não se encontra já em nossos olhos. Se a nossa voz não é subornada, se a nossa força não é passividade que ajuda a colocar gás em campos de concentração. Se o verificarmos, talvez, tenhamos depois autoridade para dizer qualquer coisa acerca do seu comportamento. Mas nunca autoridade para os condenarmos.

Para um cristão, está de todo afastada a hipótese de condenação. Nunca sabemos – é mais uma vez a lição do ladrão na cruz – o que se passa no diálogo entre um homem e Deus. Ou desviando-nos até um post em realce no Timshel que provém do Enchamos tudo de futuros, nunca sabemos que diálogo se estabelece entre o homem e o Espírito. E isto é importante. Pois há apenas uma fronteira onde a blasfémia e o insulto se tornam condenação. Podemos blasfemar contra Deus, contra as suas barbas, ou pura e simplesmente arrancar os nossos pêlos perante o mal que presumimos que tolere no mundo. Podemos dizer que Cristo não o era. Mas não podemos fazê-lo contra o Seu Espírito. Não contra o Amor. Podemos amaldiçoar o dia em que nascemos e o dia em Deus criou o mundo, podemos recusar-nos a conversar com Deus ou com o mundo, mas não podemos amaldiçoar o amor, nem interromper de vez o diálogo que ele sempre quer estabelecer connosco. Se o fizermos cairemos na alçada dura da condenação.

Isso, esse diálogo, esse fluir, é coisa que não sabemos se já aconteceu ou se irá acontecer na vida do outro. É coisa que não sabemos se o outro faz ou não faz. Não sabemos o que outro conversa com o amor, nem sabemos como o amor flúi ou reflui nas suas veias. E se isto nos está velado, também nos está vedada a condenação: de facto, se podemos ter provas que o outro não fala com Deus ou com Cristo, se para isso basta na maioria das vezes que confesse que não o faz, a verdade é que nunca teremos nas mãos a prova definitiva de que o fluir e o diálogo amoroso está no seu coração definitivamente interrompido…

Isto também porque o outro dificilmente sabe quando poderá encerrar as portas. Por vezes, mais vezes do que aquelas que poderia e poderíamos julgar, habita nele a esperança. E por mais que se esforce a abafá-la tem que lidar com algo que é muito mais do que apenas resistente... É dito que a esperança é a última coisa a morrer. E é a última – mesmo – quando nela habita o melhor desejo, mesmo que este desejo seja teimosamente deixado na sombra e no segredo.

Fernando Macedo (
A BORDO)

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segunda-feira, outubro 25

 

Os pobres

É frequente encontrar referências à pobreza nas sagradas escrituras de todas as religiões e em muitos livros sobre religião. Nestes encontramos com frequência o elogio da pobreza e, por vezes, até do ascetismo. Pessoalmente (e isto é uma interpretação muito pessoal) tenho outro entendimento do significado da pobreza.

Qual a diferença entre ricos e pobres, para além das diferenças materiais? Creio que são poucas. Em muitos casos, a única diferença é que o pobre gostaria de estar no lugar do rico. Mas as virtudes e os defeitos, os méritos e os deméritos de ricos e pobres parecem-me iguais. Frequentemente, no contexto das Sagradas Escrituras, creio que seria mais correcto identificar a riqueza com o apego excessivo às coisas deste mundo e a pobreza com o desprendimento. Não me parece que alguém possa ser excluído de Deus por possuir muitos bens materiais; parece-me mais plausível que uma pessoa se auto-exclua, de Deus por apego excessivo aos seus bens materiais (sejam muitos ou poucos).

No livro "As Palavras Ocultas", Bahá'u'lláh escreveu

"Tudo o que se encontra no Céu e na Terra, Eu o destinei a ti, excepto o coração humano, o qual fiz residência de Minha beleza e glória"[1]
Pessoalmente, entendo esta frase como significando que tudo o que está no universo foi feito para nós; podemos usar tudo o que está na criação; mas nãos nos devemos apaixonar por nada do que está na criação; o coração apenas se pode apaixonar pelo Criador; não se pode apegar excessivamente por mais nada. Ou se quiserem, nada na criação se deve interpor entre cada ser humano e o Criador.

É este elogio da pobreza, sinónimo de desprendimento, que me parece ser feito nas sagradas escrituras. A este propósito, a história contada por 'Abdu'l-Bahá, durante uma palestra em Nova Iorque, em 1912, assume um significado especial:
Jesus era um homem pobre. Uma noite, quando Ele estava nos campos, começou a chover. Ele não tinha local onde Se abrigar; por isso, olhou para o céu e disse: «Ó Pai! Para os pássaros do ar criaste ninhos, para as ovelhas um estábulo, para os animais uma toca, para os peixe um local de refúgio, mas para Mim não providenciaste abrigo. Não há local onde possa encostar a Minha cabeça. A Minha cama é o chão frio; as minhas lâmpadas à noite são as estrelas, e a Minha comida é a erva dos campos. E, porém, quem sobre a erra é mais rico do que Eu? A maior das bênçãos Tu não a deste aos ricos e aos poderosos, mas a Mim, pois Tu entregaste-me os pobres. A Mim concedeste-Me esta bênção. Eles são Meus. Por isso, Eu sou o homem mais rico do mundo.»[2]


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NOTAS
[1] –
As Palavras Ocultas, Bahá'u'lláh, Persa, nº 27
[2] –
The Promulgation of Universal Peace, 'Abdu’l-Bahá, pag.33-34

Marco Oliveira (
POVO DE BAHÁ)

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O lugar do outro

Terminei a última lição de moral dizendo que o Outro é um elemento essencial na escuta da Verdade. É sobre isso que vou falar hoje, com algumas citações à mistura (já há uns tempos que me tenho contido!).

E para começar, vamos a um post do
manuel:
"Onde dois ou três se reunirem em meu nome, Eu estarei aí". Deus está onde há relação entre as pessoas. Deus não é um tesouro escondido que cada um guarda para si, fechado no cofre da sua individualidade. Este Deus está sempre mais perto dos pobres. E, por isso, Ele está onde dois ou três se complementam, Ele está onde dois ou três assumem os seus limites. É o Deus dos frágeis, não dos seguros e poderosos."

Já aqui falei sobre a parte do Deus dos frágeis e não dos seguros e poderosos. Hoje o que quero dizer é muito simples e dispensava bem linhas e linhas de texto. Podia exprimir-se assim: a fé dos cristãos ou é vivida em relação com os outros, ou não é.
Todos nós definimos a nossa personalidade por exclusão. Percebendo-nos distintos uns dos outros. O desenvolvimento psico-social segue este caminho: a criança que percebe-se independente do que a rodeia e dos que a rodeiam. Em Jesus Cristo encontramos o que se podia chamar de personalidade inclusiva. Alguém que está pronto a acolher e escutar a todos. Nós, naturalmente, construímos as nossas reservas e preconceitos em relação a outros. Guardamos sempre um pedaço de desconfiança com desconhecidos e conhecidos. Especialmente se tiverem perspectivas, maneiras de pensar e de ser diferentes das nossas. Para mim, essa é a diferença fundamental expressa pela célebre frase que diz que Jesus era "em tudo igual a nós menos no pecado". O pecado é sempre quebra de relação. A disponibilidade plena e total para o Outro é a diferença que Jesus marca e que os cristãos seguem como inspiração.
Entre os (muitos) messias que povoavam o médio oriente há 2000 anos, não são os milagres que distinguem Jesus dos restantes. Curandeiros, ermitas, profetas e milagreiros abundavam no seio da cultura hebraica. Tão pouco os dois mandamentos essenciais do amor a Deus e ao próximo são uma genuína novidade. Essa forma de resumir a doutrina era própria de uma determinada corrente de pensamento entre os fariseus. A novidade de Jesus não é nem fenomenológica nem doutrinal. A novidade de Jesus é que nos propõe um Deus que é relação. Os cristãos acreditam que é possível aqui e hoje amar Jesus -- vislumbrar a dimensão de Deus -- porque é Ele que nos propõe essa relação. Mais: é na relação entre as pessoas, que nos é possível encontrar essa dimensão de Deus.
É nesse sentido que vão as palavras de D. Manuel Clemente: «A grande descoberta deste século é precisamente esta: as verdades não existem fora das pessoas. Sob este ponto de vista, a primeira realidade é o acolhimento do Outro.»
A primeira realidade é o acolhimento do Outro. A espiritualidade cristã não busca nenhuma auto-iluminação, nenhuma auto-elevação espiritual. Tão pouco busca energias cósmicas ou passar pela vida evitando o sofrimento. A espiritualidade cristã é a vivência com outros, na relação com outros e com a natureza, de um estilo de vida coerente com a sua mensagem de Amor. A mensagem da Ressurreição é também essa: a morte, a separação suprema entre as pessoas, não terá a última palavra. Assim, a questão do cristianismo não é tanto de religião, mas sobretudo de humanidade. Não é tanto uma questão de re-ligação de cada pessoa a Deus, mas sobretudo de encontro de Deus na relação entre as pessoas. Por isso se diz que ninguém se salva sozinho, ou que ninguém é livre sozinho. A nossa liberdade não acaba onde a do outro começa mas, precisamente ao contrário, a nossa liberdade só é plenamente vivida enquanto participa na liberdade do outro. Não sou plenamente livre enquanto houver quem vida oprimido.
O célebre versículo "quem procurar salvar a vida, há-de perdê-la; e quem a perder, há-de conservá-la", presente nos três evangelhos sinópticos aponta nessa direcção: a nossa vida só é ganha, só vale a pena, se for perdida, se for gasta com os outros.

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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quarta-feira, outubro 20

 

O meu Manifesto (4ª e última parte, uuufff!)

Se bem se recordam, falei na semana passada sobre a minha visão de como a partir da Revolução Industrial inglesa e sua disseminação por todo o Ocidente, o proto-capitalismo evoluiu para o capitalismo moderno, através sobretudo duma tremenda mudança de focagem estratégica: deixando de considerar as massas trabalhadoras como um mero factor de produção mas sim também como a principal fonte de consumidores. E é minha convicção profunda que estas massas apreciaram imensamente esta distinção. Quando vejo às vezes aqueles revolucionários serôdios, tipo Camilo Mortágua ou Aires Rodrigues, perguntando amargamente “mas onde é que estão os trabalhadores?” apetece-me dizer-lhes que actualmente, neste rico mundo ocidental, os trabalhadores são consumidores que, por necessidade, também trabalham. Foi aliás assim que o marxismo perdeu a mente dos trabalhadores: esta sociedade da abundância e do lazer, do materialismo consumista (e não o dialético), da universalização do direito ao prazer, fez com que o ter, o comprar, o gastar, em suma o consumir, se tornasse num objectivo de vida para todos. Em resumo, os trabalhadores aburguesaram-se, perante o espanto e desgosto dos crentes na via comunista para os amanhãs que cantam.
Mas permitam-me que regresse aos anos 50 e aos primeiros passos do Estado Providência. Nunca saberei se conscientemente ou inconscientemente, se altruisticamente ou cinicamente, mas em dada altura certas cabeças pensantes decidiram uma coisa bonita e muito útil: que o pagamento justo ao trabalhador não chegava, que ele deveria estar protegido pelo Estado contra a adversidade, a doença, a velhice, o desemprego. Criaram-se assim os sistemas de segurança social que duram até hoje. Estes sistemas foram reter parte dos rendimentos do capital e do trabalho para constituir um fundo durável e fiável para acorrer a todos na necessidade e no infortúnio. Cumpria assim a Europa capitalista dos direitistas Adenauer, De Gaulle, Eden e Mac Millan, a máxima marxista do “de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades”, enquanto que, ao lado, a Europa comunista exauria as possibilidades de todos sem satisfazer as necessidades de ninguém. Não deixa de ter uma certa piada.
Mas sejamos realistas, o capitalismo não costuma dar ponto sem nó. E na verdade, penso eu, o que verdadeiramente se quis com o Estado Providência foi uma coisa esperta. Assegurando-se a todos uma segurança material numa base permanente, isto é, até à morte, iniciou-se uma profundíssima alteração de mentalidades, hoje bem visível, até de forma preocupante. Vou explicar melhor: libertando as pessoas da preocupação face à adversidade imprevista, tornaram-nas mais receptivas a afectar ao consumo uma parte cada vez maior do seu rendimento disponível. Isto é, a velha poupança deixava de fazer sentido pois o Estado tratava disso por nós, retendo e gerindo os fundos necessários e, por outro lado, a impressão de crescimento económico sem fim libertava-nos de preocupação maior quanto ao futuro dos nossos filhos.
Tendo sido despoletada esta tremenda mudança de mentalidades (que foi mais progressiva do que transparece neste esboço), a partir daí o aumento da procura, o crescimento económico, o enriquecimento das empresas, dependiam apenas do aumento da oferta. Apareceram então com toda a força os marketings e os marketeers, a publicidade, os vendedores de sonhos de plástico ou de papel. Convirá contudo não esquecer uma coisa importantíssima, de que falarei mais tarde: por esses anos 50 e 60, toda essa imensidão de bens, inventados ou reinventados, antigas superfluosidades tornadas necessidades, toda essa mercadoria infindável era produzida aqui na Europa, deixando pois aqui todo o seu valor acrescentado, dividido pinguemente pelo capital e pelo trabalho, numa espiral de enriquecimento e bem-estar, generalizados e sem fim à vista. Belos tempos esses!
Resumindo: tecnologias eficientes, economias de escala, remunerações e regalias crescentes, lucros galopantes e reinvestidos em tecnologias ainda melhores e em marketings mais apelativos. Tudo batia certo. Não me consta que tenham sido tempos de profundas querelas ideológicas. Aliás, a cortina de ferro e o medo do urso soviético, ajudavam a aproximar sensibilidades em vez de as afastar.
Mas esta situação tão cómoda e tão contrastante com a de outra parte tão significativa da humanidade, não poderia durar para sempre. Durou ainda até hoje mas está a mudar rapidamente, inexoravelmente. E é disso que vou falar a seguir.
Vou falar então daquilo que entendo ser o colapso do modelo social e económico europeu, algo que está a acontecer sem nos darmos bem conta. As razões deste colapso são inúmeras, como habitualmente. Mas podem-se talvez resumir numa frase patusca: crescemos muito mas para os lados. Engordámos. Perdemos fibra. E o resto do Mundo, mais musculado (como os americanos) ou mais franzino (como todos os restantes), esse não parou.
Expliquemo-nos melhor, começando por um lado qualquer.
Apesar do baby-boom do pós-guerra, a população da Europa Ocidental era limitada e a dado momento parou de crescer. Quer isto dizer que o mercado, após crescimentos supersónicos, acabou por atingir os seus limites em termos de procura. Sobrando a oferta, a concorrência enrijece, o marketing torna-se agressivo e consome recursos cada vez maiores. E porque era necessário manter os preços competitivos, surge crescentemente a pressão sobre os custos de produção, sobretudo numa Europa onde as fronteiras quebravam ainda as economias de escala. A tecnologia, ao substituir cada vez mais mão de obra, ajuda a criar mais pressão sobre o trabalho, reduzindo-se a oferta de emprego. Novas técnicas tornaram obsoletas indústrias inteiras, começando então a fazer verdadeiramente sentido o Estado providência perante as primeiras vagas de desempregados da modernidade. Paralelamente, a sociedade de consumo continuava aceleradamente a penetrar na mente e comportamentos das pessoas. Era necessário criar continuamente novas necessidades de consumo para o crescimento continuar, afectando cada vez mais recursos das gentes. A emulação da mirífica american way of life, trazida pelo cinema, ajudou governos, empresas, imprensa, sindicatos, uns a promover e outros a exigir um novo direito sagrado: o direito ao consumo. Entrámos na era do Homo Consummatore.
Entretanto o resto do mundo existia também, não se limitando a assistir embasbacado à prosperidade ocidental. Começam as imitações do modelo económico e industrial do Ocidente em culturas diferentes, menos individualistas, com uma muito maior produtividade. O Japão, depois a Coreia e Taiwan, começaram a despejar sobre nós uma imensa parafernália de produtos manufacturados, primeiro apenas baratos e mais tarde também de qualidade.
Houve depois um facto determinante: o paradigma do petróleo a baixo custo desapareceu em 1973 e nunca mais voltou. Voltou então a acontecer algo quase esquecido, o choque inflacionista. Mas o sistema é forte e pressão sobre os custos de produção torna-se tremenda. Isto numa altura em que o modelo social europeu estava plenamente sedimentado e em que as relações entre o capital e o trabalho estavam já regulamentadas de forma rígida. Neste contexto, a impossibildade de baixar o custo do trabalho aliada ao interesse geral de lutar contra a inflação e à necessidade intrínseca e legítima de manter o lucro, levou a que a indústria europeia, com o beneplácito dos governos, nessa altura (meados de 70 a meados de 80) quase todos de esquerda, iniciasse um processo hoje irreversível: a sua deslocalização para países do Terceiro Mundo com uma mão-de-obra de custos muito mais baixos e de direitos quase inexistentes.
Este movimento, que deu origem à globalização da economia, teve consequências inexoráveis. Acelerou-se assim a redução de oferta de emprego, passando o desemprego a ser um problema crónico e estrutural. Por outro lado a deslocação do valor acrescentado para outros países levou a consideráveis perdas de receita para os estados e sociedades europeias, ao mesmo tempo que aumentavam as despesas sociais. Mas, para agravar tudo, a sociedade do bem estar, do materialismo individualista, tinha trazido sequelas importantes e profundas. O choque inflacionista dos anos 70 contribuiu para interromper e inverter drasticamente o crescimento demográfico. As melhores condições de vida fizeram aumentar substancialmente a longevidade média. As novas tecnologias, aliadas a um certo egocentrismo das novas gerações, fez alargar os tempos de educação e formação. Assim, as pessoas passaram a entrar no mercado de trabalho muito mais tarde e, por opção ou fruto das reestruturação da indústria, passaram a saír dele muito mais cedo. A vida contributiva das pessoas foi-se tornando progressivamente mais curta do que a vida assistida pelo Estado. Tudo isto gerou um desequilíbrio insanável dos sistemas de segurança social. Já lá voltaremos.
Entretanto, com a globalização, que mais não é do que a deslocalização institucionalizada, outros países onde os custos e direitos do trabalho são impressionantemente mais magros, passaram eles a ser os fabricantes de grande parte do que consumimos: a China, a Indonésia, a Malásia, o Paquistão, a Índia, o Bangladesh, etc. Nesses países reproduzem-se hoje os primeiros tempos da Revolução Industrial: o trabalho quase escravo, de 18 horas por dia, 7 dias por semana, o trabalho infantil, a ausência de condições de trabalho, a ausência de protecção e garantias ao trabalhador, todas aquelas coisas que hoje nos horrorizam mas que são iguais às que haviam na industriosa Inglaterra dos primórdios do séc.XIX. Mas o facto é que estas condições miseráveis permitem custos baixíssimos que atraem empresas de todo o lado. E estes países, os novos manufactureiros do Mundo, começam a saber fazer, a saber fabricar, começam a ter a sua própria revolução industrial, importada mas revolução ainda assim. E começam a criar riqueza a sério, riqueza que é chocantemente mal distribuída. Mas quem sabe se tal como aqui na Europa, o correr dos tempos não corrigirá isso. Pois tal como os antigos e miseráveis camponeses da Inglaterra, estes novos proletários começam agora talvez a ganhar qualquer coisita para comer.
Recordo-me duma história contada por um amigo meu, que partiu a seguir ao curso, para trabalhar em ONG´s internacionais. Há cerca de 10 anos andava ele pelo Paquistão a prestar assistência em higiene e saúde públicas. Conheceu aí as tais crianças que trabalham em fábricas a fazerem bolas de futebol da Nike e da Adidas, recebendo 1 ou 2 dólares por dia, um dia sem fim em condições terríficas. E bolas que a mesma Nike vende a 50 dólares cada uma! Disse-lhe um dia um dos miúdos que “fazer bolas para o Ronaldo era muitíssmo melhor e mais bem pago do que passar todo o dia, todo o ano, a fazer tijolos de adobe”! Não me entendam mal: a exploração do trabalho infantil é algo inominável, não estou a defendê-la. O que estou a dizer é que a globalização criou um mercado global de trabalho completamente assimétrico.
E quanto ao capital? Esse foi-se desnacionalizando a partir do momento em que teve que se deslocalizar. E desnacionalizando-se, perdeu a noção da responsabilidade comum com os Estados de onde provém originalmente. Os leões da indústria passaram a ser enguias que nos escorregam pelos dedos. Não será pois fácil contar muito com o capital para ajudar a resolver o berbicacho que pela Europa vai surgindo. Até porque eu tenho cá um pressentimento: o capital sente que é nestes países emergentes, os países dos seus novos trabalhadores a meio-tostão furado, que vivem também os seus futuros consumidores. E são bilhões e bilhões deles! Por isso, adivinho que, mitigada e progressivamente, lhes será aplicada a mesma fórmula que foi aplicada na Europa. Ainda bem para toda aquela gente!
Agora cá pela Europa as coisas não andarão simples. Hoje a luta ideológica assentou arraiais à volta de uma coisa cuja sobrevivência penso não ser possível: o modelo social europeu. Penso que é uma luta essencialmente retórica. Os liberais direitistas, procuram aliviar os estados europeus do fardo imenso que sobre ele pende custe isso o que custar às populações, os esquerdistas solidários e utópicos defendem a todo o transe os belos direitos que foram conquistados num contexto que desapareceu já há uns bons anos. Mas, curiosamente, vemos o SPD alemão a cortar no factor trabalho, e os chiraquianos franceses a apertar o factor capital. E vemos os trabalhistas britânicos a pairar divertidos sobre tudo isto pois a crise não mora lá ainda. No fundo, a verdadeira luta deverá ser dar a conhecer a situação que se nos depara. E que surjam líderes que tomem opções difíceis e convençam as pessoas da bondade dessas opções.
Mas não ando optimista. Para mim a Europa entrou num ciclo prolongado de empobrecimento. A sociedade do bem-estar terá aqui os dias contados. E, como de costume, a primeira vítima do empobrecimento geral é a justiça social. Não gosto de o pensar, mas não resisto a um pequeno sentimento, talvez mesquinho, talvez masoquista, de que nós merecemos o que aí vem.
Quanto ao resto do Mundo, a situação variará certamente. Quanto aos Estados Unidos, nunca fui capaz de perceber um país capaz de reeleger uma marionete desengonçada; por isso não consigo prever nada. Quanto ao Terceiro Mundo, aquele que passa à margem da globalização, prevejo infelizmente que venha a ser cada vez mais pobre. E prevejo também que os novos tycoons da economia global, de outras culturas e filosofias, alheios à ética humanista e cristã, se irão estar ainda mais borrifando para eles. Disse.

Comecei a escrever este texto, que se converteu numa pastelada imensa, para explicar porque é que eu acho que a dicotomia direita/esquerda nada tem a ver com o ser-se cristão. Neste momento, porém, o que verdadeiramente penso é que essa dicotomia não tem nada a ver com nada. Começo também a pensar que a diferença entre a esquerda e a direita consiste apenas em se andar mais ou menos enganado. Os tempos que se avizinham irão demonstrá-lo.

E pensando agora em tudo isto, sinto-me amparado pelo facto de ter Fé em Cristo. Que Ele nos valha a todos.

José (
GUIA DOS PERPLEXOS)

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A competitividade

Após uma série de posts esquerdistas por um lado e, por outro lado, trilogias e "quadrilogias" de posts pretensamente místico-filosóficos ou religiosos, vou hoje dedicar este meu espaço aqui na Terra da Alegria a algo que pode parecer direitista e muito terra a terra. Sobre a competitividade económica, mais propriamente sobre a primeira de duas variáveis humanas da competitividade (o próximo post será sobre a segunda). Estas duas variáveis são aquelas que actuam sobre a competitividade económica sobretudo no longo prazo: a família e a escola.

aqui escrevi em tempos sobre o divórcio. Este post encontra-se alinhado com as posições que aqui defendi nessa altura. Contudo ele será hoje puramente tecnocrático. Com efeito, pretendo nos posts que vou escrever, defender um modelo de família e um modelo de escola por razões de competitividade económica e não por razões religiosas (embora as conclusões a partir de um ou de outro raciocínio sejam as mesmas).

Os conhecimentos científicos sobre o ser humano têm revelado a importância de um ambiente familiar seguro, equilibrado e afectuoso desde o primeiro dia de vida do ser humano.

Não irei aqui entrar em detalhes científicos. Importa apenas reter um conceito: uma grande disponibilidade em termos de tempo, afecto e atenção vão tendencialmente determinar pessoas estáveis, intelectualmente curiosas, com grande capacidade de trabalho.

O pai, a mãe e os filhos numa relação equilibrada, afectuosa e responsável formam um "triângulo virtuoso" que cria as condições para que existam fortes probabilidades de os filhos virem a ser, quando crescidos, pessoas competentes, intelectualmente motivadas e com grande capacidade de atenção, concentração e trabalho.

Se queremos ter uma sociedade economicamente competitiva, com grande capacidade de produção de riqueza, eficiente e eficaz, é pela família que temos de começar. Devem existir políticas de criação de condições culturais, sociais e económicas de valorização da disponibilidade de tempo, afecto e atenção nas famílias.

Que tem feito o governo e outros poderes para implementar políticas (de curto, médio e longo prazo) para criar as condições culturais, sociais e económicas de valorização da disponibilidade em tempo, afecto e atenção dos pais para com os filhos?

Que têm feito outros instrumentos sociais de aculturação neste sentido?

Que têm feito as empresas e outras instituições sociais?

Que tem feito a televisão?

Que tem feito o governo e outros poderes para regulamentar a televisão de modo a que ela deixe de ser o principal instrumento de desagregação familiar que conhece hoje a sociedade portuguesa?

Os "cristãos" no governo e nas empresas de comunicação social, perante a visão do poder e dos cifrões, depressa enviam o seu cristianismo para a hora da missa dominical e aí o deixam fechado a sete chaves.


Timóteo Shel (
TIMSHEL)

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Peregrinar sempre

Este ano, pela terceira vez, fiz o Caminho de Santiago a pé. Fiz um dos percursos possíveis: entre Valença do Minho e Compostela – o Caminho Português. Fui a acompanhar um grupo de escuteiros, adolescentes entre os 14 e os 18 anos. Todos eles peregrinavam pela primeira vez. Foi interessante verificar o contraste daqueles 6 dias com as nossas rotinas de trabalho e de escola. Sobretudo o contraste com a vida deles, jovens de hoje, mergulhados numa sociedade consumista, longe dos valores e das referências espirituais. Ao longo desses dias o silêncio foi tomando conta de nós. Aparentemente não houve grandes mudanças: continuaram as brincadeiras, risos, discussões, zangas, amuos, naturais na convivência permanente. Mas a precariedade das condições, o cansaço provocado pelos cerca de 20 km diários de percurso levam a esse tal Silêncio, mesmo que não seja evidente. Afastarmo-nos do conforto das nossas casas remete-nos espontaneamente para outros horizontes, para a constatação dos vazios que deixámos para trás. Vamos pensando: “o que é que eu faço aqui?”, “porque é que me meti nisto?”, “para que serve estar a estafar-me desta maneira?” e vamos olhando para dentro, revendo as nossas prioridades, reorganizando a vida a partir das coisas simples. E fica. Esse Silêncio permanece quando se regressa, ainda que não seja explícito. Despojarmo-nos da nossa rotina automática, mesmo que seja só por uns dias, é um acto de construção interior, uma recuperação (ou encontro) do sentido primeiro da Vida.

Creio que peregrinar é a melhor metáfora para a vida. Fazer caminho é confrontarmo-nos com as nossas fragilidades, reconhecer a incerteza do passo seguinte e alegrarmo-nos por o alcançarmos. Caminhar remete para o Silêncio.

Falo de Silêncio uma semana depois de o Miguel ter levantado, aqui na Terra, uma questão delicada para a Igreja: o celibato dos padres e outras questões relacionadas. Adiantava o conterrâneo que eu sairia em defesa do celibato enquanto riqueza da Igreja. E vou falar disso. Mas se falo de Silêncio neste contexto é porque o considero factor indispensável para qualquer questão, de maior ou menor importância, que se vai levantando nas nossas vidas e, consequentemente, na vida da Igreja – e não apenas como prólogo de discussão, mas como envolvência que terá que remeter constantemente para o essencial. Sabemos, porém, que a necessidade desse Silêncio é muitas vezes usado como desculpa para uma premeditada “interrupção voluntária do diálogo” (usando a feliz expressão do Miguel), mas nesses casos o próprio silêncio ensurdece os que o desvirtuam. Saibamos nós deixar que o Silêncio fale mais alto que o ruído do medo.

Rui Almeida (RUIALME)

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A passagem de testemunho. Também os santos são pecadores.

Nota de abertura: este é um texto abertamente exploratório.

Queiramos ou não e por vezes não queremos, a história do cristianismo tem momentos que gostaríamos de esquecer. Outros que gostaríamos de pensar que ficaram definitivamente para trás. Assim, há quem gostaria de esquecer Constantino, a Inquisição, as Cruzadas ou a colaboração dos cristãos com as guerras empreendidas com os diversos Impérios que surgiram no palco da história. Outros que gostariam de lembrá-los como algo que ficou definitivamente para trás. Que, por exemplo, ficou para trás o fenómenos do apego dos cristãos ao mau poder. Que isto foi sacudido de tal maneira pela razão e pela influência de humanitarismos diversos que hoje tal tentação não se coloca ou é vivida apenas por um cristianismo atávico.

Há aqui, colateralmente, uma primeira evidência que por vezes não é nada evidente e que se traduz pela presença obsessiva de pensar o cristianismo nas suas relações com o poder. Constantino, as Cruzadas, a Inquisição, os Impérios, dizem o cristianismo no meio do poder social. Perante isto, e porque hoje nos atemos com afinco a estes dados, deixamos uma questão: qual a razão que determina hoje a necessidade de pensar a relação entre cristianismo e poder social?

Alguns dirão: porque é necessário. Pode ser. E nisso estamos de acordo. No entanto, é bom lembrar que existem diversas necessidades e que se a necessidade de pensar socialmente o cristianismo se impôs é porque se tornou prioritária. No entanto, para além desta verdade óbvia, outra se impõe: as prioridades são não só discutíveis como variáveis.

Aqui, e para que a conversa não fique num nível demasiado abstracto, pense-se por exemplo que para o cristianismo de Agostinho a grande prioridade era a definir o que poderia ser ou não Igreja. Daí, uma parte significativa do seu trabalho de polemista. Deste modo, em Agostinho e em Agostinho tomado como símbolo de preocupações colectivas, confirmadas em Niceia, Pelágio, ou no arianismo, mostra uma preocupação primeira pelo que era Igreja e pelo que devia nortear a Igreja. Claro que podemos sempre traduzir esta necessidade em termos de poder social. Mas é bom que não esqueçamos que somos nós a traduzir.

Voltemos, entretanto, aos acontecimentos relatados, às Cruzadas, à Inquisição, a Constantino, ou – se quisermos – à Igreja do Império colonial de Salazar. E suponhamos – o que é maioritário – que fazemos deles uma avaliação negativa. Aqui, duas questões se levantam: a primeira tem a ver com o facto de acolhermos ou não a sua herança, com isto é connosco, não podemos negar que foi nosso; a segunda incide sobre a questão de saber se seríamos o que somos se não tivéssemos tido que passar por esses momentos? - E por fim uma terceira: como foi possível que ainda assim o Espírito cristão tenha sobrevivido? – Como é que no meio do erro foi possível passar o seu testemunho? – Ou será que respondemos que sobreviveu porque antes existiram de um lado os maus e de outro lado os bons e que estes bons como nós não cometeram nem esses erros, nem outros? – Assim, teríamos de facto encontrado uma explicação para a passagem de testemunho. A mim parece-me fictícia. Porque os santos nos ensinam uma coisa: também eles são pecadores.

Fernando Macedo (
A BORDO).

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Evangelho neo-liberal

Naquele tempo, encontrava-se Jesus no campo, a olhar os lírios, quando d'Ele se acercaram Pedro, João e os restantes discípulos do costume. Ao vê-l'O cabisbaixo e de sobrancelhas franzidas, os discípulos entreolharam-se e Pedro, enchendo-se de coragem, perguntou a Jesus: «Senhor, porque estais triste?». Ao que Jesus, fazendo um gesto circular com a mão direita para que se sentassem em Seu redor, retorquiu: «Em verdade vos digo que olhava para estes campos, onde florescem os lírios, em que as aves cantam e em que toda a Criação exulta ao Pai».
Ainda mais surpreendidos, os discípulos interrogavam-se interiormente sobre qual a causa da tristeza e irritação de Jesus, e João perguntou: «Senhor, queres descansar um pouco?». Suspirando, disse Jesus: «Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar».
E reparando que os discípulos continuavam sem nada compreender, disse: «Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram».
Tendo-se acercado deles muitos homens e mulheres, para escutarem o que dizia Jesus, levantou-se um certo doutor de contabilidade e, para O experimentar, disse: «Mestre, que farei para herdar a vida eterna?»
Perguntou-lhe Jesus: «Que está escrito na lei? Como lês tu?»
Respondeu-lhe aquele: «Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo».
Tornou-lhe Jesus: «Respondeste bem; faze isso, e viverás».
Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: «E quem é o meu próximo?»
Jesus, prosseguindo, disse: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. Casualmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: "Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar".
Qual, pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?
»
Respondeu o doutor da contabilidade geral: «O levita, Mestre. Pois o sacerdote, investido como está na sua autoridade, caso manifestasse misericórdia, nada mais faria que a sua obrigação natural. Se nada fez, tal é muito condenável, pois é à Igreja que se deve exigir tudo e tudo severamente condenar, em caso da mínima falha.
Já o samaritano imiscuiu-se no que não lhe dizia respeito, intervindo abusivamente no que o mercado o acaso decidira livremente dispor em favor dos salteadores.
Foi o levita que teve a atitude mais correcta. Compreendeu que o que o rodeava não era nada com ele e que se o mercado o acaso ou Deus assim o quisessem, teriam intervindo. Não compete a nós, seus servos, intervir fora da esfera da espiritualidade
».
Disse, então, Jesus: «Vai, e faze tu o mesmo».

Carlos Cunha (
PARTÍCULAS ELEMENTARES)

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segunda-feira, outubro 18

 

A complexidade

Apesar do título, o texto de hoje será simples (e relativamente pequeno). Para os que não têm seguido este espaço, esta é a terceira de sete crónicas a que chamei lições de moral -- sobre aquilo que possuímos como bem próprio, do património que nos dá sentido, daquilo com o que estamos de acordo para a nossa vida. Mais explicações aqui. E vamos então à complexidade.

A complexidade é frequentemente um refúgio para não entrar no debate. Quem não se quer comprometer, quem não quer entrar na discussão, quem prefere passar pela calada, refugia-se na complexidade dos assuntos que estão em cima da mesa para manter a sua imparcialidade ou simplesmente para não dizer asneiras. Assim se esconde muita preguiça intelectual, muita vontade de não tocar em "questões fracturantes", como se alguma questão houvesse que não nos fracturasse e interpelasse obrigatoriamente. A complexidade é muito usada como desculpa de mau pagador. Apesar disso, acho que reconhecer e lidar com a complexidade é um elemento essencial na minha vivência da fé. Reconhecer e lidar com a complexidade significa entender que a realidade não é a preto e branco. Perceber que as coisas não são apenas o que parecem ser. Einstein exprimiu isso brilhantemente dizendo que os cientistas devem fazer as leis físicas tão simples quanto possíveis, mas nunca mais simples do que o possível.
Além de reconhecer que o mundo é complexo, encarar a complexidade é reconhecer que não somos donos da verdade. As ciências da psicologia dizem-nos que nós não conhecemos a realidade objectivamente, conhecemos apenas imagens dela e criamos as nossas imagens -- às vezes tão distorcidas! -- do que se passa à nossa volta. E isso é um elemento fundamental para um crente. Se acreditamos que Deus é "o caminho a verdade e a vida", acreditamos que a nossa mundividência é limitada. A Deus "nunca ninguém viu" -- as pessoas não possuem a verdade nem a história. Constróem a sua imagem da verdade. São Paulo dizia isto mesmo usando a metáfora do espelho: "Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido."(1) . O tempo em que veremos face a face, em que contemplaremos a Verdade ainda não chegou, mas acontece , sempre que vamos mais longe na busca do que é autêntico, sempre que, com outros, fazemos por ver um pouco mais além, por nos entendermos um pouco mais, por entender mais profundamente a realidade.
Se me incomodam os que temem a discussão, incomodam-me igualmente as pessoas com demasiadas certezas. As pessoas que têm sempre uma farpa para responder ao que quer que seja. Aqueles que no fundo não procuram verdadeiramente escutar os outros. Os mais convictos da clarividência dos seus argumentos parecem-me sempre um pouco absurdos. Os maiores sábios que conheço são todos humildes. Isto não significa que devamos ter medo do confronto, de expor claramente a nossa forma de encarar as coisas, de sermos exigentes na nossa argumentação. Significa simplesmente que devemos guardar uma pontinha de descrença em nós próprios e as nossas opiniões. É contra os argumentadores-mores que fala a canção de Tom Jobim e Newton Mendonça:

Se você pretende sustentar opinião
E discutir por discutir
Só pra ganhar a discussão
Eu lhe asseguro, pode crer
Que quando fala o coração
Às vezes é melhor perder
Do que ganhar, você vai ver
Já percebei a confusão
Você quer ver prevalecer
A opinião sobre a razão
Não pode ser, não pode ser
P'ra que trocar o sim por não
Se o resultado é solidão
Em vez de amor, uma saudade
Vai dizer quem tem razão


É por causa da complexidade que eu gosto tanto de cinema -- um filme nunca é o mesmo para dois espectadores. E como são deliciosas as conversas depois de um bom filme em que juntos percebemos o que o outro viu naquele ecrã gigante, em que nos apropriamos um pouco mais do que passou à frente dos nossos olhos, em que sondamos a realidade insondável de cada personagem e de cada cena. É também por isso que ir ao cinema acompanhado é muito mais interessante do que ver um filme sozinho. O Outro é um elemento essencial da nossa busca de verdade. E o mote fica dado para a minha próxima crónica.

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

(1) - 1ª Carta aos Coríntios: 13, 12

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quarta-feira, outubro 13

 

A parede de Planck

Dizem-nos os cientistas que é impossível saber o que se passou para lá do Big Bang (a parede de Planck). Alguns dizem que há elementos para crer (não sei o fundamento científico dessas afirmações) que, antes do Big Bang, só haveria informação, códigos. No princípio era o Verbo escreveu São João. Não deixa de ser curioso que tudo o que nós somos é também, de um certo ponto de vista, simples informação. O ADN é um código informativo. Nós somos os produtos da informação genética e ambiental, mais próxima ou mais remota. Os nossos antepassados que já morreram, vivem de facto. São a informação genética e ambiental que nós somos. Aquilo que somos fisicamente e aquilo que pensamos é a informação transmitida pelos nossos antepassados. Nós somos à sua imagem e semelhança. E eles, eram à imagem e semelhança de quem? Da informação que existia antes de existir o Universo?

No jogo que propus na trilogia de posts das três semanas passadas, Deus envia uma mensagem de Amor: dá-nos uma informação porque quer o nosso Bem. Mas essa informação é "negativa". Ele não diz qual a porta certa (eu penso que é apenas porque não sabe?). Diz apenas qual a porta errada (a única que ele tem poder para indicar?). Deixa-nos (?) depois escolher.


Timóteo Shel [TIMSHEL]

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O meu Manifesto (3ª parte)

Nota prévia: que me perdoem os leitores mas caiu-me no goto esta coisa das notas prévias. Neste caso apenas para dizer que o texto abaixo não tem quaisquer pretensões científicas, resultando apenas de meras impressões retidas de leituras várias. E que não é ainda desta que vou directo ao assunto.

Se a Revolução Francesa foi a grande contribuição que a França nos deu para o caldo ideológico que hoje consumimos, já a Inglaterra essa ofereceu-nos a Revolução Industrial. As duas, quase contemporâneas uma da outra, e cujos efeitos se tem inextrincavelmente associado, deixaram-nos um lastro que ainda hoje carregamos. Falemos pois um pouco da que mais me interessa - a Industrial, naturalmente.
Como outras anteriores, a Revolução Industrial do séc.XIX, surgiu e desenvolveu-se a partir dum enorme salto tecnológico que, neste caso, foi a invenção e aplicação da máquina a vapor aos mais diversos domínios industriais. Isto levou a que fosse possível fabricar novos bens de consumo a uma escala nunca antes de vista. Tal facto teve enormes consequências aos mais diversos níveis. Tendo surgido numa altura em que o colonialismo europeu, sobretudo o britânico se estendia já por todo o globo terrestre, procurando criar por todo o lado sociedades-réplicas, foi importantíssimo poder alargar espantosamente a oferta de produtos manufacturados a preços muito mais baixos, podendo assim ser distribuídos por todo o lado, ajudando assim ao processo de colonização material e cultural. O império marítimo britânico, depois do português e do holandês, tinha criado uma poderosa rede de distribuição global que assegurava o escoamento rápido e eficiente dos produtos made in Britannia. O progresso do comércio e da banca inglesas levaram a um espantoso crescimento e enriquecimento da sua classe mercantil. Isto levou a uma 1ª mutação social na Inglaterra protestante, diferenciando-a notavelmente das monarquias continentais: um enorme desenvolvimento material, moral e político da burguesia industrial e comercial, independente da nobreza terra-tenente, a qual contudo, com privilégios ainda feudais estendidos por todo o mundo, se manteve nesses tempos como a mais poderosa e orgulhosa de toda a Terra.
Mas há uma 2ª mutação ainda mais importante. A nova indústria, que trabalhava não só a vapor como também a todo o vapor, precisou subitamente de uma enorme massa de mão de obra que foi roubada ao campesinato oprimido e explorado pelos landlords descendentes dos normandos. E que partiu em massa para os bairros industriais de Yorkshire e não só. Foram aos milhões servir não só a indústria transformadora, como também a indústria extractiva do combustível sobre o qual tudo assentava: o carvão. Criou-se assim um imenso proletariado industrial, concentrado em áreas muito mais restritas que o vasto countryside inglês. Naturalmente, dada a eterna cupidez dos homens, esse proletariado foi durante décadas e décadas ferozmente explorado. Foi este proletariado imenso que deu motivação e matéria para que alguns recolhessem os estilhaços ideológicos da Revolução Francesa e criassem a nova ideologia universal do socialismo. Curiosamente não surgida na Inglaterra da Revolução Industrial original mas no seio das suas réplicas tardias e continentais. Todavia a mensagem de Marx e seus amigos chegou também a Inglaterra e aí encontrou terreno fértil. E o proletariado inglês, ciente da riqueza que produzia e da força do seu número, levantou a sua voz e o seu punho. Ora, curiosamente, enquanto que na Europa Continental os levantamentos operários foram travados à cutilada e se esbateram sem consequências, em Inglaterra isso não aconteceu. Em Inglaterra a coisa correu até muito bem!
Será interessante tentar perceber porquê. Aqui, eu devo dizer que não estou a citar nenhum autor de teoria política (eu cá não leio coisas dessas...), mas sim a recordar o que li na riquíssima obra jornalística de Eça de Queiroz enquanto cônsul e correspondente em Inglaterra e mais tarde em Paris (compilada nas Crónicas de Londres, Cartas de Inglaterra, Notas Contemporâneas).
Na realidade, a longa tradição constitucional inglesa (contrariamente aos absolutismos continentais) aliada a uma profunda tradição de ética protestante, permitiu uma eficaz gestão desta primeira crise do capitalismo industrial moderno. É que em Inglaterra a opinião pública sempre contou e, desde a revolução cromwelliana, o poder instalado sempre teve um temor reverencial pelas plebes enfurecidas. Por isso quando o proletariado britânico começou a falar grosso as pragmáticas elites desceram logo dos pedestais para perceberem qual o problema daquela gente e como poderia o capital desenvolver-se de mão dada com o trabalho.
Houve em tudo isto vários aspectos que me interessam bastante. Um deles foi o facto de, surgindo do meio do protestantismo inglês, mais precisamente do Metodismo, ter aparecido uma derivação interessante, a Conexão Metodista Primitiva, que quis restaurar o carisma inicial de John Wesley, afastando-se das classes dominantes e virando-se decididamente para a assistência espiritual e material das novas camadas mais pobres da classe trabalhadora, do novo proletariado. Estávamos nos idos de 1815 e este revivalismo metodista deu origem a pregadores revolucionários e mais tarde reformadores. Esta igreja colocou-se ostensivamente do lado dos trabalhadores, aliando-se politicamente aos liberais e mais tarde aos trabalhistas. Ao fazê-lo, deram ao operário inglês a sensação de uma legitimidade transcendente nas suas aspirações e, fazendo-no sentir Deus do seu lado, reduziram assim o seu desespero. Fizeram-no acreditar que a sua condição iria fatalmente melhorar, ao fim de mais ou menos gerações. Por outro lado, o protestantismo vive da Escritura e portanto da literacia. Não é pois surpreendente, que estes metodistas tenham desenvolvido um extraordinário trabalho de educação daqueles milhões de ex-camponeses e, sobretudo, dos seus filhos. Estavam já a lançar as sementes para um nova classe média...
Por outro lado, o capital inglês não podia ser mais pragmático. Depois das primeiras greves desesperadas nas minas e nos teares mecânicos, percebeu logo que não podia passar sem o braço do operário. E descobriu uma coisa mais importante ainda: ali mesmo, não nas Índias distantes, mas bem ao seu lado estavam milhões de potenciais consumidores de toda aquela imensa parafernália de produtos que conseguia fabricar a custos tão razoáveis. Foi assim que o espírito mercantil se encontrou com o humanismo cristão num mesmo propósito: dar melhores condições de vida ao operariado.
Com esta coisa simples conseguiu-se quase tudo. Tornou-se a massa desordeira e incontrolável do proletariado numa nova classe social respeitável e respeitada, digna e dignificada, tão fiel súbdita da Coroa como as restantes. Gastando-se mais dinheiro em salários e regalias para toda aquela gente, vinda já remotamente dum campesinato miserável, conseguiram-se novos consumidores que fizeram desenvolver ainda mais a indústria e o comércio. Entrou-se assim num ciclo de desenvolvimento económico e humano, que foi rapidamente emulado primeiramente e melhor ainda pelos americanos e depois mas mais imperfeitamente pelos europeus continentais.
Provém desta coisa simples o facto de o comunismo dos fins do séc.XIX, nunca ter conseguido ultrapassar o canal da Mancha e ainda menos o oceano Atlântico. Já na Europa continental conseguiu fazer uns bons estragos. O autoritarismo atávico dos Estados, a mistura da velha aristocracia com a burguesia industrial, prejudicaram a inteligência do capital, exasperarado o trabalho. Daí ter havido muitíssimo mais chatices. Até porque o sucesso evidente do operariado inglês e, mais tarde, do americano, funcionou como estímulo para longas e penosas lutas.
Na minha amadora opinião, só depois das duas tremendas e debilitantes guerras mundiais é que a “velha Europa”, para empregar um bushismo, percebeu através do salvador americano e do seu plano Marshall que o modelo de desenvolvimento anglo-saxónico era o bom. E soube aplicá-lo finalmente e com sabedoria, tanto que passados 10 anos do termo da catástrofe, já a Europa, neste caso a Ocidental, tinha renascido das cinzas e entrava numa época de progresso e bem-estar generalizados. Foi então, que nessa Europa se quiz ir mais longe na protecção ao trabalhador. A prosperidade geral permitia já estender a protecção ao trabalhador à sua velhice, à altura de doença, ao episódio de desemprego. E foi isso que se fez, o tal welfare state, o Estado providência, aquilo que hoje se chama o modelo social europeu. Foi por este caminho que os Estados europeus ocidentais seguiram, mal a sua situação o foi permitindo. Um caminho nobre e justo, digno da herança cristã e da herança iluminista, um caminho que, contudo, os americanos não seguiram, vá-se lá saber porquê.
Na próxima (e espero que última) parte irei divagar um bocado sobre este modelo social, pois é ele que hoje em dia dá ainda algum sentido à dicotomia entre direita e esquerda. Será afinal para a semana que falarei sobre quem melhor responde aos desafios que se colocam hoje a este modelo, no qual nascemos e crescemos e do qual não queremos sair.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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Confissão

Não é preciso andar muito. O Inferno é o local para onde somos mandados depois dos nossos actos pecaminosos. O que quer dizer que é já aqui. Só que aqui temos uma possibilidade de redenção. E ela passa primeiro pelo arrependimento. O que o arrependimento tenha a ver com a confissão é coisa que não vemos imediatamente nem claramente.
A começar porque a confissão tem hoje má nota. O que por sua vez não deixa de ser curioso. Uma grossa fatia da actividade intelectual contemporânea é de algum modo confessional. Há um perpétuo confessar de ansiedades próprias. E há uma cultura que valoriza a falta de vergonha.
Assim, se for verdade que a confissão impera nos nossos dias, – e se disso for sintoma o apego que temos às Confissões de Santo Agostinho e ao lugar menor que ocupa nas nossas leituras a Trindade e a Cidade de Deus –, também poderá ser verdade que por outro lado, muito por culpa das experiências de confissão pública dos desvios marxistas-leninistas nos países socialistas e muito por culpa da imperiosa necessidade de vivermos num regime individual de orgulho aparente, não temos grande apreço pela confissão.

Mas a confissão como qualquer outro acto depende de um contexto. O que num contexto parece mal, noutro parece bem. Isto pode parecer uma verdade trivial. E é. Mas é importante.
Daqui – a talhe ou não de foice – uma das dificuldades maiores da leitura dos Evangelhos. De facto, ler qualquer episódio ou qualquer indicação só colhe pertinência quando o acto descrito no episódio é jogado com outro acto que é jogado com actos seguintes. E o mesmo para as indicações comportamentais. No entanto, – é sabido –, que actos e palavras do Evangelho pressupõem uma dada ontologia e que esta – diz-nos a teologia negativa – se é algo que agarramos, é algo que quando agarrado sempre nos escapa. Daqui, o carácter «escorregadio» do contexto evangélico.
Seja lá como for, é então o contexto que deve determinar o lugar ocupado. A confissão que num dado contexto pode parecer um acto negativo, pode noutro ser compreendida como um acto positivo.

Há nos Evangelhos histórias de confissão. Umas mais dramáticas que outras. Dentro das mais dramáticas, a história do arrependimento do ladrão na cruz e da confissão pública dos seus pecados, parece colher um dos maiores índices de dramatismo. E isto porque se é da essência do drama revelar a verdade, dizer aquilo que realmente somos, se é da sua essência revelar a intensidade dos conflitos que nos atravessam, o ladrão na cruz mostra-nos uma personagem que após ter resolvido os seus conflitos interiores, procura ainda resolver os conflitos que tem com o Criador. Depois de se ter reconciliado com o que de melhor tem dentro de si, procura ansiosamente reconciliar-se com o melhor que existe fora de si. E tanto mais rapidamente quanto pouco é o tempo que tem para o fazer.
De facto, o ladrão na cruz já não tem muito tempo para revelar a sua verdade, para dizer aquilo que realmente é. O tempo urge e esta urgência faz subir a tensão – companhia assídua das situações dramáticas.

É de alguma modo, esta tensão – ou a sua ausência – que determina a importância a dar à confissão. De facto, se vivemos – como vivemos – como se não houvesse um além onde todas as coisas serão reveladas, porque haveríamos de revelá-las? – Elas só nos causam problemas. Problemas com os outros, porque sabemos a dificuldade que os outros têm de perdoar e de aceitar que os ofendemos. Problemas dentro de nós, porque confessar os pecados – ou em linguagem contemporânea, confessar os nossos erros –, implica assumirmo-nos como fracos e frágeis, personagens longe das figuras de acção de Hollywood ou do museu de cera do Pompidou. Tate. Do MoMA. Do Panteão. Ou apenas da nossa rua.


Fernando Macedo [A BORDO]

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Casou com um padre? E nós com isso?!

primeiro capítulo


O livro tem uma capa feia. A remeter para épocas de outras senhoras. Apresenta-se como «o testemunho de uma vida» e, como tal, escreve-se na primeira pessoa, num estilo por vezes pungente. Mesmo confessional. «Casei com um padre» - anuncia o título. E lá dentro (ed. Notícias, Março de 2001, 1ª edição) conta-se a história em 108 páginas num generoso corpo de letra. Não cansa a vista, mas deve ter cansado leitores «inúmeros elementos da Igreja Católica, a começar pelos fundamentalistas», como descreve a autora, Fernanda Araújo.

O testemunho é, pois, uma denúncia. E traduz as suas (da autora) «ansiedades e angústias» que serão «também as ansiedades e angústias de uma sociedade ímpar que contínua e surpreendentemente se transforma e que, cansada de velhas doutrinas, quer novas doutrinas, cansada de palavras, quer acções, cansada de estatismos, quer viragens» (p.16)

«Casei com um padre» é interessante, como testemunho, mas vale mais pelos debates que podia ter iniciado - o do celibato, da reintegração de padres casados, da formação nos nossos seminários e de como vivem os padres da Igreja deste nosso tempo a sua sexualidade?

O debate morreu algures na esquina da história - nem sequer terá começado. Em Portugal, há esta capacidade para apenas importar debates de fora - como o de «Eu vos saúdo, Maria» ou «A Paixão de Cristo» - e esquecer alguns que são suscitados intramuros.

Em conversa por messenger, o nosso Rui Almeida, contribui para a minha breve "tese" de hoje: que também ele quer escrever sobre estes temas, «até pelo lado da defesa do celibato enquanto riqueza da Igreja». Riposto provocantemente: temos polémica. «Talvez não tanto. Acho que é uma questão que tem mais a ver com o bom senso do que com divisões», contrapõe o Rui. A seu tempo, ele explicar-se-á melhor. Eu paro para pensar: porventura terá razão. Mas manda o bom senso que o celibato, os padres casados e a sexualidade sejam temas abertos na Igreja, sem discussões fechadas ou dogmas certeiros e tardios.

Talvez assim se evitassem discursos sobre a culpa, tão cara a esta nossa cultura judaico-cristã, e à autora do livro: «Mas... se por mil motivos eu não queria nem quero culpabilizar o Padre X [com quem casou], eu quero culpabilizar convicta, muito convictamente, a Igreja. A Igreja é a própria culpa!» (p.65, sublinhado da autora).

«Casei com o padre», conta-nos ela. E nós com isso?! Voltarei ao assunto na próxima semana.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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segunda-feira, outubro 11

 

Quatro grandes alegorias

Uma grande alegoria que Comenius usa na sua “Didáctica magna” é a vida da criança no útero materno, onde grande parte da sua actividade e crescimento se dedica à vida futura e nela encontra explicação: “a nossa primeira vida desenvolve-se nas vísceras maternas. Mas em proveito de quem? Acaso em proveito de si mesma? De modo algum. Trata-se apenas de formar convenientemente um pequenino corpo para servir de habitação e de instrumento à alma, para comodidade e uso da vida seguinte, a qual vivemos à luz do sol”. Comenius afirma existirem três espécies de vidas e suas respectivas moradas que são o útero materno, a terra e o céu. Sendo as duas primeiras preparações para a vida seguinte, culminando na terceira que é eterna: “A primeira vida de que falei é uma preparação para a segunda; a segunda para a terceira; a terceira, de sua própria natureza, nunca termina.”
Guitton usará esta alegoria, no post-scriptum das suas “Cartas abertas”, dum modo mais expressivo, comparando-se a um embrião no útero da sua mãe, que pusesse a si próprio problemas insolúveis: “Para que servem estas mãos que não têm nada para apalpar? Estes pulmões que não têm nada para respirar? Estes olhos que não têm nada para ver?” e seguidamente remata com as palavras do Apocalipse: “o que seremos ainda não apareceu”. A resposta para o que nos parece inútil hoje está no futuro. A utilidade dos olhos, dos pulmões e das mãos, revela-se após o nascimento.
Esta alegoria foi magistralmente usada sob diversas vestes e por diversos autores. As mais inspiradas parecem-me as de Papini e do incontornável Rumî.
Giovanni Papini, no seu livro “Gog”, conta-nos sobre um homem, o professor Killaloe, cujo sentido cronológico, segundo o seu ponto de vista, da História Universal, deveria ser invertido, ou seja, a História deveria ser contada do presente para o passado e não ao contrário como usualmente se faz: “O meu método que consiste em retroceder do presente para o passado é o mais lógico, o mais natural, o mais satisfatório. É o único que torna possível uma interpretação dos factos humanos. Observe que um acontecimento não adquire a sua luz e a sua importância passados decénios ou talvez séculos. (…) O depois é que explica o antes e não vice-versa. (…) Para compreender um grande homem é preciso referir, necessariamente, o dia da sua morte. A vida de César começa, de facto, no dia em que ele foi assassinado. Porque foi assassinado? Aqui podemos encaminhar-nos directamente para as suas ambições, as suas campanhas, a sua ditadura”.
Jalaluddin Rumî, no Masnavi, usa uma analogia idêntica à de Papini, mas é mais contundente:
“Aparentemente, o ramo é a causa do fruto,
Se não fosse impelido pelo desejo do fruto,
O jardineiro jamais teria plantado a árvore.
Portanto, na realidade, a árvore nasceu do fruto,
Embora, aparentemente, o fruto tenha nascido da árvore”


A segunda grande alegoria que quero salientar é a que Nicolau de Cusa descreve no “De visione Dei”. Já todos, em alguma altura ou outra da vida, nos deparámos com aquelas pinturas onde determinada figura lá representada parece olhar-nos fixamente. Não importa se nos colocamos à esquerda ou à direita, se nos afastamos ou aproximamos, o olhar da dita figura parece seguir-nos implacavelmente. Mas se outras pessoas lá estiverem dirão o mesmo, e a que estiver à esquerda achará que a figura a olha fixamente, e do mesmo modo pensará aquele que se colocou à direita ou em qualquer outro lugar da sala. “Como é possível que olhe, ao mesmo tempo, todos e cada um”, interroga-se Nicolau de Cusa. O olhar da figura, estando imóvel, parece no entanto mover-se e acompanhar quem o olha. “Deus (…) recebeu o nome de theos exactamente porque tudo vê. Por isso, se pudesse aparecer o olhar pintado na imagem a olhar para todas as coisas e para cada uma delas, então, porque esse seria o olhar perfeito, não poderia convir verdadeiramente à verdade menos do que convém aparentemente ao ícone ou ao fenómeno”.
Nicolau aprofundará esta alegoria extensamente, dedicando-lhe todo o livro. Mas é, em traços gerais e evitando complicações desnecessárias, sobre o estranho facto de encontrarmos nestes tipos de quadros um casamento perfeito entre o particular e o universal que devemos reter a nossa atenção e possibilidades analógicas: o olhar que olha a um, sem, contudo, deixar de olhar o todo e todos ao mesmo tempo; o olhar que olha cada um individualmente e a todos simultaneamente.
Uma analogia que salta à vista é de Deus ter um momento histórico e ser Absoluto sem perder nenhuma das suas características (como o olhar momentâneo e particular da figura do quadro não deixa de ser geral e global); ser plenamente Deus em determinado sentido particular ou histórico (como a vida de Cristo) sem contudo perder os seus atributos absolutos, ser ao mesmo tempo essência e manifestação.

«Contam os homens dignos de fé (mas só Alá é omnisciente e poderoso e misericordioso e não dorme) que houve no Cairo um homem possuidor de riquezas, mas tão magnânimo e liberal que perdeu-as todas menos a casa de seu pai e se viu forçado a trabalhar para ganhar o pão. Trabalhou tanto que o sono o venceu uma noite debaixo duma figueira do seu jardim e viu no sonho um homem todo encharcado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: “A tua fortuna está na Pérsia, em Isfaján; vai lá buscá-la.” Na madrugada seguinte acordou e empreendeu a longa viagem e enfrentou os perigos dos desertos, dos navios, dos piratas, dos idólatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou finalmente a Isfaján, mas no recinto dessa cidade surpreendeu-o a noite e deitou-se a dormir no pátio duma mesquita. Havia junto à mesquita, uma casa e pelo decreto de Deus Todo-Poderoso, uma quadrilha de ladrões atravessou a mesquita e meteu-se na casa, e as pessoas que estavam a dormir acordaram com o barulho dos ladrões e gritaram por socorro. Os vizinhos também gritaram, até que o capitão dos guardas-nocturnos daquelas redondezas acudiu com os seus homens e os bandoleiros fugiram pelo terraço. O capitão mandou revistar a mesquita e nela encontraram o homem do Cairo e deram-lhe tantos açoites com varas de bambu que esteve às portas da morte. Ao fim de dois dias, recuperou os sentidos na prisão.
O capitão mandou-o buscar e disse-lhe: “Quem és tu e qual é a tua pátria?” O outro declarou: “Sou da famosa cidade do Cairo e o meu nome é Mohamed El Magrebí.” O capitão perguntou-lhe: “O que te trouxe à Pérsia?” O outro optou pela verdade e disse-lhe: “Um homem ordenou-me num sonho que viesse a Isfaján, porque aí estava a minha fortuna. Já estou em Isfaján e vejo que essa fortuna que me prometeu devem ser os açoites que tão generosamente me deste.”
«Perante semelhantes palavras, o capitão riu-se até mostrar os dentes do siso e acabou por lhe dizer: “Homem desatinado e crédulo, três vezes sonhei com uma casa na cidade do Cairo em cujo fundo há um jardim, e no jardim um relógio de sol e depois do relógio de sol uma figueira e a seguir à figueira uma fonte, e debaixo da fonte um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira. Tu contudo, aborto duma mula com um demónio, vagueaste de cidade em cidade, somente por acreditar num sonho. Que eu não volte a ver-te em Isfaján. Toma estas moedas e vai-te embora.”
«O homem guardou as moedas e regressou à pátria. Debaixo da fonte do seu jardim (que era do sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus o abençoou e o recompensou e exaltou. Deus é o Generoso, o Oculto.» (“História universal da infâmia”, Jorge Luis Borges, ed. Assírio & Alvim)
A alegoria que serviu de base ao conto acima (retirado, pelo Borges, das “1001 noites”) foi contada e recontada em diversas culturas e de diferentes modos. Na forma como transcrevi acima, e salvaguardando ligeiras diferenças contextuais e acidentais, esta estória faz parte do conto tradicional português, como também faz parte do “Masnavi” do Rumî. Assemelha-se, no conteúdo analógico, a uma imagem que o mestre zen Ch’ing Yüan contou:
“Há muito tempo atrás, antes de começar a praticar o Zen, eu via uma montanha como se fosse uma montanha e um rio como se fosse um rio. Depois de começar a praticar o zen, pude alcançar um certo grau de despertar. Então quando contemplava uma montanha, já não era uma montanha, e, quando via um rio, não se tratava de um rio. Agora que conheço o zen, vejo uma montanha simplesmente como uma montanha e um rio simplesmente como um rio.”
Todos estes contos obedecem ao problema da proximidade e da distância, tanto física e espacial, quanto cronológica e psicológica, culminando num retorno espirálico à origem. Não se volta ao ponto de partida propriamente, sobretudo porque nos tornamos diferentes: a pessoa que regressa não é a mesma que parte.
A nostalgia do Paraíso que, de algum modo, orienta todos os homens, crentes ou ateus (como diria Pascal, todo o homem procura a felicidade, mesmo quando pretende matar-se), é sempre referida como um retorno, uma reviravolta da multiplicidade para a unidade, do mundo para Deus. O Antigo e o Novo Testamentos são ricos em alegorias e metáforas que evidenciam este périplo em espiral que todos nós, mal ou bem e inevitavelmente, fazemos da vida.
Esta alegoria também sugere uma reviravolta sobre si mesmo e um olhar para dentro, depois de uma busca no espaço exterior, o do mundo. Um comentário à Torah, diz que o Faraó quando manda matar os recém-nascidos, procurava o seu inimigo fora do seu palácio, quando, na verdade, ele (Moisés) vivia dentro da sua casa. É portanto dentro de nós que o comentarista sugere que procuremos o inimigo.

Abbott Abbott escreveu um livro chamado Flatland (“O país plano”, ed. Gradiva), há mais de cem anos. Não tendo, este livro, a visibilidade merecida na altura da sua edição, foi posteriormente fonte de inspiração a inúmeros autores, pensadores e cientistas (Ouspensky, Rudy Rucker, Hinton, Steiner, Ian Stewart, etc.). Esta obra, de leitura fácil e fluida, trata simplesmente das aventuras de um quadrado: «Chamo Flatland ao mundo em que vivo, não porque seja esse o seu nome, mas para vos tornar mais clara a sua natureza, felizes leitores, que tendes o privilégio de habitar o Espaço.
Imaginai uma imensa folha de papel sobre a qual Linhas, Triângulos, Quadrados, Pentágonos, Hexágonos e outras figuras, em vez de estarem fixas nos seus lugares, se deslocam livremente sobre a superfície, sem dela poderem sair, quer por cima quer por baixo, exactamente como sombras – embora duras e de contornos luminosos –, e tereis uma ideia muito correcta do país e dos seus habitantes. Ainda há poucos anos teria dito “o meu universo”, mas entretanto o meu espírito evoluiu para uma visão superior das coisas.»
Este quadrado que vive uma vida comum e banal, é um dia visitado por uma esfera, um ser tridimensional que o instrui e explica que existe mais uma dimensão que o quadrado está impossibilitado de ver e conhecer, por limitações inerentes. O mero aparecimento da Esfera que atravessa o país plano é já um prodígio e um facto inexplicável para qualquer cidadão da Flatland.
Abbott vai com esta alegoria escavar e criar inúmeras e profundas possibilidades de interpretação da sua novela, possibilidades essas que vão desde a sátira social, à religião, à Física. O Quadrado, herói desta aventura, certo dia coloca a Esfera sob a possibilidade da existência de uma quarta dimensão espacial, ideia que a Esfera rejeita de imediato, acusando o Quadrado de demência (mas é nesta alegada insânia que a alegoria da Flatland encontra a sua melhor expressão e analogia, sugerindo a existência de várias dimensões e aproximando-se da Física moderna, bem como da Religião).
O livro de Abbott, que sugere a existência de várias dimensões, é ele próprio um livro com várias dimensões.

Afonso Cruz [ALERTA AMARELO]

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Ciência e Religião

Vários autores consideram que a ciência, tal como a conhecemos hoje, teve a sua origem no Renascimento. Foi nessa altura que surgiram métodos experimentais e abordagens matemáticas. Nomes como Copérnico e Galileu ficaram associados a essa inovação no conhecimento humano e chegam a ser referidos como pais da ciência moderna".
A maioria das religiões mundiais são anteriores à ciência moderna, e não ficaram indiferentes ao seu surgimento. Frequentemente, a inovação do conhecimento científico, criou diferentes correntes de opinião entre as religiões; houve os que condenavam e perseguiam os defensores do novo conhecimento científico, e houve os que reformularam o seu conhecimento da religião, à luz do novo conhecimento científico. Neste atrito entre ciência e religião, houve extremismos inconcebíveis e mártires.

Surgida no século XIX, a religião Bahá'í é posterior à ciência moderna; entre os seus princípios afirma-se explicitamente que "ciência e religião devem estar em harmonia". Esta frase em si é apelativa mas significa exactamente o quê? Serão a ciência e a religião caminhos de conhecimento igualmente válidos? Serão caminhos que nos levam a tipos de conhecimento totalmente distintos? Será que se cruzam nalguns aspectos, ou nunca se tocam? Tenho reparado que mesmo entre bahá’ís, este tipo de questões recebe uma multiplicidade de respostas.
Primeiramente parece claro que a ciência e a religião se tocam em alguns pontos. Mais não seja, porque ambas são preocupações humanas, ambas exercem influência nas nossas vidas. Além disso, a ciência e a religião oferecem duas perspectivas da realidade, perspectivas essas que nos ajudam a encontrar um significado para a vida, que individual, quer colectiva. Se a ciência e a religião devem estar em harmonia, então devem criar perspectivas coerentes, em vez de apresentar visões distintas da realidade.
O que significa mesmo harmonia? Na música, as notas harmoniosas complementam-se de forma agradável; notas não harmoniosas produzem apenas ruídos desagradáveis. Poder-se-ia dizer existe harmonia quando diferentes elementos se complementam e produzem um resultado que é maior que a soma das partes. E note-se que para haver harmonia, os elementos não têm de ser iguais. Da mesma forma, a ciência e a religião não são iguais; podem-se complementar de formar harmoniosa.
Talvez seja surpreendente que as escrituras bahá'ís não digam que a ciência deve estar de acordo com a religião; pelo contrário, é a religião que deve estar de acordo com a ciência:
Se a religião fosse contrária à razão lógica, então deixaria de ser religião para ser simplesmente tradição. Religião e ciência são duas asas sobre as quais a inteligência do homem pode pairar nas alturas, com as quais a alma humana pode progredir. Não é possível voar com uma asa apenas! Se um homem tentasse voar unicamente com a asa da religião, cairia imediatamente no pântano da superstição, enquanto, por outro lado, somente com a asa da ciência, também nenhum progresso faria, antes se afundaria no lodaçal desesperador do materialismo.

('Abdu'l-Bahá, Palestras de Abdu'l-Bahá)

'Abdu'l-Bahá afirmou várias vezes que a religião deve estar de acordo com a ciência e a razão. Quando isso não acontece, torna-se apenas superstição, e não deve ser aceite. Um dos principais factores de atrito entre ciência e religião tem sido a recusa obstinada de seguidores de algumas correntes religiosas em permitir que o seu entendimento da religião receba um contributo da ciência. É assim que encontramos algumas correntes religiosas que consideram as Sagradas Escrituras como um relato literal da história da humanidade e do universo, e não uma descrição metafórica que nos pretende transmitir valores e ensinamentos espirituais.
São muitas as "vozes religiosas" que adoptam uma posição crítica em relação à ciência., cada vez que esta entra em conflito com o seu entendimento da religião. Preferem dizer que a ciência "está na sua infância", que é "excessivamente materialista", ou apenas "uma ilusão satânica". Na perspectiva bahá'í, essas vozes caem na superstição ao impedir que a ciência e a razão influenciem as suas convicções religiosas.
Mas relativamente ao conhecimento científico, é importante ter presente que este é sempre provisório. A ciência nunca nos proporciona um conhecimento absoluto e definitivo. Através da observação, experimentação e razão há sempre a possibilidade de alterar qualquer pedaço de conhecimento científico. Mas esta natureza provisória do conhecimento científico não significa que se possa desprezar a sua utilidade ou validade. Além disso quando se argumenta sobre a maturidade de uma qualquer ciência, é também importante ter presente qualquer ciência, por muito imatura que seja, tem sempre algo de útil a dizer-nos sobre o mundo em que vivemos.

A religião Bahá'í também considera o conhecimento religioso como evolutivo. O princípio da revelação progressiva mostra-nos que o conhecimento religioso evolui e amadurece ao longo da história da humanidade; mesmo quando um indivíduo lê, estuda e debate assuntos religiosos, o seu conhecimento religioso também evolui e amadurece. A verdade absoluta apenas reside no próprio Deus; apenas podemos aproximar-nos dela. Seria incorrecto agarrarmo-nos a uma determinada interpretação das sagradas escrituras, quando temos fortes evidências que essa interpretação está incorrecta.
'Abdu'l-Bahá usou frequentemente a analogia da ciência e religião como duas asas de um pássaro que devem ser igualmente fortes para que a humanidade possa desenvolver todo o seu potencial. Parece-me óbvio que devemos deixar crescer o nosso conhecimento religioso, tal como deixamos crescer o nosso conhecimento científico. É esse crescimento de duas formas de conhecimento, harmoniosas entre si, que nos permitem compreender cada vez melhor as maravilhas da criação divina.

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LINKS
Some Questions about Science and Religion, Interviews with Abdul Baha at Tiberias and Haifa, by Anna Kunz
Quotations on science and religion, by Universal House of Justice
Science and Technology, Compiled by Research Department of the Universal House of Justice
Commentary on Are Abdu'l-Baha's views on evolution original? by Stephen Friberg

Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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Intervenção Divina 2

No meu post da semana passada, raciocinei sobre a impossibilidade lógica da omnipotência de Deus, e questionei a Sua bondade – se definimos bondade nos termos duma moral humana – perante o óbvio sofrimento injusto no mundo. Em vez disto propus que, se supomos um poder discricionário a Deus, a bondade que lhe podemos reconhecer não consiste na Sua actuação segundo um código moral, mas simplesmente no Seu poder de fazer-nos bem.
E isso remete para o Deus patriarca, o Deus Rei do Velho Testamento, que antes de mais deve ser temido.

Não fui educado para acreditar nele e, ao contrário de outras ideias que mais tarde encontrei ou redescobri, por iniciativa própria, na Bíblia, este Soberano autoritário, irascível, ciumento e apesar da sua lei incalculável, nunca me atraiu nem me convenceu. Como não fui educado no temor de Deus, nem no temor dos pais, nem de outras autoridades, o temor de Deus sempre me pareceu um motivo muito pouco nobre para a submissão sob a Sua vontade, e ainda mais para um comportamento ético.

Também nunca cheguei a sentir como necessário, até hoje, postular a sua existência sob o ponto de vista intelectual. Não acho que, se O estabelecemos como origem deste milagre que é o mundo e a nossa existência, esteja eliminado ou de qualquer forma diminuído o inexplicável, so seria transferido do mundo para Deus.

Mas Deus, ou o Divino – termo que prefiro por estar mais afastado duma ideia personalizada – que não se me apresentou através de herança, nem se impôs como explicação da origem do mundo e não como “papão” para assegurar um comportamento ético, revelou-se.

Quem ouve isso fica, provavelmente, logo de pé atrás: Revelação é uma palavra bombástica! Por isso digo já: Deus não me dirigiu a palavra à partir dum arbusto em chamas, não me apareceu como a virgem aos pastorinhos de Fátima. Mas revelou-se, sim. E feito o esclarecimento, não acho que retiro significado à palavra revelação. Se tenho alguma noção de Deus, então a tenho através de revelação. Não cheguei a tê-la por via da educação, nem por imposição através duma autoridade, nem por via do raciocínio lógico. O que resta é não tê-la.
Ou chegar a tê-la pela experiência.

Onde é que se me revela então Deus? Não se me mostra directamente, e às provas indirectas da sua existência e intervenção, as milagres, não dou, para dizer a verdade, muito crédito. Sou demasiadamente agnóstico para afirmar que não possam existir milagres, mas seja como for, milagres como aparições, ou outros fenómenos da suspensão das leis da natureza, em vez de me impressionarem, sabem-me a pouco, para não dizer que me parecem fútil.

Milagres sim, que me convencem, para lá de qualquer dúvida, de que há mais do que a nossa vida banal, encontro no comportamento humano. São os testemunhos de homens e mulheres, que me convencem não com palavras, mas com os seus actos, que Deus existe. Pessoas como Gandhi, Sophie Scholl, Maximilian Kolbe, e sim: Jesus de Nazaré. Pessoas que provam que há algo superior, mais nobre, do que as leis da natureza, e da assim chamada natureza humana, do egoísmo, da indiferença e do medo.
Chamo o Amor. Amor com maiúscula. É divino, mas está, à partida, ao alcance de todos nós. E concordo com o Fernando – que disse isso aqui há duas semanas –, que o Amor, a promessa do Amor, não morre, nunca, nem na mais desesperada miséria.


Lutz [QUASE EM PORTUGUÊS]

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