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quarta-feira, setembro 22

 

Tu es Petrus

Nota prévia: desculpar-me-ão ser este um texto repescado, retocado e polido da poeirenta arca que é o Guia dos Perplexos. Mas tenho a pretensão de achar que aquilo que então escrevi deveria ser lido. E aqui é o lugar certo para isso.

Hoje o Papa está no centro das atenções do Mundo, o Cristão e não só. Está-o pelo seu longuíssimo e importantíssimo pontificado durante o qual houve fortes inflexões da História para as quais muito contribuiu. Mas está-o também pelo seu estado de saúde, de aparência terminal, mas que não o impede de continuar a exercer o seu pontificado de forma intensa e sobretudo pública.
Ainda há poucos meses debateu-se intensamente a possibilidade da sua renúncia, passando-se ao lado do facto dessa renúncia ser uma decisão estritamente pessoal do Papa. Eu diria que nem mesmo isso é: a falta de precedentes e o próprio entendimento canónico do estatuto teológico papal, impedem essa decisão mesmo que tomada pelo próprio Papa. Hoje contudo, tendo já as pessoas percebido que ele não vai mesmo renunciar, o que se discute já não é a sua renúncia mas já o seu post-mortem, quem o irá substituír, qual o balanço do seu apostolado, quais os caminhos da Igreja pós-João Paulo II. E em toda essa discussão, em que os não-católicos e os não-crentes participam com um empenho tão apaixonado quanto incompreensível, pressente-se uma latente e mal disfarçada vontade de um rápido desenlace, para que algo mude, para que se assista de novo ao pitoresco e ao mistério de uma eleição papal. Não é decididamente o meu caso mas penso que isto é verdade para um certo mainstream que por aí sopra.
Uns por razões estéticas, por lhes ser difícil de encarar o espectáculo da velhice, da debilidade extrema, do sofrimento visível mas voluntariamente aceite. Outros por não gostarem deste Papa, por o acharem conservador e retrógado. Outros há que, não o confessando, não lhe perdoaram o facto de ele ter ajudado a desmantelar o edifício ideológico onde se movimentavam e eram felizes. Há também aqueles que, sendo cristãos católicos sinceros, mesmo estando seduzidos pelo forte carisma de João Paulo II, sentem muita dificuldade em confrontar a sua linha pastoral, rigorosa e estrita, com a mundividência que criaram ao querer conciliar a sua Fé com a vida concreta, com a evolução da sociedade, com as injustiças do Mundo.
É nestes em que eu estou a pensar particularmente. É que para um católico sincero, o discordar do Papa é algo que pode ser perturbador. O dogma da infalibilidade papal é coisa de que não se fala muito mas que está presente na nossa mente. Sendo assim, naquelas questões difíceis como a contracepção, o celibato dos padres, o papel das mulheres na igreja, etc., a atitude dos fiéis varia por entre:
• Sendo tal posição a posição do Papa, então com maior ou menor esforço dialético, vamos aceitá-la como boa.
• Não se querendo que uma contradição entre a posição do Papa e a nossa convicção profunda perturbe a nossa fé, passa-se ao lado da questão e não se pensa muito nela, ou seja, respeita-se a posição papal mas fazemos como entendemos.
• A diferença de posições incomoda-nos como fiéis e por isso manifestamos activamente a nossa posição dentro da Igreja e fora dela. É o caso de movimentos como o “Nós somos Igreja”. É o caso também de fiéis que se afastam da Igreja por lhes ser insuportável estas divergências.


Todas estas posições são para mim respeitáveis. No entanto, talvez pela minha tendência para tudo simplificar, a mim nada disto me perturba, nada disto afecta a minha Fé. Pois, com efeito, se para mim a autoridade papal é inquestionável, já a questão da sua infalibilidade, essa emociona-me muito menos.
Talvez muitos católicos não saibam que o dogma da infalibilidade é bastante recente: foi instituído em 1870 no Concílio Vaticano I pelo papa Pio IX. Surgiu num contexto político e social muito particular em que a Igreja Católica lambia as suas feridas e procurava um novo papel no Mundo depois de quase cem anos de feroz secularismo e anti-clericalismo. Não conheço nem tenciono conhecer as razões teológicas profundas que levaram à porclamação deste dogma mas compreendo-a em termos humanos como um tocar a reunir, um reafirmar de posições, numa Igreja fragilizada e traumatizada, que viu serem linchados arcebispos em países tidos como pilares da Cristandade.


O que talvez ainda menos católicos terão consciência é de que a infalibilidade papal não é um atributo, um carisma permanente, tendo condições muito particulares para ser exercida as quais, de acordo com o estabelecido pelo Concílio Vaticano I, são quatro:
1 - Que o Soberano Pontífice se pronuncie formalmente “ex-cathedra, isto é como sucessor de Pedro, Bispo de Roma e soberano da Igreja Católica, usando os poderes das chaves, concedidas ao Apóstolo pelo próprio Cristo;
2 – Que se pronuncie sobre a Fé e a Moral;
3 – Que queira ensinar à Igreja inteira;
4 - Que o Sumo Pontífice intencione proferir sentença definitiva sobre o assunto em causa.

Somente tal sentença definitiva goza do atributo da infalibilidade. Este não se estende nem aos argumentos previamente apresentados para fundamentar a definição nem às conclusões que desta decorram. Para exercer um acto infalivelmente, em qualquer documento ou forma de pronunciamento - seja numa encíclica, num decreto especial, bula ou constituição apostólica - o Papa precisa deixar explicitamente claro que o faz nessas quatro condições acima citadas.
Um exemplo curioso: acontece que na Encíclica Humanae Vitae (1968), que rejeita a contracepção artificial e apregoa os meios naturais de controle da natalidade, o Papa Paulo VI não usou a fórmula clássica "Declaramos e definimos", pelo que formalmente não é um documento infalível, embora às vezes pareça que o é...
Aliás, os Papas, no decorrer da história, fizeram uso de seu magistério infalível para formular alguma sentença dogmática apenas doze vezes em vinte séculos!... Tão exígua safra talvez surpreenda muita gente, pois, quando se fala da infalibilidade pontifícia, facilmente se tem a impressão de que os católicos vivem num regime de imposições procedentes do capricho de um mestre humano. Tal impressão, como se vê, está longe de corresponder à realidade.
É precisamente por isso que a minha Fé em Cristo e na Igreja é pouco perturbada por estas questões. Eu aceito verdadeiramente a autoridade papal esforçando-me por conhecer e entender os seus pontos de vista mas isso não significa que eu sinta obrigação em concordar tudo o que emana do Papa. Como a infalibilidade papal não é um dos pilares da minha Fé pois sinto-a como algo de instrumental que se acrescentou, que se enxertou à mensagem de Cristo veiculada pela Igreja, o facto de haver uma discordância minha não prejudica nem a minha fidelidade nem a minha Fé em Cristo, na Igreja Católica e na instituição do Papa enquanto vigário de Cristo.

Para mim pois, polémicas à parte, este Papa vale, e muito, pelo seu exemplo de Fé determinada, consistente, inquebrantável. Vale pela profundidade teológica das suas intervenções. Vale pelo seu esforço de comunhão inter-religiosa. Vale pelo facto de não querer aceitar o mundo como é mas como deve ser. Vale por aceitar o sofrimento e, talvez para se penitenciar e libertar de grandezas efémeras, aceitar mostrar a sua pesada cruz a todos, crentes e não crentes. Determinado, ele está a percorrer a sua Via Sacra. Eis de novo o Cordeiro de Deus.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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