<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, setembro 8

 

Sida

Na XV Conferência Internacional sobre Sida, que decorreu em Banguecoque, no passado mês de Julho, o presidente do Uganda, Yoweri Museveni, defendeu que a abstinência sexual e as relações duradouras são mais importantes no combate à propagação da doença do que o uso do preservativo.
O presidente ugandês sublinhou o facto de o Uganda ter a mais baixa taxa de utilização de preservativos na África subsaariana e, apesar disso, a prevalência do vírus VIH ter reduzido drasticamente, graças a uma campanha publicitária agressiva do governo para promover a abstinência sexual e a fidelidade.
A política do Uganda no combate à propagação da Sida é contrariada pela maioria dos investigadores e activistas empenhados na luta contra a doença, que muito se irritaram com as declarações do presidente Museveni na sessão de abertura daquela conferência, quando disse que «os preservativos são um improviso, não uma solução», ao declarar mais uma vez que a melhor maneira de combater o flagelo é a abstinência e ao apelar às «relações assentes no amor e na confiança, em vez da desconfiança institucionalizada representada pelos preservativos». Museveni não afasta totalmente a hipótese de recorrer ao preservativo, mas apenas em último caso, quando as pessoas não forem capazes de praticar a abstinência sexual ou de serem fiéis ao parceiro.
A solução abstinência, ainda que tenha provas dadas no Uganda, divide a comunidade científica, de onde emergem outros exemplos, nomeadamente na Tailândia, onde programas intensivos de distribuição de preservativos provocaram uma forte redução nas taxas de contágio em grupos específicos (entre prostitutas, no caso). No entanto, o exemplo ímpar de sucesso no combate à Sida dado pelo Uganda (antes tido como um dos epicentros da doença) com base no chamado Programa A B C - Abstinência, Ser ("Being") Fiel, Preservativos ("Condoms") - que em menos de duas décadas conseguiu reduzir de 30% para 6% a taxa de infecção na sua população - cala os mais contestatários. Daí que o co-presidente da conferência, Joep Lange, assumindo uma posição de compromisso, tenha declarado que «os preservativos são eficientes, mas é necessário ter em atenção a cultura de cada país».


Ora, tem sido esta preocupação que preside ao discurso dos responsáveis eclesiásticos sobre a relativa fiabilidade dos preservativos e o consequente risco que o seu uso ainda envolve na propagação de doenças como a Sida.
Na verdsade, o correcto uso do preservativo é apenas o 4º (e último) método mais eficaz na luta contra a Sida, assim reconhecido pela Agência de Combate à Sida da ONU (UNAIDS) , a seguir à abstinência (em 1º), às relações monogâmicas (a Igreja chama a isto, "castidade", uma palavra em desuso) com um parceiro não infectado (em 2º) e ao sexo sem penetração (em 3º lugar). E isto porque, como reconhecem as autoridades na matéria, o preservativo tem apenas 80% de eficácia.
Mas levanta-se ainda outra questão. Não compreendo como poderia a Igreja ter outro discurso sobre o assunto. Se, em questões de natureza moral, como são as da sexualidade, a Igreja se dirige, antes de mais aos católicos, não se vê como poderia subordinar a sua doutrina (que defende a abstinência fora do matrimónio e a castidade na constância do mesmo) à moda do uso do preservativo. Isto é, será que quem não quer ou não consegue seguir os conselhos da Igreja nestas questões vai deixar de usar o preservativo nas suas relações ilícitas (aos olhos da Igreja), apenas porque o Papa ou o padre local assim o diz?
Aqueles que condenam a posição da Igreja em relação ao uso do preservativo como forma de combate à Sida (e apelidam mesmo de «atitude criminosa» as suas críticas - lembram-se deste cartoon?) pensarão que, para um católico (e já nem falo dos não católicos, por razões óbvias) será mais errado, sob o ponto de vista moral, não usar o preservativo nas suas relações sexuais antes ou fora do casamento, com mais que um parceiro ou outras variantes próprias do adultério, do que a própria existência dessas relações?
Ou seja, querem dizer-nos que Sida se propaga (também) porque quem não obedece aos preceitos sexuais da Igreja se recusa a usar o preservativo por medo da Igreja? Estarão a falar a sério?

Carlos Cunha (PARTÍCULAS ELEMENTARES)

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?